A era do Espírito Santo

O deputado Sérgio Sousa Pinto publicou no jornal Expresso um artigo em que discorre sobre os recentes acontecimentos de Paris, envolvendo pedrada, polícia e povo. Independentemente de se concordar ou não com o que escreve, há uma conclusão que esse artigo de imediato suscita. Sousa Pinto sabe pensar e sabe escrever, coisa que se não pode dizer da quase totalidade dos actuais dirigentes socialistas. Talvez nunca, na história do PS, tenha sido tão acentuado o grau de indigência intelectual e política, transformado que está este partido num bando de Zés Pereiras, tocadores de bombo, cuja principal virtude é não terem rigorosamente virtude nenhuma, além da que os faz tocar bombo alegremente e marchar como bonecos de corda numa procissão de falidos ideológicos. O PS é hoje esta espécie de galinheiro. Uma agremiação de criados de servir e cabeleireiras, incapazes de produzir uma única reflexão válida sobre o seu país ou o mundo, que vá além da cartilha de má propaganda do chefe, ou de umas bojardas inconsequentes sobre touradas e contadores de luz. Chama-lhe civilização. É pouco para um partido estruturante do regime. É muito pouco se tivermos em conta que do outro lado do espelho político está um saco de gatos chamado PSD, cuja genial estratégia é fingir-se morto, chegando a fingir que é morte a morte que, de facto, o atingiu.

E Portugal chegou a isto. À antecâmara da era do Espírito Santo.

Comments


  1. O Verdadeiro PS é hoje o Bloco de Esquerda.
    Ainda assim não estou a ver o BE coligado com o CDS, como em tempos o PS fez.

  2. Rui Naldinho says:

    O PS hoje, de esquerda pouco ou nada tem. Será que alguma vez teve, para além do discurso mediático? Tirando alguns velhos dirigentes, a maioria já falecidos, como António Arnaut, Tito de Morais, Vasco da Gama Fernandes, o PS foi sempre mais um partido do sistema, tentando fazer a ponte entre o Estado e os interesses económicos privados.
    No presente, fruto da Geringonça, que tirou o PS da sua Pasokização, todos os dirigentes Social alistas sonham com a hipotética maioria absoluta. E ela pode vir de facto, ainda que contra a minha vontade, pela estratégia adoptada pelo Poder económico, que se quer ver livre da Geringonça, a qualquer preço. Senão vejamos:
    Todos percebemos como a direita em Portugal, qual raposa “manhosa”, no galinheiro socialista, se prepara para entregar ao PS, de mão beijada, uma maioria absoluta. Será a sua grande oportunidade, a da direita, de em breve regressar de novo ao Poder.
    Pensam eles e bem:
    “- Conhecemos as fragilidades socialistas, bem como a sua propensão para o suicídio”.
    Penso eu:
    – Suicídio esse, que foi salvo pelos ditos partidos da esquerda mais radical, vulgo BE e PCP. Caso contrário o António Costa nunca tinha sido PM de Portugal. “Se não tirarmos o PS das mãos da esquerda, nunca mais alcançaremos o Poder, num médio prazo”, dirão os estratégias da PàF.
    O aparecimento do partido Aliança, com Santana Lopes à cabeça, não é mais do que uma encenação, a qual fragmentará o eleitorado da direita em três partidos, reduzindo o PSD a mínimos históricos, deixando o CDS a sonhar com uma alternativa que nunca chegará, e provocando uma hecatombe no partido fundado por Sá Carneiro. Os socialistas com a dispersão dos votos, podem atingir sem grande esforço essa maioria absoluta mesmo que pela margem mínima. Mas, mesmo admitindo que não a alcancem, bastará ficarem no limiar desta, serão sempre quem decidirá qual o rumo a seguir, sem a pressão de uma maioria relativa mais frágil em número de deputados eleitos na AR.
    Quem não vislumbrar esta estratégia da direita, e for no canto de sereia de António Costa e seus acólitos, vai perceber mais tarde como caiu no engodo.


    • Não acredito numa maioria do PS por um motivo: ninguém confia em António Costa. Basta ver como se tornou líder do PS.
      Estou a ver o PAN e BE a ganhar votos, e até estou a ver o VERDES a sair da CDU.

