Cuidado com a corrente do Facebook, mas no que respeita aos anúncios de perigo

Roubo de dados pessoais e de endereços de IP, spam, phishing, burla, propagação de vírus e demais sete pragas do Egipto em versão digital foram os perigos que vários órgãos de comunicação social, alguns até dizendo-se como de referência, anunciaram como podendo acontecer a quem aderisse à corrente “Desafio aceite”.

Esta corrente consiste em publicar no Facebook uma foto a preto e branco, como forma de suporte à luta contra o cancro. Obviamente que nem essa luta ganhará com isso, nem os utilizadores do Facebook ficarão mais expostos do que quando publicam qualquer outra foto.

Na verdade, o único truque nesta campanha chama-se clickbait e é praticado, precisamente, pelos órgãos de comunicação social que publicaram no Facebook estas notícias alarmistas para atrair visitas para o seu site.   Onde, naturalmente, vendem publicidade em função do número de visitas.

Posto este esclarecimento, vamos lá começar uma campanha como deve ser. Se acha que o mundo não vai acabar amanhã às 22:53, tome um bom banho matinal e alimente-se bem, pois vai ser um dia longo.

Câmara de Gaia, da propaganda à vitimização 


Foi já há mais de dois anos, em Janeiro de 2014, que a Quinta dos Avós, em Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, um importante equipamento social para a infância e a terceira idade, foi oficialmente inaugurada pelo Presidente da Câmara, com a presença de altas individualidades, entre as quais se encontravam Agostinho Branquinho, então Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social do governo PSD/CDS, que sucedeu no cargo a Marco António Costa, e até o Nobel da Paz, D. Ximenes Belo, que deu nome à rua onde se situa o edifício. Contudo, apesar de toda a solenidade e pompa da inauguração, que foi notícia em vários órgãos de comunicação social, o equipamento, com valências de lar para 40 idosos e creche para 66 crianças dos 0 aos 3 anos, permanece ainda hoje fechado.
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Postcards from the U.S. #9 (New York)

‘One, A, triangle, blue, Mom’, the young girl said or «We’ll have Manhattan…»*

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Diz-se que o melhor se guarda para o fim. Ou aconselha-se. Segui esse vago conselho e guardei o Central Park e o Guggenheim para o último dia em Nova Iorque. Ou seja, hoje. Embora amanhã ainda esteja aqui um bocadinho, não vou ter tempo para ver mais nada, a não ser o Empire State Building ali na esquina da 27 st East com a 5ª Avenida. Aliás, vi-o há pouco, iluminado, da esquina, pela última vez. Vinha a subir a 5ª Avenida, do Madison Square Park, mais exatamente do Eataly, que é capaz de ter sido o meu sítio favorito para jantar e para comprar comida. Se pudesse tinha provado tudo, mas aquilo é imenso e a comida e os produtos alimentares nunca mais acabam. Mas dizia eu que o melhor se costuma guardar para o final e que eu guardei para o final o Guggenheim e o Central Park. Passei o dia nestes dois sítios e se mais dia houvesse, mas tempo haveria passado, sobretudo no Central Park que é gigantesco e bonito e fresco e tinha o sol a brincar nas folhas das árvores, neste dia que foi de verão absoluto, incluindo um céu azul sem nuvens.
 
Saí do hotel não muito cedo, para apanhar o autocarro (M1, mas podia ter sido o M2 ou o M3) para o Upper East Side, onde fica, na 90ª st East com a 5ª Avenida, o museu. Apanhei o autocarro na Madison Avenue com a 30 st East. O autocarro demorou muito tempo a chegar à paragem e eu fui-me entretendo a ver as pessoas. Umas que trabalhavam, outras que, como eu, apenas passeavam. Pessoas de todas as cores e feitios e medidas, como se diz na canção do Sérgio Godinho ‘A Vida é feita de pequenos nadas’. Quando finamente o autocarro chegou, sentei-me porque a viagem era longa, atendendo ao trânsito que sempre há em Nova Iorque. Atrás de mim uma menina de uns 3 ou 4 anos brincava com a sua mãe. Esta perguntava-lhe ‘what’s your favorite number?’, ‘one’, respondia a criança. ‘What’s your favorite letter?’, ‘A’. ‘What’s your favorite form?’ ‘triangle’. ‘What’s your favorite color?’ ‘blue’. ‘What’s your favorite person?’… a criança gargalha mais e responde ‘you, Mom!’. Eu sorrio também, embora esteja de costas voltadas para elas.
 

