Lettres de Paris #35

Paris is a moveable feast

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escreveu Ernest Hemingway no seu quase diário dos tempos em que viveu nesta cidade. O romance só foi publicado depois da sua morte, em 1964, simultaneamente nos Estados Unidos e em França. Em França, tal como em Portugal, o título escolhido foi Paris est une Fête (Paris é uma Festa, no nosso país, editado pela Livros do Brasil, pelo menos é a edição que tenho há décadas, mas creio que foi recentemente reeditado). Na verdade, a moveable feast não é o mesmo que ser apenas uma festa, quer dizer, é uma festa sim, mas que nos acompanha onde quer que vamos desde que, claro, estejamos em Paris. Disse outro dia que ia comprar o livro na versão original ali na Shakespeare and Company. Ainda não o fiz, porém. Mas lembrei-me disto hoje, já de noite aqui em casa. Tinha, como tenho agora, a janela entreaberta. Apesar do frio que faz na rua, aqui dentro está muitas vezes um calor de ananases. Ouvi barulho de vozes na rua. Estou no primeiro andar e a rua é muito estreita, como também já contei.

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Deixem o Tua em Paz!

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Filipe Esperança

Se há assunto que tem vindo constantemente para as luzes da ribalta é o recente (ou não) caso da Vale do Tua.
Mas… por onde começar a relatar toda esta patranha de peripécias?
Pelo início, obviamente. Estávamos no final de 1991, e foi já depois de constantes ameaças de encerramento que a CP, mandatada pelo Governo e por uma constante de encerramentos ferroviários desde 1988, decidiu encerrar o troço da Linha do Tua compreendido entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros. Basta uma rápida pesquisa no Google para compreender que este infeliz acaso deixou a última porção do troço (Macedo de Cavaleiros – Bragança) completamente isolada da restante rede, sem ligação ferroviária, e com transbordos rodoviários que eram demorados e pouco articulados. Dias depois, um descarrilamento em Sortes viria a ditar “temporariamente” o fim dos comboios na Linha do Tua, entre Mirandela e Bragança. Temporário ou não, a verdade é que foi preciso esperar pelo dia 14 de Outubro de 1992 para que surgisse uma nova “machadada” nesta importante infraestrutura: pela calada da noite, e durante um forte apagão nas comunicações locais, a CP levava (pela via rodoviária) os comboios e carruagens presentes nas Estações de Bragança e Macedo de Cavaleiros, e sob a justificação de que o material precisava de “manutenção”.
Jamais, em tempo algum, os transmontanos duvidariam da palavra da CP ou dos seus responsáveis… mas a verdade é que o comboio não regressou a Bragança. [Read more…]

Lettres de Paris #34

On prend le pied de Montaigne

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et la force serait avec nous… é o que se diz do hábito de tocar no pé da estátua, bastante descontraída por sinal, como já vos contei outro dia, de Montaigne na Place Paul-Painlevé, mesmo ao lado da livraria Compagnie e mesmo em frente a uma das entradas da Sorbonne. Já tinha reparado várias vezes no extraordinariamente dourado pé esquerdo de Montaigne, estátua, mas só hoje me lembrei de indagar porquê. Afinal é um ritual semelhante a muitos outros, em várias cidades do mundo (assim de repente lembro-me da estátua de St John of Nepomuk na Charles Bridge em Praga ou o pé esquerdo de um dos santos da Catedral de Santiago de Compostela).
 
Tocar o pé esquerdo da estátua de Montaigne é assim um ritual conhecido pelos muitos estudantes que povoam o Quartier Latin. Aprendi isto hoje, depois de pesquisar no google. Parece que para passar exames, orais, concursos, etc, devem os estudantes ou candidatos acariciar o pé de Montaigne e saudá-lo, quer dizer, saudar a estátua, não o pé, bem entendido. Diz-se que a superstição se estende a todos os tipos de votos. Amanhã experimento. Aliás, poderei experimentar todos os dias que aqui estiver. Já tenho por hábito dizer interiormente ‘Bonjour Monsieur Montaigne’ quando passo pela interessante estátua de Paul Landowski, por isso basta-me a partir de hoje acariciar-lhe o pé e formular um qualquer desejo. Não é que tenha muitos, mas hei-de seguramente descobrir alguns. Depois vos contarei se deu resultado o ritual.

