O critério fonético (ou da pronúncia): a receção das crianças e o contato com os pais

Prenez une copie d’un gosse de troisième, vous verrez que c’est truffé de fautes d’orthographe, que c’est phonétique!

Pascal Praud

Em tese, hoje, o  [F.C.] Porto ganhava, não é?

— Rodolfo Reis, 19/3/2017

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Efectivamente, trata-se cada vez mais da adopção quer de atitudes, quer de regras de higiene.

Exactamente.

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Os desaires do Ministério da Educação

Santana Castilho*

1. As alterações que o sistema de ensino sofreu nos últimos anos oscilaram entre concepções anglo-saxónicas, de raiz empirista, e ideias construtivistas, de inspiração piagetiana. Estas, hipervalorizando as chamadas ciências da educação. Aquelas, hipervalorizando o conhecimento. O equilíbrio entre estes dois extremos não foi a escolha do secretário de Estado João Costa.

Ao Expresso, João Costa foi claro quando afirmou que nalgumas áreas era impossível trabalhar, por falta de horas disponíveis. E disse que a Educação Física, a História e a Geografia eram disciplinas “descalças” de tempo. Quando lhe perguntaram se Português e Matemática perderiam horas, João Costa respondeu que “algumas terão de perder, claro”. Em declarações ao Correio da Manhã, reafirmou a necessidade de tirar de um lado para pôr no outro. Nem de outro modo poderia ser para permitir, como anunciou, que as escolas decidissem 25% do currículo e nele se incluísse a Área de Projecto e a Educação para a Cidadania, sem aumentar a carga semanal global. Do mesmo passo, repetiu várias vezes que as alterações curriculares se aplicariam já no próximo ano e em todas as escolas.

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Mário Nogueira está vivo?

É que o estardalhaço desapareceu. Deve ser a Educação em Portugal que de repente passou a ser excelente. Ou isso ou a Fenprof vendeu-se politicamente.

Empresarialização do ensino público: um país desigual

A reportagem só está acessível, para já, em papel ou num online exclusivo para assinantes. O título aí está, à vista de todos, como muitas das coisas que, no fundo, não vemos.

O excerto que pode ser lido por qualquer navegante virtual é revelador de que o inaceitável acaba por ser aceite como normal.

É uma realidade que escapa a quem vive nos grandes centros urbanos, mas há 61 secundárias onde os alunos não podem escolher o curso que querem, porque não há estudantes suficientes para abrir mais do que uma área de aprendizagem, no 10.º anoO número foi enviado ao JN pelo Ministério da Educação, mas uma busca feita no portal Infoescolas indica que, em mais de uma dezena de casos, essa Secundária é a única do concelho. É o caso de Pampilhosa da Serra e de Oleiros, cujas histórias pode ler ao lado.

O que está a negrito define de que modo o Ministério da Educação toma decisões há muitos anos: para abrir turmas e/ou disciplinas é necessário um número mínimo de alunos. Isto refere-se a escolas públicas, claro, ou seja, a instituições cuja função, entre outras, é a de oferecer aos alunos aquilo que não podem alcançar de outra maneira, a não ser que as famílias tenham dinheiro e/ou (in)formação suficientes.

Assim, em concelhos com poucos habitantes, e de acordo com as directivas do Ministério da Educação, os alunos não podem escolher a área que queiram frequentar no Ensino Secundário, sujeitando-se a um controlo apertadíssimo. Mesmo nas escolas de concelhos mais povoados, as minorias que queiram estudar latim ou alemão não são protegidas, com o próprio Estado a contribuir para o empobrecimento cultural de um país. [Read more…]

A Lenda Negra

Não estamos esquecidos que uma das justificações dadas para a necessidade de um profundo ajustamento na economia e na sociedade portuguesas, ajustamento esse materializado num programa brutal de austeridade, que, em certa medida, ainda prossegue, foi a circunstância de Portugal, e o seu povo em particular, ter, ao longo de muito anos, vivido acima das suas possibilidades. [Read more…]

INFARMED acrescenta um “novo” efeito adverso à Ritalina

A comunicação social deu ontem, 14 de Março de 2017, notícia de que o INFARMED tinha actualizado durante a tarde a “bula da substância metilfenidato”, o principal princípio activo de medicamentos como a Ritalina, usada no “tratamento” da Hiperactividade e Défice de Atenção.

