Caça, feudalismo e Parque Natural


Anthocharis euphenoides

Anthocharis euphenoides

Mário Martins – Trepadeira Azul

Em 2000,após a aposentação, fixei-me no magnífico Vale do Mondego – Parque Natural da Serra da Estrela – REDE NATURA 2000, seduzido também pelo excepcional clima.
Desde sempre apaixonado pelo estudo e preservação da natureza, inicio, ajudado por dezenas de especialistas voluntários, a recolha da fauna e flora da região, em fotografia e vídeo.
Há mesmo uma reportagem feita por Luís Henrique Pereira para a RTP já emitida mais de uma dezena de vezes.
Logo surgiram espécies não dadas para esta zona ou mesmo não estudadas. Algumas ainda não foram identificadas nem sequer com o apoio de universidades estrangeiras.
Tudo isto levou a, internacionalmente, escolher este espaço para a realização de EUROPEAN MOTH NIGHTS – Noites Europeias de Borboletas Nocturnas.
Sem surpresa foi este o local onde foram registadas mais espécies e algumas com mais de 30 indivíduos numa só noite.
O espaço tem estado aberto a visitas de alunos das escolas e outras. (Tudo gratuitamente).
Depressa nos apercebemos que a preservação da natureza, mesmo dentro de um parque natural e Rede Natura 2000, colidia com os interesses instalados de alguns caciquelhos, construções em Reserva Agrícola, Reserva Ecológica, Domínio Público, Domínio Hídrico ou todos ao mesmo tempo mas também, e sobretudo, com os senhores da caça.

Esta actividade, embora proibida às aves migratórias desde a criação do Parque Natural em 1976, desenvolveu-se sempre à vista de toda a gente com centenas de caçadores, deixando mais de uma tonelada de chumbo por cada jornada numa pequena área de olivais e hortas, sem qualquer intervenção das entidades a quem compete a fiscalização.
Mais recentemente, há cerca de oito anos começaram a ser criadas zonas concessionadas, com evidentes ilegalidades na instrução, informação e despacho dos processos.
Há de tudo, desde informações a dizer, e cito de cor, “não há meios para fazer a verificação mas, como se trata de gente de bem, está tudo correcto”, até pareceres do ICNB  (que nem sequer tomam em consideração), como contradizem o Plano de Ordenamento do Parque Natural.

As próprias portarias faltam à verdade ao não só contrariarem o que está escrito no processo como ao ignorarem, sempre em favor dos senhores da caça, os pareceres dos próprios técnicos.
Tudo isto tem sido acompanhado de arruaças, ameaças, intimidações e outras perseguições.

Tem sido feitas algumas reportagens pela RTP que não chegam a ir para o ar talvez por isto:
Citando Manuel António Pina:

“Mas só gente totalmente insensível vê beleza no binómio de Newton e na Vénus de Milo e não experimenta a mínima emoção estética vendo um touro agonizar babando-se em sangue ou o cadáver de um javali gloriosamente perseguido (como sucederá na “montaria” que a Casa do Pessoal da RTP organiza no próximo fim-de-semana) por 325 heróicos e “artísticos” caçadores mais 25 matilhas de cães. Daí que a Casa do Pessoal da RTP e a RTP se empenhem na “educação para a arte” dos 74% de portugueses que não gostam de touradas (nem, se calhar, de cadáveres de animais baleados).”

De quando em vez, a agora Autoridade Florestal, marca uma reunião para constatar, mais uma vez, as ilegalidades e prometer reavaliar.
Assim, uma espécie de fingir-que-se-faz-alguma-coisa para tudo continuar na mesma.
A última reunião, há cerca de 2 meses, teve algumas particularidades:

Fui exposto, a convite da mesma entidade, às ameaças directas dos senhores da caça sem que algum dos presentes se tenha manifestado, e fui alvo de chacota – aí sim, para gáudio exuberante dos restantes presentes. Era, aliás, para mim evidente a sintonia entre o já citado organismo e os senhores da caça.
Foi ainda dito peremptoriamente que não iria ser extinta qualquer concessão.
Tal não admira face ao comportamento do sr. Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural na Póvoa de Varzim.
Perante dois acordãos, já do Tribunal da Relação, a determinar a proibição do “tiro aos pombos”como prática cruel e proibida pela lei de protecção dos animais, o sr. Secretário de Estado não só apoia e elogia, tal prática como se congratula.

