Repensar as regras da globalização?

Há uns dias, dizia António Costa, em relação à chegada da China de 4 milhões de máscaras de protecção, que não é possível estarmos nesta dependência de uma coisa que é produzida na China, que é transportada pela Ethiopian Airlines para finalmente chegar ao Porto – não passando de uma reserva que dá para uma semana.

Levará esta catástrofe que desabou sobre a humanidade a um tão necessário ajustamento dos princípios e regras que vêm regendo a economia global nas últimas décadas?

Parece muito duvidoso.

O jornal alemão TAZ publicou ontem uma notícia sobre prioridades da Alemanha durante a Presidência do Conselho da União Europeia, que o país irá assumir a partir do dia 1 de Julho. Na política externa e comercial, Berlim pretende não só finalizar o acordo de comércio EU-Mercosul como “retomar um amplo diálogo político de alto nível (…) e desenvolver e implementar uma agenda comercial transatlântica positiva”. Ou seja, repescar o TTIP (acordo EU-EUA), mesmo que numa forma “light”.

Os receios de Berlim em relação às ameaças de tarifas punitivas dos EUA sobre as exportações alemãs de carros têm a maior potência para alavancar a agenda de liberalização abrangente, a favor da indústria de exportação. [Read more…]

Um inferno português…

A ideia que Holanda e Irlanda são paraísos fiscais, deixa implícita a existência, por simples oposição ao conceito de paraíso, que existirão infernos fiscais. Nada impede os que acusam tais países de concorrência desleal, de passarem a defender que os seus próprios países concorram com os demais. As empresas não são corpos estranhos, seguem a lógica das pessoas, porque até ver, por muito que recorram à robótica ou inteligência artificial, ainda são dirigidas por pessoas. Se um cidadão não encontra condições para se desenvolver numa localidade, desloca-se, de cidade, região, por vezes até de país, emigra. As empresas é igual. Cabe aos governos atraírem investimento, inteligência e capitais, para isso precisam ser concorrenciais. Agilizar processos e baixar impostos. Não acusem empresários de mudarem a sede das empresas, acusem o governo de não ter uma política fiscal que as mantivesse em Portugal. [Read more…]

É mesmo?

É impressão minha, ou von der Leyen assume nesta crise uma posição europeia que contraria a egoísta do seu país? Com as palavras: “Estamos numa encruzilhada” (…) “Este vírus vai dividir-nos definitivamente em ricos e pobres, em favorecidos e desfavorecidos? Ou sairemos desta situação mais fortes e melhores, com as nossas comunidades mais coesas?”, questionou. “Vamos dar mais credibilidade à nossa democracia, como um bloco forte e um actor fiável a nível mundial?”  von der Leyen parece mesmo estar a avisar a Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia, de que a emissão dos chamados coronabonds – emissão conjunta de dívida – é imprescindível, se não se quiser aumentar mais ainda a desigualdade, por via de juros mais elevados para os países fracos e vice-versa, ao sabor dos todos poderosos mercados. A Europa, mais uma vez, a derrapar.

Todos os empregos importam, mas há empregos mais importantes que outros…

Causaram indignação as palavras do CEO da padaria portuguesa. Já se sabe que o rapaz tem dificuldade em passar a mensagem, que nem interessou muito à maioria, ávida por bater no mensageiro. Era o que faltava um patrão ter dificuldade em pagar salários ou ameaçar despedir. O governo já indicou o caminho às empresas, endividem-se e logo se vê. A conta há-de chegar.
A cereja em cima do bolo para a turba que exulta com o aproveitamento da crise que atravessamos para promover a sua agenda ideológica, foi a graçola do primeiro-ministro dirigindo-se ao líder da Iniciativa Liberal, sugerindo que mudasse o nome para Iniciativa Estatal, a qual mereceria logo ali a resposta que após impor restrições aos portugueses, António Costa faria bem promover a mudança de nome do partido que lidera para Partido Fascista. [Read more…]

«Centeno admite recessão», mas os Açores admitiram receção

OK. Efectivamente, convém que Centeno esclareça a *receção económica dos colegas dos Açores. Eis o pdf (pp. 15 e 16). Exactamente.

