A vitória da tronchuda

Tronchuda

Há dias ouvia um Ancião, bem curtido pelas vicissitudes do tempo, apontar uma única crítica a Oliveira Salazar. A de não ter posto termo à injustiça que existia na relação entre o caseiro e o patrão (o proprietário). O caseiro trabalhava as terras que não eram suas e, do que colhia, entregava a maior parte ao patrão. Era frequente ter que comprar pão para lhe dar. Para si e para a sua família ficava, a maior parte das vezes, a fome e a miséria, num tempo em que se chamava “vitela” às tronchudas (couves).

Esta injustiça é muito mais antiga do que Salazar, além de ser uma das principais características das sociedades humanas, desde sempre. Na Grécia, a Democracia surge como tentativa de reequilibrar o jogo de forças entre os Demoi (os caseiros) e os Aristoi (os patrões e proprietários). Mas poucas vezes foi mais do que uma cosmética simbólica cujo propósito era garantir paz social, oferecendo aos Demoi a ilusão de posse.

À mesa do caseiro, como disse, não havia carne. A vitela era as couves bem curtidas pelo frio. O que é curioso é que, após grandes transformações sociais e económicas, a carne verdadeira chegou, finalmente, à mesa dos Demoi. O caseiro e os seus filhos puderam, finalmente, comer um bife, um rojão, até um Cozido imperial. Mas eis senão quando surge o “aquecimento global”, a “sustentabilidade”, o “CO2”. E o caseiro tem que voltar às couves. Já é azar.

Comments


  1. Bruno Santos, permita-me cumprimentar a sua inteligência/cultura que nos permite estes bons breves momentos de reflexão maior …. com sorriso circunspecto ! : )

  2. Rui Naldinho says:

    Gostei do seu artigo. Irónico mas muito assertivo.
    Dizia eu por estes dias natalícios à minha cara metade:
    Vivemos hoje numa sociedade puramente consumista. O tempo da poupança, mesmo em classes mais baixas, escafedeu-se nestas gerações mais novas, e mesmo naquela a que eu pertenço. Dela não nos livraremos tão depressa, na medida em que é o crédito ao consumo que alimenta cada vez mais os cofres do sistema financeiro, cada vez menos solicitado para o investimento produtivo. O que existe depende em muito de fundos comunitários e de vários apoios estatais. Logo, a banca necessita avidamente de consumidores para se endividarem. No dia em que o consumo baixar para níveis pré século XXI, a maioria dos bancos e muitas indústrias voltadas para o consumo, vão falir. Até porque, com o processo de globalização, os consumidores ocidentais estão em desvantagem no atual sistema produtivo.
    Com esta pescadinha de rabo na boca, o planeta vai-se autoflagelando, porque para alimentar a máquina consumista, alguma coisa fica por cumprir.
    Os nossos filhos, os principais viciados no consumismo, um dia, ainda nos vão atirar à cara todo o mal que lhes fizemos.

    • Paulo Marques says:

      «na medida em que é o crédito ao consumo que alimenta cada vez mais os cofres do sistema financeiro»

      E não só, o resto do capital viu-se a perder a corrida para o topo e surgiu o crédito das empresas de retalho até chegar os hipermercados. Hoje temos “progressistas” a defender que está tudo bem porque os trabalhadores sem-abrigo podem endividar-se para ter 3 refeições por dia.

  3. O Calcinhas do Dafundo says:

    Os filhos já não comem carne.A protecção aos animais,as interdições aos sofrimentos,aos jogos rituais vindos das paredes de Cnossos,ao sacrifício e morte,antepõem-se já,na tenra geração,ao esquentamento global.
    Calcinhas Júnior,tal como o patrão apedeitado, reivindica tronchas e carqueja biológicas.E nem pense em artrópodes.

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