Há quem prefira certas ditaduras a monarquias democráticas…

É curioso verificar que alguns partidos políticos portugueses convivem pior com monarquias democráticas do que ditaduras, não todas como é evidente, depende se a ditadura é de esquerda ou direita, como o demonstram acontecimentos recentes…

Sou insuspeito de qualquer simpatia pela instituição monarquia. Também eu não acredito que alguém nasça predestinado a governar. Os espanhóis têm monarquia, é lá com eles, precisamente hoje assinalam-se 376 anos sobre a separação dos nossos destinos. [Read more…]

Mário Ferreira está equivocado

comboio-machu-picchu Carlos Almendra Barca Dalva

Profundamente equivocado. Profundamente.

Honrou-me com dois minutos do seu tempo o empresário da área do Turismo Mário Ferreira, num comentário deixado à carta aberta que ontem lhe dirigi.
Li-o com atenção, com muita atenção.
E permita-me dizer-lhe: está equivocado em quase tudo quanto diz. Quase tudo.

Novamente, vamos por partes?

A sua primeira frase, curiosamente, é a pura das verdades:
“O importante é que visitem o Tua, falem bem ou mal estou todos a falar…”

É verdade: há já cerca de uma década que a linha do Tua passou a fazer parte do quotidiano noticioso de Portugal. A par da linha de Sintra e de Cascais, é mesmo a via férrea de que os portugueses já ouviram falar e até sabem onde fica. E, repare, saber os rios, as serras e as vias de comunicação já não faz parte do programa escolar há muitas décadas.
No entanto, a linha do Tua… toda a gente conhece.

“Gostava que me mostrassem as máquinas a vapor construídas em Portugal.”
Ninguém lhe prometeu mostrar máquinas a vapor construídas em Portugal pela razão simples de que, para além de alguns improvisos oficinais, elas nunca existiram. Todas quantas cá circularam foram importadas da Alemanha, de Inglaterra, da Suiça, de França, até mesmo dos Estados Unidos da América (mas sem aquele design piroso). Importadas, modelos de séries comuns ou com as modificações solicitadas pelas empresas da altura. [Read more…]

Lettres de Paris #33

‘Antes eram os lugares e a Elisabete, agora é a Elisabete em Paris’

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escreveu-me hoje num email uma pessoa de quem muito gosto e, creio, faz o favor de gostar de mim também. A pessoa (que lerá este postal, também, mais tarde ou mais cedo, por isso peço-lhe já desculpa) acrescentou que talvez fosse inevitável. Confesso que fiquei a pensar naquilo o resto da tarde, depois de ler o email. Ia a pensar naquilo quando saí por uma hora do Ladyss, eram quatro da tarde, para ir ter com a Fabienne à livraria Compagnie, na Rue des Écoles. Achei graça a Fabienne ter sugerido aquela que, até ver, é a minha livraria favorita de Paris. Creio ter já falado nela nestas cartas. Na montra tem livros do Gonçalo M. Tavares, do Valter Hugo Mãe. Também já vi lá coisas do Saramago e do Fernando Pessoa. Estranhamente não vi ainda nenhum livro do António Lobo Antunes. Vi ontem ou antes de ontem, na montra já decorada para o natal um livro chamado Contos Portugueses, mas em francês. Não é por isso que a Compagnie é a minha livraria preferida, bem entendido, mas ajuda um bocadinho, confesso.
 

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Curriculite, a doença do século XXI

f3bc5-diploma-canudoSala de consultas num hospital público (porque é fundamental defender o Serviço Nacional de Saúde). O doente (utente para ministros e gestores) entra, cumprimenta o médico e senta-se.

 

MÉDICO (semblante antecipadamente compreensivo, porque a maior parte dos pacientes é um cambada de hipocondríacos ou de chatos com problemas de saúde sem gravidade): Ora diga lá qual é o problema?

DOENTE: Sotôr, acho que me anda a nascer uma licenciatura aqui no currículo…

MÉDICO (chega-se à frente, preocupado): Mas o senhor esteve na Universidade?

DOENTE (levemente enojado): Nááá, sotôr, até evito passar lá perto!

MÉDICO: É que, isso, anda aí uma epidemia e é preciso ter cuidado, homem! Mas como é que isso lhe apareceu?

DOENTE: Foi no outro dia, quando um secretário de Estado foi à minha terra inaugurar um pavilhão polidesportivo.

MÉDICO: Pois, isso dos polidesportivos é muito perigoso, estão cheios de correntes de ar. E então?

