André tem Mel

O Movimento Europa e Liberdade (MEL) realiza, estes dias, o seu muito falado conclave.

E o que é mesmo o MEL?

Não tenho bem a certeza. Tentei aceder ao site, para saber qual é a cena deles, mas estava crashado. Foi então que encontrei o cartaz do festival no Google, e fui ver o alinhamento. Segundo pude apurar, o MEL é uma convenção de direita, apesar de não se assumir como tal, onde políticos dos partidos de direita convivem com a fina flor da comunicação social de direita, com dois críticos internos de António Costa para fazer de conta que aquilo não é uma convenção de direita. Para quê tanta dissimulação?

Também não tenho bem a certeza. Nem vejo mal nenhum nisso. Vivemos em democracia, ao contrário daquilo que sugerem alguns convivas mais radicalizados do MEL, e o debate de ideias é fundamental. O que não se percebe são as mensagens contraditórias do MEL. Vejamos o caso de Jorge Marrão, fundador e presidente do MEL, no início de 2019, em entrevista ao jornal ECO:

Nós queremos estar no centro, reforçar o centro e afastar os extremos. Porque a clivagem da sociedade privilegia os partidos tramados. Nós não precisamos disso.

Um ano depois, em Março de 2020, em declarações à rádio Observador, o discurso mantinha-se firme:

É preciso que Portugal escape ao populismo

Em 2021, no segundo dia da terceira edição, André Ventura é um dos cabeças-de-cartaz do do evento, juntamente com Rui Rio, um dos seus alvos preferidos. Ventura, que chegou a dirigir palavras pouco simpáticas à organização do MEL, por não ter sido convidado em edições anteriores, e cujo partido se dedica a insultar os liberais diariamente, e a tratar os restantes à direita como seus inferiores e futuros subalternos, foi normalizado com uma intervenção de 30 minutos, a mais longa atribuída no certame, da qual já colhe frutos antes mesmo de actuar. A mecânica da coisa fica mais clara nas palavras de António Costa, do jornal ECO:

(…) de um movimento cívico de promoção de ideias e propostas a uma plataforma de governo que quer federar o centro e as direitas. Todas, reconhecendo implicitamente que a direita liberal e europeísta tem de fazer o mesmo que fez Costa, vender-se à extrema radical, para vencer eleições. Tem de vender-se ao Chega. A um partido populista e anti-europeísta, que se juntou ao mais extremo dos grupos parlamentares no Parlamento Europeu.

Normalizar o Chega. Um movimento que pretende mais Europa e mais Liberdade decide promover o one man show de Ventura, apesar do seu antieuropeísmo, do seu desprezo pela democracia liberal e da sua natureza autoritária. Porque, sejamos francos, o MEL entende que o Chega é um interlocutor mais válido do que o PS, o Livre ou o Volt, nenhum deles extremista, todos comprometidos com o projecto europeu. Ficam assim a nu, os objectivos desta organização. E fica claro que considera o Chega parte do seu projecto, da sua solução.

Lamentavelmente, a direita portuguesa teima em não aprender a lição de Merkel e da direita alemã. Ou então, como notou o Ricardo, tudo se resume à habitual sede de ir ao pote. Não sei para qual me inclinar.

Comments

  1. POIS! says:

    Pois temos uma notícia de última hora! Rui Rio não vai apenas discursar! Vai cantar uma canção a propósito, a “Colmeia do Amor” especialmente para si composta pelo célebre Clemente, olhando fixamente para o Venturoso sentado na asistência:

    “Eu queria ser abelha
    P’ra sugar a vida inteira
    O teu pólen em minha flor

    EU SÓ TE QUERO CONQUISTAR
    P’RA PODER GOVERNAR
    A COLMEIA DO AMOR

    Eu só sonho com o dia
    De viver com alegria
    Esta vida que nos resta

    Para ter a alma cheia
    Só falta na colmeia
    A minha abelha mestra

    Zz zz zz zz sou uma abelha
    Sempre em busca do mel
    Pousa aqui pousa ali
    Nessa tua doce pele

    Zz zz zz zz sou uma abelha
    Sempre beijando a flor
    Pousa aqui pousa ali
    No teu corpo meu amor”.

    • POIS! says:

      Ùltima hora!

      Rui Rio vai proceder a algumas alterações na letra!

      Assim, na segunda estrofe vai passar a ser:

      “Eu só te quero MODERAR
      P’ra poder governar
      A colmeia do amor”.

  2. JgMenos says:

    Todos se definem como não socialistas, um pormenor que não ocorre referir ao autor do post.

    • POIS! says:

      Pois é!

      E há outras coisas que não refere, que seriam importantes, especialmente para V. Exa.. Imperdoável! Quer exemplos?

      As bicicletas definem-se por terem pedais.

      Os defuntos definem-se por não terem vida.

      O gelo define-se por não estar a ferver.

      A cachaça define-se por não ser água não.

    • POIS! says:

      Pois, e já agora…

      “Todos” quem? Os de lá de casa?

    • Rui Naldinho says:

      O PS tem tanto de socialista como o PSD tem de social democrata. São duas coisas similares com discursos diferentes, e pouco mais diferem um do outro. O problema é que o teu querido líder, Passos, resolveu rebentar com o PSD.
      Agora fodam-se!

    • Paulo Marques says:

      Também não referiu que serve qualquer coisa, desde que guardem o lugar na hierarquia, nem que ontem fossem insultados e hoje batam palmas.

    • José Peralta says:

      O “menos” !

      “Todos se definem como não socialistas”…

      Óbvio, ó “menos” ! Nem precisavam de assim NÃO se definirem.

      O que eles não querem mostrar, é aquilo que realmente são :

      Um, é um confesso neo-fascista ! Não engana ninguém !

      Os outros…para lá caminham…


  3. O poeta é que tinha razão:

    “As escolas são como as selvas
    Para quem tem dotes escassos (1)
    Bem me vai dizendo o Relvas
    Vai mas é estudar oh Passos”

    (1) Eu, claro…..

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