Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna.

A vizinhança adulta, que tem de se levantar de manhã para ganhar a vida, depois de décadas a telefonar e a interpelar sem grande resultado as autoridades, vai resolvendo como pode o problema: instalando janelas de vidros duplos ou triplos, pedindo a médico amigo a receita regular de narcóticos eficazes ou abalando mal possa, de trouxa aviada e sem saudades, para bairros menos “académicos”, longe da movida.

Eu próprio, imitando tardiamente os vizinhos que há muito haviam desistido, desolados, tive no início as minhas conversas nocturnas com as autoridades, apenas para perceber a sua impotência perante um Estado e uma sociedade mais ou menos informalmente vocacionados para não incomodar as “criancinhas”, erigidas objecto, interlocutor principal e paradigma pelas máquinas de marketing do capitalismo mundial e tidas como intocável fonte de rendimento pelas cidades “universitárias” de norte a sul. Naqueles pouco convictos telefonemas, eu rapidamente passava de cidadão queixoso a voz amiga, como se tivesse sido o polícia a ligar-me na madrugada para falar das suas mãos atadas, para exorcizar os fantasmas da sua profissão.

As autoridades civis ou policiais não têm poder, ou não querem, ou na verdade não podem, porque, para todos os efeitos práticos, as dezenas, não raro centenas, de adolescentes ululantes que fazem a sua migração nocturna entre um balcão e outro, partindo pelo caminho alguns copos e garrafas, abanando sinais de trânsito como macaco no seu galho, percutindo por vezes tribalmente o que apareça de metal sonoro, possuem a noite, são donos da noite, naquele sentido meio hollywoodesco, meio criminal que tem o título do filme de James Gray com Joaquin Phoenix (digo eu, não me lembro do filme). As cidades “universitárias” são frequentemente reféns de uma percepção equívoca e condescendente do seu estatuto — como as cidades turísticas o são da sua própria cobiça — e ficam por isso reféns dos comportamentos daqueles que corporizam uma certa ideia de sucesso da cidade.

No meu primeiro ano aqui, tentei tirar algum proveito da situação e da irritação impotente que por vezes ela me fazia sentir escrevendo um conto com o título programático “Tiros na Noite”. Nele, como se imagina, um tipo vai para a varanda munido de carabina. O conto não era só mau porque partia de um impulso catártico, mas também porque procurava disfarçar a experiência, tornando-se assim artificioso e insincero. Julgo que teria feito melhor trabalho se me limitasse a exprimir nele o desejo real que sentia.

(Há um contraponto matinal àquelas duas horas estentóreas da madrugada. Temos também nas imediações um colégio com crianças e na hora do recreio o chinfrim é assinalável. Mas, seja porque o recreio tem lugar em pleno dia, quando, mesmo que durmamos, já não esperamos silêncio e há barulhinhos por todo o lado, seja porque a fonte de ruído são crianças, sem a capacidade de auto-controlo que esperamos ver nos aprendizes de engenheiros do ambiente, nunca na verdade essa outra berraria infantil nos impele a escrever contos infanticidas.)

Muitos anos depois continuo na mesma casa permeável a sons porque não sei ou não me interesso por planear o futuro, ou talvez porque me habituei a que o futuro viesse ter comigo e não me cabia portanto a mim considerar que mudanças são efémeras ou duráveis, que ia viver mais de quinze anos neste apartamento e era aconselhável por isso tomar providências no que se refere às janelas. É só agora que essa necessidade me é posta à frente e é agora, quando projecto recolher-me cedo, ao contrário do que era habitual, que a rush hour da minha rua volta a ser um assunto.

