“Os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média”

Alexandre Soares dos Santos

 

A frase é atribuída a Alexandre Soares dos Santos, líder do grupo Jerónimo Martins, alegadamente proferida numa entrevista que concedeu recentemente ao jornal Observador. É daquelas frases que falam por si, como se costuma dizer, não necessitando de grande indagação hermenêutica. “Os pobres fizeram-se para a gente os transformar…”, como se transforma um porco num chouriço, ou qualquer sub-produto, coisa mal acabada, imperfeita, material de desperdício, em algo um pouco mais limpo, consistente e organizado do ponto de vista da sua forma e da sua função – a “classe média”.

“Os pobres fizeram-se” pela mesma oficina à qual cumpre “transformá-los”, dar-lhes um acabamento menos bruto, mais polido, menos desumano, mais compatível com a necessidade de fazer deles um objecto útil que o mercado assimile e transacione, que possa ser comercializado, inscrito no repertório de coisas materiais circulantes, utilizáveis, disponíveis, consumíveis.

Segundo o senhor Soares dos Santos, os pobres não são o resultado de um defeito dos sistemas sociais que criam injustiça entre os Homens. Os pobres, que não são propriamente Homens, são uma premeditação desses sistemas sociais que, sem eles, os pobres, sem os fabricar e transformar, perderiam a sua razão de ser, o fundamento da sua existência. O senhor Soares dos Santos acaba por confessar que só é indecorosamente rico porque sabe produzir e transformar pobres.

Apesar de tudo, o que mais intriga – a quem se intriga – na entrevista do senhor Soares dos Santos, é o Heptágono na lapela.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Transformar pobres? Maneira estranha de dizer viver à custa deles.

  2. Rui Naldinho says:

    Sem consumidores desenfreados à procura de umas quantas promoções, a tal classe média, de que fala, não há merceeiro que resista.

  3. A.Silva says:

    O capitalismo é um sistema que transforma gente desta em porcos chafurdadores de pocilgas.

  4. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Este senhor não é o mesmo que paga impostos fora do país para aliviar a SUA carga fiscal?
    No fundo, aqui temos mais duas pérolas: uma do Observador, talhado para a promoção destas avantesmas sociais e outra de uma avantesma sem qualquer tino ou sensibilidade.
    O fascismo saiu à rua, faz um bom par de anos.
    E as avantesmas sabem que é verdade.
    Por isso estão à vontade para se exprimirem da forma que conhecem: a mais baixa possível tratando as pessoas como coisas.

  5. aires says:

    Este senhor faz-me recordar o Barreinhas Cunhal e mais recentemente o Jerónimo Martins, desculpem o Jerónimo de Sousa!!!!

  6. Zé Pestana says:

    Aqui está um bom filho da curta.

  7. Miguel says:

    Mas ele tem razão. Assim a traço grosso. No Reino Unido, os ‘pobres’ da revolução industrial foram criados pela monopolização dos terrenos (enclosures) e dos meios de produção. Umas décadas mais tarde, nos EUA, a ‘classe média’ foi criada para escoar os produtos que resultaram da produção industrial cada vez mais abundante. É capaz de ser um sistema injusto, de acordo. Mas não é um estrago colateral, uma imperfeição fortuita.

  8. ZE LOPES says:

    A maior parte dos comentários que aqui tenho visto estão imbuídos de preconceitos em relação aos milionários. Porquê?

    Eu não tenho nada contra os milionários. Até acho que cada português devia ter um milionário!

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