David Dinis e o Público

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Rui Naldinho

David Dinis foi convidado pelos sociais-democratas Alexandre Relvas e António Carrapatoso há cerca de três anos para dirigir o primeiro projecto digital de comunicação em Portugal, o jornal electrónico “Observador”. O referido diário mais parece um blogue da “extinta” PAF, com jornalistas e colaboradores escolhidos a dedo. Os temas, as notícias e os assuntos estão alinhados politicamente, tendo a direita como sua clientela quase exclusiva. Mas, tirando esse “pormenor”, nada terei a acrescentar, uma vez que só lá vai quem quer. Aquilo até nem se paga!

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Os “ensináveis” – convites para a precariedade no trabalho

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Ontem à noite quando fui abrir a minha caixa do correio, apareceu-me esta enorme pérola. As questões de linguística deixo-as obviamente para quem de direito, ou seja, para o meu estimado colega de bancada Francisco Miguel Valada. Decerto que o douto autor deste convite, de tão mestre que é na arte de ensinar a venda da banha da cobra, não se deverá importar de representar no papel de ensinado.

Ao ler este convite fiquei embasbacado. Fruto das mais recentes experiências que tive à procura de emprego, confesso-me cada vez mais assustado em relação ao mercado de trabalho.

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Assédio no trabalho: faz que chuta, mas não chuta

Nos últimos dois anos houve 20 processos em tribunal por assédio moral no trabalho. Estes números são eloquentes na sua insuficiência, em face da realidade que se vive diariamente em Portugal e bem demonstrativos da grande dificuldade em que se encontram os trabalhadores vítimas deste crime silencioso, com efeitos devastadores em vários domínios, desde a saúde das próprias vítimas, o seu equilíbrio psico-social e familiar, o Serviço Nacional de Saúde – veja-se a realidade presente da Saúde Mental no nosso país -, a Segurança Social e a própria produtividade da economia e da Administração Pública.

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America first will never make America great…

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É obviamente cedo para avaliar o desempenho do Presidente Trump, contudo as expectativas estão demasiado baixas, pelo que o homem até pode surpreender favoravelmente, mas não creio. Um velho ditado diz “nunca digas, nunca”, a verdade é que jamais me passaria pela cabeça concordar mais com o Presidente da China do que com o Presidente dos EUA.

De todas as intenções anunciadas por Trump, neste momento não passam disso mesmo, intenções, porque não existe ainda qualquer diploma para aprovação no Congresso, a que mais discordo, embora tenha dúvidas como isso pode ser feito e qual o verdadeiro alcance, será a implementação de medidas proteccionistas. [Read more…]

A Rádio (Im)popular

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A RTP merece um enorme aplauso graças a um programa televisivo que, ao longo dos tempos, se destaca pela qualidade do seu jornalismo de informação, o “Sexta às 9”. Não escondo o espanto sempre que o vejo pois não estou habituado a jornalismo de investigação semanal no nosso país e ainda menos com esta qualidade – nem sequer escondem o nome das “crianças”. Coisa ainda mais rara.

Desta vez, a reportagem foi sobre a Rádio Popular e a venda de telemóveis iPhone como novos quando na realidade são usados, mais precisamente, recondicionados. A reportagem pode ser vista neste link.

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Lettres de Paris #73

«Nós… pimba!»