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A Origem da Propriedade

"A infância de Caim", pormenor. Gesso de António Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia, 27 de Outubro de 1866 - São Mamede de Ribatua, Alijó, 21 de Junho de 1942)

“A infância de Caim”, pormenor. Gesso de António Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia, 27 de Outubro de 1866 – São Mamede de Ribatua, Alijó, 21 de Junho de 1942)

 

Há uma lenda sobre a origem da Propriedade muito elucidativa sobre o papel que a violência tem tido ao longo da História na opressão dos povos e no domínio das nações. Essa lenda torna também clara a definição de Estado sugerida por Max Weber, segundo a qual ele é uma estrutura política e administrativa que detém o monopólio da violência legítima.

Buckminster Fuller recupera essa lenda no Manual de Instruções para a Nave espacial Terra e descreve-a com elegante simplicidade. Havia um Rei Pastor, a quem a História dos Símbolos poderia chamar Abel, que viveu na era dos gigantes e guardava em paz o seu povo e o seu rebanho. Um dia apareceu, montado num cavalo, um homem rude e pequeno com uma moca pendurada pela cintura. Chegou-se junto ao Rei Pastor e, do cimo do cavalo, disse-lhe “Muito bem, Senhor Pastor! Mas que ovelhas tão lindas você tem! Não sei se sabe que é muito perigoso ter ovelhas tão bonitas numa terra tão selvagem. Sabe que esta terra é muito perigosa”. O Rei Pastor respondeu-lhe, “Vivemos aqui há muitos anos, há muitas gerações, e nunca tivemos visão desse perigo nem problemas que dessem prova que ele existe”.

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Postcards from the U.S. #8 (New York)

«My eyes could clearly see, the Statue of Liberty sailing away to sea…»*

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Fui agora lá abaixo fumar um cigarro que ainda não será o último. Do outro lado da rua uma mulher sem abrigo preparava-se para dormir. Assisti, deste lado da rua, envergonhada, aos seus preparativos. Deste lado da rua passavam entretanto jovens bem vestidos, nos seus fatos armani ou boss, nos seus vestidos donna karan ou calvin klein, com os seus sapatos jimmy choo ou louboutin e as suas carteiras ferragamo ou louis vuitton. Não me senti envergonhada ao observá-los e isto faz-me pensar, como sempre, no facto de apenas a pobreza extrema nos intimidar quando a vemos, nós os ‘remediados’. No entanto, não sinto também qualquer desejo de ser como os jovens que passam deste lado da rua, ou seja, ter aquelas coisas. Comprá-las. Não há neste momento nada que deseje ter. Nada que deseje comprar. Isso tranquiliza-me. Sobretudo numa cidade como Nova Iorque, não querer nada, não desejar ter nada além daquilo que já se tem, é um paradoxo, quando tudo nos apela ao consumo, quando tudo é desenhado para nos despertar desejos.
 
Sei que muitas pessoas vêm a Nova Iorque fazer compras. Não penso comprar nada, além da comida, dos transportes, dos bilhetes para museus e sítios, de um ou dois presentes para quem está do outro lado do mar, e, bom, um ou dois livros e alguns maços de tabaco. Não desejo nada, além disto. É simples nada desejar. E, já o disse, é tranquilizadora esta dimensão de que nada, neste momento, nada material, me faz falta. Na verdade, bastam-me estas ruas, este skyline, estes clubes de jazz, estas pequenas livrarias, o céu, algumas nuvens brancas, ter olhos para reparar nas coisas e nas pessoas.
 

