Em revisão: A Passage to India, E.M Forster

 

O livro (e o filme) colocam uma pretensa pergunta: o que aconteceu nas grutas de Marabar?

Publicado em 1924, nos últimos suspiros do Império britânico, e adaptado ao cinema por David Lean em 1984, A Passage to India expõe as fissuras e injustiças na sociedade colonial. Um jovem médico indiano é acusado de violar uma inglesa, branca, nas grutas de Marabar. O caso divide a sociedade entre os britânicos que acham que este crime é típico dos indianos e os indianos que vêem em Aziz mais uma vítima do preconceito e arbitrariedade colonial. Só um britânico defende Aziz: Cyril Fielding, um professor de liceu que, afastado da sua comunidade pelas visões pouco convencionais relativamente aos indianos, é agora completamente posto de parte em virtude da sua amizade com suposto violador.

O filme de David Lean segue o enredo do livro, embora introduza algumas particularidades interessantes. A personagem de Adela Quested é especialmente bem conseguida. Lean expande-a, embora dentro dos limites estabelecidos pelo original. Tanto Forster como Lean perceberam exactamente aquilo que Adela devia ser: não uma vilã, não uma mulher maliciosa, mas apenas alguém ultrapassada, ou engolida, pelas circunstâncias. Mas é possível argumentar que Lean despolitiza o filme, escolhendo focar-se mais nas relações entre as personagens e no pathos de cada personagem, e não tanto no significado político por detrás do suposto crime de Aziz.

Este pretenso crime alimenta as fantasias coloniais dos britânicos. Desesperados e a tentar negar as evidências, eles acreditam que a Índia precisa muito da sua missão civilizadora. Mas Aziz está inocente. Isto é admitido pela própria vítima durante o julgamento. É uma vitória agridoce para Aziz cuja vida foi destruída pelo preconceito colonial. Mas ele sai do conflito radicalizado. Fez-se, nas suas palavras, um indiano. A luta pela independência tinha ganho um fervoroso adepto. A amizade com Fielding desfaz-se porque há agora demasiado a separá-los. Fielding, embora mais esclarecido do que os seus compatriotas, não deixa de ser um representante de um poder estrangeiro, a exercer poder numa terra que não é dele.

O Império, é bom lembrar, foi isto: arbitrário, cruel, violento, destruídor. Não apenas no geral, não apenas com números que em breve se tornam estatísticas, mas para o indíviduo com amigos, com família, com uma profissão. Forster, um inglês branco vindo de Cambridge, percebeu-o com clareza, embora só tenha estado na Índia durante uns anos. Não vale a pena braquear ou negar. Está ali para quem quiser ver.