Se nesta década e tal sobrevivi mais ou menos incólume ao zoológico foi porque não era frequente estar a tentar dormir às duas da manhã. Noctívago, um pouco por profissão mas sobretudo por natureza, ou não estava em casa à hora estúpida ou estava suficientemente acordado para cobrir as orelhas com phones, se os instintos da bicharada ficavam ao rubro lá fora. Por isso, e porque na idade gorilar também eu corria Ceca e Meca à procura de um bar aberto, devia, talvez, sentir-me mais condescendente às duas da manhã. Mais identificado. Eu conhecia a alegria explosiva e tonta de uma noite bem passada e a frustração visceral, cava,de ter de mudar de pouso ou recolher ao estábulo. Não me era desconhecido o impulso de declamar quadras ou entoar hinos quando se declina o verbo beber, beber em grupo. E contudo havia então em mim um pudor que inibia quase toda a javardice, pelo menos a mais danosa. Não se tratava apenas de timidez, mas de uma consciência latente do outro, do que dormia e não devia ser acordado.

 

Seria uma questão de educação, a educação que os velhos dizem faltar hoje aos novos?

O modo antigo de educar tinha certas assonâncias com as experiencias de Pavlov. Se perante um dado estímulo adoptamos um comportamento que tem como consequência um estalo da mãe ou do pai, ao fim de certo vaivém da mão tendemos talvez a evitar esse comportamento perante o mesmo estímulo. Sendo a experiência suficientemente repetida, sendo os progenitores tão perseverantes na bofetada quanto Obélix ou as personagens do vídeo clip “True Faith”, dos New Order, é possível que a dada altura do crescimento o primata desenvolva uma espécie de reflexo que o iniba do tal comportamento, mesmo que já não haja mãos paternas a adejar por perto.

Contudo, este método tem efeitos perversos quando aplicado (literalmente, claro) por mãos erradas, abusivas ou elas mesmas néscias, podendo, além das equimoses, resultar em traumas psicológicos, prejudicando ou comprometendo o desenvolvimento intelectual ou emocional das crias, e por isso foi abandonado em favor de métodos mais human friendly — cuja eficácia no longo prazo, a bem dizer, podemos não ir a tempo de avaliar, já que a experiência pode acabar com o mundo como o conhecemos.

 

Porém, na minha educação, salvo excepções, não houve personagens azuis a massajar-me a cara. Houve, sim, tios a dormir até um pouco mais tarde que não deviam ser acordados. Não me recordo de nenhum de nós, irmãos e irmãs, ter sido esbofeteado se andava a fazer barulho nas imediações do quarto dos tios. Talvez o meu comportamento respeitoso viesse de uma outra fonte, tivesse outros estímulos a formatá-lo.

Os tios regressavam apenas em períodos festivos à casa materna onde vivíamos (Natal, Páscoa, sobretudo nas férias do Verão, em Setembro), pelo que não havia nada de estranho no facto de por vezes gostarem de dormir até mais tarde. Sabendo de resto nós que as noites de vigília deles costumavam ser prolongadas, para os padrões da época. As primeiras horas da manhã, se calhava nós próprios levantarmo-nos cedo, eram passadas em necessidade de autodomínio, baixando tanto mais a voz e o tropel quanto mais nos aproximássemos da ala nascente da casa. A “ala nascente”, dita assim, remete para palácios ou solares e nada podia estar mais longe disso do que a nossa casa.

Tanto quanto recordo, ou quanto a minha memória inventou, a casa, a nossa parte somada à dos vizinhos, tinha sido uma estalagem, construída em pedra pelo segundo marido da minha bisavó quando a nossa rua era o caminho principal entre Vila Real e Chaves.Tinha uma forma rectangular com um pátio central interior, como nos filmes, para onde dava um varandim em madeira correndo por todo o perímetro. Poderia ter sido um corral de comedias se o destino pretendesse antecipar com fatuidade o meu posto de trabalho dali a muitas décadas.

Já não vi o edifício assim, nasci ali, no quarto onde dormi toda a infância e parte da adolescência, depois de ele ter sido repartido por três ramos da família, mas julgo recordar certas zonas da fronteira com o primo vizinho a sul onde ainda se percebiam portas ou corredores mal tapados por onde se ouviam distintamente as conversas. E tenho quase a certeza de me lembrar do pátio, entrando pela casa do vizinho e vendo de dentro e de baixo ainda uma parte do varandim.

