Aventar

O cliente saiu satisfeito



A bem da retoma económica, a nossa cidade do Porto recebeu um grupo de ingleses em que se incluíam cidadãos cordatos, mas abundavam hooligans ululantes. Entre todos, terão ajudado o necessitado sector da hotelaria e restauração, e rebentado com as reservas dos produtores de cerveja. À parte isso, emitiram muito ruído, ocuparam ruas e passeios, e borrifaram-se com descaro nas três regrazinhas básicas que a Protecção Civil recordava, ainda ontem, aos nacionais, por SMS: usar máscara, manter o distanciamento social, e não consumir álcool na via pública. Em sua defesa, é bem possível que ninguém lhes tenha dito que tais regras estavam em vigor. Para quê incomodá-los?

Para os indígenas, a mensagem foi de absoluta clareza: os pobres não podem ser exigentes. É claro que preferíamos franceses requintados em provas de vinho ou circunspectos alemães passeando entre as tílias do Palácio. Mas, se o que se pode arranjar são hooligans aos berros e a tresandar a cerveja, pois seja. A cavalo dado, etc.

Rui Moreira sacudiu as reacções ao despautério com o seu substantivo favorito: portofobia. Note-se que usou esse mesmo substantivo para caracterizar, nos últimos anos: Mário Lino, o Instituto do Turismo de Portugal, o ICOMOS, a TVI, e até o caso Selminho (ao minuto 21:06).

Afinal, o discurso que apela ao tribalismo básico, que tudo reduz a um “nós contra eles”, vai funcionando, ainda que seja, paradoxalmente, ele sim, carregado de fobias e de complexos de inferioridade.

Do Governo ouviu-se apenas a satisfação do secretário de Estado do Desporto pelo “sucesso” da final da Champions. É natural, o cliente saiu satisfeito, a gerência congratula-se.

Depois do sucesso, resta uma incerteza: que farão as autoridades para que o discurso sobre as regras a cumprir seja agora encarado como outra coisa que não um desplante?