Esta actualização serviu para incluir um “novo” efeito adverso, que dá pelo nome de Priapismo.

Esta informação que o INFARMED adianta agora sobre a Ritalina e outros medicamentos contendo Metilfenidato, foi anunciada já em Dezembro de 2013, há mais de três anos, pela FDA (U.S. Food & Drug Administration), a autoridade do medicamento dos Estado Unidos.

Sabe-se que os protocolos seguidos nos Estados Unidos, no que à política dos medicamentos diz respeito, são diferentes dos europeus. Ainda assim, trata-se de mais um efeito adverso grave, e mais grave ainda se tivermos em conta que este medicamento é prescrito a crianças, não se compreendendo muito bem este “atraso” na correcção da bula.

Algo vai mal no reino da Ritalina.

 

Imagem: Internet

Novo Banco brinca às avaliações

A avaliação do trabalho seja de quem for deve basear-se em critérios bem definidos aplicáveis a cada indivíduo. A partir do momento em que uma avaliação esteja dependente de quotas, deixa de ser avaliação e passa a ser um processo de afunilamento de subidas de carreiras. Uma frase como “as avaliações têm de ser baixas” só faz sentido num mundo em que o sentido deixou de existir. Imagino o que (me) aconteceria, se dissesse aos meus alunos “Ó meus ricos meninos, 80% das notas têm de ser baixas!”

Podemos, até, aceitar que uma instituição, por variadíssimas razões, não queira permitir que a maioria dos trabalhadores tenha direito a aumentos salariais. Nesse caso, um mínimo de honestidade obriga a que se declare que, na realidade, não há avaliação. Não é difícil.

Quando o inaceitável se torna normal e ninguém se escandaliza, temos a prova de que a sociedade está doente e, de caminho, confirma-se que um dos grandes objectivos dos poderosos continua a ser o mesmo se sempre: desvalorizar o preço do trabalho, sempre em direcção à escravatura. [Read more…]

Decisões e homologações

Santana Castilho *

1 Porque nenhuma reforma se compadece com a duração de uma legislatura, o que se ensina e o modo como a escola se organiza para ensinar deveria ser fruto de um amplo entendimento partidário, que não dos impulsos de quem manda em cada momento. Apesar disto obter fácil aprovação geral, seria preciso muito papel e muita paciência para fixar em texto a sucessão de alterações que escolas, alunos e professores têm sofrido nos últimos anos. Mais ainda, a leviandade com que se decide afirma-se, ad nauseam, sem consequências, que não o gáudio dos levianos, a escravização dos professores e a instabilidade dos alunos e das famílias.

“Garantir a estabilidade do trabalho nas escolas, o que pressupõe reformas progressivas, planeadas, negociadas e avaliadas” é um fragmento frásico, promissor, que retirei da página 102 do programa do actual Governo. Mas mudar a pontapé a avaliação dos alunos, como fez o ministro Tiago Rodrigues, a meio do ano, com a trapalhada de os confrontar com três modelos distintos, garantiu estabilidade ao sistema? Mas as “alterações profundas”, que o secretário de Estado João Costa anunciou, virando do avesso os planos curriculares vigentes, são progressivas? Mas a pirueta que a secretária de Estado Alexandra Leitão deu, depois de ter afirmado que os professores da rede privada não podiam concorrer em paridade com os da rede pública, foi negociada com alguém? Mas quem avaliou a experiência da municipalização da educação, para que o Governo a generalize, porque sim? [Read more…]

Bolsas de estudo do Ensino Superior: uma questão sem fim

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Em 2005 quando entrei no ensino superior, a DG\AAC então presidida por Fernando Gonçalves lutava com afinco pelo aumento do numero de bolseiros na UC. Eu, na altura um jovem caloiro bolseiro, tomei a luta como minha e avancei com a Direcção Geral para Lisboa, chegando inclusive nessa manif a levar uma lapada de uma amiga afecta ao Bloco quando a manifestação se dividiu em duas com agendas distintas.