A vida em estado de normalidade

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Vulcão de areia e tocha de fumo, Costa Nova, 2019.

[Pedro Guimarães]

Numa sociedade perfeita, medidas de contenção como as actuais não teriam qualquer consequências na Economia e não passariam de um pequeno mal estar fruto do afastamento social necessário. O estado de emergência devia ser o estado normal, porque é apenas no mundo virtual que não vivemos em permanente emergência: climática, social, ambiental, demográfica.
Por isso mesmo, no mundo real, tudo o que é desnecessário, destrutivo e predatório, como o é a mobilidade e o consumo excessivos, deveriam ser questionados criteriosamente, em vez de financiados os postos de trabalho que daí resultam.
Portugal, como tantos outros países, vive uma crise sanitária a que se seguirá um crise de negação. A procura de soluções faz-se recorrendo a mecanismos que não contemplam curas, apenas curadorias, curandices.
A solução, inevitavelmente, virá de fora, de um país socialmente mais flexível e apto à mudança, em que as grandes empresas estratégicas e seus empregados serão públicos, logo afetos à causa comum. Nesses países, o conceito de trabalho será redefinido, nenhuma gripe poderá parar o sistema: uma grande empresa de aviação poderá em poucos meses se transformar num grande prestador de serviços de saúde, uma fábrica de automóveis poderá em pouco tempo produzir equipamentos médicos.
E ninguém irá perder a sua individualidade por causa disso.

Para grandes males, grandes remédios – Rendimento Mínimo Incondicional

Numa petição europeia apela-se à União Europeia, e ao Eurogrupo em particular, no sentido de ser criado um instrumento financeiro que permita aos estados-membros da UE instituirem rapidamente um Rendimento Mínimo Incondicional como medida de emergência que, de forma célere e sem complicações burocráticas, permita aliviar todos os cidadãos da Europa cuja segurança económica e existência se vê ameaçada pela crise provocada pelo coronavírus.

“Desde a última grande crise de 2008, a UE já injectou milhares de milhões de euros no sector financeiro para colmatar as falhas do mesmo. Chegou a hora de apoiar as pessoas.”

 

Crónicas do Rochedo 31º – Ainda o Turismo e os supostos apoios

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Depois da publicação da Crónica anterior, vou continuar a desenvolver a problemática económica que se avizinha para o turismo agora na óptica dos apoios já tornados públicos. Para se perceber a grandeza do problema é ler a crónica anterior.

Analisando o que já está previsto e publicado pelo governo (site IAPMEI e PME Investimento) e que se pode resumir a apoios de tesouraria e fundo de maneio, acrescentando os apoios ao sector da Restauração e Similares (profundamente dependentes do Turismo na Grande Lisboa, Área Metropolitana do Porto, Algarve, Madeira, Açores, Região do Douro e em muitas das nossas cidades), temos o seguinte:

Em praticamente todas as linhas de crédito os spreads bancários (sublinho, apenas no que toca aos spreads) variam entre um mínimo de 1,928% e um máximo de 3,278%. 

Não encontrei de quanto é o juro nem tão pouco, se existem, os custos bancários para processamento e afins destas medidas. Nem que tipo de garantias são exigidas.

Vamos lá ver se nos entendemos: 

Neste momento, todo o sector do Turismo assim como o da restauração e similares dele dependente estão numa realidade surreal: receitas zero. Para piorar a situação, a principal época de facturação está compreendida entre 15 de junho e 30 de setembro. Ora, como facilmente se compreende atendendo à realidade actual, a chamada “temporada de 2020” foi ao ar. Não se enganem, não vamos ter turistas estrangeiros a tempo de a salvar. Mais, é muito bonito ver algumas iniciativas que circulam pelas redes sociais com a temática do “ajude as nossas empresas e este ano faça férias em Portugal”. Desculpem mas não resolve. A estrutura existente está desenhada para uma realidade de, pelo menos, 20 milhões de turistas. O aumento incrível do número de hotéis (e similares), restaurantes, bares, lojas de lembranças (etc) e o correspondente aumento de trabalhadores nessa área não é sustentável apenas e só com o turismo interno. Nem a esmagadora maioria dos portugueses vão ter, no final de tudo isto, capacidade financeira para esse luxo a que se chamam férias. Pensem um pouco, com a excepção dos funcionários públicos, todos os outros portugueses terão, no mínimo e a correr bem, um corte de 30% nas suas receitas. A correr mesmo muito bem. E, já agora, para piorar o cenário, por exemplo, aqui em Espanha também circulam as mesmas iniciativas de este ano fazer férias em Espanha. Suponho que será um sentimento generalizado noutros países…