O quarto dos tios, a ”ala nascente”, tinha uma janela pequena para a rua, duas camas e um pesado guarda-fatos, que ainda lá estava há pouco tempo e durante duas décadas alimentou as minhas fantasias. Entrávamos no quarto só quando os tios tinham partido, inicialmente com uma curiosidade e uma reverência próprias de membros de castas inferiores. Os tios faziam vida em Lisboa e em Braga, tinham pronúncias, modos, hábitos, roupas, interesses e posses muito diferentes e, para nós, muito mais ricos e sofisticados do que os que conhecíamos do bairro.

Tínhamos-lhes respeito, aos tios, de uma forma que era comum na época, o respeito não só devido aos mais velhos mas ainda aos mais importantes e poderosos. E eles agiam como se contassem com esse respeito, não exigindo-o, mas tomando-o como natural.

Mas já não havia nada de esplendoroso na casa quando os tios vinham de férias e, se o quarto onde eles dormiam parecia um pouco melhor ou emanava algo de distinto, era pelas suas águas-de-colónia, pelos seus odores corporais e pelo odor das suas roupas, matizados de lugares e vivências distantes, que perduravam como a fama de ilustres.

O quarto dos tios tinha assim duas existências, que faziam dele uma coisa ambígua, ambivalente, nuns períodos do ano era apenas mais um compartimento da casa, noutros era um mundo à parte, cheio de requinte e mistério. Quando eles vinham para férias, simplesmente não entrávamos no quarto e ficávamos muitas vezes a imaginar, não de uma forma promíscua, a vida lá dentro, os novos objectos, roupas e gestos que o ocupavam juntamente com os tios. No resto do ano, entrávamos quotidianamente — até porque, além do terraço, a que não dava jeito aceder quando chovia, aquela era a única janela por onde se podia espreitar a rua — e espiolhávamos com regularidade, meio clandestinos, maravilhados com o mundo de fantasia em que aquele guarda-fatos nos introduzia, como o armário de Nárnia. Sobre o guarda-fatos escrevi há uma década, num romance ainda inédito, um trecho que partilho não sei bem a que propósito (talvez por nostalgia dupla, da adolescência e do tempo de redacção do livro):

 

Havia um guarda-fatos lá em casa que era como o baú de um mágico. No seu metro e meio de largura de madeira sólida, continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças, coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava, porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, de várias épocas, como estratos geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais, uma variedade de cachimbos — sobretudo mistérios. Por cima do armário amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.

Recorri àquele móvel em diferentes fases da minha vida. Inicialmente usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida. Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse. Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência, nos anos oitenta, morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.

 

A meio das manhãs de Verão (é quase sempre do Verão que me lembro, como se nas outras estações a minha memória hibernasse), os tios apareciam para lavar os dentes, fazer a barba, as suas abluções. Por vezes os seus apetrechos de higiene e beleza ficavam pousados na prateleira de vidro que havia sob o espelho da casa-de-banho e eu, que possivelmente já tinha a minha própria escova dos dentes e sabia vagamente para que servia, punha-me a olhar para eles com uma perplexidade bovina, como quem vê pela primeira vez um microscópio electrónico de varrimento ou o módulo de alunagem da Apollo. Não era tanto a utilidade dos instrumentos, frascos e bisnagas que me intrigava ou fascinava, mas o que a partir deles podia imaginar das vidas dos meus tios. Ou como a partir deles podia intuir todas as distâncias que nos separavam, idade, vivências, geografia, saber, bens materiais, autonomia, poder.

