Surda e absurda: a maioria absoluta

A Assembleia da República está dominada por uma maioria absoluta, a do arco da governação há muitos anos: entre PS e PSD (e o satélite CDS), é mais aquilo que os une (a distribuição de “jobs”) do que aquilo que os separa. Conclui-se, portanto, que existe uma maioria absoluta de facto. No que se refere às questões essenciais, tem-se intensificado o mesmo desprezo pelos serviços públicos, a mesma subserviência aos poderes privados e a uma União Europeia que representa, na prática, esses mesmos poderes.

É claro que a distribuição de poder(es) é suficiente para que haja conflitos entre os partidos do arco da governação, pelo que uma legislatura fortalece sempre um lado, enfraquecendo o outro.

Além disso, um deputado, de uma maneira geral, não representa os eleitores, antes serve o partido, votando de acordo com as ordens que emanam das chefias. Se esta perversão existe em todos os partidos (com os deputados a desrespeitarem conscientemente a sua essência), torna-se ainda mais perigosa quando há uma maioria absoluta de direito: na prática, o poder legislativo fica ao serviço do executivo.

A Geringonça foi uma habilidade absolutamente legal e legítima que serviu para afastar Passos Coelho do poder, o que já foi bom, mas não suficiente para que o PS abandonasse a sua verdadeira natureza. António Costa conseguiu, assim, chegar ao poder, fingindo-se de esquerda, usando as companhias que se deixaram usar.

Neste momento, os socialistas sonham com uma nova maioria absoluta. Centeno já disse que é mais fácil atingir objectivos se isso acontecer. No fundo, no fundo, qual é o político que não sonha com uma ditadura? O meu único voto de esquerda é contra a maioria absoluta, até porque, excepcionalmente, concordo com António Costa.

Comments

  1. José Monteiro says:

    Perfect. Alá é grande e AC aparenta ser seu profeta.

  2. Rui Naldinho says:

    Meu caro, concordo consigo em absoluto. Nem sequer ouso comentá-lo, ou como se diz na gíria, meter a minha colherada, para não atrapalhar um raciocínio tao escorreito.
    Só espero que uma boa parte do eleitorado perceba o que verdadeiramente está em causa.

  3. Luis says:

    “Além disso, um deputado, de uma maneira geral, não representa os eleitores, antes serve o partido, votando de acordo com as ordens que emanam das chefias.”
    Por outro lado, se eu achar que determinado candidato tem qualidade para ser deputado, ao votar nele tenho, na prática, de dar o meu voto a candidatos que detesto.
    Afinal o que é que eu vou fazer à mesa de voto?
    Dar o aval a um regime que se distingue dos outros por ter uma corrupção institucionalizada, servido por políticos cobardes que não respeitam o povo português,usando-o apenas como cartões de débito para pagarem os favores que fazem ao sistema financeiro e seus satélites.

