Estamos a pagar para destruir a Natureza

 

João Vasco Gama

O património natural tem um valor instrumental estimável (cuja destruição causa danos materiais e humanos quantificáveis) e um valor intrínseco inestimável (quanto é que a extinção dos Koalas vai custar? O impacto na actividade económica pode ser reduzido, mas isso não quer dizer que não seja uma perda relevante…).

O debate racional sobre os impactos ambientais da actividade económica deveria encontrar-se entre dois extremos. Um extremo daria um valor infinito ao valor intrínseco e consideraria qualquer impacto ambiental da actividade económica inaceitável – seria voltar para as cavernas, por assim dizer. O outro extremo daria um valor nulo ao valor intrínseco e consideraria que apenas nos importa maximizar o lucro no longo prazo, considerando aceitável toda a transacção económica que produzisse uma mais valia superior ao dano ambiental na componente “instrumental”. Seria só ver cifrões à frente, e só querer saber do consumo (no longo prazo). As posições não extremistas mas racionais estariam algures entre estes dois extremos.

Mas não é assim que nós nos comportamos. Nós não estamos entre estes extremos. Nós estamos a provocar muito mais destruição ambiental do que aquela que provocaríamos se quiséssemos maximizar o consumo no longo prazo. Ou significa que somos colectivamente míopes, ou significa que consideramos o valor intrínseco da natureza como sendo negativo(!), ou seja estamos dispostos a pagar (em consumo futuro) para destruir a natureza. Nós estamos a destruir mais a natureza que aquilo que faríamos se só víssemos cifrões à frente.

Isto parece um absurdo. É evidente que ninguém quer pagar do seu bolso para provocar destruição ambiental. No entanto, a nossa falta de coordenação tem esse efeito.

Face a esta loucura colectiva, o que podemos fazer do ponto de vista colectivo? Podem existir três tipos de intervenções:

a) Investimento público
O estado pode investir em transportes públicos; aumentar o financiamento para a investigação em formas de produção de energia com menor impacto ambiental; quiçá subsidiar a captura de carbono ou formas de produção de energia com menor impacto ambiental ou até tomar em mãos essa actividade como o faria num contexto de “guerra total” que pode não parecer completamente despropositado face à dimensão do desafio que temos pela frente

b) Restrições e proibições
O estado pode simplesmente impedir consumos que ultrapassem determinados limites ou actividades económicas que tenham um determinado impacto.

c) Política fiscal
O estado pode criar uma fiscalidade mais justa, fazendo todas as actividades com maior impacto ambiental “indemnizar” toda a sociedade que sofre seus efeitos.

Quais são os problemas que cada uma destas soluções apresenta?

a) O investimento público exige financiamento, e isso implica um aumento da carga fiscal. Quem acredita que a actual carga fiscal é excessiva deve recear esta solução.
Claro que o aumento da eficiência, o combate ao desperdício, etc. poderiam em tese compatibilizar esta medida com uma carga fiscal constante, mas – como é possível ter esse aumento de eficiência e combate ao desperdício isoladamente – o impacto desta medida é sempre o de aumentar a carga fiscal face a um cenário onde não seja aplicada com tudo o resto igual.
Além disso, esta pode ser uma forma rápida de reagir ao problema, mas pode vir associada a algumas ineficiências. Por exemplo, ao tornar mais barata a energia renovável desencoraja-se a eficiência energética. Como mesmo a energia renovável também tem um impacto ambiental (entre 10 a 50 vezes menor que a dos combustíveis fósseis) isto pode atenuar a redução das emissões inicialmente esperada.

b) As restrições e proibições podem, consoante a sua aplicação concreta, restringir de forma excessiva a liberdade individual. Por outro lado, em muitas circunstâncias vão resultar numa diminuição da receita fiscal (que terá depois de ser compensada agravando a taxação noutros domínios).

c) A política fiscal é a mais impopular destas propostas, mas isso deve-se principalmente à  falta de reflexão sobre as suas implicações.
Quem considerar que o impacto redistributivo desta proposta é perverso, na medida em que transfere riqueza e rendimento acrescido das classes mais abastadas (com um consumo que envolve mais emissões) para as classes mais fragilizadas terá essa convicção como razão para se opor a esta solução. Quem considerar que este impacto redistributivo é desejável, não.
Ao contrário das restantes propostas, esta não implica um aumento da carga fiscal, pois não corresponde a nenhum aumento da despesa pública.
O principal defeito desta proposta é o tempo que demora até funcionar em pleno. Ela pode ser insuficiente para resolver os problemas com que nos deparamos dada a janela temporal apertada que temos pela frente, e é tão mais insuficiente quanto mais adiamos uma resposta colectiva adequada.

Devemos optar por soluções do tipo a), b) ou c)?

