Diário da quarentena – A vida em tempos de Covid-19

Até agora o mais complicado tem sido arranjar comida. Apocalíptico eu sei, mas é verdade.

Viver em Londres significa que há tudo. Tudo, mesmo. O supermercado tem vegetais em espiral para quem não tem a maquinazinha em casa. Tem cenoura e batata-doce descascada em pacotes para quem não quer ter o trabalho. A fruta vem hermeticamente fechada. As sementes de romã vêm em caixas de plástico. Há dezenas de cereais, vários tipos de leite, e todo o género de comida pré-feita.

Viver em Londres significa, também, poder usufruir de tudo de todo lado. Os supermercados têm secções com produtos da Polónia ao Japão.

Agora, quase de um dia para o outro, os supermercados ficaram vazios. Até os produtos perecíveis desaparecem com uma rapidez alucinante. O meu supermercado local já impôs restrições à quantidade de itens que cada pessoa pode comprar. Eu decidi-me pela estratégia, que me é permitida pelo enorme privilégio que tenho em conseguir viver uma vida confortável, de me focar em leite, cereais e fruta, e vivendo essencialmente de entregas de restaurantes. Se os restaurantes começarem a fechar, como aconteceu em França, vou ter de repensar a estratégia. Por agora, penso que não vai acontecer. O laissez-faire de Johnson permite aos lojistas e donos de restaurantes alguma margem de manobra. Acredito, aliás, que foi precisamente por causa disso que o governo resiste a instaurar essa obrigatoriedade. Em Londres as rendas são altíssimas, e no Reino Unido os direitos laborais muito mais flexíveis do que noutros países da Europa. Por outras palavras, Johnson teme pela paz social.

De resto, tenho estado em casa, a trabalhar. Mas não é fácil trabalhar com a preocupação de não saber se vou conseguir comprar o básico para viver o dia-a-dia – numa casa que me permite limitado açambarcamento, não tendo, por exemplo, um congelador. E desenganem-se de que sou a única. Como eu, em Londres, vivem milhares de pessoas. Ao menos, eu não tenho que me debater com roommates e flatmates.

De não saber quando vou ficar doente, de não saber, sequer, quando é que isto vai acabar, e com um governo que na mais caridosa das interpretações está meio desorientado.

Suponho que nem tudo seja mau. Eu não tenho problema em ficar em casa – nunca tive, e consigo viver relativamente feliz sem sair à rua. E sou altamente privilegiada porque posso trabalhar em casa, porque, em última análise, vivo sozinha. Nos últimos meses, comprei dezenas de livros entre os quais a Guerra e Paz. Decidi-me a encomendar livros de livrarias independentes às quais costumo ir. O meu pequeno, insignificante contributo para a crise.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Ou seja, a Daniela vive em Inglaterra, um dos países mais ricos e avançados do mundo, trabalha descansadinha em casa, uma casa que tem só para si em Londres, uma das cidades mais caras do mundo, e ainda assim consegue comprar dezenas de livros e comer de restaurantes todos os dias?

    Pois, Daniela, é preocupante. Tenha coragem, as coisas hão-de melhorar.

    • Fernando Vasconcelos says:

      Comentário totalmente despropositado … é por causa destes tipos de julgamentos que me parece por vezes que a espécie humana já não consegue ler quanto mais reflectir. Releia lá o texto, nomeadamente a parte em que autora reconhece “ter sorte em poder fazer o que faz”. Se o pode fazer, se o decide partilhar, o que está assim tão errado que mereça a sua ironia (com um julgamento à mistura … tststs não devia partilhar essas coisas que há pessoas a sofrer muito mais). E há, é verdade, e então? Em que é que isso reduz o valor desta partilha? Caro Filpe Bastos recomendo-lhe uma dose de bom senso que me parece faltar-lhe.

      • Filipe Bastos says:

        Fernando, a ironia é justamente pelo despropósito do post. A autora admite o privilégio dela, mas essa noção não é suficiente para abster-se de se queixar publicamente, sabendo que a esmagadora maioria das pessoas está pior ou muito pior – e já o estava antes do vírus, quanto mais depois dele.

        Se ainda tem pachorra para estes choradinhos de ‘pobre menino rico’, ou neste caso menina, lamento, mas a minha não chega a tanto. Ter casa própria e viver de restaurantes em Londres requer muitos milhares de euros (libras) por mês.

        • Daniela Major says:

          Filipe, o que é interessante na sua resposta é a ideia de que me estou a queixar: não estou. Estou a constatar uma situação e os vários receios que ela me provoca. É evidente que há pessoas que circunstâncias piores do que eu, e pessoas em circunstâncias melhores. Não é uma competição.

          Mas não se preocupe. Os meus próximos textos sobre o assunto seguirão exactamente a receita deste, e é a minha mais sincera esperança que o irritem tanto como este o fez. Cá estarei para a sua falta de paciência, e embora me divirta, recomendo-lhe vivamente outro hobby.

          • contra_tadinhos says:

            Não irritaram só a ele !