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acordei, acreditem ou não, com alguém do lado de fora da janela a cantar «e se elas querem um abraço ou um beijinho, nós… pimba, nós… pimba!». Fiquei momentanemante mais baralhada do que já sou quando acordo. E estou a ser simpática para comigo mesmo, quando digo que acordo ‘baralhada’. «Nós pimba?» pensei meia estremunhada. A pessoa, um homem, continuava a cançoneta do lado de lá da janela e eu levantei-me, abri as cortinas, abri uma fresta pequenina da janela, porque estou outra vez constipada (deve ser o meu corpo a ter uma reação alérgica ao meu regresso a Portugal, obviamente), entraram menos 3 ou 4 graus para dentro do quarto, mas assim mesmo, meti o nariz de fora para identificar o cantor. Acontece que era um rapaz, empoleirado nos andaimes do prédio em frente, a trabalhar com umas ferramentas esquisitas e armado em artista do Olympia. Meti-me para dentro, nunca suspeitei que os trabalhadores da obra em frente fosse portugueses, mesmo porque juro que já tinha ouvido um rádio em altos berros com canções que me pareceram árabe, mas posso estar enganada e estar já tão desusada de ouvir falar português à minha volta que quando ouço me parece árabe.
Seja como for, o rapaz continuou o seu trabalho, acrescentando ao repertório outras músicas igualmente de fino recorte, que eu não consegui identificar. Fui tomar o pequeno almoço, com o nariz completamente entupido e a lamentar que a constipação… pimba!… tenha aparecido outra vez e eu ainda para mais sem cêgripes. Quando saí passei na farmácia e deram-me uma coisa qualquer homeopática. A ver. Já tomei dois, conforme as instruções e não me sinto particularmente melhor. Uma parte do dia passou entre fungadelas e espirros e assoadelas de nariz, alguma tosse. Até que às duas e meia apanhei o 27 e fui ter com a Anne-Marie à entrada do metro da Opéra. Foi a primeira vez que vi, neste tempo todo, o fantástico edifício à luz do dia. Já o havia visto também assim, de outras vezes, mas desta foi uma estreia. O edifício é lindo, realmente, tal como Café de la Paix ali ao lado. Lindo e bastante caro, diga-se. Mas vale a pena lá entrar ao menos uma vez. Não foi hoje, já tinha feito isso outro dia. Eu e a Anne-Marie fomos a um café mais modesto, ali ao lado. Não conhecia pessoalmente a Anne-Maria, apesar de já ter trocado emails com ela e gostei bastante de a conhecer. Falámos de trabalho, de Paris, de Lisboa, da França, de Portugal e da vida em geral e quando dei por mim, pimba, já passava das quatro e meia e a luz do dia estava a desvanecer-se. Lá se iam os meus planos de me despedir às claras de aguns dos sítios de que mais gosto em Paris.

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Lettres de Paris #72 et #73

Le jour avant le jour avant le jour avant le jour que je dois quitter Paris

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são os meus últimos dias em Paris e receio bem que esta vai ser uma despedida difícil. Que voltar à rotina, a uma pequena cidade onde pouco acontece em termos culturais, pouco que valha a pena, quero dizer, ou melhor, pouco que me agrade se assim quisermos colocar as coisas… que deixar de ver o Sena quase todos os dias, que deixar de ver a pequena Place Saint-Andre-des-Arts todos os dias, que deixar de dizer Bonjour à estátua de Monsieur Montagne e de lhe tocar levemente no pé dourado muito amiúde, que deixar de ver a torre da Sorbonne, que deixar de comer os eclairs au caramel da Pradier, que deixar de ver as montras da Compagnie, que deixar de comer confit e magret de canard, que deixar de percorrer a pé e de autocarro todas as ruas de Paris, que deixar de ver as extraordinariamente comoventes (não me perguntem porquê mas aquilo comove-me) da Catedral Ortodoxa Russa, que deixar de ver a Tour Eiffel a iluminar-se tout brillante, que deixar de ver a Pont Neuf e os barcos no rio, para dizer apenas algumas das coisas de que vou sentir, pelo menos nos primeiros tempos, muito a falta, vai ser, sei-o bem, extraordinariamente difícil para mim. Deixar de ver esta beleza, esta grande beleza, de ter os sentimentos que Paris, toda a Paris, mesmo aquela mais feia, me provoca quotidianamente, vai deixar-me triste por uns tempos.
 

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Chorando se foi…


Dancei-a no Penha Porto, tantas vezes, nos braços de uma rapariga! Quantos de nós não a dançaram? Morreu hoje. A voz da Lambada.

