Calaram o CALE-se

O “CALE-se” era o mais importante Festival de Teatro da cidade de Gaia. Calou-se, mas deixou uma carta aberta:

 

Carta aberta do Cale Estúdio Teatro ao público, a propósito do fim do “CALE-se” Festival Internacional de Teatro

Houve um tempo em que falar de tradição não era apenas falar do passado mas, sobretudo, num contexto mais alargado, um tempo em que se percebiam e aceitavam as tradições como uma “permanência no desenvolvimento e na continuidade”, conforme muito bem defendeu em tempos António Sardinha.
Nesse contexto, o terceiro sábado de Janeiro (o próximo, dia 19) era culturalmente marcado em Vila Nova de Gaia pela abertura do “CALE-se” Festival Internacional de Teatro, facto que este ano não acontecerá, pelos motivos já apresentados no encerramento da edição de 2018, que importa agora recordar ou somente informar.

Antes de tudo, importa destacar que a realização das 11 edições do festival “CALE-se” apenas foi possível graças aos apoios que o Cale Estúdio Teatro reuniu junto de inúmeros parceiros, e pelos quais está imensamente grato, na medida em que eles possibilitaram a concretização de um projecto único no país – um festival internacional de teatro não profissional, com carácter competitivo, que além disso prestava homenagem a uma figura viva de relevo do Teatro em Portugal.

De facto, nas 11 edições realizadas do “CALE-se”, entre 2007 e 2018, Vila Nova de Gaia pôde receber figuras tão destacadas como Ruy de Carvalho, Adelaide João, Margarida Carpinteiro, Nicolau Breyner, Vítor de Sousa, Maria do Céu Guerra, Rui Mendes, Fernanda Lapa, António Capelo, Custódia Gallego e Eunice Muñoz, personalidades que foram unânimes em enaltecer o trabalho de grupos como o Cale Estúdio Teatro, organizador do festival, seja na sua actividade teatral como verdadeiros amantes dessa arte, seja na promoção de um festival como o “CALE-se”, cuja estrutura em moldes de concurso visava incentivar a progressiva melhoria e a qualidade dos espectáculos apresentados.
Os trabalhos participantes no festival eram alvo de avaliação de um júri, também ele constituído por grandes nomes ligados ao teatro profissional, como Salvador Santos, Clara Nogueira, Filomena Gigante, José Leitão, Roberto Merino, Moura Pinheiro, Alexandre Falcão, Adriano Martins, entre outros.

O festival “CALE-se” recebeu um total de 49 grupos de teatro, oriundos de 13 distritos, 41 concelhos e quatro países, num total de 1451 pessoas envolvidas, que trouxeram a Vila Nova de Gaia 98 espectáculos de bom teatro.
E as 11 edições do “CALE-se” contaram com a presença de 2514 espectadores, ou seja, uma média de 251 pessoas por espectáculo, número bastante significativo face ao habitual contexto teatral.
Depois de ter participado, a título excepcional, na edição de 2018, com a apresentação do seu espectáculo “Como estamos de amores”, perante uma plateia que enchia o Auditório Municipal de Gaia, o Cale Estúdio Teatro anunciou o fim do projecto “CALE-se”. “Cansados de travar uma luta que tomámos como nossa a bem da comunidade e cansados de sermos continuadamente preteridos”, o Cale Estúdio Teatro entendeu ter chegado o momento de parar.

