Presidenciais 2021 – Prémio Falta de Noção: os discursos

Carlos César, Rui Rio, Chicão.

Qual o vencedor do prémio “Falta de Noção: os discursos”?

Confesso que titubeei, mas o meu voto vai para Rui Rio. Um homem que é líder de um partido aos cacos, cada vez mais refém da extrema-direita, e que, segundo o próprio, não está nada preocupado com o Chega. Como se não bastasse, o importante, para o líder do PPD sem SD, é que a direita “esmagou a esquerda”. Sim, Rui, aquela direita que votou em Marcelo Rebelo de Sousa apoiado pelo Partido Socialista em força. Ganha o prémio “Falta de Noção: os discursos” destas Presidenciais 2021.  Em suma, para Rui Rio, um voto no Chega é um voto no PSD. E pensar que o Chega nasceu ainda dentro do PSD…bons filhos à casa tornam, dizem. Como o Rio nunca soube o que quis dizer “cordão sanitário”, actualmente acha por bem não puxar o autoclismo para poupar água. Mas, no fundo, o que é um leve cheiro a cocó quando comparado com as valências da extrema-direita? Nada que o nariz não aguente, não é Rui?

No entanto, menção honrosa para Carlos César, o Drácula do PS: quase ninguém dá por ele, ou tampouco o conhece, mas o homem já deve ser uma reencarnação, anda cá há tanto tempo sem envelhecer que deve ser feito de cera. Conseguiu transformar a ínfima vitória de Ana Gomes sobre André Ventura numa vitória do PS. No fundo, para Carlos César, o PS faz linha no Bingo: o candidato que apoiou venceu, mesmo sendo de direita, a candidata que é do PS mas que odeia o PS ficou em segundo e o Carlos César continua a ser um lacaio putrefacto que gravita à volta de tudo o que lhe convém. Boa, Carlos! Com este apoio a Marcelo garantiu, certamente, emprego às próximas gerações da sua família. Não dorme em serviço, este açor.

Quanto ao Chicão, fica num modesto terceiro lugar da lista. Ouvi-o dizer que o CDS sai vitorioso por ter apoiado o Presidente re-eleito, e pareceu-me que enquanto o dizia outra meia dúzia de militantes foram filiar-se no Chega. Para além disso, não gosto de políticos que fazem olhinhos de menino da lágrima e afinam a voz para parecer que estão indignados. O Chicão é aquele tipo de pessoa que tirou 5 valores no teste, mas que diz que esse resultado o enche de orgulho porque passou a cábula da pergunta 3.2 ao Vítor, que tirou 14. O CDS ainda existe?

Dito isto, parabéns Rui Rio. A caminhar a passos largos para infectar de vez o PPD sem SD. E isto no meio de uma pandemia, é um excelente dois em um para os sedentos de poder.

Já o nosso Primeiro-Ministro, esse grande socialista e esquerdista, que ontem aproveitou para dormir o dia todo (depois de votar em Marcelo, claro), talvez acorde, um dia, em sobressalto. É que sempre ouvi dizer que nunca se deve dormir à sombra da bandalheira…da bananeira, desculpem.

                  Ilustração de Carlos Sêco

Os idiotas e o debate de ideias

  O Presidente da República e candidato, Marcelo Rebelo de Sousa, afirma que é “no debate de ideias” que se derrota o Chega e a extrema-direita.
  Como é que se consegue debater ideias com um partido racista, xenófobo e fascista? Toda a gente sabe que foi a debater ideias com António de Oliveira Salazar, com Marcelo Caetano e com a PIDE que se derrotou o regime do Estado Novo…e também foi no debate de ideias que impedimos, depois da Restauração da República, o golpe de Estado que deu origem à Ditadura que vigorou de 1926 até 1974. O lixo põe-se no lixo.
  Diz, também, Marcelo Rebelo de Sousa, que Ana Gomes, enquanto cidadã, poderia ter pedido a ilegalização do Chega junto do Ministério Público e do Tribunal Constitucional. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que existe uma petição, com mais de 16.000 assinaturas, a pedir a ilegalização do partido de extrema-direita (assinaturas mais do que suficientes para o assunto ser debatido na Assembleia da República). O que sr. Presidente sabe, mas não diz, é que foram enviados mais de 300 e-mails para várias instituições do Estado a pedir o mesmo, e foram ignorados. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que muitas pessoas, enquanto cidadãos (como o é a cidadã Ana Gomes), foram à Provedoria da Justiça, aos partidos com assento parlamentar, ao Presidente da AR, ao Supremo Tribunal de Justiça, ao MP junto do STJ, ao Tribunal Constitucional, ao MP junto do TC, à Procuradoria Geral da República, à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias…e até ao próprio Presidente da República.
  O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que o seu partido só poderá ser Governo se se juntar ao Chega. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que não quer queimar o PSD.