Lettres de Paris #71

À bout de souffle*

 

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esta carta é, por comparação com as anteriores, um mero telegrama, ainda que, como as outras, seja escrita d’un seul souffle’, quer dizer de um folêgo, sem pensar demasiado no que estou a escrever, deixando as coisas escreverem-se praticamente sozinhas. Fui hoje (re)ver À bout de souffle, de Jean-Luc Godard, estreado em Paris em 1960. Nunca havia visto o filme em écran gigante, por falta de oportunidade, claro, já que para mim o cinema deve ver-se sempre numa sala de cinema. De maneira que ao passar outro dia no mk2 da Rue Serpente e ao vê-lo anunciado para hoje (e apenas para hoje) lá fui eu, sob um frio de -4 ou -5 graus, revê-lo às 10 da noite. A sala não estava cheia, desta vez. Compreende-se, talvez, porque em Paris deve haver imensas oportunidades de rever grandes filmes. Ou se calhar porque a sessão era a uma hora mais tardia do que habitualmente. Seja como for, creio que já o disse, as salas dos mk2 são grandes, confortáveis e as condições de projeção naturalmente são excelentes.
 
Rever a cara da Jean Seberg no grande écran deixou-me à bout de souffle, como sempre. Não é por ser linda, que era. É por outra coisa qualquer que não sei explicar, mas tenho, desde que me lembro, uma verdadeira e assolapada paixão pela cara da Jean Seberg, neste filme. Apesar de não ser de Paris, nem francesa, ela encarna, para mim, neste filme, a verdadeira parisiense. Nos anos 60, como agora. A cara da Jean Seberg em À bout de souffle é intemporal. O Jean-Paul Belmondo não me tira tanto o folêgo, devo dizer, apesar da sua boca extraordinária e daquele gesto que, a partir deste filme, ficou imortalizado e é ainda tantas vezes repetido. Mas se eu pudesse e ela fosse viva e tivesse a mesma cara que em 1960, casava com a Jean Seberg, amanhã. Adorei, por isto e por muito mais coisas, como é evidente, desde logo pelo argumento de François Truffaut, pela fotografia, pela música de Martial Solal… mas também por ver Paris, a Paris que conheço agora um pouco melhor do que conhecia quando vi o filme em écrans pequenos das outras duas ou três vezes, os mesmo lugares por onde passo hoje, em 1960. É curioso ver como nada se modificou substancialmente, quase tudo foi preservado e existe ainda e existirá, provavel e desejavelmente, para sempre. Curioso e belo.

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Lettres de Paris #70

April in Paris*… (peut être)

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Hoje foi a minha vez de intervir no ciclo de Seminários do Eixo 1 do Ladyss – Recompositions sociales dans la globalisation – para o ano de 2016/2017**. O tema geral desta edição de Seminários é ‘Legitimidade, Eficácia e Utilidade’. Quando a Aline me pediu, há uns tempos, que fizesse um destes seminários fiquei um bocado, como se costuma dizer, à nora. Estes tópicos não fazem parte da minha investigação mais recente (embora tenham feito – sobretudo a questão da legitimidade associada às políticas e estratégias de desenvolvimento rural – há já alguns anos) e comecei a pensar como raio poderia eu apresentar os resultados dessa investigação, nomeadamente do projeto que coordenei recentemente – Rural Matters***, à luz das questões da legitimidade, da eficácia e da utilidade. Afastei por uns tempos essas preocupações, pois tinha outras coisas com que me entreter, digamos, no momento, em termos de trabalho e, naturalmente, há umas duas semanas voltei a dedicar-me ao assunto. Tornou-se evidente, que muitos dos resultados do projeto poderiam contribuir bastante para o debate, novamente sobretudo no que se refere à legitimidade dos diversos atores e instituições cujas representações o projeto tornou mais claras, assim como no que se refere à eficácia das estratégias de desenvolvimento dos territórios rurais. Assim sendo, preparei a apresentação de forma relativamente entusiasmada, durante uns dias e hoje às 10 em ponto da manhã, depois de ter dormido umas 3 horas e meia, lá estava eu na Rue Valette para a apresentação e o debate.
 

