A ideologia da decência

A decência – a mera decência – não é característica que exija santidade, que faça andar o paralítico ou o cego ver. A decência não é um milagre nem viaja até junto de nós num raio cósmico vindo de outros sistemas ou galáxias. A decência é um módico atributo da simples humanidade, um asseio que a separa das bestas, as quais, porém, manifestam amiúde graus de decência que uma boa parte dos homens não alcança.

No alegado fim das ideologias, aquele ocaso onde a humanidade se encontra sem que dentro dela se distingam as ideias que cada um tem sobre o modo político de conduzir o destino de todos, sobram as distinções primárias, as diferenças matriciais, os fundamentos ontológicos que separam aquilo que é e se mantém decente do que definitivamente resvalou para a irrevogável e definitiva indecência.

É essa, afinal, a batalha ideológica e política que resta – aquela que opõe os decentes aos indecentes. Mas as razões dos que preservam a decência já não podem exprimir-se ou materializar-se nas instituições, nas ficções sociais ritualizadas que dão corpo à democracia e ao Estado de Direito democrático, nos órgãos de poder aos quais cabe a interpretação da vontade colectiva. A decência teve o destino que Platão deu aos poetas da cidade. Resta-lhe tornar-se indecente ou construir um barco. 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “A decência teve o destino que Platão deu aos poetas da cidade. Resta-lhe tornar-se indecente ou construir um barco.”

    Apreciando bastante este seu texto, apetece-me contudo ironizar, escrevendo mais ou menos isto:

    Dessa forma, ou construímos um barco, estilo Arca do Noé, esperando pelo fim do mundo, numa espiritualidade permanente, à espera do céu que não existe(?), ou desenvolvemos um processo revolucionário agressivo, furioso, violento, quiçá mortífero, que começará por eliminar os presumíveis indecentes que vigoram no nosso espaço público, expurgando a república desses tumores, até emergir num futuro próximo uma nova casta de indecentes, uma qualquer nomenclatura que se respaldará das agruras do processo revolucionário, como se de uma casta à parte, se tratasse.
    O Mundo foi sempre construído dessa forma, até aos dias de hoje, ainda que com mudanças drásticas nos hábitos e nos costumes das sociedades, mas com uma base indissolúvel, o ser humano e as suas múltiplas fraquezas.
    Este seu texto enquadra-se, para mim, numa reflexão filosófica sobre os comportamentos dos nossos Comendadores e políticos que gravitam à sua volta, e são vários, tudo gente indecente, mas promovida pelos média e pelas elites dominantes a gente insuspeita e de uma decência fora do comum. Daí a medalha ou comenda.
    Apetece-me dizer-lhe que em Portugal, a Ideologia da hipocrisia faz mais estragos do qualquer outra ideologia.
    Acredite em mim, que eu pouco letrado, mas não sou estúpido.

  2. Bruno Santos says:

    Obrigado pela reflexão. Apenas uma nota: o barco a que me refiro é o Argo, não a Arca.

    • Ana Moreno says:

      Que belo post, Bruno, a expressar um sentimento que tão intensamente se sente todos os dias, a cada confronto com os outros e com as realidades. Só a sensatez corrige esse sentimento, porque entre o preto e branco dos decentes e dos indecentes há uma grande cinzentura de em geral decentes, pontualmente indecentes. E vice-versa.
      E que belo comentário Rui, à altura.
      Até há uns anos atrás, acreditava eu que o ser humano era mais bem intencionado do que indiferente, mais solidário do que egoísta; para minha própria derrota, acabei por concluir que, no cômputo geral, é mais mesquinho que altruísta.
      Só me consola saber que não sou boa a matemática.

  3. Nuno M. P. Abreu says:

    Peço desculpa, mas de vez em quando venho a este fórum e por vezes não aguento, tanta moxinifada!
    A decência não é um MÓDICO atributo. A decência é uma construção nobre de um animal da espécie homo sapiens que demora dezenas de milhares de anos a objectivar e demorará milhares de anos a universalizar-se.
    A humanidade não é simples mas uma especificidade da animalidade que nos constrói e que constitui a nossa essência.
    O fim das ideologias não constitui o ocaso da humanidade, mas um passo importante no caminho da evolução, na tomada de consciência pelo homem de que não precisa de credos que o dispensem de pensar ou de deuses para acriticamente adorar.
    As distinções primárias ou matriciais significam exactamente ideologias e o seu fim permitirá a cada um a capacidade de formular uma ideia para a condução do destino de todos e concatená-la com as dos outros de forma a objetivar o futuro.
    Não existe qualquer batalha ideológica e política final entre os decentes e os indecentes. Existe uma batalha interior em cada um de nós para, em cada dia que passa, estar mais distante da besta que somos, rumo a uma angelicaçao, que profeticamente todas as religiões anunciam.
    Porque, por mais volta que se dê, nós somos constituídos por genes egoístas, como refere Richard Dawkins, e demoraremos ainda séculos a produzir uma enzima, a decência, que seja genética.

    • Paulo Marques says:

      Huxley e Orwell escreveram que chegue sobre mundos sem ideologia, e a aceitação acrítica durante décadas de uma teoria económica com falhas cada vez mais notórias (fim da história, lol) só os corrobora.

  4. Nuno M. P. Abreu says:

    “Aldous Huxley não mantinha nenhuma crença ideológica específica a não ser talvez uma noção bastante flexível de humanismo, já que ele via a ideologia pelo que ela é: um meio para um fim, com o fim sendo o controle absoluto sobre o próximo. Sendo assim, ele “declarou guerra” contra ideologias ao escrever contos bem-humorados a respeito delas”

    “George Orwell foi inicialmente um socialista, tendo servido na Guerra Civil Espanhola, mas acabou por tornar-se um tanto desencantado com a corrupção e exploração socialista da boa vontade popular, fato que o levou a escrever “A Revolução dos Bichos”. Mais tarde, ao constatar horrorizado no que o socialismo tinha afinal se tornado, escreveu “1984”.

    • Paulo Marques says:

      A teoria de que o Orwell escrevia contra o socialismo em geral não passa em nenhuma cadeira de análise literária.
      Independentemente disso, é um facto que os livros analisam a despolitização de uma ideologia como solução final. Tal como a TINA no mundo real, os resultados são distópicos.
      Por muitas vezes que se faça de conta que não, o neoliberalismo é uma ideologia política, se quiser arranjo-lhe uma data de citações de órgãos e entidades neoliberais que ao mesmo tempo que dizem que a parte X não funciona, deve ser cumprida por que sim.
      Mais ideológico que isso, é complicado.

  5. César P. Sousa says:

    O fdp do socialismo tinha que levar uma “arroxada” !
    O Abreu nem dormia hoje descansado se não desse uma canelada no socialismo.
    Olof Palme era um INDECENTE socialista.
    Salazar era um DECENTE patriota.
    Como diria o INDECENTE Berardo : -Ah ! Ah ! Aaaah !

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