Bacalhau

Um dos eixos principais da estratégia política do Presidente da República consiste na tentativa de contenção, no nosso país, daquilo a que se chama agora “nacionalismo populista”. Parece um paradoxo, mas não é. O Presidente da República fá-lo ocupando o espaço semiótico com acções coordenadas que não têm uma natureza estritamente política, mas psicopolítica, daí derivando o epíteto de “Presidente dos afectos”. Esses “afectos”, que se traduzem simultaneamente numa grande excentricidade do exercício das suas funções e numa proximidade simbólica ao “homem comum” exacerbada, pretendem captar e prender pela emoção primária, também ela populista, todos aqueles que, de outro modo, se poderiam mostrar receptivos à mensagem que varre com força uma boa parte do ocidente e que normalmente se identifica na radical oposição ao modelo de “democracia global” até agora vigente. A originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa é o seu Populismo Católico, instrumento com que tenta travar a chegada, a este lado da península ibérica, dos exércitos de Bannon. Nada garante que Bannon não chegue cá, mas se não fosse Marcelo, talvez já cá estivesse.

O Presidente da República acha que se tornou inevitável um populismo “à portuguesa”, de modo a evitar a fragmentação social que necessariamente resultaria de um populismo nacionalista como o que se instalou em muitas das maiores nações do Ocidente. É a velha receita lusa do bacalhau com todos. Pode ser que resulte, mas certamente não evita, uma vez que já decorre,  uma profunda erosão dos pilares que, afinal, fazem um Estado de Direito democrático. Desse Estado fica exposta a tremenda fragilidade moral das instituições, que o cidadão, a bem da estratégia de Marcelo, recebe como mais um capricho do Destino. Um fado que vem de longe.

Comments

  1. JgMenos says:

    Essa é a versão actual da saga reacionária «antes a Geringonça e o pasmo, do que arriscar deixar de’ ‘viver habitualmente’.»

    Já o Salazar também era muito desse ‘viver habitualmente’.

    • Paulo Marques says:

      Viver habitualmente para ele, morrer no mato para os outros.

    • abaixoapadralhada says:

      De Salazar deves saber muito, Salazarista Cruz ou melhor dizendo Cruz Salazarista
      Não que tenhas vivido na mesma janela de tempo do “Botas”, mas porque és inspirado na sua ideologia e quando é assim as janelas de tempo não são importantes. Calcula que ainda há gente que está à espera de D. Sebastião

    • ZE LOPES says:

      Então JgMenos? Essa veia poética está muito por baixo!

      «antes a Geringonça e o pasmo, do que arriscar deixar de’ ‘viver habitualmente’.»

      Nem rima nem nada! Que tal esta alternativa:

      “Antes a geringonça e o pasmo,
      Que à direita só dá asno!”

      Está melhor, não?

  2. Rui Naldinho says:

    Portugal é um país pequeno, apesar de ter tido um território colonial invejável.
    Somos um país periférico, na Europa, muito dependente das relações comerciais com os nossos parceiros da comunidade. Fora deste espaço, restam-nos as ex colónias. Sim, a ex colónias. Com traumas ou sem traumas.
    Portugal sempre foi muito mais um exportador de mão de obra, do que um importador da mesma, nesses movimentos migratórios que fizeram múltiplas nações. Antes, era pouco qualificada. Hoje podemos considerá-la muito qualificada.
    Se é verdade que não somos imunes aos movimentos nacionalistas, nunca estaremos num patamar, nem de longe nem de perto, de uma França, Alemanha, Reino Unido, EUA, ou qualquer outro grande Estado. Até porque a nossa “imigração”, começou praticamente com a descolonização. Não representam em termos demográficos, o que representam por ex. os cidadãos oriundos dos países do magrebe, isto para não generalizar com islamismo, em França.
    Marcelo pode dar um contributo com o seu populismo cristão, para que outros populismos não floresçam. Mas não me parece que seja o receio de um populismo nacionalista, que esteja na génese do comportamento “afectuoso e por vezes pimbalhão”, do Presidente. Até porque uma relação conflituosa e segregacionista, entre os portugueses de origem europeia e os outros, de origem diversa, ou mesmo com as suas comunidades de imigrantes, em especial os que vieram das ex colónias, seria fatal para nós. Basta ver a reação de Angola aos incidentes, recentes.
    Mesmo que subsista uma forte componente racista em muitos portugueses, seria um desastre, um país como o nosso, enveredar por um nacionalismo primário, estilo Hungria, Polónia, ou qualquer coisa do género.
    Para mim, o populismo de Marcelo está-lhe no sangue. E tem uma agenda. Não digo que premeditada, mas consequencial.
    Em tempos ouvi dizer que Marcelo não se recanditaria. Sempre duvidei de tal desfecho, e escrevi isso, aqui no Aventar. Hoje já o ouço a dizer, que o mais provável é recandidatar-se. Ora, Marcelo sabe que uma nova Geringonça dificilmente se repetirá. A ser assim, o seu tempo de decidir e condicionar governos, nomeadamente do PS, coligado ou não, virá ao de cima. E é aqui que entram os afectos. Marcelo tem de ter espaço de manobra para condicionar no futuro, PS e PSD numa coligação estilo SPD/CDU. Quanto maior for a sua popularidade, e colocada aquela direita neo liberal no seu gueto, sem grande representatividade no parlamento, Marcelo será tentado a agir, quanto mais não seja, na intriga palaciana que tanto o afamou.
    Marcelo é como Soares. Nunca podem ser levados à letra. As excepções são tantas, que não há regra que os defina.
    Nessa medida ambos foram, um ainda o é, cada um à sua maneira, dois “valentes populistas”.