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DN cada vez mais irrelevante…

O cliente é, ou deveria ser, a pessoa mais importante para qualquer empresa, pois sem ele qualquer negócio vai à falência…

Cliente, consumidor ou leitor, a palavra aqui é irrelevante, por mais que os órgãos de comunicação social sobrevivam graças à publicidade, quando um anunciante paga para promover um produto ou serviço, espera obter retorno do investimento através das pessoas que visualizam o anúncio. No caso dos jornais existem também receitas obtidas com as vendas, mas as tiragens são bastante reduzidas, insuficientes para a sobrevivência. [Read more…]

O sucesso do Capitalismo

Ana Cristina Pereira Leonardo

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Quando a fortuna acumulada de 8 (OITO) marmanjos equivale à miséria detida pela metade mais pobre da população mundial, 3,6 mil milhões de pessoas (TRÊS VÍRGULA SEIS MIL MILHÕES), somos obrigados a concluir que o Capitalismo é um sucesso, pelo menos para oito terráqueos.

Trabalho de campo

No esplêndido Steigenberger Grandhotel Belvédère – centro espiritual do Fórum Económico Mundial (FEM) desde que, em 1971, Klaus Schwab decidiu criar este encontro em Davos, a mais alta cidade da Europa – alojam-se, a cada ano, alguns dos mais eminentes participantes do FEM.

Este ano, discutem aquelas que são as grandes preocupações da alta finança e das elites políticas: as alterações climáticas e o aumento da desigualdade de rendimentos e de património. [Read more…]

A receita da Fernanda

MRPP - O que é?

Há uns anos, em 2013, a Fernanda ia ser operada e receou já não acordar da anestesia. Por isso, preparou-se devidamente, escrevendo noite fora um dos seus textos mais pessoais, sobre Natália Correia e sobre mais uma catrefada de gente que viveu os loucos tempos do PREC.

A primeira vez que vi Natália Correia foi nos idos de 1959/60, pela mão de Vasco Lima Couto, poeta e actor que morreu novo. Foi num sarau literário num antigo clube perto do Rossio. Eu era então estudante universitária e os meus olhos deliciaram-se a conhecer outro poetas, outros escritores, que, viciada em leitura desde muito cedo, eu tinha lido. Não fui apresentada a ninguém, não tinha estatuto para isso, mas ainda assim fui brindada com uma briga homérica entre Lima Couto e Natália Correia que, incomodada com a irreverência do jovem do Porto, desfaleceu nos braços de Pedro Homem de Melo. Fiquei pregada ao chão. [Premonições, Fernanda Leitão]

Foi o João José Cardoso que nos deu a notícia.
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A economia da pobreza

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Segundo o mais recente relatório da Oxfam, as oito pessoas mais ricas do mundo possuem uma riqueza combinada superior aos 3,6 mil milhões de terráqueos mais pobres. Metade da população mundial. Este facto, por si só, seria motivo de vergonha para a humanidade, não fosse ela tão passiva para com as graves desigualdades que continuam a aumentar o profundo fosso entre ricos e pobres. Perdão: entre multimilionários e desgraçados.

A situação é de tal forma grave, que, há um ano atrás, seria necessário juntar os 62 mais ricos para perfazer a mesma quantia que a metade mais pobre do mundo possui. E isto diz-nos muito sobre os efeitos das sucessivas crises nas carteiras de quem governa o planeta. Recorrendo a um dos clichés mais realistas que existem, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. [Read more…]

Repugnante

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O Correio da Manhã consegue descer às profundezas do abjecto, não se limitando a fazer notícia de um hipotético suicídio de uma criança, em directo nas redes sociais. Patrocina-o.

Isto não é jornalismo. É apenas e só repugnante.