Anos mais tarde quando o Governo Sócrates decidiu fazer modificações ao Regulamento de Atribuição de Bolsas de Estudo em 2010 com o famigerado Decreto-Lei 70\2010, na condição de não-bolseiro, alinhei mais uma vez na luta e pressionei muito a DG de Miguel Portugal a avançar para formas de protesto não convencionais. A nova ponderação dos elementos do agregado familiar para e feitos de cálculo do valor a atribuir excluiu o acesso a milhares e levou pela primeira vez no Ensino Superior a uma debandada em massa de estudantes por indeferimento das suas bolsas e consequentemente por falta de recursos financeiros. Esse DL previa na altura a passagem de todos os membros do agregado familiar para uma capitação inferior a 1, algo completamente ridículo que obviamente se reflectia nas fórmulas de cálculo. O agregado que auferia a título de exemplo 13000 euros por ano a dividir por 4 elementos, via na nova fórmula uma divisão do valor por 2.7 pessoas. O candidato valia 1 pessoa, pai e mãe 0.5 e o irmão 0.7. O rendimento per capita subia, portanto. [Read more…]

Alguns riscos da Ritalina segundo o INFARMED

Risco cerebral vascular – Enxaquecas, acidente vascular cerebral e vasculite cerebral: as secções relevantes do RCM e FI devem ser alteradas de forma a harmonizar a informação de segurança existente.

Risco de distúrbios psiquiátricos – Comportamento agressivo, depressão, psicose, mania, irritabilidade e ideação suicida: a utilização de metilfenidato pode causar ou agravar alguns distúrbios psiquiátricos, pelo que todos os doentes devem ser cuidadosamente avaliados relativamente a este tipo de distúrbios antes de se iniciar o tratamento e devem ser regularmente monitorizados relativamente a sintomatologia psiquiátrica, durante o tratamento. Os termos “concentração excessiva” e “comportamentos repetitivos” reflectem efeitos observados do metilfenidato, devendo ser adicionados como efeitos adversos possíveis ao RCM e FI.

Efeitos sobre o crescimento – Para assegurar que qualquer eventual efeito sobre o crescimento seja minimizado, devem ser incluídas no RCM e FI orientações sobre monitorização regular (altura e peso dos doentes) e advertências melhoradas e harmonizadas.

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A Ritalina correu mal

O artigo que a seguir se transcreve não aborda em profundidade os efeitos secundários provocados pelo consumo de Metilfenidato, uma substância que já foi considerada doping e que chegou mesmo a retirar, por duas vezes, ao famigerado Joaquim Agostinho, a vitória na Volta a Portugal em Bicicleta.

O Metilfenidato, princípio activo dos medicamentos usados no tratamento da Hiperactividade e Défice de Atenção ( já em crianças de 3 anos), é um estimulante equivalente às drogas de rua conhecidas por Speeds. Só o nome é mais pomposo.

Já por mais do que uma vez o deputado do PAN, André Silva, levou o assunto ao Parlamento. Desta feita regista-se a pergunta e a resposta do senhor Primeiro-Ministro.

 

A Ritalina correu mal*
Por L. Alan Sroufe
The New York Times, 28 de Janeiro de 2012

Há neste país [EUA] três milhões de crianças que tomam drogas para tratar problemas de atenção. Por volta do final do ano passado [2011], muitos dos seus pais estavam profundamente alarmados por causa da falha de fornecimento nas farmácias de drogas como a Ritalina e o Adderall, drogas essas que esses pais consideravam absolutamente essenciais ao funcionamento dos seus filhos. Mas estarão estas drogas realmente a ajudar estas crianças? Será que deve prosseguir este aumento exponencial da prescrição destes medicamentos?

Em 30 anos aumentou vinte vezes o consumo de drogas destinadas a tratar o Défice de Atenção.

Como Psicólogo que estuda o desenvolvimento de crianças problemáticas há mais de 40 anos, acho que nos deveríamos perguntar por que motivo confiamos tão convictamente nestas drogas.