DOENTE: Então, cumprimentei o secretário de Estado, assim com um passou-bem, e começou a aparecer-me… aquilo… no currículo… [Read more…]

Lettres de Paris #32

Les Français sauveront le monde…

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… estava escrito num panfleto metido no para-brisas de um carro estacionado em frente ao Collége de France, quando lá passei a caminho do Ladyss, ontem de manhã. Não ia a reparar em grande coisa, ou melhor, ia a reparar nas coisas do costume quando faço este caminho. Talvez haja já pouco de novo neste caminho em que eu possa reparar ou talvez eu fosse, ontem, pouco disponível para atentar nas coisas. Nas que já vi muitas vezes e nas que via pela primeira vez. Ainda assim, reparei no papel metido entre o para-brisas de um carro que dizia que os franceses salvarão o mundo. Parei e li a curta mensagem e – juro-vos que não é do meu francês – não compreendi muito bem a que se destinava. Hoje, há um bocadinho, já depois de ter ido novamente para o Ladyss e depois de ter jantado e depois de já estar em casa, pesquisei o ‘slogan’ e o autor. As pesquisas rápidas encaminharam-me para um blog, com 3 ou 4 posts apenas, todos no mesmo tom profético. Pesquisei o nome do autor. Parece que é alguém que já é conhecido no Quartier Latin por espalhar panfletos desta natureza. Não se compreende bem o que pretendem, provavelmente nada.

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Quando o rigor está ausente das redacções portuguesas

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acabam por ser os leitores a pôr ordem na casa.

A rebaldaria em Gondomar e a cumplicidade do Presidente da Câmara

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A besta proprietária deste carro mudou-se há pouco tempo para a rua e já encontrou o seu lugar privativo. Todos os dias, ao fim da tarde, chega a casa, estaciona no mesmo sítio de sempre e vai descansar. Se for 6ª Feira, só volta a pegar no carro na 2ª de manhã. Não interessa se há lugares uns metros mais à frente ou atrás – e muitas vezes há. Ali está melhor, porque fica à porta de casa.
E é ver os muitos jovens que vivem por aqui, numa rua muito movimentada, a terem de ir pelo meio da rua para atravessar. No dia em que forem atropelados, fora da passadeira, a culpa nunca será da besta que a ocupa, mas sim de quem atropelou.
Estou perfeitamente à vontade para falar do Marco Martins, Presidente da Câmara de Gondomar. Tinha 14 anos quando o conheci, na Escola Secundária onde cheguei a dar-lhe algumas aulas. Moí-lhe o juízo durante 2 anos, já ele era Presidente da Junta, para instalar uns pilaretes na minha rua que impedissem os condutores de estacionar em cima do passeio. Votei nele nas Autárquicas de 2013. Nele. Por ser ele. Não por ser do PS.
Mas ao fim de 3 anos, o que vejo, com desilusão, é uma mão-cheia de nada no que toca aos direitos dos cidadãos e em particular dos peões – aqueles que, na selva do trânsito, mais precisam de ser defendidos. E não me venham com a pesada herança do Major – é verdade que foi pesada, mas para isto a desculpa não cola.
Pintar passadeiras. Instalar sinalização. Criar baías através do estreitamento dos passeios nas zonas de atravessamento de peões. Reforçar a acção da Polícia Municipal nessas áreas. Pedir a intervenção da PSP e da GNR. Pilaretes. Sinais luminosos. Sensores. Bloqueadores. Quantos milhões eram necessários, Marco? [Read more…]

Chamemos a isto jornalismo de qualidade!

Rui Naldinho

Para o fotógrafo, “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Se isso é inteiramente verdade para Yann Arthus-Bertrand, como documentarista acrescentou-lhe a voz humana e os sons da natureza, para que tivéssemos uma percepção mais verdadeira da Humanidade.

Foi esse o contrato que o fotógrafo, jornalista e ambientalista francês fez com o espectador, ao produzir uma série  documental que foi estreada em 2015 na ONU, com o titulo “Humano”. Os representantes dos diversos países com assento nas Nações Unidas puderam vê-lo em estreia, numa versão para cinema, conforme desejo do autor.

Yann Arthus-Bertrand

Yann Arthus-Bertrand

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Fidel, o alentejano

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Jornalismo cinco estrelas e três quartos. A TVI com o directo dos pobres, os que não têm dinheiro para o avião.