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Crónicas do Rochedo 30º – Turismo: Uma catástrofe à vista

Turismo de Portugal

Já não escrevia uma crónica há muito tempo. Ora, tempo é o que mais temos nestes últimos dias. Tempo para pensar e tempo para escrever. Perante a pandemia que estamos a viver existem vários sectores da nossa sociedade que enfrentam várias ameaças. Um deles é o turismo. Por ser dos sectores que melhor conheço profissionalmente, deixo aqui a minha análise baseada em factos e fontes e na experiência profissional. Podia escrever o mesmo sobre o turismo em Espanha e, sobretudo, na realidade que melhor conheço, as Baleares. Contudo, para já, prefiro analisar o problema português (aqui não será muito diferente).

Vamos começar pelos números:

O Turismo em Portugal representa 14,6% do PIB (dados de 2018) e 9% do emprego (dados de 2018) e 13,3% do total das nossas exportações (dados de 2018).

Tentando tornar a coisa mais simples de entender: 

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O que tem a ver a Coopérnico com a crise do coronavírus?

Rui Pulido Valente*

À primeira vista não parece ter nada a ver, mas se aprofundarmos o nosso olhar e ouvirmos aquilo que a crise nos tenta dizer, concluímos que tem tudo a ver! Tem tudo a ver porque nos obrigou, a todos, a olhar para a Sustentabilidade de uma outra forma, numa perspetiva mais individual e responsável.

O combate à pandemia tem sido feito com base nos comportamentos de cada um e no cumprimento das orientações dos profissionais de saúde. Não se tem tratado apenas de alterações temporárias e pontuais, mas mudanças que questionam todo um posicionamento do cidadão como consumidor.

A diferença é que estamos perante uma urgência e um fenómeno que depende fundamentalmente da atitude de cada um. Mas se refletirmos um pouco, também a crise climática, o desperdício alimentar, ou mesmo, a plastificação do meio ambiente, têm tudo a ver com questões comportamentais e responsabilização do cidadão enquanto consumidor. Acrescentaria ainda, e para puxar a brasa à minha sardinha: as nossas opções como consumidores de energia também têm tudo a ver com opções individuais que podem defender o ambiente e descarbonizar as nossas vidas.

De um momento para o outro, foi possível fazer o que, para muitos, seria utópico. Temos professores a lecionar à distância, temos profissionais em teletrabalho, temos redução substancial nas deslocações com reuniões a realizarem-se por teleconferência, temos quem se preocupe em criar soluções locais para evitar a excessiva centralização dos recursos, temos uma aferição, no terreno e na prática, da resiliência dos nossos territórios. [Read more…]

Saúde, meio ambiente e clima não são negociáveis!

Os receios em relação à receptividade do novo comissário europeu para o comércio, Phil Hogan, para vergar os padrões europeus ao interesse superior do grande negócio, revelam-se, deploravelmente, mais do que fundados.

O novo comissário parece, sem escrúpulos, querer superar o desembaraço da anterior Cecilia Malmström – que, pelo menos, sempre cumpriu as ordens do Conselho da EU. No contexto das mais recentes negociações, Phil Hogan, confrontado com as exigências dos EUA de mudar as regras da UE sobre resíduos de pesticidas nos alimentos, tratamento químico de aves de capoeira (‘galinhas cloradas’) e OGM declarou que vai procurar soluções para essas “barreiras regulatórias”. Ou seja, no maior secretismo, a Comissão está a pôr em cima da mesa o sector que não faz parte do mandato das actuais negociações, nomeadamente agrícola e alimentar. E a preparar-se para dar mais um chuto ao princípio da precaução.