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Postcards from the U.S. #7 (New York)

‘Sun, Moon, Simultaneous’ or ‘It is all true’

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‘The city that doesn’t sleep’, como cantou (entre outros) – e eu já o disse no postal número 2 – o Sinatra*, a cidade sobre a qual já vimos todos demasiados filmes, como diz Brendan Behan, no livro ‘Nova Iorque’, editado em Portugal pela maravilhosa Tinta da China, na coleção coordenada por Carlos Vaz Marques, de que sou absolutamente fã (mais da coleção, mas dele também, vá). A cidade que tem o dia e a noite ao mesmo tempo. Sun, Moon, Simultaneous, como no nome do magnífico quadro de Robert Delaunay que vi hoje no MoMa (Museum of Modern Art). Delaunay era, no entanto, francês e o quadro não se refere a Nova Iorque. Nova Iorque. É como uma feira de luxo. Mais que isso. É o ‘melting pot’ do mundo. Tudo isto é ainda Behan quem nos diz. E tem razão. As luzes e as sombras. A frenética atividade e todo o vagar do mundo. As misturas. As contradições. O sol e a lua em simultâneo.
 
De maneira que não é difícil fingir ser um ‘new yorker’. Aliás, mais do que não ser difícil é, muitas vezes, recomendável que atuemos como se fossemos daqui. Na verdade, somos todos daqui, de várias formas. Até aqueles que nunca aqui vieram. Sim, os filmes, demasiados, que já todos vimos sobre a cidade tornam-na tão nossa como se nossa fosse, tão familiar e dominável. Aconteceu-me hoje na Grand Central Station (a que se deve chamar Grand Central Terminal), mal entrei, essa familiaridade. Reconhecia tudo, ou quase tudo. O relógio, os candelabros, as bilheteiras, as escadarias este e oeste, as janelas, o teto azul como se fosse o céu. North by Northwest, de Hitchcock; Cotton Club, de Francis Ford Coppola; Amateur, de Hal Hartley; Revolutionary Road, de Sam Mendes, para citar apenas alguns dos meus preferidos.

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Postcards from the U.S. #6 (New York)

«In my life, I’ll love you more»* or «All you got to do is swing»**

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Há um ano menos uns dias, escrevi um postal de Liverpool*** a que chamei ‘In my Life’*. ‘In My Life’ é uma canção dos Beatles. Saberão isso, certamente. Todos os postais de Liverpool, que escrevi então em Agosto de 2015, tinham como título uma canção dos Beatles. Fazia sentido, como é evidente. Recupero uma frase dessa canção, porque a ouvi hoje, quando passava em frente ao local onde John Lennon foi assassinado em 1980, a 8 de Dezembro. Ali perto fica o Strawberry Fields, uma área do Central Park que presta justamente tributo a John Lennon. É curioso ter sido ‘In My Life’ e não ‘Strawberry Fields Forever’# a música que ouvi ao passar por ali. E é curioso que um ano antes eu tenha escolhido esta mesma música para dar título a um postal em que falava dos sítios de que me recordo e que recordarei para sempre. É o mundo a fazer sentido, suponho eu, no meio do caos.
Por falar em música e em caos, hoje foi ‘Domingo no Mundo’## em toda a parte, exceto em Nova Iorque. Quando me levantei – tarde – e fui fumar um cigarro lá abaixo, parecia ser domingo também em Nova Iorque. Havia calma, um sol acolhedor e uma brisa que percorria suavemente a 27 st. East. Fumei o cigarro e reentrei no hotel. Falei com uma pessoa que não se compara a nenhuma outra, na minha vida (e sim, estou a citar de novo a canção dos Beatles) e quando voltei a sair, todo o domingo tinha desaparecido de Nova Iorque e, em vez dele, um dia qualquer da semana se tinha instalado, tal como o caos. Havia uma parada por ser o ‘Dia da Índia’. Tambores, música, carros alegóricos percorriam a Madison Avenue. O trânsito tinha-se tornado absolutamente indomável. Nada a fazer. O domingo tinha fugido para qualquer outra parte. Dele tinha apenas sobrado o sol e a brisa fina.

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