Fidel

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1926 – 2016

Lettres de Paris #31

Dans ma tête il ya une grosse confusion

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Hoje também não tirei fotografias, por isso uso uma de outro dia qualquer, que até se adequa, do caminho que faço alguns dias para o Ladyss. Hoje fiz esse caminho bastante cedo. Tinha reunião logo de manhã com os colegas do meu ‘eixo’. Chovia quando acordei e o céu era cinzento chumbo. Não tive tempo para beber um expresso sequer, fora de casa. Lá fui eu a toda a pressa para não chegar atrasada. Cheguei uns 5 minutos depois da hora, mas houve muita gente que chegou bastante depois de mim.
Tive de me apresentar em francês, pois claro, a uma boa parte dos meus colegas do Ladyss, procurando não dar muitos erros, mas certamente dando. Uma boa parte deles nunca os tinha visto por ali. Acho que me desculparam os erros e foram todos simpáticos. Disse-lhes que esperava que no dia 16 de janeiro, quando fosse a minha vez de apresentar o seminário, esperava falar melhor francês. O meu problema não é a pronúncia – que é boa, sem modéstias. Nem o vocabulário, que também não é mau. É o tempo que demoro a falar, acho eu e os tempos verbais. O francês não é assim uma língua muito fácil e uma coisa é falar na rua e nos cafés, ou em conversas informais com os colegas, outra, bem diferente, é fazer uma apresentação do meu trabalho. Pode ser que em janeiro já fale mais depressa. Mas não é fácil. E depois, na minha cabeça vai uma trapalhada. Continuo a pensar em português, a maior parte do tempo, mas a verdade é que também o faço em francês e em inglês numa alegre misturada. Vá lá que aqui não corro risco de acrescentar a estas três línguas o castelhano e o italiano. Já aconteceu falar em castelhano com uns espanhóis num sítio qualquer, mas foi tudo.

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Deram-nos cabo da saúde

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Truques à parte, que isto da engenharia informativa político-partidária é já um fenómeno descontrolado, quero focar-me na parte verdadeiramente preocupante desta peça do Expresso. Na sequência da onda de terrorismo financeiro que culminou com o crash de 2008, a que se seguiu o advento da austeridade fundamentalista e contraproducente, o número de portugueses sem recursos para pagar consultas médicas triplicou. Os dados são da Comissão Europeia e confirmam o agravamento da desigualdade, num país onde a mesma não parou de crescer durante os anos do fundamentalismo além-Troika, sendo que os mais afectados, como não poderia deixar de ser, foram e continuam a ser os mais pobres.  [Read more…]

Lettres de Paris #30

Jusqu’ ici tout va bien

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Parece então que faz hoje um mês, 30 dias portanto, que estou em Paris. Apesar de algumas breves contrariedades, coisas sem relevância, só posso dizer que ‘jusqu’ici tout va bien’, ou melhor, ‘jusqu’ici tout va très bien’. Paris tem-me, já o disse outras vezes, tratado bem. Tenho um sítio para dormir em pleno Quartier Latin, um sítio para trabalhar em pleno quartier de la Sorbonne, todos os cinemas, todas as ruas, todos os cafés, todos os museus, todas as torres, todos os jardins, de Paris. Penso que não podia querer mais neste momento. E efetivamente não quero. Nem sequer, como já sabemos, na maior parte do tempo pelo menos, companhia. ‘Jusqu’ici tout va bien’ exatamente ‘comme il est’.
 
Apesar disso, ‘je me suis pas levée du bon pied’, quer dizer, não me levantei com muito bom humor, mesmo porque já era tarde. Estava escuro lá fora, e chovia, como choveu todo o dia, aliás. Entrava pouca luz pela janela que dá para a rua estreita. Ainda para mais puseram andaimes no prédio mesmo em frente e isso escureceu ainda mais a rua e a luz que tinha pela janela. Lá me fui animando, tentando por-me como se me tivesse levantado ‘du bon pied’… quando saí de casa e entrei no Saint-André, a Julie deu-me os bons dias, lamentou-se do tempo ‘clássico’ de Paris e explicou a uma senhora que estava ao balcão (e que já vi de outras vezes por lá) quem eu era. Deu-lhe a ficha completa, digamos, tal como eu lhe a tinha dado antes a ela. Suponho que isto queira dizer que já sou do quartier, bem entendido. Gostei disso. Outro dia, quando jantei lá, o dono levou-me o café à esplanada (não chovia) e trouxe a conta com ele e disse-me:’ o café eu ofereço’. Coisas simples, coisas muito simpáticas, de pessoas que quase não me conhecem. Há sítios em Aveiro onde vou desde sempre e nem um copo de água me ofereceram nunca! Paris trata-me bem, é como vêem.
 