          • Filipe Bastos says:

            Daniela, se não é uma queixa falho em ver o que é. Tudo normal se escrevesse aos seus papás ou compinchas; não tão normal alardear o seu privilégio ao mundo em tempos (ainda mais) difíceis para tantos.

            Nem tudo é uma competição, mas que reacção esperava? Empatia, quando detalha as vantagens que já tinha e continua a ter? Se lhe disser que agora não posso ir esquiar (que chatice!), ou que não se encontra caviar decente, fica triste por mim?

            Nada tenho contra si, espero que se mantenha riquinha e saudável. Só queria perceber o ‘point’.

          • contra_tadinhos says:

            Daniela

            “é a ideia de que me estou a queixar: não estou. Estou a constatar uma situação e os vários receios que ela me provoca”

            Agora em Português, please

  2. Abstencionista says:

    “…e com um governo que na mais caridosa das interpretações está meio desorientado.”
    Assustadores os cenários que os especialistas apresentam para o R.U. em qualquer estratégia de combate ao vírus.
    Má altura para o Boris estar desorientado.

    Excelente post!

  3. Pedro Vaz says:

    Em Londres é virus nanoscópicos e virus macroscópicos vindos de África, Médio Oriente e Ásia Central…um verdadeiro inferno.

    • POIS! says:

      Pois tá bem! Ah! Ah!

      Vosselência mete mesmo piada!

      Já disse a sua bacoradinha das 8 e meia, já pode voltar a brincar com as miniaturas das câmaras de gás e a ouvir os discursos do Kim Iong Un enqunto contempla um poster do Venturinha. Lindo menino!

      • Abstencionista says:

        Analisando ZZZZzzzzzzz
        Zzzzzz …….estás a ver pá(?) quando deixas os charros e tomas a medicação a horas já começas a afinar?
        E, sem falsa modéstia, graças aos meus conselhos e bons exemplos que te dou.

        No entanto, querido Xô Pois, o conteúdo do post não está mal mas a forma …balha-me a santa.
        Ó Xô, tens de interiorizar que para se ser irónico tens de ter inteligência.
        E o estilo parolo/diletante que vertes não passa de uma rosqueirice que fazes ao Grande Eça.

        Isto apesar de compreender, e respeitar, a tua fixação pelo Libaninho, pois constava na altura que o sacristão tinha uma marcha atrás de respeito.

        • POIS! says:

          Pois estou muito feliz!

          Vosselência, pelos vistos, já fez a lobotomia e, pelos vistos, parece ter corrido bem.

          Em relação ao resto, o menino pensa que todos seguem a sua orientação sexual, o que não é verdade. Ainda não lhe o disseram lá em casa? Isto porque deve ser filho de heterossexuais, penso eu.

          Pode voltar á sesta, que bem lhe faz para esquecer os traumas e também para recuperar mais depressa da lobotomia.

          Boas melhoras.

        • Democrata_Cristão says:

          Abstente de dizer asneiras, patego abstenionista

    • British says:

      What ?

    • Paulo Marques says:

      Vem nas notas sujas de sangue, velhos hábitos que não morrem.

  4. Socorro says:

    Agora em Português, please

    Ehehehehehehe ! Ài que não posso mais. Ehehehehehe!

  5. Luís Lavoura says:

    desenganem-se de que sou a única. Como eu, em Londres, vivem milhares de pessoas

    Sem dúvida. Há milhares de pessoas que vivem sem aquilo que outras pessoas consideram evidente.

    Eu conheço pessoas – não se trata de pessoas primitivas, mas sim de pessoas educadas, de facto – doutoradas – que não têm internet em casa, outras que não têm computador, outras que não têm telemóvel.

    Ora, a Daniela está sossegadinha a trabalhar em casa porque tem em casa essas coisas todas – que paga com dinheiro do seu bolso. Mas, e se não tivesse?

    Agora querem que toda a gente teletrabalhe. Mas esquecem que muita gente não tem condições para teletrabalhar. Porque tem uma casa muito pequena. Porque não tem telemóvel (e não tem obrigação de estar a comprar um para poder trabalhar para o patrão) Porque não tem computador. Porque não tem ligação à internet (ou então tem-na, mas de má qualidade).

    • abaixoapadralhada says:

      Sr Lavoura

      Teletrabalho não é andar a brincar no facebook com o telemovel.
      É outra coisa e bastante diferente.

    • Paulo Marques says:

      Xiu, ainda alguém se lembra que as ferramentas de trabalho devem ser pagas pela entidade empregadora…

  6. Carlos Almeida says:

    “Mas esquecem que muita gente não tem condições para teletrabalhar.”

    Por exemplo, electricistas, mecânicos de automovel, pintores, carpinteiros, agricultores, pessoal das limpezas, pessoal fabril, instaladores de telecomunicações, pescadores, etc etc, não podem fazer teletrabalho

    O teletrabalho é para as pessoas que no seu trabalho normal, ja façam uso de computador. Por exemplo contabilistas, pessoal administrativo em escritórios de empresas ou Estado, etc

    Quem no seu dia a dia não faça uso de computador no seu trabalho, para fazer facturas, gestão de stocks etc, é evidente que não podem fazer teletrabalho.

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