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Inaceitável e imperdoável

Ao longo dos 7 anos em que estudei na Universidade de Coimbra, duas das múltiplas virtudes que a Universidade me fez adquirir para a minha vida foi o respeito por todos os credos e a dotação de uma forma de pensar personalizada, aberta e urbana. Não tenho nada nem nunca tive nada contra as pessoas que elencaram (e ainda elencam;sei que algumas das pessoas que praticaram estes crimes ainda fazem parte da minha geração universitária) as Repúblicas e o Conselho de Repúblicas. Antes pelo contrário. Dormi em várias repúblicas da cidade ao longo de 7 anos, fui comensal de uma, tenho amigos em várias assim como participei em diversas febradas, almoços, jantares e centenários de várias. Fui até mais longe em determinadas situações, entrando directamente nas causas das Repúblicas sem nunca ter sido repúblico quando abracei a causa particular que foi aberta pela nova Lei do Arrendamento Urbano e quando tentei ajudar o pessoal do Solar dos Estudantes Açorianos a ver o seu problema de esgotos e canalizações resolvido junto da Câmara Municipal de Coimbra. [Read more…]

E do baú dos sempre-em-pé saiu o homem novo!

Santana Castilho*

Quando vi a apresentação do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, lembrei-me do primeiro-ministro mais divertido da época democrática, de sua graça Pinheiro de Azevedo, e da resposta vernácula que deu a propósito do sequestro de que foi vítima. Não a escrevo, por decoro. Contenho-me para não a soletrar como contributo único que o perfil merece, em sede da discussão pública que ora decorre. Pinheiro de Azevedo imaginava-se rodeado de gonçalvistas. Eu sinto-me sequestrado por pedabobos que querem redesenhar a realidade. Falo para si, secretário de Estado João Costa, que o seu ministro limitou-se a saltar para o estribo do comboio em movimento.

A questão não é o perfil de saída dos alunos. É o seu perfil de entrada. São todos os problemas trazidos para o interior da escola, cuja solução não lhe cabe, muito menos sem meios nem autonomia. Fixe o que lhe digo. Se por parte dos professores se verificar uma adesão acrítica à sua modernidade bacoca e ao seu piroso homem novo, não exulte. Preocupe-se. Significará isso que a classe atingiu o auge da desistência. Ou da resignação. Escolha a palavra.  [Read more…]

E andamos nós a gastar milhões de euros com estes tipos

Escolas privadas continuam a inflacionar notas no secundário” [Expresso]

O Diário do Prof. Arnaldo – Testes mais fáceis

Olha, lembrou-se! Para a Coordenadora de Departamento, a culpa das más notas do 1.º Período é minha. Porque a percentagem de negativas é superior às das outras disciplinas. Porque as notas estão muito abaixo das metas cratas. E porque sim.
Ainda pensei em mandá-la à merda, mas quando me pediu estratégias para reverter a situação, respondi com um sorrisinho irónico: «Testes mais fáceis».
Não gostou (do sorrisinho). Que estava a fazer-me de vítima, que não era nada contra mim, que só tinha traçado um panorama geral da situação.
Depois de mandá-la à merda, o passo seguinte seria mandá-la à bardamerda. Mas como não dei o primeiro passo, não pude dar o segundo. E por isso voltei a responder (agora sem sorrisinho): «Testes mais fáceis».
E não é que ela achou muito bem?
A partir de agora, fica prometido, [Read more…]

A municipalização do ensino

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Dá conta a comunicação social que uma escola de Gaia inventou um “projecto” a que deu o nome de Saber, pelo qual terá sido “distinguida” nos EUA – o jornal não diz por quem* – e que recebeu também a benção da autarquia, que publicita o feito através de meios institucionais. Ora, consiste esse original “projecto”, segundo a bizarra notícia, em pôr alunos do secundário a ensinar os seus colegas mais novos.
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Indisciplina nas escolas: a culpa só pode ser de quem?

O Paulo Guinote já teceu alguns comentários acerca da entrevista a João Sebastião, investigador do ISCTE e antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar. Como a entrevista é curta, aproveitarei para comentar cada uma das respostas. Comecemos.

