A Cama de Procusto (I de IV)

«Portanto, não deve preocupar o príncipe o facto de, para conservar todos os seus súbditos em união e obediência, ganhar fama de cruel, pois será muito mais compassivo do que os príncipes que, por excesso de clemência, deixam alastrar as desordens, das quais se geram assassínios e rapinas.»

Nicolau Maquiavel, O Príncipe

 

A similitude das almas

Segundo Durkheim (1858-1917), «cada sociedade tem para si um certo ideal de homem, daquilo que ele deve ser, tanto do ponto de vista intelectual, como físico e moral; que esse ideal é, em certa medida, o mesmo para todos os cidadãos.» Um dos principais instrumentos de que a sociedade dispõe para produzir este homem ideal, é a Escola. É através dela que são disseminados estes modelos – arquétipos – morais, físicos e intelectuais, com os quais se busca uma certa homogeneização do corpo social, homogeneização essa sem a qual se perde, segundo Durkheim, a integridade e a consistência necessárias à existência da própria sociedade enquanto corpo simultaneamente múltiplo e uno, mas necessariamente coeso.

É a Escola, e a educação em particular, que tem como função induzir nas gerações mais jovens uma certa similitude de alma, através de processos de socialização metódica e da distribuição de saberes e aptidões que permitam a cada um cumprir o papel que lhe está destinado, de acordo com a natureza diversa de cada indivíduo e as necessidades específicas do corpo social entendido como um todo. Trata-se, em certa medida, de um olhar mecanicista sobre a sociedade, a qual é tida como um organismo cuja subsistência depende do perfeito funcionamento e integração dos seus diferentes órgãos, cada um com a sua função específica, mas em que todos actuam no sentido de manter o equilíbrio do conjunto. Durkheim considera que a criança deve ser preparada com vista à função que será chamada a preencher, facto que obriga a uma crescente e cada vez mais precoce especialização do processo educativo. Aproximamo-nos, aparentemente, de um determinismo bio-social que captura, praticamente desde a nascença, toda a potência multidimensional do indivíduo, no sentido de a circunscrever a um reduto específico e exíguo de saberes e aptidões que lhe foi reservado, em nome de uma eficácia operativa necessária ao regular funcionamento de um mecanismo complexo, o corpo social, composto por diferentes peças às quais são atribuídas diferentes funções, de acordo com características inatas, pré-existentes, e as necessidades funcionais do conjunto. O olhar sociológico de Durkheim sobre a escola parece fundar-se numa concepção utilitarista, de uma frieza maquinal que evoca mais um organismo artificial, sem alma, uma fábrica destinada a operar contínua e perpetuamente com o exclusivo propósito de operar contínua e perpetuamente, produzindo-se a si própria, renovando continuamente as condições necessárias à sua existência. Não obstante, Durkheim não deixa de proceder à salvação simbólica do mecanismo, ao sustentar que a educação assegura a persistência da diversidade necessária, diversificando-se e especializando-se ela própria. Esta diversificação, contudo, parece ser entendida por Bourdieu mais como uma desigualdade, uma vez que considera ser esta a principal característica visível da forma como o sistema de ensino encara e acolhe as diferentes camadas sociais, as quais integram o sistema partindo de condições distintas e, como tal, formam expectativas diversas sobre os resultados a obter e obtêm, de facto, resultados diferentes. Para Bourdieu, a Escola – o sistema de ensino – trata todos os indivíduos como se fossem iguais, quando, na verdade, eles não são. Dirige-se simultaneamente a indivíduos já dotados de capital cultural e de aptidão para fazer frutificar esse capital, e aos outros, dos quais esse capital e essa aptidão estão ausentes, aplicando a uns e outros o mesmo procedimento e acabando por exercer sobre os mais desfavorecidos uma violência simbólica que perpetua a sua condição e promove a reprodução social.

O presente texto acabou por se centrar mais na perspectiva adoptada por Michel Foucault e nos conceitos de vigilância, adestramento, disciplina e punição, convocando para a reflexão aspectos aparentemente laterais a esses conceitos, mas que se encontram, pelo menos subjectivamente, expressos em paradigmas mitológicos, os quais cumprem ainda um papel não negligenciável na compreensão dos fenómenos psicológicos e sociais. Alguns desses paradigmas têm ganho uma actualidade de algum modo surpreendente, num mundo onde parecem ressurgir com grande ímpeto coercivo alguns fantasmas mitológicos de grande resistência epidemiológica ao tempo e à transformação das culturas. Neste contexto, não é indiferente a estratégia e o conjunto de directrizes que os grandes organismos internacionais, de expressão global, como a Organização das Nações Unidas ou o Fórum Económico Mundial estabeleceram como decisivos para a implementação da chamada Educação 4.0 e da Quarta Revolução Industrial, fenómenos estimulados pelo avanço tecnológico e cujo objectivo central, segundo esses próprios organismos, é a fusão entre os mundos físico, digital e biológico. É possível que estejamos em presença de uma reconfiguração profunda dos dispositivos de vigilância e disciplina, suscitada pelas transformações que a ciência e a tecnologia estão a operar no corpo social e no próprio conhecimento, transformações essas que não deixarão de influenciar a arte das distribuições, o controlo da actividade e o próprio conceito de adestramento dos corpos que caracterizam, segundo Foucault, o Estado herdado da época clássica.

Ao professor, seja pela estratégia pedagógica que adopte ou adapte, seja pelo currículo oculto através do qual busque corrigir desequilíbrios que identifique no processo de ensino e aprendizagem emergente do quadro normativo, cabe estar o mais atento possível às nuances culturais que se vão introduzindo, com mais ou menos transparência, no processo civilizacional, mitigando o mais possível a inquietude e as incertezas de um tempo dominado pelo imprevisto.

Comments

  1. esteves aires says:

    Luto contra três gigantes, querido Sancho; estes são: o medo, que tem forte raigambre e que toma conta dos seres e os sujeita para que não ultrapassem o muro do socialmente permitido ou admitido; o outro é a injustiça, que subjaz no mundo disfarçada de justiça geral, mas que é uma justiça instaurada por alguns para defender mesquinhos e egoístas interesses; e o outro é a ignorância, que anda também vestida ou disfarçada de conhecimento e que lamenta os seres para que acreditem saber quando não sabem na verdade e que acreditem estar certos quando não estão. Essa ignorância, disfarçada de conhecimento, machuca muito, e impede os seres de ir além na linha de conhecer realmente e se conhecer!

    Miguel de Cervantes, em Dom Quixote

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