(Que os tios tivessem por hábito regressar à casa materna em vez de se hospedarem nalgum hotel ou pensão da terra, devia ter-me suscitado mais cedo reflexões sobre a ilusória divisão de classes. Que o tio A., para mim naquela altura símbolo de sofisticação e riqueza, partilhasse um quarto com o irmão adulto e se lavasse e excretasse na única casa de banho da casa, que todos usávamos, devia ter-me mostrado antes, não apenas que a noção de riqueza e sofisticação varia com as diferentes épocas, mas sobretudo que a natureza humana é de base biológica igualitária.)

Na altura respeitavam-se por norma os mais velhos, pelo que não havia nada de muito especial connosco, o ambiente cultural da época teve decerto influência sobre nós como sobre a maioria dos outros da nossa geração. É certo que havia, se não conhecimento directo e doloroso, notícia de castigos que por vezes eram infligidos aos que quebravam esta regra. A presença tutelar e sinistra do Estado Novo, na sua versão pater familias, inquestionável e incontestada, também ainda se fazia sentir, apesar do 25 de Abril. Mas não vivíamos aquela relação com terror ou ressentimento, não demasiado. Pelo menos não nos sentíamos particularmente oprimidos por termos de ser bem-educados com os tios e de os deixar dormir enquanto entendessem.

Com o tempo, com o nosso desenvolvimento e a convivência mais regular com os tios, o abismo diminuiu e com ele diminuiu, não o respeito, mas talvez a reverência. Lisboa e Braga já não eram para nós planetas de outras galáxias e de repente já sabíamos o que era after-shave e brilhantina, máquinas de barbear e elixir bucal, e já sonhávamos com o nosso próprio Old Spice, já arriscávamos, entre nós, satirizar uma ou outra vez a idiossincrasia dos mais velhos, sobretudo, precisamente, a dos tios. Não se tratava do nosso próprio e doméstico 25 de Abril, mas de uma saudável evolução que tendia a deixar-nos ainda relaxados. E no entanto, perdida a veneração e o que havia de respeitinho, continuávamos a não acordar os tios quando eles dormiam em horários desfasados dos nossos.

 

Por essa altura, começámos a fazer as nossas próprias férias em Setembro, descendo ao Estoril, onde um outro tio, do outro lado da família, de carácter jovial e afável, dava à vez abrigo a um par de nós para uns dias de praia. Também aquela casa meridional tinha a sua “ala nascente”, um quarto proibido onde se hospedavam dois sujeitos que trabalhavam de noite e dormiam de manhã e ajudavam a pagar as contas da casa. A ordem castrense da minha tia para que ninguém se aproximasse do quarto e controlássemos o frenesi matinal de torradas, calções, toalhas e chinelos poderia ser um eco da nossa própria casa e da necessidade de se respeitar quem dorme, mas não me recordo que algum de nós tenha em qualquer momento feito essa análise. Era simplesmente assim, alguém dormia, os outros procuravam não incomodar.

Estes habitantes da outra “ala nascente” eram ainda mais distantes do que os meus tios, já que raramente ou nunca os víamos: quando eles se levantavam nós estávamos na praia e quando chegavam estávamos a dormir ou fechados na sala a ver televisão — com volume moderado. Eram, por outro lado, um pouco mais próximos de nós em condição, com idades mais próximas e com profissões subalternas que mais facilmente seriam as nossas quando chegasse o nosso tempo. Mas não era por isso, por essa potencial identificação, que púnhamos maior empenho em não os acordar de manhã, assim como a partir de certa altura não era a “respeitabilidade” etária e de status dos nossos tios que modulava o nosso silêncio matinal ou, mais tarde, noctívago. Achávamos sobretudo natural o requisito em ambas as casas de respeitar quem dorme.

