Em defesa do sindicalismo

 

Sou insuspeito de qualquer simpatia por Joe Biden. Estou entre os que entendem que o imperialismo não muda a sua natureza em função dos EUA serem liderados pelo Partido Democrata ou pelo Partido Republicano, mas já não seria mau que por cá esta mensagem fosse clara e assumida por quem tem poder político. Quando temos um patronato que se acha acima da lei, que de forma sistemática e em diferentes sectores condiciona de forma inaceitável a liberdade de associação e acção sindical, é urgente a defesa do sindicalismo e a consciencialização de que, sem as organizações colectivas dos trabalhadores, o regresso às catacumbas do tempo onde os direitos laborais eram uma utopia vai ser difícil de evitar. Organizados, mesmo em contextos adversos, os trabalhadores têm tudo para defender os direitos que ainda têm e avançar para novas conquistas. Divididos e desprovidos de sindicatos ficam sujeitos à impunidade de patrões e governos, expostos a todo o tipo de tropelias sem armas de autodefesa, numa espécie de ditadura do patronato com as vítimas a digladiarem-se umas contra as outras numa espiral de infinita precariedade e desumanização. Se devemos à luta organizada dos trabalhadores muitas das conquistas que hoje temos como direitos naturais, é do mais elementar bom senso defender a inviolabilidade da luta organizada dos trabalhadores.

“A moral deles e a nossa”*

Recupero no título* deste post aquele que é um dos textos mais importantes do velho Trotsky, onde se aborda a questão da moral sem a dualidade dos fariseus da burguesia nem os pruridos da pós-modernidade. Acho que a reflexão sobre “a moral deles e a nossa” é particularmente útil num tempo onde muitos pressupostos andam do avesso, com os admiradores do riot porn a defenderem medidas de repressão sobre direitos, liberdades e garantias, com a caricatura das ideias a ser o centro do debate ao invés da ideia em si e, em sentido contrário, aqueles para quem toda e qualquer manifestação de descontentamento devia ser punida com violentas cargas policiais, andam por estes dias mais condescendentes e sensíveis à importância de um elevado nível de tolerância democrática. Uns, alegadamente fanáticos pela saúde pública, rejubilam pela alegada contaminação de um negacionista, outros, fanáticos pela liberdade, não entendem que parte das medidas em curso (e outras que ficaram por tomar) terão feito sentido. Boa parte de uns e de outros reproduzem o mesmo problema. Em defesa da nossa moral, porém, devemos evitar capitular aos métodos que combatemos nos outros, a não ser, lá está, quando o método é ele próprio portador do fim que procuramos e não uma via para se obter resultados contraditórios. Eu iria de bom grado à manifestação de Bristol e não desceria de maneira nenhuma a Avenida da Liberdade contra as medidas de confinamento desprovidas de programa político, ambas são manifestações, mas uma é acertada e a outra não.

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Uma década depois da Geração à Rasca

Faz hoje dez anos que muitos de nós ocuparam as principais ruas do país e da diáspora, naquele que foi o primeiro grande protesto contra a precariedade, organizado por fora das estruturas habituais. O que começou na Geração à Rasca continuou na Plataforma 15 de Outubro, na Acampada do Rossio, na Primavera Global e por fim na plataforma Que Se Lixe a Troika. Estou convencido que cada um destes movimentos, com méritos e defeitos próprios, nasceram todos neste dia e fazem todos parte de um movimento mais amplo a nível internacional, que esteve nas acampadas de Madrid, de Wall Street ou na ocupação da praça Tahrir, no Egipto, e marcou, de forma indelével a última década da resistência. Em Portugal não se teria derrubado Sócrates tão cedo e a Troika da Pàf talvez tivesse durado mais um governo. Não sabemos, mas sabemos que ninguém se arrepende de ter dado o corpo ao manifesto.

A triste realidade do País em que a Burocracia e a Incompetência continua a fazer escola

O caso da jovem Constança Bradell é um daqueles filmes que tantas vezes vimos ao longo das últimas décadas no nosso país, em particular, nos casos que envolvem a relação entre o Estado e os portadores de doenças raras: é uma manifesta incúria, uma manifesta incompetência, uma manifesta negligência provocada por um sistema altamente burocrático que reflecte sobretudo a falta de empatia dos decisores e dos funcionários públicos perante o seu semelhante. Sim, o funcionalismo público português está, para nossa infelicidade, desde as camadas de base até ao topo, cravejado de funcionários que aparentam (ou talvez não tenham mesmo essa capacidade de tão insensíveis à dor do outro que se tornaram) não ter o mínimo de empatia perante o problema e a dor do próximo. A não ser que os visados pelo infortúnio sejam os seus filhos, os filhos dos seus colegas, os filhos dos seus hierárquicos ou os filhos dos deuses com pés de barro a quem lambem sistematicamente as botas à espera de benefícios.