A indisciplina em sala de aula é um dos problemas da escola portuguesa?
O principal problema da escola é o insucesso escolar porque o objectivo da escola antes de tudo o mais é o de ensinar. Portanto, desviar o assunto para a indisciplina é desviar do essencial. Dito isto, lembro que a questão da disciplina é comum a todas as organizações, não é um problema específico das escolas. Trata-se de garantir que todos os indivíduos nessas instituições tenham comportamentos semelhantes e expectáveis.

João Sebastião começa por não responder à pergunta, preferindo falar daquele que considera o principal problema e não de um dos problemas.

Depois, de certa maneira, considera que a pergunta é um desvio, deixando claro que o assunto não faz parte do essencial.

Finalmente, resolve continuar a não responder, recorrendo à técnica da generalização, talvez acreditando que um problema desaparece se for comum a várias instituições, o que faz tanto sentido como, face a alguém que se queixe de uma dor, dizer-lhe que o mundo está cheio de pessoas na mesma situação. [Read more…]

Praxes académicas em Braga

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Ricardo Luís Sant’Anna

Ontem antes de ir dormir dei de caras com esta fotografia.
Nela podemos ver um grupo de estudantes de Biologia Aplicada da Universidade do Minho faz uma praxe. Até aí nada de novo; o que me deu a volta ao estômago completamente foi reparar que um dos praxados ostentava uma braçadeira do partido nazi! Não era apenas a imagem de uma suástica, utilizada por inúmeras culturas ao longo dos milénios, mas a típica braçadeira vermelha, com a suástica preta em círculo branco.
Não há possibilidade de engano.
No passado dia 27 de Janeiro celebrou-se a nível mundial o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e ontem, dia 9 de Fevereiro, os alunos da prestigiada Universidade do Minho andavam a brincar.
Duvido que tenha partido do caloiro.
Não é admissível que isto aconteça no tempo em que vivemos, muito menos em supostos estudantes do ensino superior que tem por obrigação conhecer um mínimo de história.

Estamos a tornar-nos em bestas insensíveis?

A pós-verdade do grande negociador?

Santana Castilho*

Se o problema fosse escolher um par, preferia Costa e Tiago a Passos e Crato. Se a questão se resumisse ao mal menor, este Governo ganhava. Mas se sairmos do preto e branco e nos libertarmos do quadro maniqueísta que por aí tem dificultado o reconhecimento do óbvio, porque o Governo é de esquerda, a conclusão é evidente: o importante não se fez e no mais são os erros que dão o tom.

Sobre esse problema primeiro e maior que é a indisciplina na Escola (de que todos evitam falar para não se exporem ao julgamento sumário das redes sociais e ao risco da má imagem mediática), sobre os alunos que chegam à Escola sem a educação mínima que os pais não puderam ou não souberam dar-lhes, a resposta foi a demagogia dos tutores, que já existiam, mas que agora atendem dez com os meios que antes tinham para quatro.

Sobre a monstruosidade dos mega-agrupamentos e a falácia da autonomia das escolas, tudo como dantes enquanto avança, de modo sub-reptício e com coniventes silêncios, a municipalização da educação, que há pouco se combatia porque vinha da direita e agora se deixa passar, porque sopra da esquerda. [Read more…]

As árvores também se abatem

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Tem ocorrido nestes dias, por iniciativa da Câmara Municipal, o abate massivo de árvores num dos mais importantes e emblemáticos jardins de Vila Nova de Gaia, o Jardim Soares dos Reis. Com a violência que as imagens documentam, este ex-libris da cidade tem visto ser-lhe aplicada a receita já experimentada na Beira-Rio e no Jardim do Morro, assim como noutros locais da cidade, onde centenas de árvores têm sido igualmente abatidas.

O Jardim Soares dos Reis é um local particularmente importante na história da cidade de Gaia e até do próprio país. Situa-se no Alto da Bandeira, zona que deve o seu nome ao militar que foi cinco vezes Chefe de Governo e liderou as tropas liberais durante o episódio do Cerco do Porto, de seu nome Bernardo de Sá Nogueira (1795-1876), também conhecido por Marquês de Sá da Bandeira.

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Prospecção do Mercado

Pagai propinas à Universidade Católica! – sugere Sua Eminência Parda, o Senhor Arcebispo de Braga.
É o mercado de Inverno a funcionar, estúpidos!