Tudo para agradar a Trump e evitar que este realize a sua repetida ameaça de impor taxas aduaneiras aos automóveis europeus.

Mais de 100 organizações da sociedade civil de toda a Europa alertaram, numa declaração conjunta, para o perigo de as negociações comerciais UE-EUA virem a pôr em risco medidas adoptadas pela UE para proteger padrões de qualidade, a saúde pública e o meio ambiente, bem como o seu próprio “Acordo Verde Europeu”, por exemplo no que toca aos pesticidas.

Assim: [Read more…]

A cooperativa energética feita por e para os cidadãos

Rui Pulido Valente

Chama-se Coopérnico e é a primeira cooperativa portuguesa dedicada às energias renováveis. Nasceu em 2013 e, desde então, tem vindo a tentar mudar o paradigma da produção e consumo de energia. Atualmente conta com 1.530 cooperantes que juntos já investiram mais de um milhão de euros.

É caracterizada no seu site como uma “empresa social que, através do envolvimento da comunidade, procura promover a transição para um novo paradigma energético” e tem hoje ativos 21 projetos que levaram à instalação de quase 5.000 painéis fotovoltaicos, em telhados de instituições de caráter social, educacional ou estatal. Em conjunto, produzem energia suficiente para abastecer cerca de 800 famílias e colmatam a emissão de CO2 em mais de 1.000 toneladas. [Read more…]

O IVA da electricidade e o IVA da eletricidade

DOROTHY
Toto, I have a feeling we’re not in Kansas anymore.
The Wizard of Oz

Wovoka had a vision, his words went far and wide.
Death Cult

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A decisão sobre o IVA da electricidade foi um dos grandes temas desta semana. Todavia, a pergunta impõe-se: aquilo que os deputados votaram foi o IVA da electricidade ou o IVA da eletricidade? Sim, porque, não são exactamente a mesma coisa e, se bem vos lembrais, ambas aparecem no Orçamento do Estado para 2020. Tendo em conta alguma tradição (“não responde“, “não responde“, “não responde“), ficaremos provavelmente sem saber se é electicidade ou eletricidade.

© psdesign1 / Fotolia [http://bit.ly/2veNZQq]

No fim de contas, importa é mostrar que os actos são dinâmicos — às vezes, até há música — e dar tempo de antena a despropositadas vaidades. Aquilo que está em causa é vender o produto e a imagem dos autores do produto: a péssima qualidade do produto efectivamente não interessa.

Quanto ao dilema electricidade/eletricidade, convém igualmente recordar que a supressão do cê da sequência -ct- dá azo a erros em línguas estrangeiras (*fator, *diretion, *eletric). Será possível que um falante/escrevente de português europeu venha um dia a escrever

Development of Analyzing System for Power Fator and Harmonic Diretion in Eletric Power Distribution System using FA Computer,

em vez de

Development of Analyzing System for Power Factor and Harmonic Direction in Electric Power Distribution System using FA Computer?

Tendo em conta os “human fator issues“, os “One Diretion” e a “General Eletric“, sim, é possível.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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Regresso ao Futuro

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[António Alves, Maquinista]

Vivemos na Ferrovia Nacional um momento que se pode considerar histórico.
Aquilo que na filosofia da ciência se chama uma ruptura epistemológica. Estas acontecem quando um obstáculo inconsciente ao pensamento científico é completamente rompido ou quebrado. É o que acontece nos dias que correm no mundo ferroviário português. Um conjunto de factores concatenaram-se para que isso fosse possível: um ministro dedicado e consciente do papel da Ferrovia no futuro do país, um Conselho de Administração da CP tecnicamente competente e empenhado em fazer renascer o Caminho de Ferro e, até, uma mudança de linha, mas sem rejeitar a sua História e mantendo uma continuidade com ela coerente, no mais importante sindicato operacional do setor, o dos Maquinistas.
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Contra o Orçamento do Estado para 2020

