Então o crowdfunding da greve dos enfermeiros era legal?

Segundo notícia recente, a ASAE não detectou nenhuma ilegalidade no fundo de financiamento da greve dos enfermeiros.

O primeiro-ministro classificou as greves dos enfermeiros como “selvagens” e “absolutamente ilegais”. Que me tenha apercebido, não houve um único jornalista que pedisse um comentário ao chefe de governo e jurista sobre as conclusões da ASAE.

Convém, também, não esquecer que o PCP e a CGTP criticaram o modo de financiamento da greve,  integrando esta mesma greve numa possível conspiração contra o Serviço Nacional de Saúde. Na prática, pelos vistos, defendem que um grevista só pode sê-lo perdendo o ordenado e, portanto, a capacidade de luta. Mais uma vez, não me lembro de ver um jornalista a pedir um comentário a um representante de qualquer uma destas duas estruturas.

O PSD e o CDS estiveram do lado dos grevistas, apenas porque estão na oposição. Aliás, se os enfermeiros – e não só – tiverem memória, saberão que a situação em que se encontram é consequência de políticas impostas também por estes apoiantes de circunstância.

O PS, como está no governo, encontra-se na habitual posição a-greve-é-um-direito-constitucional-mas. O PCP e a CGTP vivem, já há algum tempo assustados com a possibilidade de não comandarem a luta de algumas classes profissionais, os professores que o digam. O BE não foi carne nem peixe, ficando desfavorecido no retrato. Até os democratas andam distraídos.

A greve é um grito, mas o grito ou a indignação não são suficientes. Os professores andam indignadíssimos há quase quinze anos, somando derrotas. Os enfermeiros terão muito a aprender, mas, diante de uma hidra com cabeças governativas, empresariais e até sindicais, têm muito a ensinar.

Comments

  1. João Paz says:

    Mais uma excelente análise António Nabais. E não é só por ser enfermeiro que o digo mas, sobretudo, como cidadão português exposto como os demais à gritante parcialidade jornalística sempre a favor do governo (PS ou PSD pouco lhes importa) e de quem manda nos sucessivos governos (vidé declarações do CEO da Goldman Sachs de Londres). Obrigado!

  2. Julio Rolo Santos says:

    Numa greve para ser válida pressupõe perda de vencimento para os grevistas, o contrário, é o regabofe do típico funcionário público. No privado, a coisa chia mais fino e não admite outras interpretações.

    • António Fernando Nabais says:

      Grande descoberta! Claro que há sempre cortes no vencimento: por isso é que há fundos de greve. No privado, os trabalhadores ainda estão menos protegidos do que os funcionários públicos, mas o Júlio gosta é de países em que as pessoas tenham medo de protestar.

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