Não cheguei ao ponto de chorar ou de ficar depressivo, nem sequer melancólico, até porque, por profundo egoísmo, fico satisfeito por saber que a morte de Uderzo não levou – nem eu deixava – os meus velhos álbuns das aventuras de Astérix, que continuam alinhados, sempre à espera de mais uma releitura ou, até, de uma consulta para recordar um diálogo genial criado pelo Goscinny ou um desenho brilhante do Uderzo. Pegar num desses álbuns (e cheirá-lo, claro) é, também, a garantia de que volto a ter dez anos e estou deitado ou sentado, a rir-me e a comer as raivas feitas pela minha avó ou pela minha mãe (ainda há migalhas arqueológicas espalhadas pelos livros).
Os desenhos de Uderzo, aliás, retiraram-me a possibilidade de fruir verdadeiramente os filmes que se inspiraram nas histórias. Não há competição possível: a realidade está nos álbuns – tudo o resto, mesmo com actores verdadeiros, é uma imitação insuficiente.
O nosso verdadeiro nome é aquele com que a vida nos vai baptizando, acrescentando aos dos pais, os dos amigos, dos escritores, dos realizadores, dos actores. O meu nome, neste momento, é muito maior do que alguma vez serei, maior ainda do que os dos reis e dos nobres. Lá pelo meio, desde há muitos anos, chamo-me, também, Albert Uderzo.