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Crónica do Rochedo XI – A morte de Rita Barberá

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Há uns dias vi uma reportagem do canal televisivo espanhol Antena 3 sobre Rita Barberá. Nesse momento decidi que tinha de escrever sobre a reportagem em causa. A preguiça foi adiando a empreitada. Até que ontem, Rita Barberá foi encontrada morta num quarto de hotel em Madrid.  Sofreu um enfarte, segundo o que se pode ler nos jornais espanhóis.

Vamos por partes. Quem foi Rita Barberá? Foi a presidente da Câmara de Valência (Alcaldesa como se diz por aqui) durante 24 anos, pelo Partido Popular (PP) e grande obreira das vitórias do seu partido na “Comunidad Valenciana”. Adaptando à nossa realidade, foi um dinossauro político e daqueles bem grandes – a ela muito deve o PP de Aznar e ainda mais o de Rajoy, de quem era amiga pessoal. Enquanto autarca revolucionou Valência (para o bem ou para o mal dependendo das opiniões e dos alinhamentos partidários de cada um). Uma coisa é certa, existe um antes e um depois de Barberá em Valência. E só isso já é relevante. Até que…

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Lettres de Paris #29

«Mais qu’est ce qu’on veut?

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papiers!». Era a resposta gritada e acompanhada de punhos no ar e tambores. Estava eu, tranquila, a admirar o carrossel do Hotel de Ville quando começo a ouvir gritos e tambores. Vou até à esquina da Place de l’Hotel de Ville e da Rue du Renard avançam umas 20 pessoas, com megafones e tambores. Gritavam de forma articulada com o tambor, como se fosse uma canção, a canção dos sem-papéis, que o que queriam era tê-los. Ainda pensei em juntar-me à manifestação, animada pelos punhos erguidos principalmente, mas curiosamente (ou não, melhor dizendo) não havia uma única pessoa branca na manifestação e, mais a mais, tenho papéis. Podia ter-me juntado em solidariedade, bem entendido, mas pensei que os manifestantes tomassem isso como desrespeito ou gozo da minha parte e, portanto, deixei-os continuar para a Rue do Rivoli, poucos mas barulhentos, timidamente acompanhados por uma ou duas motas da polícia. Voltei ao Parvis de l’Hotel de Ville para admirar outra vez o carrossel, enquanto os gritos dos manifestantes e os tambores se ouviam cada vez mais ao longe.
Antes desta pergunta – ‘Mais qu’est ce qu’on veut?’ ter entrado na minha tarde, de forma inesperada, tinha saído não muito cedo da Rue Suger, bebido o café servido pela Julie, que foi simpática comme tous les jours, quero dizer aqueles em que vou lá. Atravessei a Place Saint-André des Arts e fui ao quiosque comprar uma carteira de bilhetes de metro (e de autocarro e de comboio, já que dão para tudo isso). A seguir voltei a atravessar a praça, entrei na Place Saint-Michel, depois na Rue de la Huchette, atravessei a Rue Saint-Jacques e depois entrei na Rue de la Bucherie. Passei em frente da Shakespeare and Company, segui pelo Quai de Montebello, atravessei a Pont au Double e entrei no Jardim João Paulo II, onde se ergue uma estátua ao agora santo e continuei, reparando nas cores das folhas contra a brancura da pedra da catedral de Notre Dame, até à Place Jean XXIII onde as cores das folhas das árvores continuaram a surpreender-me. Estava um casal de noivos sentado num banco a posar para fotografias. A noiva, coitada, com este frio, mantinha o sorriso, mas estava com os ombros e os braços descobertos. Reparei também nas pessoas sentadas nos bancos de jardim, por baixo das árvores quadradas da Place Jean XXIII e saí do jardim pela Rue du Cloître Notre Dame. Fui até à Pont Saint-Louis, que justamente cruza o Sena entre a île de la Cité e a île Saint-Louis. A ponte está fechada ao trânsito e estava bastante gente. Um rapazinho bastante novo tocava acodeão sentado num banquinho. No mesmo instante em que reparei nas nuvens por cima do Sena e e da Pont de la Tournelle, o rapazinho começa a tocar, e bem por sinal, ‘sous le ciel de Paris…. la la la la la’. Um clássico, portanto, mas no momento certo.