      • Rui Naldinho says:

        Eu também acredito que essa maioria absoluta é impossível, nesta altura do campeonato. Mas que a direita tudo fará para que ela se torne possível, também é perceptível a “olho nú”.
        Com este povo Tuga, duvido que um Bolsonaro fosse eleito Presidente. Mas ver de novo o PS com uma maioria absoluta, já me deixa dúvidas. E se isso acontecer fico com a sensação de que todos nós somos um pouco como o Centrão político que nos atolou na lama. Na prática somos pouco sérios e exigentes. Na hora da verdade, somos todos um pouco corrompíeis, pelo menos nos valores que dizemos defender.

      • Manuel Silva says:

        Konigus:
        Os Verdes a saírem da CDU?
        Tem termómetro em casa?
        Veja a febre que pode ser grave.
        Não há Verdes nenhuns, há uns quantos funcionários do PCP que foram destacados para um escritório do partido, onde funciona uma uma coisa chamada Verdes, que finge ser um partido político.
        Aquilo serviu para fazer uma coligação e esconder o símbolo da foice e martelo, em tempos que se pensava que isso contava.
        Depois, os outros partidos obrigaram a pôr os dois símbolos desmascarados nos boletins de voto.
        Agora serve para se fingir que é uma coligação e para se repetir a mesma cassete com 2 protagonistas.
        E aumentar o tempo de antena.
        É estranho como as pessoas não percebem isto.

  3. Paulo Marques says:

    Se substituir o PS pelo centro-“esquerda” europeu continua a ser verdade. Ser “responsável” não dá para mais, é seguir ordens e fazer pela vidinha.


  4. Informação: Segundo consta,o autor deste artigo foi, recentemente, expulso do Partido Socialista.


  5. Diz Sousa Pinto que é o Povo quem está nas ruas. Convenhamos que se assim for, a França tem pouco povo. Já em Maio de 68, os filhos da burguesia falavam em nome de maiorias, foi-se a ver, que é como quem diz, a votos, e ganhou a direita e o marxismo em França entrou em coma profundo. O Povo não pixa e não pilha o arco do Triunfo. Para comentar o que se passa em Paris, convinha falar e ver com quem verdadeiramente lá anda. É que falar pelos olhos de jornalistas excitados com Maios outonais é ficarmos pelas perceções e só pelas perceções! É confundir a nuvem com Juno. (Marine le Pen agradece).

    • Rui Naldinho says:

      Você engana-se. É o povo que anda nas ruas. Não o povo todo, mas ainda assim muito povo. E é esse o verdadeiro povo. Seja ele hoje manipulado pela extrema direita, seja no passado pela extrema esquerda. Aquele que já nada tem a perder, porque não encontra respostas aos seus problemas. Quando a coisa agudizar ainda mais, como aconteceu num célebre dia, de 2012, a Passos Coelho, muito mais povo virá para as ruas, numa qualquer Praça do Comércio.
      Desengane-se, se pensa que as elites saem à rua. Essas estão sempre protegidas, quanto mais não seja por um imenso património disseminado para além das fronteiras francesas.

  6. JgMenos says:

    As angústias da política!
    Pois já não basta manter o discurso dos coitadinhos para ser de esquerda?
    É mesmo preciso meter o Estado na produção?
    Ou basta roubar mais os ricos e os remediados?
    Ferrar o calo aos credores é o factor decisivo?

    É esta falta de claridade que torna difícil estabelecer onde começa e onde acaba a esquerda. E ninguém diz coisa alguma que contribua para esclarecer estas magnas questões!

    • ZE LOPES says:

      Aos domingos JgMenos deixa aqui sempre um excerto do seu sermão lá na celebração da Igreja Universal do Reino da Coelha, esperando ansiosamente convencer alguns infiéis. Até porque os fiéis são cada vez menos e a receita do dízimo está-se a afundar.

      “É esta falta de claridade que torna difícil estabelecer onde começa e onde acaba a esquerda. E ninguém diz coisa alguma que contribua para esclarecer estas magnas questões!”

      1Não estará a falta de claridade relacionada com algum corte da EDP? É caso para desconfiar! E não admira que ninguém diga nada. os fieis que restam andam engalfinhados e demasiado ocupados para se preocuparem com o começo e fim de uma rua onde não querem pôr os pés!

    • Paulo Marques says:

      Meter o estado na produção é condição essencial, já o calote é mais para os teus clientes.
      Quanto a roubar os ricos, lol.


