O Concílio

A Web Summit é um acontecimento relevante sob vários pontos de vista. Para Portugal é-o duplamente, uma vez que é aqui que se realiza, sendo que esse facto é visto e tido como uma vantagem pela generalidade dos agentes do poder.

Em nada isto contraria o facto de se tratar de uma assembleia evangélica, similar, em todos os aspectos fundamentais, a uma cerimónia de culto religioso, promovida e levada à prática segundo códigos, símbolos, discursos, encenações e rituais em tudo semelhantes aos que as maiores igrejas utilizam nas suas próprias celebrações e estratégias de evangelização.

Não sendo isto, à partida, bom nem mau, é assim. Tudo na Web Summit está de acordo com os princípios reguladores de uma cerimónia extática, hipnótica e persuasiva, cujo propósito é unir em torno de uma verdade sacra e de uma vontade de transcendência, a enorme massa de almas hoje rendidas ao esplendor universal da máquina.

Repete-se: isto não é, à partida, nem bom, nem mau. Há quem ache que é bom e há quem ache que é mau. O que é mau, por ser injusto, é negar à Web Summit o seu lugar de direito na História da Magia e na Antropologia das Religiões. Porque esse é um truque que os “tecno-laicos” utilizam recorrentemente para ocultar o seu monoteísmo visceral, a sua religiosidade fanática e a sua intolerância irredutível.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “Aquilo que eu mais temo num futuro próximo, é uma guerra fratricida entre os “Xiitas da Apple e os Sunitas da Huawei”, com os seus fiéis seguidores digladiando-se nas estações de metro e do autocarro.
    Os Apple’s levam uma tatuagem no braço ou no cachaço, desenhado um cocó com a palavra, Trump(as),… os Hauwei’s, o desenho de uma garrafa meia cheia, escrito, Xixi às Pingas.”
    Vai ser lindo, vai…!


  2. E a questão é….

  3. Luís Lavoura says:

    Não se trata de uma reunião religiosa. Trata-se de uma reunião de trabalho, em que diversas pessoas se encontram com o fim de alguma interação útil entre elas.
    É mais ou menos como um congresso científico. Os cientistas estão lá para se dar a conhecer e dar a conhecer o seu trabalho e desenvolverem colaborações entre si.

    • Paulo Marques says:

      Nem por isso. Num congresso científico discutem-se e partilha-se conhecimento. Numa feira comercial, vendem-se coisas, entre as quais muita banha da cobra. Ou, pelo menos, soluções para os problemas errados, muito frequente na tecnologia.

      • Luís Lavoura says:

        Num congresso científico também há muita banha de cobra e soluções para problemas errados. E também se vende muita personalidade. Nenhuma diferença em relação à WebSummit.

  4. JgMenos says:

    A única discernível crença na engenhosidade humana parece ter pouco de religião transcendental.

    • Paulo Marques says:

      Numa feira não se vende engenharia.

      • JgMenos says:

        Preparem-se que o Marques está prestes a definir engenharia.
        Quanto à engenhosidade fica para mais tarde.

        • Paulo Marques says:

          É igual, não é isso que se trata, mas sim de vender productos, nem todos bons, nem todos maus, muitas vezes errados para o cliente.
          E chuchar subsídios ao estado, claro, como a própria conferência, enquanto vendem patetices como o UBI e o blockchain.

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