É tão simples quanto isto: “Comércio livre ou ecologia!”

A casta de políticos mainstream e os adstritos comentadores andam a vender a tese de que o comércio livre é a resposta ao proteccionismo ceguinho de Trump. O que não gostam nada de enfrentar e empurram energicamente para debaixo do tapete, é a questão crucial da contradição intrínseca entre, por um lado, a promoção de um modelo de desenvolvimento que, à custa de ignorar as externalidades negativas, rodopia os produtos pelo globo, os vende ao preço “mais barato” e fomenta o descarte e, por outro lado, o combate ao descalabro climático.

Conforme sintetiza Serge Halimi: Doravante, todos sabem que o elogio, que se tornou consensual, dos produtores locais, dos circuitos curtos ou do tratamento in loco dos resíduos é incompatível com um modo de produção e de troca que multiplica as «cadeias de valor», isto é, que organiza a engrenagem dos porta-contentores nos quais as componentes de um mesmo produto «atravessarão três ou quatro vezes o Pacífico antes que ele chegue às prateleiras de um estabelecimento comercial».

Com o poderoso leque de acordos de livre comércio que a EU quer fazer passar à pressão, os Verdes, tão em moda, têm agora óptimas oportunidades de demonstrar quão verdes realmente são, seja no Parlamento Europeu, seja (em alguns casos em que a UE não conseguiu evitar que os acordos tivessem que “descer” ao nível nacional) nos respectivos parlamentos.

Não confio nada e parece que tenho razão: O parlamento do Luxemburgo está em vias de ratificar o CETA (acordo UE/Canadá), com o voto favorável dos Verdes.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Eu tenho dificuldades em saber o que é o comércio livre. Os acordos comerciais são tudo menos livres de protecção de direitos especiais descritos nos mesmos, desde propriedade imaginária a subsídios e mudanças sócio-económicas feitas à medida de grandes empresas.
    Se isso é que é liberdade, não percebo porque é que os cidadãos se sentem cada vez mais agrilhoados ao tem que ser.

    • Ana Moreno says:

      Olá Paulo, pois, chamar-lhe comércio livre é um eufemismo. Ou por outra, é a liberdade para os predadores. Padrões ambientais ou sociais são “barreiras não tarifárias”, que empecilham os negócios. E a “harmonização regulatória” lá está, nos acordos, para se passar a decidir em conluio com os lobbies da indústria, como baixar os padrões incomodativos aos movimentos livres dos grandalhões.


  2. Ana Moreno, aquelabraço solidário de sempre, bem haja por estar aí, sempre atenta e interventiva.

  3. JgMenos says:

    A cada um a sua horta!

    • Paulo Marques says:

      A cada um a sua meia dezena de intermediários a sugar, prefere o menos. Porque, obviamente, faz parte da classe.

  4. Luís Lavoura says:

    Pois, mas o combate à globalização não se faz com proibições, com barreiras comerciais, com taxas alfandegárias. O combate ao comércio a longa distância deve fazer-se num quadro de liberdade comercial.

    • Paulo Marques says:

      E se os produtos são impróprios para consumo e/ou destroem o ambiente aceita-se, em nome do suicídio colectivo?

      • Luís Lavoura says:

        A União Europeia já hoje tem padrões para evitar tais produtos.
        Esses padrões não devem ser confundidos com protecionismo nem com taxas alfandegárias sobre classes inteiras de produtos.

        • Paulo Marques says:

          Claro que são proteccionismo, porra. Tanto como taxas alfandegárias e regras especiais para manter a independência alimentar em caso de conflito ou para manter postos de trabalho (sei lá, carros a diesel ou aviões… pode lá ser!) em áreas que se seja competitivo.
          Ou os estados se protegem, ou são comidos, é a lição da Desunião Europeia. Infelizmente, a esquerda também prefere a segunda à quase 50 anos, deixando agora a margem toda para a extrema-direita que o centro-direita vai copiar. Santo suicídio.

          • Carlos Almeida says:

            “a esquerda também prefere a segunda HÁ quase 50 anos,”

            Há, do verbo haver ou existir, xiça penicoe não À de à espera de ou à vontade

            Estou constantemente a ver destas “calinadas” . E a culpa não é do maldito “ACORDO ORTOGRÁFICO”

            “Quando escrevo, os meus emails são redigidos em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo novo Acordo Ortográfico.”

          • Paulo Marques says:

            Este erro criei-o nos tempos primária e nem tantos anos depois acerto com o “h”, excepto raramente. E, claro, o corrector também não serve para ajudar.

          • Ana Moreno says:

            A sua terna resposta mostra que o criou com muito carinho, Paulo, e isso é o principal 😉

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