O caso dramático do Liceu José Falcão em Coimbra

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Crateras na parede, fileiras de moisaco partido, fios eléctricos descarnados saídos das paredes da escola, vidros partidos, humidade por todo o lado, o piso do ginásio com falhas perigosas que podem provocar lesões aos jovens no decorrer das aulas de educação física, baldes em todos os cantos para recolher a água da chuva, em todos os cantos, inclusive nas salas de aulas, onde os alunos já são obrigados a levar mantas para se poderem aquecer. Este poderia ser o exemplo de uma escola num país de terceiro mundo ou a passar por uma guerra, mas não, é a realidade de uma escola quase bicentenária situada em pleno coração da cidade de Coimbra, onde estudaram personalidades ilustres da história deste país como Teófilo Braga, Almada Negreiros, Eça de Queirós, António Almeida Santos, Jaime Cortesão, Zeca Afonso, Eugénio de Castro, Carlos Da Mota Pinto, Bissaya Barreto, Vitorino Nemésio, Miguel Torga ou Rómulo de Carvalho.

Uma autêntica vergonha, escondida pelo Parque Escolar, com todas as suas virtudes e fracassos, que ameaça seriamente o ensino público na cidade de Coimbra e que não é mais do que, possivelmente, um pretexto para se fechar de uma vez por todas a escola e obrigar os cidadãos a procurar a vasta oferta privada que existe na cidade.

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Os ziguezagues vergonhosos do Ministério da Educação

Santana Castilho*

“Sim, estamos a falar de gente que vive bem explorando os novos escravos”. Esta frase é do director do Público. Escreveu-a no dia 20, elogiando uma denúncia de Manuel Narra, autarca da Vidigueira, a quem pertence a expressão “novos escravos”. Substituamos “gente” por Ministério da Educação e trabalhadores agrícolas por professores e a afirmação redobra exponencialmente de legitimidade. Porque o Ministério da Educação tem vivido bem, sem escrúpulos, há décadas, escravizando os professores contratados. Ou terá escrúpulos quem obriga terceiros a contratar ao fim de três anos de trabalho instável, mas mantém, por décadas, a precariedade dos seus?

Um observador atento e informado só pode considerar vergonhosos os ziguezagues do ME nas negociações sobre o processo de vinculação dos professores aos quadros. A 20 de Dezembro, na AR, a secretária de Estado Alexandra Leitão foi assertiva e clara quando afirmou que os professores da rede privada não podiam concorrer em paridade com os da rede pública. Há dias fez uma pirueta inteira e proclamou o contrário. Num dia os contratos exigidos têm que ser no mesmo grupo de recrutamento. Noutro dia já podem ser em grupos diferentes. Num dia só conta o tempo de serviço após a profissionalização. Noutro dia já vale o tempo antes e depois da dita. Num dia só ascenderão ao céu os que estiverem colocados em horários completos e anuais neste ano-lectivo. Noutro dia a aberração cai e a dança macabra continua, iludindo uns e desiludindo outros, todos escravos de uma vida, que o ME trata como lixo descartável.   [Read more…]

Manuais escolares – Se for verdade, é crime!

Do muito que há para dizer sobre o vergonhoso negócio dos manuais escolares (a grande reportagem da TVI é imperdível), houve uma denúncia, feita por uma professora, que me chocou particularmente.
Diz essa professora, na reportagem, que em determinada escola os professores de um grupo disciplinar reuniam para adoptar o manual que iria ser utilizado nos 6 anos seguintes. E nesse momento exacto, irrompeu pela sala um representante de uma editora que, apresentado pela presidente da reunião, tentou convencer os professores presentes a adoptarem o seu manual.
Não sei se o manual dessa editora foi adoptado. Independentemente de ter sido ou não, estamos em presença de um crime. Não é apenas algo de imoral, de eticamente reprovável – é um crime, cometido pela editora e por aqueles que permitiram a entrada do sujeito na escola e, de forma agravada, naquela reunião.
E se é um crime, alguém tem de investigar.

Concursos de professores, a minha proposta

Os concursos de professores foram, em tempos, uma causa nacional. Vivi por dentro, nesta temática, a incompetência de sucessivos governos. Uns atrás dos outros e, quanto mais mexiam, pior a coisa ficava.

