A propósito do nepotismo e do “mérito”

O Manuel Antunes tem 51 anos, completou o 9º ano e assinou no mês passado um contrato com uma empresa de trabalho temporário para servir à mesa num barco de turismo a troco de um chorudo salário de setecentos e poucos euros. O filho do Antunes chama-se João, tem 22 anos, e o pai meteu uma cunha ao chefe de mesa, que meteu uma cunha à mesma empresa de trabalho temporário, que arranjou um part-time ao filho do Antunes como guia turístico, a ganhar quinhentos e tal euros líquidos. Mais gorjeta. A filha do Antunes, a Matilde, está emigrada em Inglaterra desde o ano passado e também arranjou emprego numa loja através de uma multinacional de recrutamento. Paga a comida e o quarto e põe de lado uns trocos para as visitas a Portugal na Ryanair. O primo do Manuel Antunes, o Pedro Cunha, tem 42 anos e trabalhou até ao final do ano passado num call center de uma empresa de telecomunicações. Dedicou-se ao vinho e à heroína e agora está internado num hospital público à espera da morte. A mãe do Pedro Cunha tem 76 anos, é viúva e vive num casebre alugado que paga com a reforma de quatrocentos euros, enquanto vai resistindo ao assédio dos promotores imobiliários que a visitam todas as semanas e a tentam expulsar da sua casa em Miragaia.

A árvore genealógica do Manuel Antunes há-de ter raízes na família do D. Afonso Henriques, ou no próprio Adão, mas aquilo que está à vista, até à décima geração, é uma linhagem de gente falhada que se reproduz por todo o lado, traficantes de influências enfeudados na reprodução da miséria, conluiados na cunha despudorada por um “emprego” ou um biscate que lhes vá permitindo vestir os filhos e dar-lhes de comer – pouco e mal – e dormir entre quatro paredes, sob um tecto, em frente à televisão ligada no programa da Cristina. Este nepotismo dos vencidos, esta verdadeira endogamia da desilusão e do desespero da gente que mal toma banho, é o espelho de uma conspiração de falidos que vão transmitindo uns aos outros, em circuito fechado de consanguinidade, como uma doença hereditária, ao longo de gerações, o segredo e o privilégio de uma vida dedicada à mera sobrevivência, longe dos afazeres angustiantes do “mérito”, da “confiança” e da “competência”, do contrato vitalício com o Estado ou com empresas que vivem de o sugar. Longe do Colégio privado das crianças, da prestação do Porsche, da segunda casa em Monte Real, das férias na Indonésia, dos fins de semana nas praias da Croácia, das viagens “à Europa”, das bodas na Sardenha, da vernissage na embaixada, do camarote no estádio, da offshore no Pacífico.

O Antunes é o verdadeiro traficante de influências e o símbolo maior do nepotismo que envergonha a República, pois é um reprodutor da sua maior contradição e do seu maior falhanço, um perpetuador desse privilégio imerecido que é estar vivo para carregar uma cruz.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Esplêndido.
    O Bruno, no seu melhor registo.

  2. Filipe says:

    Muito bom. Excelente texto.


  3. Excelente retrato de um povo miserável, lacaio dum sistema podre em que a pobreza se reproduz como se de erva daninha se tratasse…

  4. Eduardo Louro says:

    Boa, Bruno. Muito bom.

  5. César P. Sousa says:

    É daqueles textos que até apetece ler duas vezes.
    Parabéns Bruno Santos !

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.