 

Anos mais tarde os meus irmãos rapazes e eu fomos dormir para o quarto dos nossos tios. Julgo que durante um tempo ainda éramos desalojados quando eles vinham de férias, mas a certa altura um deles fez casa em povoação vizinha e esse problema resolveu-se. O quarto tinha já perdido grande parte da sua aura, ou nós encarregámo-nos de a desvanecer, ocupando o espaço como o fazem os adolescentes. É certo que o guarda-fatos manteve a sua autoridade, nunca o chegámos a esvaziar de todas as roupas e mistérios que os tios ali tinham deixado (o que, como já referi, teve a sua utilidade), mas o calendário antigo e longevo com uma paisagem suíça passou a ter por companhia, nas outras paredes, posters de ídolos musicais. A Kim Wilde, que acumulava com ser musa sexual, ainda há meia dúzia de anos se mantinha no seu posto, apesar do tecto abaulado, paredes descascadas e soalho esburacado, sem envelhecer um dia, apenas com uma das pontas descolada e algo cabisbaixa, de beicinho, o que não sei se diz mais sobre a qualidade do papel alemão (era de uma revista Bravo, de certeza, com aquele cheiro tão diferente de tudo o que havia em Portugal, mas isto é matéria para outro texto) ou sobre a perseverança da fita-cola produzida nos anos oitenta, que as décadas seguintes tão vilipendiaram. (Esperem, isto aconteceu foi com a musica…)

Talvez por termos ocupado o quarto e as camas dos meus tios, teve a minha pobre mãe a vida infernizada a cada manhã de aulas dos anos seguintes. Ela pretendia acordar-nos a tempo do autocarro (naquela altura chamávamos-lhe “carreira” e tinha um pica de fama severa mas para nós paciente que mais tarde, consta, se tornou bispo da IURD) e quando a mãe vinha acordar-nos nós reivindicávamos mudamente, estremunhadamente, repetidamente, o estatuto de pessoa-que-não-deve-ser-incomodada-no-seu-sono. Subiu-nos o lugar à cabeça, como se ocupássemos também os sapatos dos tios (o que na verdade fizemos algumas vezes).

Devo dizer que a experiência do sono interrompido era traumática sobretudo para a minha mãe, que tinha seis filhos para acordar e, apesar do desespero, não desistia de nos querer ver no liceu e nunca nos atirava água fria para cima, como merecíamos, nem chegava a ser rude, usava uma parte muito reduzida dos impropérios e imprecações a que tinha total direito, e dirigia-os mais à vida e ao mundo do que a nós, tinhosos diabos. Dificilmente poderia eu defender, por isso, que o meu pudor nas noitadas, o meu respeito pelo sono alheio quando eu era um cavalo à solta pelas ruas, ébrio e escoiceante, a forma contida como sempre me movi de madrugada nos apartamentos mal isolados que habitei, vinha de saber eu mesmo o quanto custa ser despertado à força quando se quer dormir.

 

De onde vinha então este autodomínio ou este reflexo condicionado, esta identificação ou solidariedade com quem dorme? Por que me mantive em níveis moderados mesmo quando a minha própria geração começou a embrutecer e, talvez abrindo caminho para o que aí vinha, dando o mau exemplo às suas próprias criancinhas, começou a levantar a voz na noite, a ensaiar os seus próprios urros ou pelo menos a não conter as gargalhadas histéricas que o álcool exigia?

 

Recordo como ainda novo achei injusto ter corrido o risco de levar com alguma coisa em cima quando na esplanada de uma pensão, às três da manhã, um involuntário noctâmbulo despejou o seu jarro ou penico (nunca tivemos plena certeza) sobre o discurso e o riso excessivos do meu companheiro de noitada. Eu ria-me e estava tão empolgado quanto ele naquela noite, desejando provocar o mesmo efeito nas raparigas que tinham há pouco subido para os seus quartos, mas não conseguia ignorar que ali dormiam os pais, avós e outros hóspedes e por isso moderava-me. (Salvou-nos o guarda-sol, que naquela altura ninguém se dava ao trabalho de arrumar ou fechar à noite.)

