Tradições familiares

Dezembro de 2016. Jornal PÚBLICO.

Já em Dezembro de 2016 o jornal PÚBLICO chamava à primeira página as “práticas familiares” na Câmara Municipal de Gaia, liderada pelo “socialista” Vítor Rodrigues.

Dizia o jornal que “familiares directos do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, e do vice-presidente, Patrocínio de Azevedo, a adjunta da presidência e autarcas de juntas de freguesia, todos com responsabilidades políticas no PS, integram a direcção de três das principais instituições de solidariedades social do concelho, a quem a autarquia entregou o negócio das Actividades de Tempos Livres (ATL) nas escolas, que eram geridos pelas associações de pais.”

E mais adiantava o jornal que “a mulher do autarca, Elisa Costa, é vice-presidente da assembleia geral na Sol Maior, de cuja direcção faz também parte, como vogal, Margarida Rocha, adjunta do autarca e irmã do seu chefe de gabinete. Margarida Rocha, membro da comissão política concelhia do PS de Gaia, é um dos nomes apontados para integrar a lista à câmara nas autárquicas de 2017. Já o deputado do PS e presidente da Junta de Freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso, João Paulo Correia, preside ao conselho geral daquela IPSS, da qual faz ainda parte outro presidente de Junta de Freguesia, neste caso de Oliveira do Douro, Dário Freitas.

Mas havia mais: 

Mas há mais benefícios. A Sol Maior dá emprego a Armanda Moreira, mulher de Patrocínio de Azevedo do vice-presidente de Gaia e presidente da Olival Social, uma IPSS fundada em 2006. A teia familiar do vice-presidente estende-se ao seu pai, Manuel Azevedo, que é segundo vogal da assembleia-geral da Olival Social (outra parceira da câmara no Gai@prende+).

Concluía ainda que:

Apesar de negar que a Sol Maior recebeu subsídios da autarquia, o PÚBLICO sabe que Eduardo Vítor não só apoiou como votou pelo menos uma proposta nesse sentido. Trata-se de um apoio financeiro no valor de 4000 euros para a realização de um passeio à Kidzania, na Amadora. Eduardo Vítor votou a proposta juntamente com os restantes eleitos do PS. Por sua iniciativa, a câmara entregou ainda a coordenação técnica do Programa de Contratos Locais de Desenvolvimento Social (CLDS+) à mesma IPSS.

Tudo isto em aparente violação do Código do Procedimento Administrativo, ilícito que, no mínimo, deveria ter como consequência a perda de mandato do autarca.
Pergunta-se: quais foram as consequências registadas até agora? Perguntar é responder: nenhuma.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Isto faz-me recordar os nossos reis e o que se passava com os seus filhos bastardos.

    NOTA – Não estou a chamar bastardo a nenhum dos insignes personagens referidos neste texto, até porque os mentores da situação também não são reis. Quando muito, serão reizinhos…

    Diz a história que todos eles – os filhos bastardos dos reis, pois claro – tinham posições de destaque na sociedade portuguesa, mas era fundamentalmente na Igreja e no Exército que ocupavam lugares importantes.

    Vejo nesta história toda um pouco do Portugal “cut e edited” umas centenas de anos mais tarde, onde a modalidade Igreja e Exércitos, são substituídos pela administração pública..
    Mas há uma diferença. Os reis eram-nos impostos. Esta gentinha que faz papel de “reizinho” é eleita. Abram-se os olhos e escolham-se as companhias.
    Da minha parte, não obrigado.