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Os bons, os maus e o comboio

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Dou por mim parado na estação de Coimbra B e recordo-me do dia em que vi, pela primeira vez, o João José Cardoso. O João José, a Noémia e o Ricardo, a Carla e o petiz, o Dario, o Orlando e o Nabais e acho que, do pouca-terra que partira de Campanhã, éramos estes. Em Coimbra, naquele belo tasco forrado a retalhos de individuais de papel, com palavras de ordem e devaneios boémios, conheci mais uns quantos. Se a memória não me trai estava lá o Valada, a Eva, o Jorge e o Fernando, que chegou mais tarde. Um dia bem passado, bem regado e de pança cheia. Um raro dia de convívio em que ocupamos o mesmo espaço físico, não descurando todos os dias em que nos encontramos, virtualmente, para arquitectar conspirações, parvoíces e coisas sérias. [Read more…]

Todas as religiões são iguais, mas algumas são mais iguais que outras…

Um chef desloca-se a Israel por razões profissionais, que nada têm a ver com política. Porque alguém ousa não seguir a manada do politicamente correcto, bestas radicais deixam a sua marca de intolerância nas paredes do espaço comercial. Até que as autoridades encontrem e interroguem os cobardes agressores, o que duvido venha a acontecer, não poderemos saber de facto se estamos em presença de anti-semitismo, o que seria um crime muito grave. Curioso, ou talvez não, foi até agora não ter este episódio merecido a mesma veemente condenação por boa parte da opinião publicada e organizações políticas responsáveis, despudoradamente alguma esquerda folclórica próxima da geringonça até apoia os fundamentalistas, estão bem uns para os outros. Depois admirem-se com o crescimento de fenómenos políticos extremistas ou securitários na Europa, o cidadão comum não gosta de bandalhos nem bandalheira. E como resultado não poderia ser pior, do ponto de vista de acção política que era o que pretendiam, como contributo para a discussão do problema israelo-palestiniano é irrelevante, para o chef Avillez foi um tremendo golpe publicitário graças a estes idiotas úteis…

Fila indiana na CP

Na estação da CP de Entrecampos pede-se aos estrangeiros que saibam ler inglês para se deslocarem em fila indiana, que é o que se imagina que se pretenda com a expressão “single file”.

À falta de organização da estação e aos WC pagos, mas que às 20:00 já encerraram – como se sabe, as necessidades estão sujeitas a marcação -, soma-se esta pérola, menor, é certo, mas desnecessária. Senhores administradores da CP, quando corrigirem a gafe, aproveitem o balanço e coloquem sinalética decente na estação. E, já agora, se não for pedir muito, evitem fechar o que é suposto estar disponível para quando é preciso.

Lettres de Paris #28

Éclairage Intime*

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Hoje também não há fotografias, a não ser uma que tirei noutro dia qualquer ao meu cinema em Paris. O meu cinema em Paris é o Le Champo, na esquina da Rue des Écoles com a Rue Champollion. É um cinema antigo, com o cognome de Espace Jacques Tati a Paris. Comprei um cartão com 10 sessões logo nos primeiros dias que cheguei a Paris. Passo lá praticamente todos os dias quando vou para o Ladyss. Apresentam ciclos de cinema sobretudo. E filmes antigos, alguns dos quais nunca tive oportunidade de ver. Assim, tal como adotei um café – O Le Saint-André, aqui mesmo à esquina da Rue Suger, adotei um cinema. Creio ter também adotado uma livraria, a Compagnie, igualmente na Rue des Écoles, mas disso não tenho tanta certeza.
 
Fui almoçar com a Fabienne, uma francesa que conheci há uns meses em Aveiro, por causa de uns projetos financiados pelo Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS). É antropóloga, fala português e é simpática. Faz algumas coisas de que tenho uma pontinha de inveja… do tipo dar algumas aulas no Musée do Quai Branly. Fomos almoçar ao Fourmi Ailée. Aliás, foi ela que me tinha falado nisso, quando combinámos por couriel este almoço. Foi um almoço simpático, tal como ela é simpática. Falámos em português e soube-me bem. Perguntou-me que tal me estava a tratar Paris, disse-lhe que très bien e é absolutamente verdade. Falámos de tudo e um par de botas e também, como é evidente, de trabalho, apesar de eu não estar aqui para desenvolver nada com ela. Mas nunca se sabe, como é evidente.
 