Até há uns dez anos, a coisa era simples:

  • nota de curso (faculdade) + tempo de serviço ( um valor por cada 365 dias)*.

Desta “fórmula” resultava uma graduação profissional e foi com esta metodologia que a Escola Pública se afirmou como um dos pilares da nossa democracia. Historicamente, os professores começavam o seu percurso profissional (carreira, era assim que se chamava uma coisa que existiu em tempos) longe de casa, iam concorrendo para se aproximar e como tudo tinha uma lógica, uma racionalidade suportada num sentimento de justiça e de igualdade, era um modelo consensual.

Com Maria de Lurdes, a confusão instalou-se com sucessivas alterações que mexeram no que era mais sagrado – a tal fórmula e começou a existir um acumular de injustiças que tornam quase impossível criar um novo modelo de concursos. Teoricamente, só um momento zero, em que todos os professores, mesmo os “efectivos há 30 anos”, iriam a concurso poderia trazer justiça às escolas. Mas, esta proposta, de tão estúpida, é impossível de aplicar e por isso, só podemos pensar num processo que possa ser justo, mesmo sabendo que assenta em injustiças.

E qual seria esse modelo? [Read more…]

O poucochinho de 2016

Santana Castilho*

O que se ensina e o modo como a Escola se organiza para ensinar deveria traduzir um projecto de sociedade, decidido de modo suficientemente participado para a representar. Infelizmente, traduz apenas o querer de quem manda em cada momento, fruto da recorrente incapacidade de os partidos construírem um entendimento político que acomode os tempos da Educação. Com efeito, nenhuma reforma se compadece com a duração estreita de uma legislatura.

A Escola que o anterior Governo deixou visava criar “recursos humanos” produtivos, pacíficos face aos grupos económicos a que se destinavam e agressivos face à competição desumana que deviam vencer para lá entrar. O que o actual Governo fez para mudar essa Escola e preparar cidadãos capazes de agirem de modo crítico e independente é manifestamente poucochinho.

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da Ignorância

Platão conta, no seu famoso plágio do Livro de Filolau, um episódio passado com Sólon, o mais sábio dos Sete Sábios da Grécia Antiga.

De visita ao Egipto, Sólon é admoestado com alguma ternura por um velho sacerdote, que critica a tendência grega para, ciclicamente, se auto-destruir para, logo depois, se reinventar do nada. Diz o Sacerdote no Timeu:

Entre vós [os gregos], porém, e entre os restantes povos, todas as vezes que vos acontece estarem equipados com as letras e todas as coisas de que as cidades têm necessidade, de novo, passados os anos habituais e como se fosse uma doença, caem sobre vós e os outros os fluxos do céu, restando entre vós apenas os iletrados e os ignorantes, de tal maneira que voltais ao princípio, tornando-vos outra vez como que novos, sem nada saberdes, nem do que aconteceu aqui, nem do que se passou entre vós nos tempos primitivos.

FNE: Negociar concursos às escondidas não é sério

O Ministério da Educação e os representantes dos Professores têm vindo a discutir as alterações à forma como se realizam os concursos de professores. Usando uma linguagem simplista, diria que esta em cima da mesa o “modelo de selecção de recursos humanos do maior empregador nacional, com mais de cem mil funcionários”.

Não vou, pelo menos neste texto, discutir as diferentes propostas. Procuro, antes, equacionar o comportamento político de cada um dos agentes no terreno. Os professores, até pela sua dimensão, têm um conjunto muito amplo de organizações sindicais, algumas das quais pouco mais representam do que os próprios dirigentes. Há sindicatos que abusivamente fazem uso desse nome, porque em boa verdade são outra coisa qualquer.

Sublinho, ainda, a campanha da direita que nos últimos tempos têm perguntado pelo Mário Nogueira e a sua (que é a minha!) FENPROF. Curiosamente, essa direita usa agora o argumento oposto ao que usavam antes – com os PAFientos no poder, a crítica era que a FENPROF escolhia a rua pela rua. Agora, criticam a ausência da FENPROF dessa mesma rua.

