Bucha e Estica

Há pessoas que, em posições de poder que representam classes trabalhadoras, tendem a tomar como seu o lugar, quando o que representam são profissionais de diversas áreas. Profissionais esses que merecem o brio de quem os conduz, a honestidade e, acima de tudo, capacidade de isenção. Infelizmente, há certos bastonários que, por mais do que uma vez, têm mostrado esforço em beneficiar, com palavras e com acções concretas, certas cores políticas. Usar cargos de poder em representação de X classe trabalhadora para aparecer e fazer oposição política, tentando compensar o fraco trabalho de quem devia fazer realmente oposição, mostra a falta de carácter, apenas e só, de quem o faz. E também há certos bastonários de ordens que acham que fazem parte de um sindicato.

Se a senhora bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, tivesse tanta noção quanta a vontade que tem de dar beijos de amiga a André Ventura, e se calhar não fazia figuras de otária.

André Ventura dirige-se a adversários chamando-lhes “avô bêbedo” ou “coisa de brincar”, Ana Rita Cavaco dirige-se a uma presidente da câmara como “gorda fura filas” e desculpa a sua própria piada de mau gosto dizendo que foi Isilda Gomes, autarca de Portimão, quem assumiu ser “obesa”. Pois, pá. Todos sabemos que sempre que alguém assume uma doença, isso nos dá o direito de gozar com essa pessoa e com a sua doença. Especialmente quando essa pessoa agiu mal em alguma situação! Por exemplo: sempre que vejo que um obeso não faz o pisca a conduzir, ultrapasso-o e grito “ó gordo, mete o pisca!”.

Vai-se a averiguar e, afinal de contas, foi o deputado do Chega quem deu aulas de etiqueta à senhora bastonária.

Ou então, surpreendentemente, em vez de transmitir COVID-19, aquele “beijo de amiga” em Setembro transmitiu estupidez. Concluindo: podes tirar o Chega do PSD, mas nunca conseguirás tirar o PSD do Chega, sejam militantes, dissidentes ou bastonárias da Ordem dos Enfermeiros.

O que se tem passado com a distribuição das vacinas, segundo o que tem vindo a público, é grave e expõe, mais uma vez, a “chico-espertice” típica dos portugueses e, também, que a família do Partido Socialista é cada vez maior. Mas grave ou não, Ana Rita Cavaco é bastonária da Ordem dos Enfermeiros, não é apresentadora do “Isto é gozar com quem trabalha” e, como tal, não é sua função dizer facécias. E se não sabe onde começa e onde acaba a importância do cargo que ocupa, é porque não merece o cargo que ocupa. Por fim, Ana Rita Cavaco está lá em representação dos enfermeiros e não do PSD e da direita, pois, que eu saiba, ser bastonária não é ser deputada.

Imagino que Ana Rita Cavaco se preocupe com o compadrio. Aliás, preocupa-se tanto, mas tanto, que até contratou Tiago Sousa Dias, seu amigo de longa data, ex-militante do PSD, apoiante de Rui Rio nas directas do partido contra Santana Lopes, braço direito de Santana no Aliança depois do PSD correr com ele e agora activo do Chega e alegado futuro secretário-geral do partido “neo-preconceitos”, a quem a Ordem dos Enfermeiros paga 72 mil euros, a dividir num contrato de 3 anos, desde Março de 2020. Aparentemente, PS e PSD gostam de medir o membro “eu sou mais asqueroso do que tu”.

O que vale é que a qualidade dos nossos enfermeiros não se mede pela qualidade da sua bastonária (que é nula, no caso da senhora Cavaco, se é que ainda é preciso dizê-lo). Neste caso: “Mulher gorda/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A VACINA de ninguém/E mulher magra/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A ESTUPIDEZ de ninguém”.

           FILIPE AMORIM/GLOBAL IMAGENS