Da arte de ser versátil ou de bem cavalgar toda a sela

 

Camiões com “ajuda humanitária” incendiados em território colombiano.

 

A política externa de qualquer país não se conduz através de comunicados ou anúncios públicos. Há mesmo ocasiões em que esses anúncios são instrumentos diplomáticos que servem para marcar posições de princípio opostas às acções e decisões que de facto estão a ser implementadas.

Posto isto, e verificando-se que está em marcha um plano de invasão da Venezuela, em violação do Direito Internacional e da Carta da Nações Unidas – organização actualmente presidida por um português -, espera-se que o governo de Portugal esteja, de facto, a agir de acordo com a legalidade, apesar da declaração de apoio a um auto-proclamado presidente que se comporta como um agente subversivo de terceira categoria, ao serviço do invasor e em violação ostensiva do Direito Internacional.

Recorde-se que o “reconhecimento” de Juan Guaidó como Presidente Interino da República Venezuelana, declarado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros em nome da República Portuguesa, se deu na condição de aquele iniciar o processo de realização de eleições presidenciais legítimas, devidamente supervisionadas por organizações “independentes”. Verifica-se, contudo, que Guaidó não apenas tem demonstrado que não tem qualquer intenção de realizar eleições – que com toda a probabilidade perderia -, como tem assumido um comportamento de desafio e afrontamento das legítimas instituições venezuelanas, como é o caso do Supremo Tribunal.

Acresce que aquilo que tem provocado a crise humanitária na Venezuela é o boicote e as sanções económicas impostas precisamente por aqueles que agora reclamam o direito de fazer entrar no território “ajuda humanitária”. Esta estratégia cabe, certamente, no conjunto de princípios que enformam a “arte de ser versátil”, tão bem explicada num artigo de Augusto Santos Silva publicado no jornal Expresso a 9 de Fevereiro último, texto – certamente já não dactilografado no teclado de um Magalhães – no qual o ministro dos Negócios Estrangeiros procura demonstrar a virtude da mais antiga característica do mundo – a versatilidade, ou a arte de bem cavalgar toda a sela, como diria o autor original da ideia. Diz Santos Silva que “Hoje, somos reconhecidos não apenas como um bom exemplo do ponto de vista económico, financeiro, de estabilidade e cultura cívica democrática, mas também como defensores coerentes da unidade e valores europeus, da abordagem humanista dos fluxos de refugiados e migrantes, da transição energética, da parceria com África e América Latina e das grandes agendas multilaterais”. Dando de barato o palavreado milagreiro ainda filiado na lógica futebolística do “Cristiano Ronaldo do Eurogrupo”, cujo significado simbólico ganhou toda uma nova dimensão política com a condenação judicial do mago da bola por fuga ao fisco, Santos Silva não explica se esses “valores europeus” e se a “parceria com a América Latina” são enquadráveis em ultimatos dirigidos a nações soberanas como a Venezuela, ao arrepio do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, instituição global presidida pelo português António Guterres, para cuja eleição foi determinante o apoio de nações como a Rússia ou a República Popular da China, que hoje se colocam ao lado do poder legítimo venezuelano.

Além de ter as maiores reservas mundiais de petróleo, a Venezuela é um dos países mais ricos do mundo em algumas matérias-primas fundamentais não apenas à economia dos dias de hoje, como dos dias que hão-de vir. E Santos Silva sabe que é aí que reside a motivação dos que usam Juan Guidó como carne para o canhão da guerra ilegal em curso, guerra essa que não tem como motivação os “valores europeus” a que o ministro aparentemente se refere no artigo do Expresso, muito menos “abordagens humanistas” que até hoje mais não têm feito do que asfixiar económica e financeiramente uma nação soberana que reclama o direito legítimo de existir.

Comments

  1. Julio Rolo Santos says:

    Eu não tenho a certeza de que Bruno Santos esteja certo sobre o que se passa na Venezuela. A informação e contra informação deixam-me com duvidas de que lado está a razão. Chego a não saber se Bruno Santos tem assim tanta certeza. No Salazarismo também estava tudo bem (?) e, no entanto, no deu no que deu.No Brasil outrora Lula da Silva e agora Bolsonaro também estava e está tudo bem (?). Cuidado com as aparências.


  2. Vão ver que os “américas” ainda vão dizer que o Maduro tem armas de destruição maciça! ( quem será que vai fazer de Durão Barroso ? )

    Petróleo, petróleo a quanto obrigas…


  3. Muito bem, certíssimo, Bruno Santos, ! esta sua análise correcta sobre o que verdadeiramente se passa na Venezuela contra a desinformação reinante e instalada nos media ( até na Euro-News ) e na mentalidade superficial da grande maioria das pessoas terá que ser divulgada e discutida o mais possível, ainda que sem eficácia real, que bem sabemos que um novo Iraque/primavera américa latina está aí prestes a acontecer !
    Por cá já temos o nosso mordomo bal bla bla ás ordens, Augusto Santos Silva……. et alii !!

    …” aquilo que tem provocado a crise humanitária na Venezuela é o boicote e as sanções económicas impostas precisamente por aqueles que agora reclamam o direito de fazer entrar no território “ajuda humanitária”.

    E Maduro boicota legitimamente e muito bem em nome da dignidade da republica bolivariana e coerência seja lá do que for !

    .–por ex. ..alguém me enviou email de congratulações com o título “Finalmente a ajuda humanitária vai entrar na Venezuela ” !. …como se fosse a melhor notícia do dia : (
    e como se somente de acto com o chavão humanitário se tratasse !!! Essa a mentalidade reinante !

    Não entendem nem sabem que estão a apoiar
    “um auto-proclamado presidente que se comporta como um agente subversivo de terceira categoria, ao serviço do invasor e em violação ostensiva do Direito Internacional. “

  4. Paulo Marques says:

    E que tal, se invés de mandarem ajuda humanitária depois de bloquearem as trocas comerciais e o levantamento do que é deles, deixarem o mercado livre funcionar? Pensem nisso.

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Eu não sei se a guerra dos comunicados não será, de facto, a única maneira de manter viva esta chama de “liberdade”, muito característica de uma política que conduziu o mundo a verdadeiros banhos de sangue como os do Iraque e da Líbia.
    Sempre que o petróleo ou as questões geo-estratégicas estão em causa, logo aparece o sétimo de cavalaria a “libertar” o “povo oprimido” e que conduz sempre a outro tipo de opressão, atentados, carnificinas. Só que agora … em “liberdade”.

    Assim sendo, parece-me que a única forma de manter vivo aquele espírito de “libertação”, é justamente utilizar o “patuá”, seja ele da forma escrita ou falada…

    De resto é inconcebível que se faça um bloqueio como o de Cuba e se venha agora falar em ajuda humanitária. Parece que estamos perante um fenómeno antropofágico que pretende manter vivas as carcaças de que se alimentarão mais tarde.

    Quanto à política internacional, vê-la comandada por um fulano como Rangel, é experimentar uma sensação semelhante à colocação de gasolina nas mãos de um incendiário sem rumo político, sem convicções, excepto as que Trump defende.
    E esta é a forma como a Europa defende a “sua” política.
    De forma que, não vejo motivos que possam mudar o quadro de uma situação catastrófica que tem no petróleo, como sempre, o mote para a morte.


  6. ” De resto é inconcebível que se faça um bloqueio como o de Cuba e se venha agora falar em ajuda humanitária.
    Parece que estamos perante um fenómeno antropofágico que pretende manter vivas as carcaças de que se alimentarão mais tarde. ”

    Que bem visto ! apoiado !

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