Aventar

Os factores da TVI e o distrito do Porto


I’m not asking you to believe anything you can’t prove. I’m just asking you to prove it.
Will Graham

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O pedido de desculpas da TVI levou-me a ver um bocadinho do Jornal das 8 de ontem e a encontrar mais uma prova quer da utilidade grafémica das letras consonânticas cê e pê, quer da concomitante inutilidade do Acordo Ortográfico de 1990. O direto, fixado por alguém na moldura daquele oráculo informativo, borra a pintura. Contudo, como sabemos, ‘factores’ são uma prova de que há esperança.

Há muitos anos, no Manhunter, houve um diálogo extremamente interessante entre o Hannibal Lecktor (exactamente, Lecktor e não Lecter) e o Will Graham. No mais recente Hannibal, tivemos o Will a fazer de Lecktor e a Beverly Katz a fazer de Will.

O Will perguntava:
Do you have the file with you?

A Beverly respondia:
Yes.

O Will retorquia:
And pictures?

E a Beverly repetia:
Yes.

É verdade: felizmente, há imagens.

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Nótula: Por uma questão de clareza quanto ao número de pessoas infectadas com COVID-19 em Portugal, talvez fosse bom que o Ministério da Saúde e a comunicação social portuguesa deixassem de tratar os casos do distrito do Porto dentro da região NORTE DE PORTUGAL (assim, com maiúsculas, como nos oráculos sensacionalistas da TVI).

Neste caso concreto das pessoas infectadas com COVID-19, o distrito do Porto deve ser analisado à parte.

O NORTE DE PORTUGAL é identificado no mapa do Ministério da Saúde como a região que, para quem vem de Barcarena, começa nos concelhos de Espinho, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra, Arouca, Cinfães, Resende, Lamego, Tarouca, Moimenta da Beira, Sernancelhe, Penedono, Vila Nova de Foz Côa e Freixo de Espada à Cinta e vai por ali acima  — cf. mapa dos concelhos de Portugal (pdf) e mapa do Ministério da Saúde.

Como é sabido, há neste momento 10302 pessoas infectadas com COVID-19 no NORTE DE PORTUGAL.

Todavia, só no Porto, em Gaia, em Gondomar, em Matosinhos, na Maia e em Valongo (seis concelhos do distrito do Porto) há 4544 casos.

Isto é, seis concelhos do distrito do Porto concentram quase metade (44%) dos casos do NORTE DE PORTUGAL — já agora, ao contrário do que diz o jornalista da RTP, o concelho de Ovar não pertence ao NORTE DE PORTUGAL (tendo em conta a divisão geográfica indicada pelo Ministério da Saúde, entenda-se). Assim, há actualmente mais casos só nesses seis concelhos (4544) do que na região à qual o Ministério da Saúde chama “de Lisboa” (3994).

Por isso, talvez o caso específico do distrito do Porto deva começar a ser quantificado e tratado de forma isolada em relação ao NORTE DE PORTUGAL. E é importante que tal aconteça num momento em que políticos vão lançando a confusão terminológica, definindo erradamente o conceito portofobia como «um sentimento arreigado em pessoas que acham que “este país” seria melhor sem “o Norte”». Portofobia será, quando muito e de uma forma muito simples, “antipatia ou aversão em relação ao Porto”. Convém respeitar o sentido dos radicais.

Votos de muita saúde.

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