Kramer contra Kramer

É sem surpresa que se verifica a tentativa de fazer do Comendador Joe Berardo o “bode expiatório” da gigantesca rapina de que foi – e é – objecto o povo português.

Quem tenha assistido à audição do empresário na II Comissão de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, terá ficado a pensar que de um lado estavam os representantes da República e do Estado Português, e do outro lado um milionário habilidoso procurando iludir as suas responsabilidades. Mas não foi isso que sucedeu. Na verdade, de um lado estava o Estado a fazer perguntas e do outro estava também o Estado, representado pelo senhor Comendador Joe Berardo, a responder a essas perguntas de modo juridicamente adequado. Ou seja, estava o Estado a fingir que inquiria o Estado e este a fingir que respondia.

Não é fácil, convenhamos, descobrir um caminho virtuoso neste jogo de espelhos. Mas pior é continuar a permitir a grotesca impunidade daqueles que, em nome e representação do Estado e da República, são cúmplices da rapina e da destruição do património comum, rapina e destruição que servem depois como argumento falacioso para esmagar os direitos da população que é seu dever servir.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Assino por completo o seu post.
    Efectivamente estamos perante uma sequela de “Kramer contra Kramer”, agora desempenhada por dois Kramers verdadeiramente desonestos.
    E volto ao que por aqui venho deixando: votar neste cartel que faz lei para nos depenar, é um exercício grotesco.
    A única forma de os deixar a pensar é quando for contabilizado em eleições, 80% ou mais de votos nulos ou brancos (nulos de preferência, porque esta gente é perigosa).

  2. Paulo Marques says:

    Ao menos é giro ver a cara dos deputados ao descobrirem o que é o capitalismo desregulado. Não que aprendam alguma coisa com isso.


  3. “(…) Na verdade, de um lado estava o Estado a fazer perguntas e do outro estava também o Estado, representado pelo senhor Comendador Joe Berardo, a responder a essas perguntas (…)” !


  4. “…..estava o Estado a fingir que inquiria o Estado e este a fingir que respondia.”…….

    Exactamente, Bruno Santos !
    Cumprimento com 5 * a sua certeira análise crítica a esta grotesca e lamacenta impunidade desta cambada cúmplice da rapina e da destruição do património comum cujo saque ainda teremos que ser nós a pagar !

    ,,,!, ” dislexias ” da honra e de outros deveres e obrigações de cidadania que espezinham !

    Vieram todos da mesma caverna !

  5. Bruno Santos says:

    Aqui a coisa é delicada. Estamos no âmbito daquilo que em estrangeiro se designa por “Deep State”. Nada que verdadeiramente queiramos conhecer.

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