Antero de Quental

Há uma Alma em tudo. Nas pedras, nas plantas, nos animais, nos seres humanos. Há uma Alma no vento e nas estrelas, no mais longínquo ponto de luz deste Universo. De qualquer Universo. Quando o legislador conferiu ao animal (Anima, Alma) um estatuto jurídico superior ao de “coisa”, mais não fez do que iniciar o caminho que leva ao reconhecimento social e normativo da Alma de todas as coisas, da rocha aos anjos e mais além. E mais aquém.

Deste ponto de vista, o sacrifício de um animal destinado à alimentação humana não é diferente do sacrifício de uma couve, pois em ambos, em diferentes graus de evolução e densidade, habita uma Alma, uma centelha de vida. Essa vida está muitas vezes votada ao sacrifício, para que se cumpra o desígnio e a necessidade da evolução.

A relação de proximidade afectiva entre seres humanos e animais resulta da familiaridade das suas Almas e da semelhança dos seus estádios evolutivos. Embora o animal tenha que encontrar a morte para que o ser humano sustenha a sua própria vida, essa morte foi subtraída ao coração dos homens urbanos e escondida em lugares distantes, camuflados, ocultos, quase secretos. Matadouros, aviários, viveiros. A morte dá-se nesses lugares como uma traição envergonhada, como a pior das traições à sacralidade, uma vez que ao animal é negado o direito teleológico ao sacrifício – o sagrado ofício -, com que a sua Alma celebra a razão superior e o mistério da sua própria existência.

É, em vez disso, extinto sob a crueldade da mecânica, como coisa sem Alma que serve de alimento a seres humanos habitantes de um Céu vazio, radicalmente profanos, sem símbolos sagrados nem memória que os resgate.

Comments


  1. …” como coisa sem Alma que serve de alimento a seres humanos habitantes de um Céu vazio…”

    https://danielmcarlos.wordpress.com/ja-leu-kafka/

  2. Rui Naldinho says:

    Mas o Peter Falk, famoso detective da série Colombo, entra aqui a que propósito?

    • Bruno Santos says:

      A propósito da sua participação num filme sobre Anjos, de Wim Wenders: As Asas do Desejo.

  3. Ana Moreno says:

    Comer menos carne parece-me, nesta altura do campeonato, o mais próximo da sacralidade.