 

É uma coincidência inquietante, e dá uma útil rotundidade a este texto, que a única vez (única que agora me lembre, claro) em que dei por mim a ser sonoramente importuno no espaço público tenha acontecido em sequência de uma visita clandestina a uma festa de estudantes universitários. Eles reuniram-se uma ocasião no Casino para ouvir compenetradamente o mestre de culinária Quim Barreiros (que começou na altura a ser o mais citado nas sebentas académicas, nas sebentas festas académicas, quero dizer, lembro-me bem de como ficou o chão) e o nosso baterista e eu fomos até lá. Eu já tinha deixado a tropa mas o meu semestre único de Engenharia Florestal ainda vinha longe, pelo que muito daquele mundo a preto e branco, mais preto do que branco, me era ainda distante, e a possibilidade de entrar num buraco com tantos espécimes de morcego à solta resultava sedutora para o cientista que havia em mim. Feito o estudo de campo, o baterista e eu saímos com material confiscado para posterior análise, designadamente um garrafão, que fomos continuar a beber para a rua onde eu morava e onde havia um posto da GNR. Quando fui a dar por mim, e perante certa perplexidade do meu companheiro, estava agarrado ao mastro da bandeira com pose de Gene Kelly em Serenata à Chuva, de garrafão na outra mão, cantando a altos brados o hino nacional. Valeu-nos o piquete de guarda estar já, na sua prontidão, a ensaiar a complacência que viria a caracterizar neste campo as forças da ordem duas décadas e meia depois — ou simplesmente ter o sono pesado.

Comments


  1. Eta, que bom ! Aventar assim é prazeroso de se ler uma e mais vezes, Rui A. Araújo . Bem haja.

    Que de infância e crescer semelhante me vai ainda na alma a recordação e o sentimento, e tanto !!

    A qualidade de vida, os valores de família, o respeito cívico que por osmose se instalavam na nossa formação porque sim, porque era assim e pronto, esse era o nosso mundo.

    Tão diferente deste viver de há décadas até hoje, e desta Coimbra falo por tristura e saudade de um bem que definitivamente se perdeu.

    Exerço cidadania interveniente junto das autoridades responsáveis sobretudo pela preservação e direito de vida colectiva em civismo e decência nesta cidade dominada por interesses de lucros, alguns em economias paralelas fraudulentas quase permitidas de tão abundantes de prestação de serviços a estudantes e turistas !
    ( Autarquia, PSP, Min. do Ambiente, Min. da Admn. Interna … ) de que segue infra um exemplo, e tenho obtido alguns resultados mas que não permanecem e se esvaem de novo nesta promiscuidade de interesses e comportamentos que por aqui se instalaram também, como em todo o lado.

    Ex. de uma das várias intervenções que lamentavelmente deveriam ser de muitos mais que apenas se queixam entre si :

    …” Exmo. Senhor
    Comandante Distrital da PSP de Coimbra

    Pelo grato reconhecimento e sabendo-o nós pelo referido por Vª Ex.ª como sendo que
    “ Para uma maior eficácia da nossa acção, e … de modo a contribuir para um aumento do sentimento de segurança e da consequente melhoria da qualidade de vida dos moradores, esta Polícia irá desenvolver esforços no sentido de reforçar a vigilância “ ,
    vimos de novo solicitar a Vossa atenção no sentido de serem cumpridas regras a estabelecer firme e rigorosamente pela Câmara Municipal de Coimbra, a quem compete acima de tudo essa obrigação, para que seja respeitada, que não o tem sido e cada vez pior, por jovens supostamente estudantes universitários e que estão de passagem por esta Coimbra que não é deles mas nossa, munícipes e habitantes, e na qual viver aqui se tornou numa menos valia de condições de vivência digna com a qualidade mínima por direito de cidadania adquirida e exigível firmemente, aqui sobretudo no centro histórico aonde somos ainda por cima castigados a pagar maior valor de IMI, sendo esse o critério desta Câmara M. .