Ora, questa frenesia dell’apparire (e la notorietà a ogni costo, anche a prezzo di quello che un tempo era il marchio della vergogna) nasce dalla perdita della vergogna o si perde il senso della vergogna perché il valore dominante è l’apparire, anche a costo di svergognarsi?
Umberto Eco

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Foto: Tiago Petinga/Lusa [http://bit.ly/36HQkRp]

É impossível alguém rever-se no OE2020, a não ser que ande a espalhar o caos ortográfico. Efectivamente, a mixórdia de 1990 tem um dos seus pontos altos anuais no momento em que o ministro das Finanças entrega ao presidente da Assembleia da República um texto que o primeiro obviamente não escreveu e o segundo certamente não lerá. Baseio esta minha hipótese num facto: estes são exactamente os mesmos protagonistas dos momentos simbólicos do OE2016, do OE2017, do OE2018 e do OE2019. Se Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues tivessem escrito ou lido as propostas de 2016, 2017, 2018 e 2019, provavelmente não teríamos o caos de 2020 que aqui vos deixo, sob a forma de pequena amostra: [Read more…]

Contas certas onde?

Receitas e despesas do subsector Estado (portanto, sem as autarquias, governos regionais e SS). Fonte: Dívida Pública Portuguesa. De acordo com o autor do gráfico:

  • A escala no eixo vertical está em milhares de milhão. 50.000 M€ = 50.000.000.000€
  • Estes são os dados que constam na execução orçamental e estão excluídos alguns itens da despesa geral do Estado. Estas são as do Estado Central.

O gráfico realça bem os mitos que se têm construído em termos dos resultados das governações PSD/CDS e PS:

  • As tentativas de equilíbrio das contas não foram feitas do lado da despesa;
  • A evolução da receita fiscal em 2011 e 2012 evidencia o falhanço que foi a política do PSD/CDS e porque é que existiu o enorme aumento de impostos de Gaspar;
  • As contas certas de Costa são ficção;
  • Se há algo certo nas governações dos governos de Passos Coelho e de António Costa é o constante aumento aumento da receita fiscal a partir de fim de 2012;
  • Agora que o PSD e o CDS estão na oposição, ouvimos os respectivos líderes barafustarem contra a carga fiscal. Fica patente o lado hipócrita do que afirmam;
  • O discurso vendido pelo PS de António Costa no percurso que o levou à vitória nas últimas legislativas assenta na mentira.

Desigualdades, salários e globalização

 

João Vasco Gama

Um recente artigo de opinião da autoria de Paul Krugman, laureado com o prémio Nobel de Economia em 2008, explica porque é que no passado os possíveis impactos perversos da globalização sobre os salários tinham sido subestimados pelos economistas.

No dito artigo, Krugman admite que foi um erro minimizar estes impactos perversos, hoje reconhecidos, sobre o emprego, a distribuição do rendimento e os salários.

Krugman lembra que já desde 1941 se conheciam os mecanismos através dos quais o comércio internacional poderia, em princípio, conduzir a reduções salariais nos países com melhores condições laborais. No entanto, a importância real destes mecanismos deveria ser testada empiricamente, antes de ser dada como certa. [Read more…]

Contato?

But nowadays, as far as I can tell, no one believes in the existence of immortal spiritual substances except on religious grounds. To my knowledge, there are no purely philosophical or scientific motivations for accepting the existence of immortal mental substances.
John Searle

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Contato? Apesar de visto e revisto e apesar da elevada frequência desde Janeiro de 2012, aparentementente, ninguém acredita.

Para quem não souber o que significa INA, passo a citar:

A Direcção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas, abreviadamente designada por INA, é um serviço central da administração directa do Estado, integrada no Ministério das Finanças.

Até breve.

