Os idiotas e o debate de ideias

  O Presidente da República e candidato, Marcelo Rebelo de Sousa, afirma que é “no debate de ideias” que se derrota o Chega e a extrema-direita.
  Como é que se consegue debater ideias com um partido racista, xenófobo e fascista? Toda a gente sabe que foi a debater ideias com António de Oliveira Salazar, com Marcelo Caetano e com a PIDE que se derrotou o regime do Estado Novo…e também foi no debate de ideias que impedimos, depois da Restauração da República, o golpe de Estado que deu origem à Ditadura que vigorou de 1926 até 1974. O lixo põe-se no lixo.
  Diz, também, Marcelo Rebelo de Sousa, que Ana Gomes, enquanto cidadã, poderia ter pedido a ilegalização do Chega junto do Ministério Público e do Tribunal Constitucional. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que existe uma petição, com mais de 16.000 assinaturas, a pedir a ilegalização do partido de extrema-direita (assinaturas mais do que suficientes para o assunto ser debatido na Assembleia da República). O que sr. Presidente sabe, mas não diz, é que foram enviados mais de 300 e-mails para várias instituições do Estado a pedir o mesmo, e foram ignorados. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que muitas pessoas, enquanto cidadãos (como o é a cidadã Ana Gomes), foram à Provedoria da Justiça, aos partidos com assento parlamentar, ao Presidente da AR, ao Supremo Tribunal de Justiça, ao MP junto do STJ, ao Tribunal Constitucional, ao MP junto do TC, à Procuradoria Geral da República, à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias…e até ao próprio Presidente da República.
  O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que o seu partido só poderá ser Governo se se juntar ao Chega. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que não quer queimar o PSD.

  Não se debate com fascistas. Ou há alguém, por aqui, que goste de se banhar em bosta?

Marine Le Pen, presidente do Frente Nacional, numa conferência de imprensa em Lisboa (Portugal), com André Ventura, líder do partido de extrema-direita Português, Chega.                                                                                      PHOTO / REUTERS / PEDRO NUNES

 

Ana Gomes: nem carne, nem peixe

A transição de um certo eleitorado bloquista disposto a votar em Ana Gomes é real e preocupa-me.
A minha análise pessoal é a de que as pessoas, dispostas a votar em Ana Gomes, não estão a ver todo o panorama eleitoral e as consequências políticas que daí podem resultar. Marisa Matias vai a jogo com o apoio do Bloco de Esquerda, ao contrário de Ana Gomes, que sendo do Partido Socialista, não conta com o apoio do partido. As consequências políticas de um futuro resultado de Ana Gomes e de Marisa Matias são diferentes; porque Ana Gomes e Marisa Matias, mesmo estando as duas à esquerda, são diferentes e candidatam-se com programas e propósitos diferentes.
Quando a eleição acabar, Ana Gomes continuará onde está. E Marisa Matias também. Ana Gomes como comentadora num qualquer canal generalista, a levantar muito a voz e a dar uma sua opinião sobre um qualquer tema. Marisa Matias como deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em representação da esquerda europeia e de todos e todas nós, portugueses e portuguesas que, à esquerda, querem uma Europa mais livre, mais justa e mais igualitária.
A transição de eleitorado que, em legislativas, vota Bloco de Esquerda e que, dia 24 de Janeiro, pretende votar em Ana Gomes, esquece-se que votar na Independente é enfraquecer a esquerda (que segundo as sondagens não perfaz, junta, a votação de Ana Gomes – e falo de Marisa Matias e João Ferreira) e fortalecer a extrema-direita de André Ventura, ficando este à frente dos candidatos da esquerda e apenas atrás de uma Independente sem apoio partidário e de Marcelo Rebelo de Sousa, que segue para uma re-eleição tranquila, com o apoio da direita mainstream (PSD e CDS), e que, mais à frente, essa ultrapassagem (pela direita) poderá ter repercussões em futuras Legislativas. Muito menos aceito que certas pessoas votem em Ana Gomes levados pela “promessa” de André Ventura, de que, ficando atrás desta, se demitiria do Chega: 1- é óbvio que não se demitirá; 2- mesmo que o fizesse, isso tiraria o Chega do Parlamento e da vida política? A resposta é não.
Há duas coisas mais ou menos certas: Marcelo Rebelo de Sousa será re-eleito e Ana Gomes ficará em 2º lugar, seja com 16% ou 13%. Agora é convosco decidir quem fica em 3º, se o candidato da extrema-direita ou algum dos candidatos da esquerda. Menos dois ou três pontos percentuais em Ana Gomes continuarão a mantê-la em 2º, mas mais 2 ou 3 pontos percentuais em Marisa Matias ou João Ferreira podem ser a diferença entre fortalecer a extrema-direita ou colocá-la atrás da esquerda.
Falo, especialmente, para os jovens. Pensem à frente: uma eleição não é apenas uma eleição. Muito menos esta. Quem se diz de esquerda aproveitará este clima de facções e polarização política para reforçar, com o seu voto, a esquerda. Signifique isto votar em Marisa Matias ou em João Ferreira, não em Ana Gomes que vai em representação dela própria, votando em consonância com o presente mas, acima de tudo, com aquilo que se perspectiva no futuro. E esse futuro, estou certo, não terá Ana Gomes como cabeça de cartaz. Mas poderá ter Marisa Matias e/ou João Ferreira.