Assim se espatifa o estado de direito.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Tem sido feitas algumas reportagens pela RTP que não chegam a ir para o ar talvez por isto:
    Citando Manuel António Pina:

    “Mas só gente totalmente insensível vê beleza no binómio de Newton e na Vénus de Milo e não experimenta a mínima emoção estética vendo um touro agonizar babando-se em sangue ou o cadáver de um javali gloriosamente perseguido (como sucederá na “montaria” que a Casa do Pessoal da RTP organiza no próximo fim-de-semana) por 325 heróicos e “artísticos” caçadores mais 25 matilhas de cães. Daí que a Casa do Pessoal da RTP e a RTP se empenhem na “educação para a arte” dos 74% de portugueses que não gostam de touradas (nem, se calhar, de cadáveres de animais baleados).”
    Pois é blogger convidado – não é aqui dito nada que eu não saiba que acontece no pedaço da Ibéria que Unamuno disse que da ibéria a quinta ficou para Castela e para nós o jardim – a minha profissão levou-me a conhecer este belo pedaço de terra debruado de mar – o programa Espaços e Casas orgulha-se de mostrar as belas e modernas mansões só para ricos em pleno Parque Natural da Serra da Estrela e eu fiz um projecto de Escola secundária no aterro do Vale do Mondego e não quiz fazer mas o prof Caldeira Cabral (falecido) disse tens razão mas tens de fazer pois que ao recusares outro o fará e pior do que tu ++ etc Só queria crescentar que foi descoberto na Setta da Estrela POLEN FÓSSIL o que é natural naquele espaço de Vale Glaciar com árvores do Terciário até aqui arrastadas – Se alguém percebesse o que anda a fazer ao vale do Tua e ao país património geológico e eu tenho colegas (e alguns amigos) no ICNB – pois eu sou ribatejana e sei bem o que se faz ao Vale do Tejo e aos Mouchões e quem fez o que fez às Muralhas das Portas do Sol de Santarém para onde fiz projecto pois estavam a deslizar e não aceitado (LNEC) injectaram cimento e tudo desabou há poucos anos e lá se perdeu a muralha conquistada por Afonso Henriques – este país cheio de história das pedras e dos homens e da fauna e flora endémicas está nas mãos de decisores que dia a dia cometem crimes ecológicos entre eles o actual secretário de Estado das Florestas que conheci em trabalho em 1999 quando era presidente da CM de Ponte de Lima que aí tinha feito trabalho interessante incluindo a harmonização das placas toponímidas dentro da vila tão interessante como as da Expo 98 – mas esqueceu tudo agora pois que despacha favoravelmente o abate de sobreiros para construção de golfs – sim os caçadores até destroem os muretes de pedra solta para poderem andar por aí à caça e atirar a tudo o que mexe, muretes centenários de quem despedregou as terras para as cultivar e com os muretes dividir culturas e peopriedades – Lisboa desmantela o país e regionalmente desmantela-se o que levou séculos a “construir” em beleza e produtividade bio-diversa – não sei que adjectivação merecem os demolidores de tudo pois só sabem demolir e nem explicam o critério e até há caçadores que se matam uns aos outros e os guardas florestais que percorriam a cavalo o país florestal contra o vandalismo – mas já não há desses “cavalos” que deram lugar a outros que estão na “governação” – Fui ao Mondego lavar as penas das minhas mágoas, minhas mágoas eram negras, negras ficaram as águas –
    Tão pequenino o rectângulo (quese de oiro) e tão rico, mas ao ser desmantelado trouxe a miséria que não havia – obrigada pelo seu texto e pelo acordar de memórias – Sem a protecção da terra e das paisagens não há nada e nem quero pensar nos australianos e outros que virão explorar a nossa riqueza do subsolo e desmantelar mais ainda as áreas agrícolas que restam mesmo apenas de dimensão familiar que há anos foi recusada pelos agricultores mas agora nem isso – se calhar já não há lá ninguém de agricultores que eram os Guardiões da Natureza e nem conseguiram impedir que o eucaliptal que era apenas plantado nas zonas húmidas agora sobe até ao cocuruto dos montes desertificando mais ainda e já nem há sequer água no solo, não há água subterrânea e o anterior ministro do ambiente que depachou favoravelmente o FreePort em Rede Natura fez na aldeia de BIGORNE o maior aterro sanitário de todos os tempos destruindo duas nascentes de água pura – os agricultores revoltaram-se e chamaram a TV e eu vi duas vezes essa grito – mas não veleu de nada e nem o ICNB esteve lá e esse aterro foi construído e babou água negra para as ribeiras que ficaram vermelhas e a água inutilizada e toda a fauna e flora ribeirinhas – coitadas das lontras que ali viviam e eram construtoras – o país desmantelado por pessoas maldosas já que nem acredito que sejam tão ignorantes como parecem