Imagem via Os truques da imprensa portuguesa

Lettres de Paris #69

En plein hiver Au Printemps

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A aplicação de meteorologia que tenho instalada no meu computador, de que não sei o nome, mas que tem sido mais ou menos eficaz, anunciava para hoje ‘light rain, snow e uma máxima de 4º para Paris. Quanto à temperatura não sei, já não sinto o frio que dizem que está (embora as temperaturas até me ir embora estejam anunciadas como oscilando entre 2 e 3 de máxima e o e -3 de mínima e isso me cause alguns arrepios), mas a chuva não foi assim tão light e neve, claro está, nem vê-la. Quando acordei, outra vez tarde e a más horas e abri a janela fiquei desconsolada com o cenário. Chuva, céu cinzento, um dia perfeitamente desolador. Tomei o pequeno almoço descansada, preguiçei mais um bocado, descansada também enquanto avaliava se valeria ou não valeria meter o nariz na rua, além da janela. Ontem queria ter ido ao terraço do Au Printemps, umas galerias comerciais muito famosas – tanto quanto as famosíssimas Galeries Lafayette – situadas no Boulevard Haussmann (enfim, tal como as Lafayette há pequenos Au Printemps por toda a Paris e, creio, por toda a França), muito perto da Opéra também. Não fui ontem por causa do tempo e, sim, das horas a que me levantei. Hoje o tempo estava pior ainda e, bom, as horas a que acordei não foram muito melhores. De maneira que estava preguiçosamente a ponderar se saía ou não saía, se ia ao terraço do Au Printemps ou não, se ia antes ao cinema (cheguei a ver a programação das salas aqui à volta e tudo) e o tempo a passar e o dia a ficar mais cinzento e as pingas de chuva a ficarem mais grossas…

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La trahison des images

Michel Foucault dispensant un cours au Collège de France. Paris, 1971. © Michèle Bancilhon / AFP (http://bit.ly/2it5mGd)

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Trotz dieser intellektuellen Tortur setzt sich die »lächende Lüge« positiv von der »überzeugten« oder »höhnischen« Lüge ab,  womit eine starke Identifizierung von Einstein mit Seghers ausgedrückt sein könnte, nennt er dessen Radierungen doch — gewiß auch selbstbezüglich — »des monologues d’une agonie sénile«.

— Klaus H. Kiefer (1994/2011)

Os jogadores estão num estado calamitoso.

— Rodolfo Reis, 15/1/2017

Séparation entre signes linguistiques et éléments plastiques ; équivalence de la ressemblance et de l’affirmation. Ces deux principes constituaient la tension de la peinture classique :  car le second introduisait le discours (il  n’y a d’affirmation que là où on parle) dans une peinture d’où l’élément linguistique était soigneusement exclu.

—  Michel Foucault (1973/2010)

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P.S.: Bruno, obrigado pelo mote.

O dia seguinte, sub-óptimo

Voltei do 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses de coração cheio, peito aberto, e dores nas costas. Já não tenho 25 anos como naqueles dias de Fevereiro e Março de 1998, quando acontecera o último fui pela última vez a um congresso,  já não sou uma privilegiada-dos quadros-de uma empresa de comunicação social, mas – sabe-se lá porquê – continuo a ser jornalista. Ainda me entusiasmo com as histórias dos outros, ainda insisto, ainda resisto. E por isso lá fui três dias para Lisboa, à guarida da Sandra. Levava na mala uma comunicação escrita a 10 mãos, algures entre Leiria e Coimbra, para ler na sexta-feira de manhã, num painel que poderia servir para nomear todo o Congresso: O Estado do Jornalismo. Pelo teor do escrito, também poderia caber naquele outro painel que se chamava”As condições de trabalho dos jornalistas”, já que fala sobretudo do fim das Redacções fora de Lisboa, do abandono do país por parte dos Media, da solidão dos jornalistas-freelancers-precários. Li aquilo de rajada e fui-me sentar outra vez, a ouvir os outros. Chorei muito mais do que ri, durante aqueles dias. [Read more…]

Lettres de Paris #68

Y aura-t-il de la neige à Paris?*

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eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

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Rua 25 de Abril – Carta Aberta

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José Miguel Braga

Caros colegas professores da Escola Secundária Dona Maria II e da Escola Secundária Carlos Amarante:

Não pretendo dar lições a ninguém e muito menos a quem, como eu, procura no dia a dia realizar o seu trabalho com rigor, com boa vontade e com sentido de serviço público.
Sei bem que todos somos diferentes e eu respeito a opinião dos que concordam comigo, dos que discordam de mim, mas também dos cépticos, dos que preferem não se manifestar, dos tímidos, enfim… Como todos sabem, está em curso, até “novas ordens”, um estranho processo de remoção de terras, que afecta os terrenos das “Oficinas de São José”.
De momento, não se vê afixado o alvará, mas tudo indica que se prepara a construção de uma superfície comercial “Continente Bom Dia”. [Read more…]

Precisamos de jornais?