    • Nuno M. P. Abreu says:

      Caro Ernesto:
      Recordo Sancho I. Foi pai de dezanove filhos. Onze da mulher, a rainha Dulce, e oito de duas amantes. Cuidadoso, depois de abandonar a primeira amante, casou-a com um dos mais importantes ricos homens do reino, Gil Vasques de Soverosa. Da segunda amante, a Ribeirinha, teve seis. Antes de morrer, nas cortes de Lamego, de 1208, doou-lhe Vila de Conde. No testamento deixou em dinheiro, morabitinos, uma fortuna a cada bastardo. A Teresa Sanches, bastarda, filha da Ribeirinha, casou-a com Afonso Teles, herói da célebre Navas de Tolosa a quem, como dote, doou o castelo de Albuquerque, junto a Badajoz. Daqui nasce a família Albuquerque donde surgem figuras importantes na corte Portuguesa, entre elas o 1º conde Barcelos com quem é criada Inês de Castro e, sobretudo, Teresa Martins que foi a titular do padroado da freguesia onde nasci que casou com um bastardo de D Dinis, Afonso Sanches, trovador insigne que era tão estimada pelo pai que ia provocando uma guerra civil que só uma Santa, Isabel, apaziguou. Nasceu aqui pertinho donde vivo, e, com Teresa Martins doaram o padroado da minha freguesia ao mosteiro de Vila de Conde que haviam fundado e onde se encontram sepultados, apesar de terem morrido em Espanha onde se refugiaram para fugir à ira do legítimo Afonso IV.
      Tudo isto para concluir que viver numa bastardice aristocrática não é mau de todo e que pelos vistos faz parte da nossa idiossincrasia. Ter o poder miscigenado nesta familiaridade e javardice, desculpe, bastardice, faz parte do nosso ADN.

      • Paulo Marques says:

        «Tudo isto para concluir que viver numa bastardice aristocrática não é mau de todo »

        Variava, não faltaram gerações mortas em guerras por títulos.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Caro Nuno M.P. Abreu.
        Tem razão no que toca à bastardice ou javardice, mas isso não quer dizer que os críticos, como somos todos, nos não revoltemos com a situação.
        Mais não seja, pelo princípio determinista da História da Humanidade que define que esta (Humanidade) está em constante progresso desde que apareceu, progresso esse baseado na ciência, na fé e na razão.
        Ora, o problema é que esta casta de javardos ou bastardos apenas trabalha baseada na “fé” que estabelece que os consanguíneos são de raça pura, sendo todos os outros, um bando de impuros ignorantes 🙂
        E dizem-se socialistas. Imagine se não fossem…

        • Nuno M. P. Abreu says:

          Caro Ernesto:
          Sem dúvida que nos devemos revoltar contra a situação e, mais que revoltar, lutar contra ela com as armas que cada um dispõe. Só não acredito no princípio determinista da História da Humanidade. Depois de brilhantes civilizações da Mesopotâmia, de Acádios, Babilónios, Assírios ou, mais a sul, de Fenícios, Gregos ou Egípcios, isto sem esquecer, mais a ocidente, os Chineses, apareceram cá, para mergulharmos na noite medieval, vândalos, suevos, alános e visigodos
          Por isso temos que estar atentos Parecem estar a surgir sinais de novo eclipse do sol, provocado por pretensas elites, donas duma verdade cristalizada em dogmas, que, se surgir, não se sabe quanto durará.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Nuno.
            Permita-me que discorde. Obviamente que as civilizações antigas foram marcos únicos, mas não deixam de ser passos da evolução do Homem, com as suas grandezas e misérias.
            A queda que refere com a chegada dos vândalos, suevos, alanos, visigodos e outros, é uma consequência da implosão de Roma. Mas até isso é evolução, pois a certa altura o poder corrompe, o que leva à destruição do sistema vigente. O mesmo se passou, noutra dimensão, com a implosão da URSS e se passará, aqui com dimensões catastróficas, com a implosão dos EUA que acontecerá naturalmente.
            De resto, as próprias espécies evoluíram no seguimento de catástrofes naturais, podendo concluir-se que estes estados de ascensão e queda, mais não são que um esquema tipo sístole e diástole, que marcam a vida.
            Eu prefiro olhar a evolução a grande prazo e nunca no curto prazo, pois as transformações sociais sempre se fizeram e farão a passo de peregrino (dois para a frente e um ou dois para trás), pois o mais complicado, é vencer a resistência à mudança.
            Assim, basta ver o que se passava no último quartel do século XIX com a situação do operariado e a actual situação, para se perceber que, de facto, à luz da razão e da ciência (ponhamos a fé de lado) a evolução é um facto. O mesmo com as doutrinas políticas que vêm amadurecendo desde o século XVII com os filósofos ingleses e franceses.
            Não vejo, com toda a honestidade que, no longo prazo haja recuo. E o que hoje vemos, a que muito bem chama “novo eclipse do sol”, para mim, não passa disso mesmo, um fenómeno (negativo, decerto), mas passageiro. E depois disso, o sol voltará a brilhar.