  2. Conhece muito bem esta realidade,os problemas e os predadores.
    A zona do Vale do Mondego onde faço a recolha e registo das fauna e flora foi considerada,no Plano de Ordenamento do Parque,Zona de Intervenção Específica,reconhecendo assim a sua especificidade e biodiversidade.Isso não impediu a concessão das tais zonas de caça,com um parecer do ICNB,à posteriori e a reclamação minha,”não regista valores significantes”,isto perante uma caracterização ecológica feita por três biólogos.Julgo que nem sequer leram qualquer dos documentos.

    É consensual interagirem aqui as três influências principais,atlântica,continental e mediterrânica,criando condições de clima muito especiais.
    Há aqui oleaginosas autóctones,segundo a Professora Helena de Freitas,que sempre foram consideradas invasoras,porque se julgava não existirem condições naturais para elas.

    É uma região tão única que me desgosta ainda mais a forma como está a ser tratada.
    Muitas famílias têm abandonado o vale por causa deste feudalismo e caciquismo.

    Não vou desistir.
    mário

  3. Lagartices says:

    A Rede Natura 2000 é uma rede europeia criada pela Directiva 92/43/CEE.
    Já pensou em pedir apoio jurídico às ONGAs para fazer elaborar uma queixa a nível Europeu?
    Força Mário, não desista. E por favor, mantenha-nos actualizados.

  4. Agradeço muito o incentivo.
    Pedia o favor,se possível, de indicar alguma organização não governamental à qual pudesse recorrer.
    O percurso está todo armadilhado,para conseguir qualquer processo,ou documento,relativo à caça tenho,sempre,de recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos.
    Os organismos do ministério não se coibem mesmo de retirar páginas que possam indiciar ilegalidades .
    Mesmo os pretensos estudos de impacto são cópias descaradas uns dos outros sem qualquer estudo ou correspondência no terreno na maior parte dos casos.

    mário

  5. Agradeço o incentivo.
    Gostava de seguir a indicação mas,estando aqui pelo interior,não é fácil.O caminho está bem armadilhado.Nunca consigo um qualquer processo,ou simples documento,referente à caça,sem recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos.
    Quando enviam os processos retiram folhas que possam conter indícios de ilícitos.
    As irregularidades são muitas e a vários níveis.
    Vou,cada vez contando com o apoio de mais pessoas,continuar a lutar.
    mário

    Post scriptum:
    Deixei o comentário de manhã mas,por azelhice minha,parece não ter passado.

  6. Lagartices says:

    Estava a pensar nas ONGs que já fizeram queixas a nível internacional.
    Quercus e a Geota têm estado a fazer queixas à UNESCO por causa das barragens no Douro. Existem mais com certeza mas estas talvez saibam navegar melhor no emaranhado legislativo.

  7. Lagartices says:

    Encontrei uma queixa à Comissão Europeia relativa à construção de um parque eólico no SIC «Brañas de Xestoso», integrado na Rede Natura da Galiza (Espanha) : http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+WQ+E-2007-6180+0+DOC+XML+V0//PT

  8. Obrigado
    Tenho feito algumas acções,a última contra os transgénicos,com a QUERCUS da Guarda.Ainda não tinha lembrado essa possibilidade.Vou tentar.
    mário

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