Precisamos? – Precisamos!
Ou precisamos apenas dos comunicados e das fotos (ao molho) que a autarquia graciosamente faz chegar às redacções? Braga, “cidade autêntica”, como agora se diz por cá, nesta matéria não é diferente de outras cidades.
Corações ao alto e as minhas preces vão para a imprensa regional.
Que descanse em paz entre os esplendores do facebook perpétuo e amen.

Fernanda Leitão (1936-2017)

Fernanda LeitãoOs templários não morrem. Afastam-se.

Na passada quarta-feira,  no Hospital Toronto Western, a Fernanda afastou-se em paz, depois de 80 anos ricos de vida. Escrevia-nos as suas cartas e bilhetes do Canadá, com a sabedoria de quem passou por tanto e no seu jeito de quem está de bem com a vida. Foi jornalista e lutou contra a ditadura, antes e depois da revolução, primeiro na France Press, depois no jornal O Templário, do qual foi proprietária até ir para o Canadá. Pessoas como a Fernanda deixam verdadeiros vazios quando se vão. Descanse, Fernanda, teve uma vida admirável.

Deixamos-vos as crónicas da Fernanda no Aventar, que estão aqui, e o auto-retrato que nos ofereceu, pintado com as cores nas quais ela era mestra, as da Língua Portuguesa.

Nasci em Malanje, no Nordeste de Angola, numa família de classe média chefiada por um funcionário público. No início da década de 50 o meu pai reformou-se. Fomos viver em Tomar, onde havia o Colégio de Nun’Alvares, com perto de mil alunos, quase todos internos, muitos das colónias, um batalhão do Alentejo e Ribatejo. O director era o Dr. Raul Lopes, que ficou na lenda coimbrã como o Raul das Troupes. Governava um bocado à chapada, era ditador, mas ao mesmo tempo havia um ar de rebalderia naquela malta toda. Eu teria preferido outro colégio, mas na verdade ali fiz amigos para a vida. Os rapazes do meu tempo cantavam fado e pegavam toiros. Ficavam ofendidos se alguém lhes oferecia leite ou iogurte. Todos de barba rija, como manda o figurino.

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Um comunicado que vale a pena ler

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n’Os truques da imprensa portuguesa

RESGATAR O JORNALISMO – um texto aberto à subscrição e partilha pela comunidade de leitores da imprensa portuguesa

Caras e caros jornalistas,

Em 4 de maio de 1993, foi aprovado o vosso Código Deontológico. É, na simplicidade dos seus 10 mandamentos, um documento extraordinariamente claro quanto aos princípios que vos devem nortear. Enquanto leitores, sentimos que estes vossos deveres, quando integralmente respeitados, nos protegem, nos consideram e nos dão confiança em vocês e no vosso trabalho. Contrariamente, sempre que os ignoram, a todos ou a cada um deles, criam em nós suspeição, desagrado e revolta.

Todos erramos, é certo. E por vezes somos demasiado intolerantes com os vossos erros. Mas vejam de onde partimos: de um quadro em que os vossos princípios – que vocês escolheram definir e partilhar com o mundo – são por alguns de vós desrespeitados diariamente, à frente dos nossos olhos.
Talvez vos surpreenda – intimamente, cremos que não – mas temos pelo jornalismo, enformado pelos princípios que tão bem souberam definir, o maior respeito e admiração possível. O jornalismo é a mais bonita de todas as ocupações, se feito por missão, por amor à verdade, à justiça e à democracia.

Esta página, que certamente muitos de vós já aprenderam a odiar, por ser um espelho onde vêem reflectido o que há de pior na vossa profissão, não pretende ser um exercício de superioridade moral. É, isso sim, um exercício de confronto entre os vossos princípios e as vossas práticas, elaborado (de forma artesanal, é certo) pelos vossos leitores. O campo de disputa e subjectivação que, do nosso ponto de vista, não existindo, era absolutamente fundamental.