  2. Nuno M. P. Abreu says:

    Isso são “peanuts”. Entre 1995, data em Armando Vara entrou para o governo, e 2009, data em que deixou de exercer funções no BCP, o seu rendimento DECLARADO, naturalmente sem os depósitos em offshores, cresceu 1200%

  3. Nuno M. P. Abreu says:

    Caro Ernesto:
    Eu não entrei propriamente em desacordo com o princípio determinista da história no seu caminho milenar. Só que quando o analisamos no espaço temporal das gerações de quem, com maior ou menor rigor histórico, podemos dar testemunho, o princípio não é assim tão evidente. Às vezes,comparando o que conhecemos dos nossos avós e vemos nos nossos netos em termos éticos, parece estarmos perante um retrocesso. Não que pessoalmente tenha queixa mas quis com a minha discordância alertar para esse facto e não teorizar sobre o tema.
    Sobre o aspecto tecnológico a evolução é tremenda. Sobre o aspecto da humanização, da interiorização de princípios éticos que permitam uma maior sociabilidade a evolução não foi tão significativa e muitas vezes retrocedeu.
    Shun foi imperador chinês que institui a ética como necessária na
    sociedade onde imperava . Ética nas relações dos governantes com os governados. Ética nas relações familiares. Ética nas relações sociais impondo o respeito pelos mais velhos, ou respeito entre um casal.
    Se os nossos governantes tivessem a consciência ética que Shum estabeleceu há mais de quatro mil anos, de certeza que não estaríamos aqui a discutir sobre o FamilyGate, nem nos apoiaríamos em inverdades para construir uma “verdade”.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Caro Nuno.
      Completamente de acordo consigo no que toca à ética. Tratar-se-á, provavelmente,do conceito que menos evoluiu com o tempo.
      Contudo, quando escreve sobre o relacionamento e comportamento ético entre avós, netos e filhos, penso que traz à liça, também, a questão da educação e das boas maneiras em sociedade.
      Não há ética sem educação e este será, provavelmente o grave problema que esta sociedade consumista e imediatista enfrenta, o que me conduz às frases que aqui deixei no primeiro “post” sobre esta matéria.
      Penso que a ética é um conceito muito lato, dependendo muito da formação de quem a administra e legisla. Ora hoje, todo o nosso panorama social está inquinado com a “política de caserna”, a mesma que vem gerando uma intrincada rede de interesses que, de tanto usados, se transformam numa espécie de “usocapião”.
      A justiça, seria quanto a mim, a balança que permitiria equilibrar as eventuais fugas, apoiada numa legislação independente. Quando temos a justiça que temos e os deputados membros de escritórios que legislam em casa própria, percebemos o que é a ética para aquela gente.
      E o sr. presidente sobre isso, nada diz… Fala em ética com aquele discurso vazio de cátedra que passa bem para quem não conhecer o meio e os actores, mas que não engana todos.

      NOTA: A classe política é maioritariamente inculta e, em termos de história, seguramente que não atingiriam nunca o mínimo requerido acima do básico. Shun, para eles, é um ser completamente desconhecido e o código de ética que gerou, manifestamente, mais desconhecido é e com uma certeza: nunca lhes interessaria discuti-lo, pois é “subversivo” 🙂

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.