Face a essa inesperada posição, o presidente da câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, não esboçou (até hoje) a ínfima tentativa de perceber as razões de tal decisão, optando antes por esbanjar acusações à organização, que chamou de “manipuladora” e “matreira”, através de comunicado enviado prontamente à imprensa.
Lamentamos, profundamente, a incoerência política do senhor presidente da câmara, revelando graves lapsos de memória, já que ao longo dos quatro anos do seu primeiro mandato manteve um discurso constante de elogio à organização do “CALE-se”, afirmou “testemunhar o empenho sentido deste grupo de gente, que forma absolutamente – não vou dizer voluntária, porque eu acho que eles são teatro amador não é por não serem profissionais, mas porque amam o que fazem e isso vê-se”, realçou por inúmeras vezes de forma pública o festival “CALE-se” como uma referência para o concelho…
Como é que este festival, que tanto defendeu ao longo destes anos (mesmo quando ainda era apenas um vereador sem pasta candidato a presidente – altura em que colocou o festival no topo das suas prioridades culturais para o concelho e, em primeiro lugar na lista de eventos a apoiar a nível da freguesia de Canidelo), passou, de um momento para o outro, a ser um “festivalzinho” de teatro? Teremos tocado em alguma ferida invisível do senhor presidente ou ultrapassado alguma fronteira do seu psicótico universo ditatorial?

Consideramos que referir-se ao “CALE-se” como um “festivalzinho” é, entre outros, um insulto desmedido e directo a figuras tão destacadas da nossa cultura como Ruy de Carvalho (Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e Grã-Cruz da Ordem de Mérito) ou Eunice Muñoz (Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique), ou a qualquer um dos patronos das 11 edições do festival, personalidades emblemáticas que, seguramente, não apadrinharam o evento em vão ou por se tratar de um mero “festivalzinho”.
Decidimos terminar com a realização do festival devido a muitos – tantos… – grandes e pequenos motivos que se foram adensando e atormentando a nossa boa-fé, e não apenas por questões de apoios pecuniários – embora não possamos ignorar as opções políticas que o executivo camarário tem tomado.
Não esqueçamos, por exemplo, que no encerramento da edição de 2015 do “CALE-se”, escusando-se sempre na difícil herança financeira do município, Eduardo Vítor Rodrigues (então no segundo ano do primeiro mandato) sublinhou a sua convicção de que “se passasse o Cabo das Tormentas, tinha condições para definir prioridades bem definidas e apoiar aquilo que verdadeiramente tinha que apoiar. No próximo ano [2016], a associação [Cale Estúdio Teatro] pode contar com um financiamento mais arrojado, melhor”.
Chegados a 2016, ficaram bem demonstradas as prioridades e a pouca habilidade para marinheiro do senhor presidente: o “arrojado” financiamento resultou num aumento de mil euros, face ao apoio de três mil euros atribuído em 2015.
A mesma verba – quatro mil euros – que alegadamente também terá sido atribuída para realizar a edição de 2018, acrescida de um apoio logístico alargado que inexplicavelmente, à última hora, nos foi retirado. Estará, pois, o senhor presidente em condições de nos acusar de “matreirice” e “motivações pouco claras”?

Se um evento tão elogiado e querido – enquanto assim lhe foi conveniente – passou a representar aquilo que o senhor presidente enquadra como apoios de “mão beijada”, fica demonstrado que a parceria com o município neste projecto se tornou inviável, pois apoios de “mão beijada” implicam certamente uma postura de beija-mão que o Cale Estúdio Teatro se nega a prestar.
Até hoje nos perguntámos por que nos procurou Eduardo Vítor Rodrigues em 2013? Por que manteve um falso interesse cultural, se aparentemente as áreas do seu interesse são outras?
Em que presidente devemos acreditar? No Eduardo Vítor Rodrigues que disse “eles são gente da nossa terra, são gente que faz coisas de grande qualidade e nós temos obrigação, enquanto instituição pública, de apoiar quem se empenha e quem nos eleva”, ou no Eduardo Vítor Rodrigues que acusou esta mesma gente de “matreiros” e “manipuladores”, de “querer fazer coisas megalómanas”, “de querer fazer cultura da forma mais fácil”?
Por que razão esta história se assemelha à do lobo que se cobria com pele de cordeiro?…