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Flocos de neve precisam-se

“De todas as tentativas de desqualificação nenhuma manifesta melhor o medo da direita populista pela liberdade do que a expressão snowflake (floco de neve), que começou por ser utilizada por apoiantes de Trump, caracterizando supostamente uma geração vulnerável, incapaz da competição. Em subtexto essa ideia de que o floco de neve se derrete e é por isso fraco. É uma visão. Outras existem. Os flocos de neve são também elegantes e flutuantes, com uma gama ampla de variações e em condições estáveis até dançam. E não existe nada que chateie mais uma mente conservadora do que corpos em movimento, ondulantes, representando tanto a disciplina, como a oportunidade de a transcender, oferecendo-se a si próprio, e aos outros, alternativas. Em vez da incapacidade de lidar com a mudança, integrá-la, sem receio de questionar comportamentos, reavaliar a forma como nos contamos hoje a partir do passado ou interrogar o neoliberalismo decadente.”

Belo texto de Vítor Belanciano.

Apesar do dilúvio de publicações teóricas significativas e consagradas, de programas políticos ou de simples opiniões que pretendem hoje conhecer o caminho que leva à saída do beco a que nos conduziram os modelos – e sobretudo as práticas – económicas e financeiras seguidas há décadas, não há à vista um modelo económico alternativo consistente e abrangente que, até agora, tenha conseguido eficazmente configurar uma transformação sustentável do sistema – desde o Green New Deal ao Decrescimento, à Economia Pós-Crescimento, ou à Economia do Bem-Comum.

A impedi-lo, a pressão férrea e translúcida do poder do capital – a quem os estados brindaram uma desregulação quase ilimitada – que nos domestica e devasta o planeta. E também a tacanhez, a gritaria, o agarramento a esquemas quadrados (esquerdo/direito encolhe a barriga e estica o peito), o generalizado egoísmo neoliberal.

Enquanto andamos a ver no que isto vai dar, quanto mais flocos de neve, quanto mais nichos de alternativas, quantas mais escolhas responsáveis e solidárias no dia a dia, quanto mais recusa de consumismo, quantos mais protestos na rua em prol do clima, melhor. Não resolvem, mas acabam por ajudar.

A escolha

“Os novos moradores do venerável Palácio do Loreto, no coração da cidade velha de Lisboa, também vêm da China. Por detrás da fachada do século XVIII residem os empregados do grupo chinês Fosun. O império da empresa na Europa vai desde a antiga companhia de seguros estatal portuguesa “Fidelidade” e o grupo de viagens Thomas Cook até à marca de moda Tom Tailor e ao banco privado alemão Hauck & Aufhäuser.

Não muito longe estão também os escritórios das empresas estatais chinesas State Grid e Three Georges, que são accionistas da electricidade do país. Investimentos de mais de nove mil milhões de euros fazem de Portugal um “parceiro estratégico”, declarou o embaixador da China em Lisboa.

Isto funciona assim em toda a Europa. Caminhos-de-ferro, portos e redes eléctricas, engenharia mecânica, turismo e finanças – as empresas chinesas estão a entrar na economia europeia em todos estes sectores, tendo investido já muito mais de 300 mil milhões de euros.

Os “enormes investimentos da China no exterior dão-lhe um acutilante poder”, que usa para “silenciar os críticos”, alertou o Economist.”

Trata-se de um excerto de um óptimo artigo do „Investigate Europe“, um grupo de jornalistas de nove países que investigam conjuntamente temas de relevância europeia.

Artigo especialmente interessante agora que vai ser lançado o concurso para a concessão do novo terminal de contentores do Porto de Sines – líder nacional na movimentação de mercadoria. Os Estados Unidos entram na corrida para esta concessão que já estava na mira dos chineses. Se ganharem, conquistam uma peça que seria fundamental na estratégia de Pequim para construir uma nova Rota da Seda.

Em declarações ao jornal Público, a ministra do mar, Ana Paula Vitorino, confirma o interesse de chineses e americanos na concessão do Terminal de Contentores Vasco da Gama, que será lançada até ao final do mês. “A proposta vencedora será aquela que melhores benefícios ofereça a Portugal, independentemente da origem do operador”, garante.

Nesta escolha propositadamente encolhida, que venha o diabo e se pronuncie.

Regular a banca para salvar a economia

Marisa Filipe

Elizabeth Warren, candidata presidencial e senadora democrata, quer implementar uma revolução na banca dos EUA, um plano Glass- Steagall para o século XXI. Se nunca ouviu falar deste plano, voltemos um bocadinho atrás na história.

