A escolha

“Os novos moradores do venerável Palácio do Loreto, no coração da cidade velha de Lisboa, também vêm da China. Por detrás da fachada do século XVIII residem os empregados do grupo chinês Fosun. O império da empresa na Europa vai desde a antiga companhia de seguros estatal portuguesa “Fidelidade” e o grupo de viagens Thomas Cook até à marca de moda Tom Tailor e ao banco privado alemão Hauck & Aufhäuser.

Não muito longe estão também os escritórios das empresas estatais chinesas State Grid e Three Georges, que são accionistas da electricidade do país. Investimentos de mais de nove mil milhões de euros fazem de Portugal um “parceiro estratégico”, declarou o embaixador da China em Lisboa.

Isto funciona assim em toda a Europa. Caminhos-de-ferro, portos e redes eléctricas, engenharia mecânica, turismo e finanças – as empresas chinesas estão a entrar na economia europeia em todos estes sectores, tendo investido já muito mais de 300 mil milhões de euros.

Os “enormes investimentos da China no exterior dão-lhe um acutilante poder”, que usa para “silenciar os críticos”, alertou o Economist.”

Trata-se de um excerto de um óptimo artigo do „Investigate Europe“, um grupo de jornalistas de nove países que investigam conjuntamente temas de relevância europeia.

Artigo especialmente interessante agora que vai ser lançado o concurso para a concessão do novo terminal de contentores do Porto de Sines – líder nacional na movimentação de mercadoria. Os Estados Unidos entram na corrida para esta concessão que já estava na mira dos chineses. Se ganharem, conquistam uma peça que seria fundamental na estratégia de Pequim para construir uma nova Rota da Seda.

Em declarações ao jornal Público, a ministra do mar, Ana Paula Vitorino, confirma o interesse de chineses e americanos na concessão do Terminal de Contentores Vasco da Gama, que será lançada até ao final do mês. “A proposta vencedora será aquela que melhores benefícios ofereça a Portugal, independentemente da origem do operador”, garante.

Nesta escolha propositadamente encolhida, que venha o diabo e se pronuncie.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Trata-se, de facto de uma situação “case study” que se poderá anunciar da seguinte forma:

    Os comunistas aproveitam-se do capitalismo para meter lanças num continente onde a social democracia cedeu, há mais tempo, ao mesmo capitalismo.
    Dito de outra forma: os americanos vão provar do seu próprio veneno, mas os envenenados serão os europeus …

    • Paulo Marques says:

      Capitalismo de estado != comunismo. Mas a culpa é mesmo dos europeus, com esta coisa das “contas certas” como se os estados fossem alegados familiares, pois ficam tão empobrecidos pelo capital como estes.
      A Alemanha já vai arrepiando caminho e começa a proteger as suas indústrias à margem da lei, os colonatos continuam a fazer de conta que está bem e que aumentar a dependência (união bancária) vai resolver tudo, tudo.

      • JgMenos says:

        Contas certas?
        Não te está a chegar o fruto das distribuições alarves e consumos idiotas, enquanto os chineses acumulam?

        A Europa capitalizou com a colonização e agora dedica-se a desbaratar.
        A China dedicou-se a capitalizar com a exportação e prepara-se para colonizar.

        • Paulo Marques says:

          Sim, contas certas, não fosse o Scharze Null uber alles o primeiro mandamento da zona euro.
          Ora explica lá, que ainda ninguém explicou, como é que se mantém/aumenta o investimento privado se as empresas não têm ninguém a quem vender? As declarações do Draghi, insuspeito de esquerdismo, dizem-te alguma coisa?
          Os chineses acumulam porque os outros vendem, não vão os bancos centrais ficar sem bits para criar reservas. Nem as contas ficam certas, porque não há capacidade interna para melhorar a economia, nem se pára de criar moeda.

          • JgMenos says:

            Tu que és esquerdalho achas que não há por esse mundo biliões de coitadinhos a precisar de consumir mais, de consumir mínimos de subsistência?
            A China vem à Europa e aos USA adquirir capital (mais conhecimento) e renda, mas é em África e Ásia que verdadeiramente investe no futuro.

            Na Europa essa política logo incendiava os cretinos anti-colonialistas e os mamões distributivos como tu.

          • Paulo Marques says:

            O que é que o cu tem a ver com as calças, e porque é que é preciso passarmos nós fome para ficarmos iguais?

          • JgMenos says:

            Fome, tadinho? Na Europa?
            Só se fôr por não saber onde ir buscar o subsídio.
            Mais provavelmente é fome de telefone novo, viagem adiada, mordomia inalcançada.

          • Paulo Marques says:

            Ah, sim, a Eurolandia é um paraíso onde não há fome graças à bondade das Xonets.

            https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09581596.2011.619519

  2. Julio Rolo Santos says:

    Qualquer desenvolvimento exige capital e quem não o tem, tem de recorrer a quem o tenha. Se ele se chama chinês ou americano pouco importa o que é preciso é definir regras vantajosas para o país e não embarcarmos em imposições semelhantes às da eletricidade e outros.

    • Paulo Marques says:

      Quem age como pedinte é tratado como pedinte, e quem vende infra-estruturas base não tem independência.

  3. Ana Moreno says:

    “e quem vende infra-estruturas base não tem independência”. Pois.

  4. Luís Lavoura says:

    State Grid e Three Georges [sic], que são accionistas da electricidade do país

    !!! Que disparate é este?

    A EDP é uma empresa privada que opera em diversos mercados, um dos quais o português. Não é a eletricidade de Portugal. A eletricidade de Portugal é produzida e comercializada por múltiplas empresas, das quais a EDP será talvez a principal, mas certamente que não a única.

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