Reconhecemos que o modelo de negócio do jornalismo tradicional atravessa uma fase difícil. Os jornalistas que ainda têm emprego vivem de corda ao pescoço, sob pressão, sem tempo, em condições precárias, mal pagos,… Os jornais andam de joelhos em busca de mais receitas, inventado estratégias e dispositivos cada vez mais sofisticados para inserir publicidade e amplificar a visibilidade dos seus conteúdos.

Pode parecer-vos até que poucas opções vos restam: que se querem continuar a ter trabalho, têm de aceitar que as regras do jogo mudaram e que têm de se subjugar à alienação dos princípios que vocês próprios entenderam estabelecer. Mas essa via – a de aceitarem que isso tem de ser assim – é uma escolha vossa. Terão de ser vocês a assumir esses custos.

A nossa, enquanto leitores, é a de rejeitar esse jornalismo. Sempre. Queremos rigor e exatidão. Não queremos a vossa opinião dissolvida nas vossas notícias. Não rejeitamos interpretações, mas queremos interpretações honestas. Queremos imparcialidade, investigação e respeito pela privacidade, pela dor, pela presunção de inocência. Não queremos sensacionalismo. Não queremos publicidade encapotada. Não queremos subliminares. Não queremos artigos plagiados.

Queremos o que, em 1993, se comprometeram a dar-nos, que está muito longe do que tão frequentemente nos têm dado. Talvez seja injusto e doloroso para alguns de vós ler isto. Mas serão precisamente esses os primeiros a reconhecer que temos razão. São esses os que têm a grande responsabilidade de exigir e de dar um impulso para resgatar o jornalismo.

Os vossos leitores contam convosco.

Com enorme respeito pela vossa profissão, subscrevemo-nos abaixo.

Beleza americana

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O Facebook bloqueia quem publicar fotos de mamocas, mas não tem problemas com mensagens racistas ou de ódio.

A última onda por cá consiste em publicar uma foto de Mário Soares na praia com uma jovem em topless e ser-se bloqueado pelo Facebook. A ironia tem destas coisas e o falso moralismo americano, mais a sua visão totalitária do mundo, também.

Uma boa oportunidade para ver ou rever o filme Beleza Americana.

Sobrinho Simões alerta

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O reputado patologista, Sobrinho Simões, chama a atenção para a existência de uma prática médica que está a causar enormes prejuízos a doentes e, infere-se, ao próprio Serviço Nacional de Saúde.

O cientista portuense, que é uma das maiores autoridades mundiais na sua área, refere-se ao sobrediagnóstico do cancro, em particular de pequenos e inofensivos cancros da tiróide, mama e próstata, que está a ter como consequência a existência de ciclos de tratamentos clinicamente inúteis e comprometedores da qualidade de vida das pessoas.

Embora defendendo o rastreio, que permite a detecção precoce da doença, Sobrinho Simões considera que a caça ao cancro tem conduzido a tratamentos não justificados de cancros demasiado pequenos, que não conseguiriam desenvolver-se no tempo de vida restante das pessoas e cujo tratamento provoca um sofrimento e uma degradação da qualidade de vida totalmente inúteis.

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O pós-Público do Sr. Dinis

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É claro que a malta d’Os truques irrita muita gente. Durante anos, o 4º poder fez o que lhe deu na real gana, servindo interesse aqui, interesse acolá, até que as perigosas redes sociais emergiram e deram à luz novas formas de escrutínio, nem sempre objectivas ou sequer coerentes, é certo, mas ainda assim capazes de desmontar e expor a falta de rigor e a manipulação de informação. Informação que é absorvida, processada como verdade absoluta e propagada de forma descontrolada, fomentando percepções distorcidas, criando focos de tensão, alimentando ódios sectários. [Read more…]

Informação de qualidade

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Correio da Manha, what else?

via Uma Página Numa Rede Social

E a vírgula, senhores?

mario_soares_camara_lisboaObrigado, senhores da Câmara Municipal de Lisboa, por lerdes este texto. Ponto final.