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O Mamadou fica, os fascistas vão embora!

Pode ser um desenho animado de texto que diz "0 QUE FOI, MAFALDA, FICOU LOUCA? A GENTE TEM QUE CAMINHAR NHAR COM A HUMANIDADE, MIGUELITO CAMINHAR COM A HUMANIDADE!"

Juntei-me aos muitos que têm vindo a público deixar Em Carne E Osso que não queremos andar para trás em matéria de direitos adquiridos e de civilidade. A ofensiva contra Mamadou Ba tem uma intenção clara e, independentemente do acordo ou desacordo com o que ele pensa e diz, todos devem levantar a sua voz contra a tentativa de o silenciar, seja pela catadupa de ameaças à sua integridade, seja pelo mais recente apelo a que seja expulso do país.

Aqui fica o meu testemunho:

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Nem rei, nem roque

Pablo Rivadulla Duro, conhecido no mundo da música como Pablo Hasél, é um rapper catalão condenado a uma pena de nove meses e um dia de prisão pela justiça espanhola, por “injúrias ao rei”, “injúrias às autoridades do Estado” e “enaltecimento do terrorismo”, sentença baseada no conteúdo artístico do rapper e em publicações numa rede social.

Sessenta e quatro publicações no Twitter e uma música no Youtube. Foram estas as razões que levaram a justiça espanhola a condenar Pablo Hasél, em 2018, a uma pena de dois anos de prisão, posteriormente reduzida. Em 2020, o Supremo Tribunal de Espanha confirmou a decisão. Agora, em Fevereiro de 2021, Pablo Hasél é forçado a entregar-se às autoridades “de forma voluntária”.
Pablo Rivadulla Duro denunciou, em todas as suas músicas, a censura a que o Coroa espanhola submete o seu povo, os crimes económicos cometidos por Juan Carlos, o rei emérito, a hipocrisia da União Europeia colonizadora e imperialista, o ressurgimento dos fascismos um pouco por toda a Europa. Por isto, foi preso.

Convém recordar que há menos de um ano o Supremo Tribunal espanhol abriu uma investigação ao rei Juan Carlos I por suspeita de delitos de corrupção internacional, branqueamento de capitais e fraude fiscal, num esquema que lhe terá rendido, e à Coroa espanhola, cerca de 65 milhões de euros, em conluio com a Arábia Saudita. Como se não bastasse, Juan Carlos esteve também envolvido noutro escândalo: a caça ilegal de espécies ameaçadas em África, usando fundos públicos. Em Agosto de 2020 fugiu para os Emirados Árabes Unidos. Coincidências.

A juntar a tudo isto, o The Economist, numa publicação feita na semana passada, considerava Espanha uma “democracia plena”. Portugal, como se sabe, baixou à categoria de “democracia com falhas”. Se as falhas da Democracia portuguesa são piores do que a suposta plenitude democrática espanhola, não sei. Sei, isso sim, que Portugal não tem presos políticos. Nem Monarquia. Nem dinheiro. Talvez o The Economist, por ser uma revista do mundo económico, se baseie noutros factores, que não a Democracia, para aferir democracias. Não sei.

Espanha é aqui ao lado. A realidade não é assim tão distante, no entanto, em Portugal, nada se diz. A bem de uma suposta diplomacia internacional com “nuestros hermanos”, é óbvio que o Governo português, nomeadamente na pessoa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, nada irá dizer. O que é curioso, quando nos lembramos que foi este mesmo Governo que, há não muito tempo, se apressou a pôr-se ao lado do imperialismo Estado-unidense e Europeísta, reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Venezuela. Coincidências.

Não espanta, portanto, que num país tão próximo, tão histórico e tão cheio de pó por limpar, ainda não se tenha instaurado a única forma de governo realmente democrática: a República. Tudo o que vem associado à Monarquia, fosse no século XV, seja no século XXI, cheira a estrume. E continuará a feder enquanto uma só família detiver todo o poder concentrado nas suas mãos. E não há Parlamento fantoche com coligações de esquerda que o mascare.

Liberdade para Pablo Hasél.