As Comendas, os que vão comendo e os que comem tudo

Vai, pelos vistos, séria e profunda a reflexão na Assembleia sobre os “deveres e obrigações” dos titulares de graus honoríficos, matéria em que releva actualmente a alegada dislexia do Comendador patriarca do Budismo do Bombarral ao qual, imagine-se, se dirige agora um “processo disciplinar” que visa retirar-lhe a comenda e a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique, este último às voltas no túmulo ante tanto escândalo institucional, tanta cruz, tanta comenda e tão pouco que comer.
Instrua-se, com a coerência que reste, igual e competente “processo disciplinar” aos que distribuem comendas, sempre às custas dos que são comidos, pelos que comem tudo e nada deixam a não ser esta República em feitio de comissão de garagem. Uma comissão de garagem que pensa poder disfarçar a sua falta de vergonha com tardios e artificiais “processos disciplinares” para retirar comendas a quem não apenas já comeu tudo, mas, acima de tudo, deu de comer a muitos dos falsos indignados de circunstância.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Num estado onde impere um mínimo de seriedade, o acto de atribuir uma comenda, não pode estar sujeito, frequentemente, à dúvida sobre as entidades a quem o título é atribuído.
    Em Portugal esses enganos são recorrentes, venham eles de pseudo comentadores presidentes ou pseudo presidentes comentadores e vamos assistindo a um circo do dá e tira que revela muito pouca idoneidade política por parte das entidades que atribuem a comenda.

    E vem-me à memória uma frase de Camilo, que embora seja referente à monarquia, tomo a liberdade de adaptar a esta república sem “rei nem roque”, pois, para nosso mal, nada mudou nas cúpulas que nos dirigem. Fica a frase:

    “A república actual corteja os ladrões reintegrando-os sob os tectos da casa da liberdade”.

    Aos tão ilustres analistas e pensadores políticos que por aí vemos a debitar o “catecismo da probidade” em qualquer rádio ou televisão, fica o desafio que é tentar perceber porque a frase de Camilo continua actual, 170 anos depois…


  2. 5 *, Bruno Santos !!!!!!

  3. Julio Rolo Santos says:

    Os comendadores que há por aí de pataco e meio são o verdadeiro espelho da nação que somos e do irrialismo que sobra a quem lhes poe a encomenda ao peito. Homens de cabedal bem nutrido mas á custa de sugarem os outros, não teem pejo em se considerarem os mais honestos á face da terra. São os “melhores empreendedores e uns verdadeiros exemplos para o país” é a justificação para a atribuição do galardão. De comenda ainda ao peito, afinal, vem-se a descobrir, que o galardoado não passa de um grande aldrabão. Joe Berardo está na calha mas outros, muitos outros se seguirão. Esperemos para ver.


  4. ….e hoje no Público António Barreto surpreende pela positiva :

    «O que também enfraqueceu o Estado democrático foram as privatizações e as reprivatizações que moldaram a política e a economia das duas últimas décadas. Feitas aparentemente pelas boas razões, por espíritos liberais, concebidas para libertar a sociedade e a economia, levadas a cabo com as melhores intenções expressas, acabaram por ser o leilão histórico de empresas, a destruição de algumas, a alienação irreflectida de outras e a entrega de poderes a grupos de predadores nacionais e estrangeiros. Assim se liquidaram, alienaram ou miniaturizaram empresas e sectores como os telefones, os cimentos, a electricidade, os petróleos, a rede eléctrica, o gás, os correios e outras.

    Catervas de políticos à solta, bandos de capitalistas (nem todos empresários…) e de traficantes de influência (nem todos ilegais…), associados a advogados e seus escritórios, ligaram-se ao poder político com mais profundidade e mais intimidade do que o Estado Novo salazarista ou o comunismo de Cunhal e Gonçalves e estreitaram o seu conúbio com dois partidos, o PS e o PSD. Governam a sociedade e a política. E até agora não encontram diante de si instituições livres, independentes e eficazes que lhes ponham travão. É o que faz um país vulnerável.»

  5. Julio Rolo Santos says:

    E, disse mais, Antônio Barreto. ” Estado frágil, país vulnerável. Não são só as famílias, nem os políticos. Perto deles, a par deles, às suas ordens ou no seu comando estão os escritórios de advogados poderosos, com meios e pessoas, com reputação e força, conhecedores de segredos de pessoas, de partidos e de empresas”. Publicado no Público em 19/05/2019. Coragem mas, sobretudo, conhecimento de causa.