Este país não é para as pessoas…

Começo por dizer que não tenho qualquer interesse no prédio Coutinho em Viana do Castelo. Não conheço quem lá habite, não visito a cidade há cerca de 20 anos, escrevo por isso com total distanciamento e isenção sobre este assunto.
Ao que parece o município com o apoio do Estado, decidiu que uma obra devidamente licenciada, vendida aos proprietários há vários anos, por uma questão estética, estamos então a falar de gosto, o que é sempre discutível, deveria ser demolida e decidiu expropriar os proprietários. Não dei conta que alguém tivesse sido acusado pelo licenciamento ou construção da obra, nada pende sobre o construtor ou autarcas, mas sobre os proprietários que um dia compraram a sua habitação.
Pior, como vivemos num país onde existem sempre dois pesos, duas medidas, sempre que um proprietário pretende expulsar inquilinos para rentabilizar imóveis, aqui d’el rey que não pode ser, imediatamente a indignação toma conta dos noticiários, normalmente com o apoio de políticos ávidos por recolher uns votos na mercearia do bairro. Neste caso, o Estado pratica bullying sobre pacatos cidadãos e ninguém se parece importar por aí além. Se os vários municípios demolirem todos os mamarrachos que se construíram em Portugal nos últimos 50 anos, posso compreender a medida, de contrário, porquê apenas o prédio Coutinho? Porquê este desbaratar de dinheiro do contribuinte em indemnizações e realojamento?

Imagem superior: prédio caixa geral de aposentações – Viseu.
Imagem inferior: prédio com vista serra – Covilhã.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Uma visita ao Porto deixará ver dois edifícios considerados ilegais, mas que nunca foram tocados, eles também poluidores da visão e ainda mais, contrário ao que estão era definido em PDM.
    As obras em questão, a torre das Antas e o Centro Comercial do Bom Sucesso, mais conhecido como Shopping da cidade do Porto, que tiveram a autorização da edilidade municipal, na altura Fernando Gomes que, entretanto saiu da câmara para ser deputado nacional e europeu, provavelmente por recompensa de bons trabalhos efectuados.
    É um pouco assim por todo o país. Hoje prepara-se a torre de Lisboa em Almirante Reis e amanhã, um outro projecto megalómano virá, abençoado pelo autarca mais próximo de si.

    • António de Almeida says:

      Assim de repente e sem puxar muito pela memória, temos em Lisboa o edifício amarelo na zona envolvente ao Marquês de Pombal, destoando completamente da zona. Se pensarmos no barlavento algarvio, então abre-se uma caixa de Pandora…

      • Luís Lavoura says:

        o edifício amarelo na zona envolvente ao Marquês de Pombal

        Frequento essa zona e nunca reparei nesse edifício. Pode dar-me coordenadas mais exatas? A rua onde se situa, por exemplo.

  2. Anonimus says:

    A Catarina já foi defender os inquilinos?

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      Estes copraram os andares, pelo que são “capitalistas”. Ele só defende os “coitadinhos” que moram no centro da cidade a pagar 20 euros de renda. Porque “tem direito”.

      Ou então os que moram em prédios clandestinos, semi-construídos, com electricidade e agua “roubadas”. Porque também “têm direito”.

      • Carlos Almeida says:

        Independentemente de eu também achar completamente errado todo o processo do prédio que pretendem demolir em Viana do Castelo por questões estéticas, há muito aproveitamento politico dos que dizem independentes e não ter ideologia.

        Comparem este post do Sr Rodrigues com o artigo do Observador escrito por Helena Matos em 30/6/2019

        “O azar dos habitantes do prédio Coutinho
        Helena Matos (30/06/2019)

        Pois é, os habitantes do prédio Coutinho não geraram indignação, nem solidariedade, nem comentários nas redes sociais. Ou tendo gerado tudo isso não estão no lado certo das vítimas. Note-se que não há qualquer interesse público que justifique a demolição. Apenas uma questão de gosto. De birra pessoal.
        Se os habitantes do prédio Coutinho fossem inquilinos com rendas atrasadas há vários anos, claro que Catarina Martins lá estaria aos pulinhos, gritando contra a especulação dos senhorios e exigindo até que fossem feitas obras nos andares. Não faltariam também as vozes do costume explicando a falta de uma lei de Bases da Habitação e os organizadores dos cordões humanos não teriam parança.
        Se os habitantes do prédio Coutinho fossem okupas já haveria gente amarrada ao edifício e artistas vários fazendo performances. A sua vida seria designada como resistência e certamente que inspiraria vários documentários.”

        Todos nos já sabemos e conhecemos as forças que estão por de trás do Observador e ao que vêm.
        Não precisamos de “observadorzinhos” aqui replicados no Aventar a puxar a brasa à sua sardinha.