Este mês de Janeiro, o Cale Estúdio Teatro completa 33 anos de existência, e continua sem um espaço, uma sede onde possa festejar o seu aniversário.
Este mês de Janeiro, os elementos do Cale Estúdio Teatro estão tristes por não poder respeitar a tradição e realizar a 12ª edição do festival por que tanta gente (gaienses e não só) ansiava.
Mas, infelizmente, a história tende a repetir-se sistematicamente com os mesmos erros.
E tal como Eça de Queiroz, Antero de Quental ou Camilo Castelo Branco, entre muitos outros, também nós estamos saturados da inércia do passado e arrebatados com a mesquinhez contemporânea.
Cansamo-nos de palavras bonitas e das promessas de vereadores, de assessores, de adjuntos, de presidentes… promessas, e mais promessas e palmadinhas nas costas que dispensamos.
Cansamo-nos de fingir, cansamo-nos de representar num cenário onde tudo está bem, pois tudo bem deve parecer aos olhos do público.
Cansamo-nos de travar uma luta que tomámos como nossa a bem da comunidade.
E cansamo-nos de ser continuadamente preteridos.

Desistir não é um exemplo que queiramos dar aos nossos filhos. Mas, neste caso, não se tratou de desistir. Foi muito mais do que isso. Tratou-se de uma questão de bom-senso e de inteligência, de saber quando devemos parar, de não nos deixarmos manipular, de sabermos perceber a maré e nadar só quando tivermos a certeza de águas seguras.
Trata-se de nos ouvirmos a nós próprios e não de dizermos o que os outros querem ouvir. Não se trata de desistir, mas de mantermos a nossa integridade.

Sentiremos saudades, claro! Mas não podíamos continuar a viver momentos de ilusão, a alimentar políticas culturais de faz-de-conta, nem ser cobaias e muito menos marionetas de quem quer que seja. Preservamos a nossa dignidade e por isso entendemos ter chegado o momento de não brincarem mais connosco. Pagaremos a factura de não nos vendermos, mas ficamos orgulhosos da nossa dignidade.

Será muito difícil voltar a ouvir falar do “CALE-se” em Gaia.
Temos pena, porque somos de Gaia, ostentamos com orgulho Gaia no nosso nome “CALE”, assim como nas malas, quando percorremos o país ou atravessamos fronteiras para levar o teatro onde os não-voluntários normalmente não chegam.
E, acreditem que ao longo dos 32 anos de existência do Cale Estúdio Teatro já fizemos muitos quilómetros.
Sabemos que não se deve dizer nunca… por isso, se um dia pensarmos retomar este projecto, será, com certeza, com regras bem diferentes. Só desse modo, quando assim nos quiserem receber, com as condições que seguramente merecemos, poderemos voltar.

A todas as pessoas e entidades que acreditaram, apoiaram e trabalharam para que esta iniciativa fosse possível, aceitem o nosso sincero e profundo agradecimento.
E também as nossas desculpas, por termos esgotado o nosso stock de optimismo e por termos acreditado ao longo de demasiado tempo que as coisas podiam acontecer como gostaríamos que acontecessem.
Continuamos, contudo, a acreditar que através do Teatro podemos contribuir para melhorar a sociedade. Sabemos que o Teatro, por si só, não pode mudar o mundo. Mas sabemos que o Teatro muda as pessoas, ajudando-as a encarar o mundo de uma forma mais atenta, mais consciente de nós próprios e do outro. E sabemos que são as pessoas que mudam o mundo…

Viva o Teatro!

 

Ligação aqui.

Comments


  1. ” Continuamos, contudo, a acreditar que através do Teatro podemos contribuir para melhorar a sociedade. Sabemos que o Teatro, por si só, não pode mudar o mundo. Mas sabemos que o Teatro muda as pessoas, ajudando-as a encarar o mundo de uma forma mais atenta, mais consciente de nós próprios e do outro. E sabemos que são as pessoas que mudam o mundo…

    Viva o Teatro! ”

    Convosco estamos !

    ” Se acham a cultura cara, verifiquem a ignorância ” !!