“Tous les hommes sont égaux par nature et devant la loi”

Helena Matos afirma n’Observador que está a decorrer uma ostracização de Maria Fátima Bonifácio que escreveu um texto racista para o Público. Segundo Helena Matos, o que está em causa em toda a “polémica” é um castigo à autora que, segundo Helena Matos, até tem alguma razão no que diz porque é isso que se ouve sobre os pretos e os ciganos no comboio para a Damaia.

Helena Matos chama-lhe ostracização – com pouco fundamento porque a única coisa que o Público fez foi demarcar-se do artigo, algo que faz todo o sentido. Das duas uma, ou se é um jornal cuja linha editorial chama a atenção para as problemáticas do racismo e da discriminação ou se é um jornal que aceita, mesmo que implicitamente, que os pretos e os ciganos têm o mundo lá deles e “nós” – leia-se os brancos – temos o nosso. As duas é que não pode ser.

Mas aquilo a que Helena Matos chama ostracização – algo que, repito, não aconteceu até porque nada no editorial de Manuel Carvalho dá a entender que Maria Fátima Bonifácio irá deixar de escrever para o Público – eu chamo um saudável questionamento da competência de Maria Fátima Bonifácio. A meritocracia, portanto.

Maria Fátima Bonifácio é doutorada em História. Foi professora universitária. Tem uma vasta obra publicada na área da História. E, ainda para mais, a sua especialidade é o século XIX. Eu pergunto-me como é que alguém com este currículo, alguém que estuda o liberalismo, é capaz de afirmar que:

“Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios”

Algo que, enfim, pondo a coisa em termos simples, é mentira. E não há nenhum livro sério sobre a Revolução Francesa, sobre a escravatura e a sua abolição, sobre a Société des Amis des Noirs, sobre o Brissot, sobre o Marat, sobre a teoria de Direitos Naturais, sobre as origens dos Direitos do Homem, sobre o conceito de Cidadão, que afirme que a Revolução Francesa, especialmente a partir de 1792, não abarca homens de cor. É insano sugerir tal coisa porque os factos como eles são, nomeadamente a presença de negros no Clube dos Jacobinos, a garantia de direitos a homens livres negros e de cor, a abolição completa da escravatura em 1794, ou, finalmente, a eleição de deputados negros e de cor (como Jean-Baptiste Belley e Jean-Baptiste Mills) para a Assembleia Nacional, a Convenção e para o Conselho dos 500, desmentem esta ideia. E estes direitos foram conseguidos também devido a homens de cor que foram a França vindos das colónias para lutar pelo direito de serem integrados na Res Publica face aos brancos que queriam manter a escravatura porque sim, havia quem achasse que a Revolução não era para todos. Em última análise, a Revolução Haitiana desmente todo o texto de Maria Fátima Bonifácio.

O problema é que há várias Revoluções Francesas. Nem todos foram abarcados pelas Declarações dos Direitos do Homem e do Cidadão. As mulheres, para começar. E havia oposição à abolição da escravatura e à atribuição de Direitos aos homens de cor, tal como havia oposição à atribuição de direitos cívicos a quem tivesse baixos rendimentos ou nenhuma propriedade. Mas a Revolução não acabou em 1789.

Maria Fátima Bonifácio refere a “Grande Revolução Francesa de 1789” – mas ela, ao contrário de Victor Hugo, esquece 1793. É desconfortável, eu percebo. Saint Just e Robespierre, logo eles, a provarem que se calhar os negros têm e devem ter direitos, devem e podem fazer parte da República, da construção da cidadania. Porque a condição do Homem é ser livre e a única coisa que os distingue dos outros não é sequer o mérito, mas sim a virtude. E isso, claro, é um problema para todo e qualquer discurso racista.

Comments

  1. JgMenos says:

    «égaux par nature» uma ova!
    Par nature há-os de todo o tipo.

    Mas o que importa ao caso é a inversão da prova.
    O que se discute não parece ser o que a revolução francesa fez deste ou daquele grupo, o que conta é o que o grupo faz dos ideais dessa Revolução.

    A esquerdalhada é toda muito a favor das especificidades do multicultural, mas quando há que julga-los pela sua bárbara cultura o padrão de tolerância a aplicar depende se ao grupo é de aplicar ou não a doutrina dos coitadinhos.

    Se são cretinos e brancos, são provavelmente fascistas ou nazis.
    Já se forem cretinos ciganos ou negros, são coitadinhos que ainda não viram a luz.

    Se isto não é racismo, não sei o que o seja.

    • Paulo Marques says:

      Se não nota uma diferençazinha entre tratar um grupo de bestas como o que são e tratar um grupo de pessoas como é uma pequena parte, não tem mesmo salvação.

  2. Rui Naldinho says:

    O seu texto é de uma clarividência tão grande, que deveria deixar a Dra Fátima Bonifácio a pensar se não meteu os pés pelas mãos, quando escreveu o que escreveu, no Público, mesmo sendo ela Professora Universitária. Mas disso falarei no parágrafo seguinte.
    Não estranho ver o Observador, pela mão de Helena Matos a defender a Dra Fátima Bonifácio, na medida em que pensam da mesma maneira. Não tarda nada, ainda virá o Rui Ramos, dar também ele uma mãozinha à historiadora, sendo ambos do mesmo ”métier”.
    Voltando ao assunto dos Doutorados e Professores Universitários, especializados em qualquer coisa. Eles são mais do que as mães, e nem por isso deixam de defender coisas antagónicas, uns dos outros, quando não mesmo absurdas.
    O planeta está cheio de cretinos doutorados nas mais excelentes academias, que defendem antes demais os seus interesse de classe, ajustando sempre o seu discurso em função dos seus objectivos. Mas bom mesmo é quando eles começam como comunistas fervorosos e acabam em reacionários da pior espécie. Em Portugal há exemplares diversos aí pela nossa comunicação social fora.
    Rentes de Carvalho, escritor e Professor Universitário, não deixou de defender algumas das ideias da extrema direita holandesa, sendo ele um intelectual.