  Não se debate com fascistas. Ou há alguém, por aqui, que goste de se banhar em bosta?

Marine Le Pen, presidente do Frente Nacional, numa conferência de imprensa em Lisboa (Portugal), com André Ventura, líder do partido de extrema-direita Português, Chega.                                                                                      PHOTO / REUTERS / PEDRO NUNES

 

Ana Gomes: nem carne, nem peixe

A transição de um certo eleitorado bloquista disposto a votar em Ana Gomes é real e preocupa-me.
A minha análise pessoal é a de que as pessoas, dispostas a votar em Ana Gomes, não estão a ver todo o panorama eleitoral e as consequências políticas que daí podem resultar. Marisa Matias vai a jogo com o apoio do Bloco de Esquerda, ao contrário de Ana Gomes, que sendo do Partido Socialista, não conta com o apoio do partido. As consequências políticas de um futuro resultado de Ana Gomes e de Marisa Matias são diferentes; porque Ana Gomes e Marisa Matias, mesmo estando as duas à esquerda, são diferentes e candidatam-se com programas e propósitos diferentes.
Quando a eleição acabar, Ana Gomes continuará onde está. E Marisa Matias também. Ana Gomes como comentadora num qualquer canal generalista, a levantar muito a voz e a dar uma sua opinião sobre um qualquer tema. Marisa Matias como deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em representação da esquerda europeia e de todos e todas nós, portugueses e portuguesas que, à esquerda, querem uma Europa mais livre, mais justa e mais igualitária.
A transição de eleitorado que, em legislativas, vota Bloco de Esquerda e que, dia 24 de Janeiro, pretende votar em Ana Gomes, esquece-se que votar na Independente é enfraquecer a esquerda (que segundo as sondagens não perfaz, junta, a votação de Ana Gomes – e falo de Marisa Matias e João Ferreira) e fortalecer a extrema-direita de André Ventura, ficando este à frente dos candidatos da esquerda e apenas atrás de uma Independente sem apoio partidário e de Marcelo Rebelo de Sousa, que segue para uma re-eleição tranquila, com o apoio da direita mainstream (PSD e CDS), e que, mais à frente, essa ultrapassagem (pela direita) poderá ter repercussões em futuras Legislativas. Muito menos aceito que certas pessoas votem em Ana Gomes levados pela “promessa” de André Ventura, de que, ficando atrás desta, se demitiria do Chega: 1- é óbvio que não se demitirá; 2- mesmo que o fizesse, isso tiraria o Chega do Parlamento e da vida política? A resposta é não.
Há duas coisas mais ou menos certas: Marcelo Rebelo de Sousa será re-eleito e Ana Gomes ficará em 2º lugar, seja com 16% ou 13%. Agora é convosco decidir quem fica em 3º, se o candidato da extrema-direita ou algum dos candidatos da esquerda. Menos dois ou três pontos percentuais em Ana Gomes continuarão a mantê-la em 2º, mas mais 2 ou 3 pontos percentuais em Marisa Matias ou João Ferreira podem ser a diferença entre fortalecer a extrema-direita ou colocá-la atrás da esquerda.
Falo, especialmente, para os jovens. Pensem à frente: uma eleição não é apenas uma eleição. Muito menos esta. Quem se diz de esquerda aproveitará este clima de facções e polarização política para reforçar, com o seu voto, a esquerda. Signifique isto votar em Marisa Matias ou em João Ferreira, não em Ana Gomes que vai em representação dela própria, votando em consonância com o presente mas, acima de tudo, com aquilo que se perspectiva no futuro. E esse futuro, estou certo, não terá Ana Gomes como cabeça de cartaz. Mas poderá ter Marisa Matias e/ou João Ferreira.