Política de balneário

Num debate parlamentar ocorrido há uns meses, o senhor Primeiro Ministro, quando respondia a uma interpelação do líder da bancada do PSD, achou por bem referir, no contexto do irrelevante assunto em apreço, que ambos eram adeptos do mesmo clube de futebol.
Há uns dias, foi a vez do senhor Secretário de Estado das Finanças ir à televisão filosofar em estilo coaching e auto-ajuda transcendental sobre a operação de estrada levada a cabo pela Autoridade Tributária, a PSP e a GNR, fenómeno para a explicação do qual recorreu a frases lapidares extraídas de um discurso histórico proferido por um treinador de futebol em dia de festa. Hoje foi a vez de um outro Secretário de Estado comentar a circunstância nefanda de um jogador de futebol ter sido assobiado à chegada a um local de estágio.
Uma vez que toda esta gente há-de ter olhos na cara, estando por isso ciente de que quando fala na condição de membro do Governo da República se dirige ao detentor da soberania e não a uma jaula de símios, não será absurdo lembrar que um país não é um balneário, um cidadão não é um sócio de bancada nem membro de claque, e que ter responsabilidades governativas não é o mesmo que gerir um circo.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Já se percebeu que o sistema político está um caos.
    Até os políticos já perceberam, excepto o sr. das selfies que demonstra uma inefável preocupação com a crise da direita, mas manifestamente com pontaria desafinada.

    Os políticos com o uso das páginas sociais perceberam outra coisa: perceberam que sempre que um problema de ordem política ou social é trazido às páginas, muito pouca gente se cola no que toca à crítica / opinião.

    Por outro lado, até os políticos já perceberam que quando o assunto é a bola, os comentários, críticas, opiniões e até insultos, são mais que muitos, atingindo, com facilidade as três centenas, só porque um pássaro deixou ficar um buraco de 2 cm na relva de um estádio ou uma família de insectos dizimou uma ornamentação de plantas à entrada de um estádio qualquer.
    Isto sim, são temas importantes…

    O famigerado cartel político já percebeu que se quer passar mensagens, não pode descer ao cidadão. Basta descer à bola.

    Logo, no oportunismo muito clássico desta cultura política, o que há é que trazer a bola ao campo da política e ir de vez em quando assistir um jogo, levando assim a política ao futebol.

    Não me diga, caro Bruno Santos, que tal postura é, para si, estranha. Ela adapta-se à maravilha ao modo de ser, sentir e pensar deste cartel político.
    E olhe que tem chefes de claque… Basta ver o que o presidente da república disse, em inglês, da sua recandidatura …
    Os amigos são sempre para as ocasiões.

  2. ASantos says:

    Os políticos são todos uns malandros…”vox populi dixit” e os comentadores são todos sérios e impolutos.
    Os banhistas de Carcavelos entrevistados no dia das eleições europeias por um canal de televisão já tinham todos ido votar o que permite concluir que além de abstencionistas são mentirosos.

  3. Nuno M. P. Abreu says:

    Tem toda a razão Sr. Bruno Santos.
    Só falta acrescentar aqui um pormenor que talvez seja um pormaior. Eles, membros do Governo, são-no, porque foram lá colocados, democraticamente, pelos detentores da soberania.
    E quando muitos desses detentores se demitem da sua responsabilidade e pretendem apresentarem-se, apesar disso, como únicos donos da verdade, talvez esses membros tenham razão ao pensarem que foram eleitos porque muito do universo eleitoral ainda tem muito de simiesco