    • JgMenos says:

      «que defendem antes demais os seus interesse de classe, ajustando sempre o seu discurso em função dos seus objectivos»
      Acerca dos ciganos não diria melhor!
      Quanto aos negros depende do bairro ou da tribo.

      • Paulo Marques says:

        Os Menos deste mundo são prova vida de que a prosa é um disparate. Então, são os “pretos” que se odeiam uns aos outros, os brancos são só beijinhos.
        Lol.


  3. ….”O planeta está cheio de cretinos doutorados nas mais excelentes academias, que defendem antes demais os seus interesse de classe, ajustando sempre o seu discurso em função dos seus objectivos….”

    Subscrevo, Rui Naldinho ! quanto o sei de alguns !!

  4. Luís Lavoura says:

    A Fátima Bonifácio está senil. Não vale a pena ligar-lhe atenção.

  5. Luís Lavoura says:

    Toussaint L’Ouverture, o (ex-escravo) negro que lançou a luta pela independência do Haiti, fê-lo inspirado pela Revolução Francesa.

    • JgMenos says:

      Donde se conclui que no bairro da Jamaica os ideais da Revolução Francesa s~so uma inspiração no quotidiano..

  6. JgMenos says:

    Só agora soube que a Bonifácio escreveu em «a oposição à criação de quotas para minorias étnicas».

    A cambada da engenharia social quer quotas?
    Ai os fdp!
    Já não basta andarem com o mulherio às costas, impondo idiotas só porque rachadas, e agora querm quotas por etnias os grandes coirões, os racistas de merda?.

    • Paulo Marques says:

      Não, meu camelo, é a única maneira de pessoas como tu perceberem que eles também são pessoas: obrigando os trogloditas a conviver com elas em igualdade

      • JgMenos says:

        Leva-os para casa e depois vem pregar a tua exaltante experiência, inútil treteiro.
        Como todo xenófobo, racista ou idiota só usas o plural e tens horror a falar de valores individuais que independem de raça, credo ou etnia.

  7. Luis says:

    Geralmente sou contra todo o tipo de quotas seja para o que for … excepto no caso dos ciganos que considero serem vítimas de um racismo execrável por parte do gentio português.
    Então quanto ao emprego este estigma salta aos olhos ao longo dos tempos e é particularmente visível no dia a dia.

    Alguém já viu um cigano a trabalhar na lavoura? A apanhar pêra rocha? Alguém conhece um cigano mineiro?Alguém já viu um cigano a torrar ao sol, no Verão, a alinhar telhas num telhado ou a carregar tijolos na construção civil? Ou numa linha de produção? E ciganos pescadores, alguém já viu?

    A recusa dos empresários racistas em dar-lhes emprego nestas profissões envergonha-nos enquanto país e comunidade.
    Depois acusam-nos de passarem droga quando os coitados apenas lutam para sustentar a sua família visto que são rejeitados, por serem ciganos, de exercerem profissões dignas.

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      Excelente comentário…

    • JgMenos says:

      Alguém já viu o que acontece ao empresário quando o cigano o rouba?
      Viram a família, o clã, a tribo em peso, à porta da empresa, da casa, do tribunal?

      Já ouviram a polícia dizer que nada podem fazer quanto a ajuntamentos ‘cívicos’?

      Está tudo a armar em estúpido, ou é mesmo a natureza na sua plenitude?
      As boas regras têm por pressuposto que se aplicam a quem as respeita. Ou os tadinhos da engenharia social são excepção?

      • Paulo Marques says:

        Já alguém viu o que acontece quando o Berardo o rouba? Processa toda a gente que diz óbvio.
        Já alguém viu o que acontece quando a catedral trafica
        influência?
        Já alguém viu o que acontece quando um polícia assassina alguém?
        Já alguém viu o que acontece quando um capitalista é obrigado a pagar impostos?
        Tadito do menos, pá.

    • JgMenos says:

      Uma amiga minha, lírica e idiota esquerdalha, estava encantada com a família cigana, que tal como ela, tinha familiar internado em hospital pivado.
      Em final chegou a conta; com ela chegou a família, o clã, a tribo, e o hospital deu-se por feliz por os ver sair a porta sem pagar.
      .
      Tadinhos…


    • “Alguém já viu um cigano a trabalhar na lavoura? A apanhar pêra rocha? ”

      Por acaso, na minha infância passada no Ribatejo, era normal ver ciganos a fazerem trabalhos agrícolas sazonais. A apanha de fruta era apenas um deles.


  8. Apesar de ter razão sobre a patetice das quotas, o que dizer de uma doutorada em História que, ao falar da “cristandade”, se esquece que o negro reino da Etiópia já era cristão antes da branca e celta Lusitânia e mais de 1000 anos antes da Letónia e Lituânia, países da União Europeia.

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