    Pagamos mais nas portagens de auto estrada do Porto ao Algarve do que os Suiços pagam num ano por circularem nas suas.
    Pagamos serviços de manutenção bancária (65 euros ano) em 5 bancos cartelizados, além de termos de pagar 6 euros para levantar o nosso dinheiro no caixa.
    Ao não pagarmos dentro do prazo uma passagem na auto estrada vemos a multa a aumentar esse custo 100 ou 200 vezes mais em 2 anos e o cidadão é emboscado na estrada pela Autoridade da Extorsão Fiscal para verificar se tem as contas em dia.
    Pagamos os combustíveis sempre 8 cêntimos acima da média europeia e a energia eléctrica tem lucros administrativos de biliões por favores dos políticos que por lá pululam.
    Temos um país pejado de auto estradas e automóveis assucatados e a principal linha de caminho de ferro, Porto-Lisboa, não tem comboios e, quando os tem, andam permanentemente atrasados … além de serem caros e fedorentos.
    E falam em desgraças ambientais.
    Temos uma TAP que na semana passada teve um avião com um motor incendiado antes de levantar e temos outro, eu vim nele, que ao levantar do Funchal o ruído que o trem de aterragem fez ao ser recolhido dava a sensação, para pior, de que estava um alfa-pendular a travar.
    Todo o mundo rezou.
    Temos um juiz acusado de corrupção que julga casos e que perante tal escândalo o supremo juiz diz que há outras medidas para resolver o caso, sendo que nenhuma delas é automática.
    (O outro supremo marcelo da nação nada diz.)
    Essa justiça continua a ver os grandes trafulhas que desgraçaram milhões de portugueses a gozarem e a usarem em bons advogados o dinheiro que lhes roubaram.
    Quanto ao vulgar cidadão essa mesma justiça é cara e por isso praticamente inacessível.
    Os movimentos LGBT+ conseguem impor na escola pública a identidade de género usando os jovens transgénero, (que merecem a nossa solidariedade), como cobaias para a sua acção catequizadora junto de crianças e adolescentes.
    Os CTT, privatizados para dar uns cobres ao facilitador Arnaut, atrasam cartas em 5 semanas, tendo desta forma o cidadão de pagar as multas das facturas que não recebeu atempadamente.
    Um quarto do Alentejo já é um deserto onde nada se fez para apaziguar a desertificação que agora parece imparável.
    O mesmo irá acontecer com as minas de lítio que para entrarem em exploração a céu aberto apenas precisam de pequenos acertos nas listas dos políticos que faltam corromper.

    Um dos resultados desta corrupção endémica:
    Metade do país emigrado, muitos deles em países com salários mínimos de quase 2.000 euros no Luxemburgo, 1.600 na Irlanda, 1.550 no RU, 858 euros na Espanha e Eslovénia, (salário médio nacional) … e Portugal com 580 euros está abaixo da Grécia.

    No dia das eleições espero que esteja um bom dia para ir à praia se não vou ficar em casa a fazer um bolo de laranja para o lanche.

  4. Alfredo Videira says:

    Desde quando em democracia uma maioria absoluta é uma ditadura? Portugal Democrático já teve maiorias absolutas quer da direita quer da esquerda porque o voto do Povo assim o decidiu e nunca esteve em causa a Democracia. Governaram bem ou mal mas no fim o Povo julgou os democraticamente nas urnas. Acenar com o “papão” da ditadura não me parece sério. Não deve valer tudo para a caça ao voto.

    • António Fernando Nabais says:

      A Democracia fica posta em causa, mesmo que não desapareça. Concordo: não vale tudo para a caça ao voto.

  5. estevesayres says:

    O que o povo português exige que seja respondido é simples:

    · Vamos poder dispor da nossa zona económica exclusiva (ZEE)?

    · Podemos voltar a ter marinha mercante?

    · Vamos voltar a ter indústria?

    · Vamos voltar a ter agricultura?

    · Vamos voltar a ter política externa?

    · Vamos voltar a ter politica de defesa?

    · Vamos voltar a ter moeda?

    · Vamos voltar a ter Língua?

    · Vamos voltar a ter bancos públicos?

    · Vamos continuar a ter água?

    · A Escola vai passar a servir para alguma coisa?

    · Vamos ter política de cultura?

    · A Medicina vai funcionar no SNS sem matar as pessoas por infecções hospitalares?

    · Podemos ter contractos de trabalho menos injustos, ou vamos continuar a assentar a política de emprego na precariedade e na ausência de confiança?

    · Podemos não ir combater para a Ucrânia e para a Venezuela? Para o Irão, para o Mali e para a República Centro-africana?

    · Pode-se recuperar as verbas sumidas na corrupção?

    · O pessoal das organizações (teórica ou praticamente) secretas pode ser posto nos eixos?

    · E quanto aos tribunais, há modo de meter juízo naquelas cabeças?

    · Podemos gostar de futebol sem ter de aturar máfias?

    · Vamos recuperar a soberania cambial, monetária e orçamental?

Responder a José Monteiro Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.