    Tudo isto porque esta semana que decorre, e em nome de supostas “festas académicas” que já nem sequer fazem sentido algum pela selvajaria subjacente que nelas reside e se vai agravando,
    tem sido para nós um martírio constante, sobretudo nocturno, com comportamentos lamentáveis e preocupantes de jovens em bebedeiras coletivas e de infracção de todas as regras de respeito e civismo que lhes serão inerentes, mas das quais se auto-excluem, em que cantos obscenos e gritaria selvagem perturbam o nosso direito ao descanso até madrugada, agravado ainda porque em qualquer portão ou paredes privadas acontecem descargas urinárias sem pudor nem respeito algum deles e delas, lixo de toda a ordem arremessado em atitudes de vandalismo para o chão, e como se isto não bastasse já e sobrasse,
    e COM PERMISSÃO CAMARÁRIA ( ! )
    , sem regras a cumprir como acontece em qualquer cidade e país civilizados, com nível de decibéis a ultrapassar em MUITO o permitido por lei estabelecida, durante toda a noite sem limite razoável de horas sequer estabelecido, um ruído ensurdecedor , que nem música lhe chamaremos, emprenhado de poluição sonora, ecoa brutalmente das margens do Mondego invadindo agressivamente a cidade e arredores, como o sabemos por habitantes locais, sendo e constituindo crime civil de evidente já referida poluição sonora, particularmente agressiva e malfazeja sobretudo para os habitantes de todo este centro histórico que deixa tanto, mas tanto a desejar no sentido de dever ser considerado zona nobre da cidade a proteger em todos os aspectos, e ainda por cima classificado como “património da humanidade” !!
    Eram as cinco da madrugada desta (mal) passada noite de sexta fª para sábado , e havia pessoas a telefonar e a reclamar em vão para o telefone automático de reclamações da Câmara e para a PSP, como foi o nosso caso, porque não conseguiam dormir como justa e merecidamente necessitavam ! será que hoje e durante todo o resto de dias e noites que se seguirão este martírio continua e continuará, sendo, como o é, considerado crime público cometido impunemente e com complacência para não dizer concordância da CMC ?
    … acrescido ainda à perturbação local por comportamentos anti-civismo já referidos acontecida aqui desde o início da semana e que se irá prolongar até quando não sabemos,
    mais tarde tudo isto se repetirá, porque já é habitual, e em crescendo, de há anos para cá, aquando da ainda, mas já sem justificação, designada “Queima das Fitas” em que, como tem acontecido, a Câmara permitirá e acautelará e até incentivará com recursos de todos nós a diversão nocturna /festejos “tradicionais” académicas sem regras sobre as quais, se as houver escritas, não tem havido competências de empenho sério, nem meios, nem condições, nem garantias de fiscalização a fim de serem cumpridas !

    Pedindo desculpa por nos termos alongado, mas porque tencionamos enviar igualmente em Cc para a Câmara Municipal/Ambiente, Polícia Municipal, e sobretudo pessoalmente para o de novo reeleito Presidente da CMC, e assim como para outras entidades públicas e políticas ligadas a Coimbra, e até, assim o entendemos, para os Ministros do Ambiente e Administração Interna, e em Bcc para outros, a elaboração espontânea e irada e por isso provavelmente imperfeita e/ou criticável, mas necessária, e magoada pela fadiga de corpo e alma desta exposição problemática assim o exigiu, permitiu e condicionou,
    enviamos a os nossos melhores cumprimentos de cidadania, agradecendo desde já toda a atenção e cuidados solicitados .
    Respeitosamente,
    xxxxx

  2. Julio Rolo Santos says:

    Estes são aqueles estudantes que reclamam o fim das propinas e, enquanto não acontece, vão sugando os pais para o esturrarem nos copos e bucha. São os futuros deputados da nação porque não teem competência para mais.


  3. Certeiro, caro Júlio ! lamentavelmente é o que temos !!


  4. Sendo brasileira, neta de avó portuguesa, senti seu texto como meu, em parte. A mesma maneira de sentir a vida. A sua deve ter sido (e estar sendo) plena como a minha. Salve amigo de Portugal!!!

Responder a Isabela Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.