  7. .Posso repetir palavras suas que seriam minhas caso eu o tivesse sabido expor exacta e talqualmente incisivas porque lamentavelmente verdadeiras ? que a mim e a muitos mais o PS nunca convenceu como escolha de voto, esse cinzento nebuloso de interesses escondidos na mediocridade de uma direita camuflada de suposta esquerda que nunca o foi da política PS e dos que a exercem prontos a atraiçoar quem lhes permitiu ser governo e em nome de quem neles votou aí está, Bruno Santos, como bem escreveu neste post e saliento :

    ” Talvez nunca, na história do PS, tenha sido tão acentuado o grau de indigência intelectual e política, transformado que está este partido num bando de Zés Pereiras, tocadores de bombo, cuja principal virtude é não terem rigorosamente virtude nenhuma, além da que os faz tocar bombo alegremente e marchar como bonecos de corda numa procissão de falidos ideológicos…….”

    …aliás para mim nunca deixaram de o ser desde sempre !

    Há que avisar a malta, que o perigo de maioria absoluta PS é possível sim no voto tuga !


  8. ….e ainda acabadinho de ler e que “roubei” porque sim a propósito deste assuntar deste nosso convívio de aventar ideias e opiniões de avisar a malta :
    ( António Costa porteiro do poder, gostei, Daniel Oliveira ! )

    «A reação de António Costa às boas sondagens dão-nos um cheirinho do que seria uma maioria absoluta do PS. De cada vez que elas sobem ele afasta-se do espírito da ‘geringonça’. Perante uma empresa que há décadas tem 90% dos trabalhadores com contratos diários e um sindicato que se tinha mostrado disponível a uma integração de apenas 56 dos 90 precários, Costa resolveu esquecer o seu compromisso na luta contra a precariedade e tomar o partido da empresa. Enviando polícia para garantir a substituição de grevistas e repetindo as mentiras do concessionário turco: ao contrário do que disse, a empresa turca não tinha aberto qualquer concurso. Contactou 30 trabalhadores para contratos individuais. E estes recusaram porque queriam ser integrados através de uma negociação coletiva que tivesse em conta a situação de todos. Em vez do desenrasque da sua situação particular, foram solidários e desejaram a concertação social. Se António Costa tem “dificuldade em compreender” estes dois valores é porque não sabe que eles são pilares da social-democracia e do socialismo democrático. Isto é, António Costa quando sente que já não depende dos partidos que o colocaram no Governo.

    Um sinal da ilusão de autossuficiência que as sondagens lhe dão foi o apelo para que os deputados não desvirtuassem o Orçamento do Estado. O excesso de cativações pode desvirtuar um orçamento aprovado. As mudanças que a maioria dos deputados resolve fazer na especialidade não. Porque, como o próprio Costa nos explicou quando fez nascer a ‘geringonça’, é do Parlamento que vem a legitimidade para governar. Seria bom que não o esquecesse. E seria bom que não se esquecesse que é o povo, e não ele, que decide quem governa. Quando, cheio de si, nos explica que o BE e o PCP não vão para o próximo governo, Costa comporta-se como um porteiro do poder. Cada partido sabe de si e o povo sabe de todos. O PCP já disse que não queria entrar no Governo e esse é direito seu. O BE já disse que poderia querer entrar no Governo. Apesar de eu não acreditar que o queira fazer sem os comunistas, a escolha é sua e só depende dos votos que cada um tiver. Quando Costa diz que não os quer no Governo está a pôr a carroça à frente dos bois. O BE e o PCP não entraram no Governo porque não quiseram. Se o tivessem querido, ou o PS aceitava ou ia para a oposição. O mesmo acontecerá no futuro. E mesmo que o PSD esteja disponível, Costa sabe que um bloco central é o melhor que pode oferecer às pretensões de crescimento eleitoral do BE e do PCP. Por isso, não o fará.

    Costa só pode decidir que governa sozinho se tiver maioria absoluta. E se tal acontecer, ninguém além do PS vai lá querer estar. O que vimos esta semana é apenas o aquecimento. Todos conhecemos a arrogância das maiorias absolutas, sejam do PS ou do PSD. Este foi, na minha opinião, um dos melhores governos das últimas décadas. Não graças a Costa, Catarina ou Jerónimo, mas graças a uma solução que impediu, mesmo que parcialmente, a habitual cavalgada do PS para o centro. E que obrigou António Costa, mesmo que apenas parcialmente, a conter a sua arrogância. E que controlou, mesmo que muito parcialmente, o habitual assalto dos boys ao Estado. Quem gostou desta solução sabe bem o que deve evitar. Até os eleitores socialistas sabem como o PS é um adolescente: quando fica sozinho em casa, as suas festas costumam fazer estragos.»

    Daniel Oliveira

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