A Cama de Procusto (III de IV)

Biopolítica e persuasão

Esta disciplina, segundo Foucault, faz parte do conjunto de recursos colocados ao serviço do Soberano e destinados ao bom adestramento dos corpos. É um tipo de poder simultaneamente ordenador e extractor, uma vez que não busca estritamente anular ou reduzir as forças individuais em circulação, sendo que elas representam e constituem a própria energia social, mas adestrá-las, submetê-las, combiná-las, para posteriormente as utilizar em seu próprio proveito de modo optimamente eficaz. Esta é uma estratégia inspirada em modelos e protocolos de origem militar, mas que pode ser igualmente encontrada na própria gramática da Biologia, onde um grau semelhante de inteligência estratégica e manipulação parasitária podem ser identificados, nomeadamente, mas não só, no comportamento predador de alguns animais.

Existe, de facto, um tipo de vespa, a Hymenoepimecis sp., cujo comportamento foi estudado pelo biólogo William Eberhard, do Smithsonian Tropical Research Institute, na Costa Rica, e que é classificada como sendo um «parasita manipulador». O hospedeiro desta vespa é a aranha Plesiometa argyra. Na altura da desova, a Hymenoepimecis sp. pica a Plesiometa argyra quando esta se encontra urdindo a sua teia, injectando-lhe uma substância tóxica no corpo que a paralisa por completo. Depois de a Plesiometa argyr se prostrar imóvel pela acção do veneno, a vespa deposita os ovos no seu corpo e aguarda que a aranha recupere a consciência, assim que atenuados alguns dos efeitos do veneno. Sucede que, a partir dessa altura, a aranha passa a carregar no seu corpo as larvas da vespa manipuladora, crias que nas semanas seguintes vão ter como alimento o próprio sangue da aranha. O suplício durará alguns dias, ao longo das quais a aranha continuará a urdir a sua teia, enquanto as larvas da vespa se alimentam e crescem no seu interior. Até que algo inaudito acontece. De uma momento para o outro, a aranha, induzida quimicamente pelas larvas, muda o seu comportamento e altera radicalmente a forma como urde a teia, assim como sua própria geometria. Abandona o desenho em espiral e passa a construir uma rede com apenas quatro fios, suspensos em forma de cruz. Quando essa cruz fica concluída, a larva come a aranha e com os seus fluidos constrói o casulo onde se dará a sua metamorfose final, ficando suspensa, em segurança, dos quatros fios da teia que ardilosamente levou a aranha a construir. Finalmente voa, prosseguindo o seu ciclo vital.

Este episódio, que retrata a crueldade de alguns mecanismos e estratégias de sobrevivência,  assim como relações de força e de poder, sublinha igualmente a sofisticação de algumas dessas estratégias, assentes num conjunto de procedimentos meticulosamente colocados em prática, coerentes entre si, totalmente adequados à consecução dos seus objectivos finais. Trata-se, neste caso particular, retirado do mundo natural e da biologia, da utilização de métodos insidiosos, profundamente manipuladores, através dos quais um evoluído predador condiciona o comportamento da sua vítima, exercendo sobre ela um poder absoluto que não apenas modifica o seu comportamento, mas o faz de modo a que esse comportamento passe a servir o seu próprio interesse. A brutalidade do exemplo, característica de um mundo dominado pelo princípio da força e pela lei do mais forte, não lhe retira pertinência enquanto paradigma das relações de poder assentes na manipulação, na indução e condicionamento de comportamentos e na sofisticação insidiosa das estratégias colocadas em prática com vista à afirmação de uma soberania e à garantia da sua perenidade.

 

A Cama de Procusto (I de IV)
https://aventar.eu/2021/02/04/a-cama-de-procusto-i-de-iv/

A Cama de Procusto (II de IV)
https://aventar.eu/2021/02/06/a-cama-de-procusto-ii-de-iv/

Comments

  1. JgMenos says:

    Da acção dos fluidos à consciência de si é um instantinho demagógico e uma eternidade biológica..

    • British says:

      What ?

    • POIS! says:

      Pois vamos tentar traduzir, mais ou Menos:

      “Entre a ação da aguardente e a consciência de estar grosso há um instantinho ilusório e uma eternidade enfrascada…”

      Faço notar as reticências. Quer dizer que o Menos, logo que possa, vai prosseguir. Estamos todos em pulgas!

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