Mas, porque não se pergunta onde andam os outros? Porque ninguém pergunta onde andam os dirigentes maioritariamente social democratas da FNE? Porque não ocupam eles a rua que, supostamente, a FENPROF deixou vazia?

E, permitam-me que assinale uma diferença que mostra como a FENPROF é completamente diferente, para melhor (sublinho eu, naturalmente parcial na análise e na escrita) quando se compara com outros. [Read more…]

Os lesados do BES e os lesados do ME

Santana Castilho*

Sem direito a perguntas, logo sem a maçada de dizer quem paga, quem assume as garantias e se o milagre agrava ou não as contas públicas, António Costa anunciou, em conferência de imprensa, a solução do decantado problema dos lesados do BES. Perito que é em dar boas novas e virar páginas, quando o vi numa escolinha, pronto para a mensagem de Natal, admiti, por momentos, que ia anunciar a solução para os lesados do ME. Qual quê!
Em 30 de Novembro último, o Ministério da Educação tornou pública a intenção de abrir um concurso para integrar nos quadros os docentes com um mínimo de vinte anos de serviço e cinco ou mais contratos a termo resolutivo, celebrados nos últimos seis anos. São estes e muitos outros, precários de uma vida, os lesados do ME, um ministério que vive há anos fora da lei, explorando miseravelmente quem o serve e concebendo maliciosamente soluções que iludem, sem resolver. É disto que trata a proposta, glosada com as coreografias governamentais e sindicais habituais e o pesadelo de sempre.
São duros os meus qualificativos? Que é, senão déspota, quem exige aos outros um contrato estável ao cabo de três anos de serviço, mas permite vinte para si e, ainda assim, os armadilha com requisitos desprezíveis? Que é, senão desprezível, a subtileza de persistir em considerar que os contratos anuais e sucessivos tenham que ser no mesmo grupo de recrutamento? Que é, senão iníquo, ardiloso e inconstitucional, deixar para trás docentes com maior antiguidade, só porque já foram vítimas de injustiças anteriores? Que é, senão inaceitável, a utilização abusiva de milhares de contratos de serviço de duração temporária, ano após ano, que violam o Direito da União Europeia (Diretiva 1999/70/CE), como, aliás, foi reconhecido pelo respectivo Tribunal de Justiça?
Desde há muito que os concursos de professores geram injustiças e criam castas, por via de sucessivas mudanças de regras, donde a ponderação da iniquidade desapareceu. Tudo indica que assim será, uma vez mais, com alguma coisa a mudar para que tudo continue na mesma, tónica aliás dominante da actual aposta na Educação. [Read more…]

A menina que ficou sem recreio por não saber a tabuada dos 7

A Leonor, à excepção de uma fraca caligrafia, é uma aluna exemplar do 3.º ano de uma escola básica do concelho de Gondomar. Tem um comportamento excelente, Muito Bom em todas as disciplinas e presença assídua no «Quadro de Honra», «Quadro de Distinção» ou lá como chamam a essa coisa parva de distinguir uns alunos em detrimento de outros em função de números.
Num determinado dia de Dezembro, a Leonor ficou sem recreio. Porque na aula desse dia não soube dizer de cor a tabuada dos 7. E ficou a escrevê-la no caderno durante todo o intervalo de meia hora.
A Leonor está na escola, como todos os meninos da sua idade, das 9 até às 17.30. Frequentemente, ou seja, quase todos os dias, leva TPC que lhe dão para mais uma hora. Quando acaba de fazer os trabalhos que pelos vistos a professora não foi capaz de ensinar durante um dia de mais de 8 horas, está na altura de jantar. E logo a seguir, de dormir.
A Leonor tem 8 anos. É uma criança. Tem direito a brincar. A ser feliz. A fazer um intervalo de 30 minutos numa incrível jornada superior a 8 horas.
Mas uma coisa é certa. Se ainda houver instâncias superiores conscientes no sistema de ensino português, a Leonor não voltará a ser alvo de uma medida destas, que não tem qualquer fundamentação pedagógica.
Infelizmente, o mesmo não se poderá dizer de muitas outras crianças. Essas, porque não têm a sorte da Leonor, continuarão a ser vítimas de quem pensa que dar aulas hoje é como dar aulas há 50 anos.