 

Uma parte da nossa História

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Vou recuar a 1986 para falar de Mário Soares. Nessa altura Portugal vivia uma das suas mais dramáticas eleições. De um lado, Freitas do Amaral e com ele a direita e o centro direita; do lado oposto, Mário Soares e com ele a esquerda e o centro esquerda. Tudo isto de uma forma simplista, sublinho desde já.

Uma divisão enorme na sociedade portuguesa. Duas concepções diferentes de Portugal. Para que a geração dos meus sobrinhos ou mesmo da minha filha possam perceber, era uma divisão que nalguns casos, muitos, se vivia dentro das próprias famílias. Recordo que na minha ficaram, durante alguns anos, algumas feridas. Maioritariamente o nosso apoio era para Freitas do Amaral e o movimento “Prá Frente Portugal”. Alguns familiares, poucos, apoiavam Mário Soares (“Soares é Fixe”, era o lema) e isso criou atritos e amargos de boca entre as partes. Na segunda volta, em Fevereiro de 1986, Mário Soares ganha por uma diferença mínima (o equivalente a um Estádio da Luz como se dizia na altura). Para mim, um adolescente à época que viveu intensamente a campanha eleitoral, foi um enorme balde de água fria. Estava convencido que Freitas do Amaral ganharia as eleições. No fundo, em casa, estávamos todos convencidos de tal.

A verdade foi outra. Mário Soares ganhou e teve a superior inteligência de criar a figura do “Presidente de todos os portugueses”. E foi-o como poucos. Melhor dito, como nenhum antes e como nenhum outro depois. E tinha de o ser para dessa forma acabar com a enorme divisão existente na nossa sociedade. Estou convencido que foram dois os factores que acabaram com essa divisão fracturante no Portugal dos anos oitenta: a forma como Mário Soares soube exercer o seu cargo de forma unificadora e a maioria absoluta do PSD em 1987, ano e meio depois das eleições presidenciais.

Ou seja, Mário Soares foi fundamental como garante da democracia nos anos setenta. Foi a sua acção directa e indirecta que acabou (ou pelo menos atenuou) a clivagem política  na nossa sociedade nos anos oitenta. Em dois períodos diferentes e fundamentais da nossa história recente, Mário Soares foi um verdadeiro estadista. E ficou na história do século XX português.

Não foi perfeito e como qualquer ser humano cometeu erros. Não esteve isento de crítica e aqui permitam-me um parêntesis: aquilo a que se assistiu por parte de muitos portugueses, muitos mais do que aquilo que seria de esperar, nas redes sociais e caixas de comentários dos sites de muito órgãos de comunicação social portugueses nos últimos tempos sobre a pessoa de Mário Soares foi vergonhoso. Mais, demonstrou que continua a existir um número demasiado elevado de pessoas mal formadas, com instintos primários e que nos devem encher de vergonha a todos. Não foi nem é apenas repugnante, é assustador. Que não gostem de Mário Soares, que exista contra ele motivações superiores, é natural e normal mas destilar ódio, desejar-lhe a morte e outras coisas do género a que todos assistimos publicamente é indecoroso e, repito, assustador na forma como nos mostra o seu carácter. Escrevo-o com a liberdade de nunca o ter apoiado nem tão pouco nele votado em toda a minha vida e em todas as hipóteses que para tal tive. Com a liberdade de ter sido crítico de algumas das suas decisões e até de coisas que ele disse ou fez. Aliás, sobre o seu papel na descolonização a história se encarregará de esclarecer a verdade, de elucidar as gerações futuras sobre o que se passou e como se passou. Nem a minha geração está suficientemente distante para o fazer com o devido rigor histórico. E esse é o ponto que mais me divide sobre a personalidade de Mário Soares.

Não vou escrever muito mais sobre Mário Soares. Apenas aconselho, a quem o desejar, a leitura deste fabuloso texto de Miguel Esteves Cardoso, insuspeito ideologicamente, sobre Mário Soares. Está ali quase tudo o que penso sobre Mário Soares. Estou convencido que perdemos hoje um dos nossos maiores.