Chancas e tacões

Tacões no Palácio de Versailles.

A Ponte Luís I, que une as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, tem o seu tabuleiro inferior em avançado estado de degradação há vários anos. E “vários” quer dizer mais de uma década. O tabuleiro superior foi recuperado, por causa da passagem do Metro, mas aquele que é conhecido como “o tabuleiro de baixo” apresenta sinais de degradação totalmente incompatíveis com a importância urbana e patrimonial da estrutura. Não se conhece o motivo pelo qual numa ponte desta importância se recupera um tabuleiro e se deixa o outro a apodrecer.

As entidades responsáveis pela Ponte têm apresentado ao Ministério da Cultura, através da Direcção-Geral do Património Cultural, projectos para a sua reabilitação que têm vindo a ser recusados. Os motivos das recusas não são do conhecimento geral, mas diz-se que se prendem com a necessidade de proteger a integridade estética e arquitectónica de uma obra de arte na zona histórica do Porto, que está integrada no conjunto inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO. 

Há dias, uma turista americana tropeçou numa das muitas placas metálicas que estão soltas e feriu-se com alguma gravidade. A notícia é que teve que ser hospitalizada. Na sequência desse acidente, a Câmara de Gaia decidiu remeter à Direcção-Geral do Património Cultural um ofício via Facebook, originalidade selada com a seguinte nota de alto calibre institucional do presidente da Câmara:

“A Senhora Diretora-Geral, que passeia os seus tacões nos corredores de um palácio, não percebe a urgência e importância desta obra, tratando o assunto como se fosse uma substituição de caleiras.”
Presidente da Câmara de Gaia, Facebook, 8/02/2019

Esta referência totalmente inapropriada – por ostensivamente deselegante, machista e sexista – aos “tacões” que a Arquitecta Paula Araújo da Silva, Directora-Geral do Património Cultural, alegadamente “passeia pelo Palácio” como de fosse uma cortesã opulenta e ociosa, vinda de um alto responsável público já condenado em Juízo por crimes de difamação, traz o relacionamento institucional entre órgãos do Estado para um patamar completamente novo, um patamar boçal, degradante mas, infelizmente, também compatível com a imagem que alguns poderes públicos vêm transmitindo de si próprios – um pardieiro onde só se entra de chancas.

Comments


  1. “E eu não estou aqui a assinalar os ataques que têm a ver com orientações políticas. Eu estou a falar dos ataques pessoais. Que são ataques que têm recorte de género. E é sobre isto que isto queria aqui deixar o meu olhar negativo, porque o que vi é feio, e mais uma vez tem a ver com a fragilidade de se ser mulher e a vulnerabilidade de se ser mulher, que tem uma exposição muito maior o tipo de ataques que infelizmente as mulheres ficam sujeitas.”

    (Gabriela Canavilhas, sobre os ataques pessoais a Helena Fraga)

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