  3. 5* ! subscrevo .


  4. Bruno Santos, excelente !
    “… “afectos” que se traduzem simultaneamente numa grande excentricidade do exercício das suas funções e numa proximidade simbólica ao “homem comum” exacerbada ( e que ) pretendem captar e prender pela emoção primária, também ela populista…”


  5. Daniel Oliveira opina e mt bem :

    «Sou ateu, laico, republicano e socialista. Mas nada me move contra a Igreja Católica. Nem contra as outras, desde que tenham mais de 500 anos para lhes conhecermos bem as manhas. Os meus amigos até se divertem com o que acham ser a minha lenta caminhada para Roma. Sou de uma família ateia, parte de ascendência judia, e isso dá-me o desprendimento de quem nada tem para resolver com o seu passado.

    Como anda o mundo até tenho uma certa simpatia pela existência de comunidades de fé que não permitam que as pessoas com menor formação moral se entreguem ao individualismo sem norte. E como o que vejo crescer, como alternativa, são igrejas de autoajuda, lideradas por semianalfabetos que fazem da fé um mero negócio – pelo menos de forma mais desbragada do que as igrejas tradicionais –, prefiro a velha Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Segura e previsível. Ainda mais agora que tem um Papa admirável. Não fosse acreditarem em Deus e terem uma certa tendência para se meterem na vida das pessoas, até me convertia. Ou seja, quando deixarem de ser uma igreja e católicos contem comigo.

    Deve ser por esta minha atual bonomia com a ICAR que não me choca nada que Marcelo tenha ido ao Panamá para ficar com os louros das Jornadas Mundiais da Juventude de 2022. Se a fé nas startups traz miúdos imberbes para gastarem dinheiro em Lisboa, contribuindo para a economia nacional, não vejo porque uma fé mais antiga não possa dar o seu contributo. Um milhão de jovens beatos não é pior do que milhares de jovens geeks. Religião por religião, sempre prefiro as do livro às do tablet.

    A única coisa que realmente me incomoda é Marcelo Rebelo de Sousa ter decidido associar a sua recandidatura a um momento religioso, através de um intimista “saio daqui com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, me recandidatar”. Uma coisa é ir em peregrinação ao Panamá para sacar mais um evento para a nação – é a nossa especialidade. Outra, um pouco diferente, é associar uma decisão política a um ato de fé e uma recandidatura a um momento religioso.

    Agora que todo o país se converteu ao politicamente correto, propondo extradições e despedimentos por causa do uso do vernáculo, não quero parecer excessivamente picuinhas. Mas, parecendo que não, anda por cá uma malta que não é católica. E diz que somos cidadãos. Quando Marcelo disse que ia ser o Presidente de todos os portugueses pensávamos estar incluídos. Não estou propriamente zangado. Mas se desse para separar a política da religião, os não católicos, que ainda são uma boa parte da população, agradeciam.»

    Daniel Oliveira


  6. …complemento, com consideração pela autora : )

    http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2019/01/marcelo-sair-do-armario.html

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