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Confirma-se

 
Confirma-se que o Governo Sombra é, de facto, o melhor programa de actualidade política do momento e que, por acaso, até tem graça. Um caso de extremo bom gosto, com temas pertinentes e referências de elevado gabarito – onde por acaso o Francisco e o Aventar são mencionados, mas não é por isso, de forma alguma, que aqui se faz esta nota. Já referi que é um momento semanal marcante na agenda mediática?

PS: Arriscando destoar, aproveito para deixar duas notas:

  1. Acordo Ortográfico chega ao Supremo. Na net segue a petição por um referendo
  2. Assine a Iniciativa de Referendo

Gaia, Futebol e a Quadratura do Círculo

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No passado dia 26 de Outubro, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, deu nota pública de que tinha aceitado o cargo de Administrador não executivo da SAD do FC Porto. Sentindo a necessidade de se justificar publicamente, o autarca de Gaia veio dizer que “são opções respeitáveis quando tudo é claro, transparente, sem fanatismos e sem conflitos de interesses”.

Acontece que um dia antes da sua eleição para o cargo em causa, a CCDR-N deu a conhecer um parecer jurídico que coloca o presidente da Câmara de Gaia em situação de “inelegibilidade superveniente”. Isto significa que, caso viesse efectivamente a ocupar o cargo de Administrador da SAD portista, Eduardo Vítor Rodrigues incorreria em perda de mandato de presidente da Câmara Municipal.

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A economia da pobreza

JN, 20/11/2016

JN, 20/11/2016

O senhor padre Lino Maia queixa-se, nas páginas do JN de ontem, das dificuldades por que estão a passar as IPSS a cuja federação o senhor padre preside. Tem razão.

O Governo da República deveria assumir na plenitude os seus deveres sociais, nomeadamente através do serviço público de Segurança Social, permitindo ao senhor padre Lino Maia dedicar-se ao ofício divino que lhe é próprio e abandonar este sector empresarial que tanto cresceu nos tempos pecaminosos da Troika. De resto é hora de olhar com olhos de ver para os negócios da miséria, conhecidos pelo pomposo nome de Terceiro Sector ou Economia Social, onde pelos vistos há 250 mil trabalhadores a viver da pobreza alheia.

É dever do Estado assistir os seus cidadãos em dificuldades e não ajudar a florescer uma actividade económica cuja prosperidade depende dessas mesmas dificuldades.

Lettres de Paris #27

Marie, agricultrice, et son choix de ne pas se moderniser

Hoje não há fotografias, só uma de uma placa à entrada do portão do 105 (que é também o 101, onde se encontrava a placa) Boulevard Raspail, onde fica a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Por momentos e por ignorância pensei que a placa dissesse respeito exatamente aos estudos das ciências sociais, de um tempo passado e agradou-me logo aquilo dos ‘êtres organisés’. Claro que depois reparei melhor na placa e já não me pareceu tanto que tivesse a ver com as ciências sociais. Tem e não tem, afinal. Parece que antes de ser criada, em França, na Sorbonne, em 1888*, a ‘chaire’ se iria chamar Philosophie Biologique, mas por razões de designações científicas acabou por se chamar Évolution des Êtres Organisés e, claro, diz mais respeito às chamadas ciências da vida. Mas já não estamos em 1888 e sabemos já que embora sejamos êtres organisés biologiquement, somos igualmente êtres organisés socialment e que as duas dimensões, pelo menos, se entrecruzam de maneiras intrincadas e difíceis de separar.
 
Estava diante da placa ainda não eram 10 da manhã, imagine-se. Levantei-me antes das 8 e meia na Rue Suger. Porque tinha de estar na EHESS às 10 da manhã exatamente. Mas também porque aparentemente vão fazer obras no prédio em frente, e a rua é demasiado estreita, e hoje os homens a montarem os andaimes, parece que estavam dentro do meu estúdio. Impossível dormir portanto, de manhã. Adivinho já dias turbulentos, se as obras durarem muito. Seja como for, ali estava eu, hoje de manhã diante da placa da ‘Chaire’ de ‘Évolution des Êtres Organisés’. Fui assistir a um dos seminários ‘Ruralités Contemporaines’, organizados na EHESS por um grupo de cientistas sociais ‘ruralistes’ franceses. O seminário de hoje consistia na apresentação de um filme-documentário – ‘Marie, un engagement paysan’** – e da discussão em torno do que ele nos mostra. Os realizadores, Daniel Blanvillain et Alain Barthot, estavam presentes, assim como Marie, a pequena agricultora e produtora de queijo (especialmente de ovelha), com 4 vacas e 40 ovelhas, da região do Bourbonnais. As vacas e as ovelhas não estavam presentes, naturalmente. Estava lá também ‘du monde’, quero dizer umas 40 pessoas quase, todas mais velhas que eu, à exceção de uns 5 ou 6 estudantes. Estava lá um monte de gente de quem li muitas coisas: Bernadette Lizet, encantadora, Françoise Dubost, Aline Brochot (claro)… e uns quantos mais… um mundo de gente, portanto.
 