Para mim a resposta é clara: a), b) e c). E para ontem. Nenhum dos problemas de qualquer das propostas justificam que queiramos sofrer danos humanos e materiais que ultrapassam largamente os da segunda guerra mundial (se não por ano, certamente no total acumulado).

Cada dia que adiamos estas respostas, estamos a pagar para destruir o património ambiental colectivo.

O que motivou a escrita deste texto foi ter-me deparado com estimativa mais recente de quanto estamos a pagar. De acordo com o FMI, a Humanidade está a pagar cerca de 6% do PIB mundial todos os anos para benefício da indústria fóssil e prejuízo colectivo (que não contabiliza nada de inestimável).
Em Portugal são cerca de 12 mil milhões de euros todos os anos. Sim, estamos a pagar cerca de 10 pontes Vasco da Gama para garantir que temos mais incêndios e menos biodiversidade. É tão estúpido quanto isso.

Nota: Artigo publicado pela primeira vez no blogue Esquerda Republicana

Comments


  1. João Gama, reconhecendo a excelência desta sua análise ao problema tão maior que enfrentamos todos no planeta lindo que ingratamente habitamos destruindo-o, com a inconsciência de tantos e em resultado desastroso, hipocrisia e desonestidade predadora e ganância dos “donos” disto tudo, fica-nos o amargo já irreversível da constatação destas suas afirmações essenciais com o absurdo da verdade que contêm :
    “…
    Cada dia que adiamos estas respostas, estamos a pagar para destruir o património ambiental colectivo….

    Em Portugal são cerca de 12 mil milhões de euros todos os anos. Sim, estamos a pagar cerca de 10 pontes Vasco da Gama para garantir que temos mais incêndios e menos biodiversidade. É tão estúpido quanto isso. ” !!

    E ficamos a pensar :
    a maravilha do desenvolvimento do cérebro humano em relação aos outros animais supostamente para seu benefício e felicidade é afinal e ao invés utilizada, aliás desde sempre, para a sua própria destruição e, pior ainda, para desequilíbrio e destruição da suprema magnitude da natureza /vida na sua origem criativa que toca o divino ?

    …antes e quanto eu quereria ter sido ou ser andorinha !

  2. Paulo Marques says:

    Quanto a a) e b), não são os impostos que financiam o estado, a menos que a isso estejam restringidos por acordos de suicídio colectivo (cough Euro cough), ainda por cima quando obrigam, na prática, a que sejam sobre quem menos pode. Reconhecer o que os bancos centrais e empresas financeiras à muito sabem libertava muito espaço de manobra para evitar melhor as consequências.
    Fora isso, tudo certo.

  3. Julio Rolo Santos says:

    Sim, estamos a pagar para destruir a natureza. Quem paga o negócio dos fogos? Obviamente que é o contribuinte. Os fogos em Portugal ja há muito que não apanham ninguém de surpresa porque todos os anos se repetem e os métodos utilizados são sempre os mesmos: combater em vez de prevenir. Este sistema, como já se viu, trás vantagens para muita gente, desde logo, para os meios aéreos que são um autêntico maná para quem os explora e os políticos são todos coniventes com esta situação. Andamos todos preocupados com a degradação do ambiente e só nos lembramos de eleger o saco de plástico como único responsável pela poluição, ignorando o flagelo dos fogos
    que ano após ano destrói floresta, mata pessoas e animais e põe fim a uma vida de trabalho para quem perde tudo, num simples abrir e fechar de olhos. Apesar de estar demonstrado que o eucalipto é a ovelha ranhosa da floresta, há quem o continue a defender e a promover a sua plantação. A ganância do lucro continua a suplantar a lógica da razão e, enquanto assim for, estamos feitos.


  4. Porque será que em alertas informativos tão pertinentes como o deste post surgem tão poucos comentários o que revela um desinteresse confrangedor, quando assuntos outros de menor importância e faits divers e futeboleiros e tricas politiqueiras tendenciosas de contra-ataque suscitam tantos comentários incendiados inúteis e por vezes tão enfadonhos, de tão básicos ?

    Sendo este o problema maior com tudo o que envolve : o futuro da planeta à beira do abismo no qual devemos todos empenharmo-nos cada um a seu modo e possibilidades, pouco que seja mas que sejam muitos ? !

    Umberto Eco, disse que “as redes sociais promoveram o idiota da aldeia a detentor da verdade. Antigamente, os imbecis eram imediatamente calados na taberna da aldeia, agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel”.

    Vargas Llosa disse que a simplificação da linguagem dos SMS conduzirá o Homem à comunicação por grunhidos.

    E, para José Saramago, o ‘twitter’ é, igualmente, a antecâmara do grunhido.

    E assim se caminha para a banalidade

    Reunir forças e vontades de cidadania activa torna-se cada vez mais preciso e urgente !

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