        Ao menos podia de ter a decência de fazer a citação ao artigo acima referido

  3. Julio Rolo Santos says:

    É uma aberração incompreensível o que se está a passar com o chamado prédio Coutinho e esperemos para ver se é de facto para construir ali um mercado, o motivo justificativo para a demolição. Como diz o outor do artigo, o prédio está legal, segundo as regras camarárias de então, os inquilinos compraram a sua fração e agora, porque alguém se lembra de chamar-lhe um mamarracho, então deita-se abaixo o prédio e as expectativas criadas aos respectivos proprietários. Sinceramente que não dá para entender, a menos que nos nos estejam a impor a lei da selva. Só pode ser.

  4. LUÍS says:

    Terrorismo de estado num estado ao serviço dos partidos e contra o cidadão.
    E as torres de Ofir ali tão perto.

    • Fernando Antunes says:

      Concordo.

      Quanto às torres de Ofir, elas vão cair por si mesmas com o avanço do mar. Não é preciso demoli-las.

  5. Samuel Clemens says:

    Antrd de la estar o prédio Coutinho estava lá o …mercado municipal !!! Tantas vezes lá fui com a minha mãe… foi demolido porque não dava geito nehum que ali estivesse,dizia- se.
    O Eterno Retorno além de ser um chato é muito irónico: demolir o prédio Coutinho para lá instalar…o Mercado Municipal! Alguém duvida que a Terra é redonda?

  6. Rui Naldinho says:

    A melhor parte nesta “estória” do Prédio Coutinho, foi a descoberta recente deste amor aos pequenos proprietários, quiçá inquilinos, do Coutinho, em Viana do Castelo, de alguns jornalistas. Em especial no Observador, esse blogue que sempre se marimbou para os “Coutinhos” desta vida, descobrindo agora um filão esgotado. Assim vão continuar com os prejuízos, e nunca chegarão aos lucros.
    Rezam as más línguas que o dito Prédio Coutinho nasceu torto no início dos anos 70. Tão torto que nunca se endireitou. Mas nunca o MP processou os interlocutores de todo o processo, nessa época.
    Depois veio o tempo do Dr. Branco Morais, autarca do PSD na edilidade, e já se falava em reduzir o prédio Coutinho de treze a a seis andares. Após três ou quatro mandatos do PSD na autarquia, veio o reinado do PS, com Defensor de Moura. Aí a saga continuou, mas com uma versão mais moralista, pois se o PS é um partido “largo”, nele cabiam todos os interessados. A sua costumeira ambiguidade, dava para tudo. Os prós e os contra.
    Na verdade, tirando a hipocrisia do costume que vem alimentando esta novela com várias décadas, engraçado é o facto do PS continuar a ganhar as eleições em Viana do Castelo, desde 2000, mesmo com a demolição do “Coutinho” na agenda.
    Mas há falta de fogos que incendeiem o país de Norte a Sul, até ver, chame-se o prédio Coutinho à liça.

  7. Luís Lavoura says:

    Porquê este desbaratar de dinheiro do contribuinte em indemnizações e realojamento?

    Concordo com esta questão, porém, já é tarde para a colocar e debater.

    As indemnizações já foram decididas e pagas. O prédio já não pertence a quem pertencia. Agora pertence, legalmente, à Câmara.

    E, portanto, os tipos que lá estão barricados estão a ocupar ilegalmente propriedade que não é sua e devem ser expulsos, se necessário pela força.

  8. António de Almeida says:

    Eventualmente será tarde, vi hoje num serviço noticioso à hora do almoço que a demolição ja começou. Será que não estamos perante uma falha da sociedade? Quiçá de Portugal enquanto Estado? E Marcelo nada tem a dizer?

  9. António de Almeida says:

    Deixei de viver em Lisboa há alguns anos e recebi ontem a informação que o mesmo entretanto foi pintado. É o edifício que faz esquina da Alexandre Herculano com a Braancamp. Com a pintura deixa de ser um mamarracho, mas esteve muito anos pintado de amarelo:
    https://www.google.com/search?q=edif%C3%ADcio+amarelo+alexandre+herculano&rlz=1C5CHFA_enPT832PT832&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=7w_8cMpOQ7mbiM%253A%252CaS7qpDlpRi39zM%252C_&vet=1&usg=AI4_-kS9PtVHOzLhDHZnO359EHRNQKn-1g&sa=X&ved=2ahUKEwjrv4KvsJPjAhUOY8AKHUpADGAQ9QEwB3oECAkQDA#imgrc=7w_8cMpOQ7mbiM:

  10. JgMenos says:

    Suponho que o passo lógico seguinte seria: se existe o Coutinho1, porque não o 2…n?
    Não temos todos o mesmo direito?

    Seguramente o progresso do erro pode ser parado e revertido… pagando, obviamente, com fundos europeus, naturalmente.

    • Paulo Marques says:

      O erro a que se refere é não haver ali um hostel para as madonas deste mundo, imagino.

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