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O Público e os empatas

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Na primeira página do Público, podemos ler aquilo que está na imagem. Como sabemos, empatar na política ainda é mais feio do que no futebol ou na vida íntima de outros.

Se lermos apenas este título, que é o que fazemos muitas vezes, é evidente que a imagem da esquerda não ficará em bom estado, porque, aparentemente, não quer resolver determinados assuntos. Se a esquerda merece ter bom ou má imagem, poderemos discutir noutra altura, se não vos importais.

Se se quiser, apesar de tudo, pensar um bocadinho, levantar uma dúvida, poderemos perguntar-nos se este título será uma referência a toda a esquerda, PS incluído, ou se haverá algumas divisões.

Ao fazer essa coisa raríssima que é ler a reportagem, ficamos a saber que o PS recusou as propostas dos partidos de esquerda acerca da limitação dos salários dos reguladores, que o PS, ao contrário dos (outros) partidos de esquerda, quer diminuir paulatinamente o número de alunos por turma, que o PS não quer fazer alterações no mapa das freguesias antes das próximas eleições autárquicas, que o PS não quer resolver já muitas questões relacionadas com o sistema bancário ou com os offshores, que o PSD e o PCP não viabilizarão de imediato algumas medidas contra os maus tratos a animais, que há uma proposta do CDS acerca do envelhecimento activo que tarda em ser aprovada, que o PS anda a adiar uma resolução sobre o uso da produção nacional e regional nas cantinas públicas, e, enfim, que há um grupo de trabalho que tem a seu cargo dois diplomas do PCP e do BE acerca do regime jurídico da partilha de dados informáticos e dos direitos de autor. [Read more…]

Uma espécie de lista de passageiros com bilhete de ida e volta

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Pretender que um blog político precisa de ter políticos entre os seus autores, ou para melhor dizer,  “nomes do poder do costume que o jovem escriba já viu na televisão“, como refere o Paulo Guinote, é como dizer que um jornal só existe em papel. Quem rabisca em “jornais sem papel” deveria estar atento ao paradoxo.

Imprensa portuguesa, esse antro de esquerdalhos

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Segunda a propaganda do velho regime, a imprensa portuguesa é de esquerda. Um antro marxista-leninista de interesses obscuros com vista à sovietização do país. Porém, no seio dessa imprensa de esquerda, da qual jornais como o Público são considerados autênticos baluartes, uma notícia que no tempo do outro senhor nunca passaria sem heróicas e emocionadas capas passou ao lado dos destaques da esmagadora maioria da imprensa nacional. Assistimos àquilo a que a página Os truques da imprensa portuguesa designa de Apagão Informativo. E porque é que isto acontece? Porque a imprensa é de esquerda, claro está.

Imagem via Os truques da imprensa portuguesa

Lettres de Paris #26

«Paris a mon coeur…

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dès mon enfance. Je ne suis français que par cette grande cité. Grande surtout et incomparable en variété. La gloire de la France est l’un des plus nobles ornements du monde*» escreveu Montaigne.
Paris não tem o meu coração desde a minha infância. Mesmo porque a primeira vez que vi Paris já tinha mais de 20 anos. Mas é como se Paris tivesse o meu coração desde a minha infância. Pelo menos, neste momento, tem o meu coração desde que aqui cheguei há 26 dias. O tempo passa a correr e, na verdade, sinto que aproveitei pouco. É certo que estou aqui para trabalhar, mas não se trabalha 16 horas por dia (bom, às vezes sim, como é evidente) e, portanto, penso que poderia ter aproveitado (ainda) mais estes 26 dias que já passei aqui e estes 26 dias em que Paris tem o meu coração, como se fosse desde a minha infância.

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