Em 1929, a banca de Nova Iorque desmoronou-se da noite para o dia. A especulação atingira o seu limite e a falta de regulação bancária provocou um terramoto financeiro, económico, político e social. Em poucas horas, milhares de empresas fecharam portas com bens acumulados e desvalorizados e milhões de americanos ficaram no desemprego. Perante este cenário de catástrofe, dois senadores criaram uma lei, à qual deram os seus nomes, Glass e Steagall, que separava a banca comercial da banca de investimento e que esteve em vigor, no EUA, até à era Clinton. A partir daí, a desregulação atingiu o seu apogeu nos anos 90 e não houve mão visível ou invisível que regulasse o mercado.

Os loucos anos 90 traduziram-se em capitalismo desregulado em que o lema bancário de Wall Street defendia que quanto melhor estivesse a banca, melhor estava a economia. E quanto mais a banca estivesse desregulada, melhor a economia se comportava no mercado livre. Ora, a desregulação da banca criou bolhas imobiliárias, swaps e outros créditos de risco que, quando a bolha rebentou, rebentaram a economia. E os clientes da banca comercial, avessos a créditos de riscos, e os contribuintes alheios às negociatas privadas, tiveram todos de ir salvar a banca e seus especuladores. [Read more…]

A Roménia aqui tão perto: Rosia Montana no Alentejo?

Há mais de 20 anos que o povo da pequena aldeia de Rosia Montana, na Roménia, luta contra a instalação de uma mina de ouro que iria destruir a sua aldeia, expulsando os seus habitantes e arrasando as suas casas. Essa luta corajosa passou também pela Justiça, conseguindo que um tribunal romeno tenha dado razão à população e ordenado a interrupção do projecto de exploração mineira.

Mas isso não fez desistir o maior financiador do projecto, a empresa canadense Gabriel Resources, de o levar adiante, accionando a justiça paralela exclusiva para multinacionais estrangeiras, o famigerado ISDS (Investor-State Dispute Settlement). A sua exigência: cobrar à Roménia 5,7 mil milhões de dólares como compensação por perda de lucros reais e futuros. Uma quantia tão elevada como o gasto do Governo romeno com a Educação.

Pode este caso parecer longínquo, sem relevância para Portugal. Mas não é. Ora vejamos: [Read more…]

Preto no branco: a aposta na exportação e na globalização desatada produz pobreza e desigualdade social

Não é nada de novo: há os vencedores e há os vencidos do actual modelo de globalização. A quimera de que o “livre comércio” é bom para todos não passa disso, de uma quimera batida à exaustão para justificar a expansão do modelo dominante, que não só aumenta a desigualdade, como fomenta aberrações “compensatórias” e atentados contra o clima.

Mas não deixa de ser irónico e bombástico que, no seu último relatório sobre a Alemanha, venha o FMI atestar à campeã europeia das exportações o efeito tóxico da sua aposta desproporcionada na exportação: a Alemanha, com os seus volumosos excedentes de exportação, não só produz desequilíbrios massivos na zona do euro, como também aumenta os desequilíbrios sociais na própria Alemanha. Milhões de alemães pouco beneficiaram do aumento das exportações, enquanto os crescentes excedentes alemães das últimas duas décadas foram acompanhados por um aumento acentuado dos rendimentos de topo na Alemanha, constata o FMI. Actualmente, os 10% mais ricos possuem 60% dos activos líquidos, sendo este o valor mais elevado na zona do euro.”

Mas, mas… não era a Alemanha que detinha a “receita” para a Europa??? E vem agora o Fundo Monetário Internacional, esse galeão da economia neoliberal, puxar publicamente as orelhas à campeã??? Espantoso.

Tão espantoso quanto inconsequente. A Alemanha prossegue inabalável, ignorando o aumento da pobreza no país1 , bem como os efeitos do modelo para as “periferias” e propulsionando a globalização baseada no consumo predador de recursos naturais a nível da UE e global.

A discrepância entre as constatações de fracasso social e destruição ambiental por um lado, e a progressão triunfante da ideologia neoliberal por outro, é cada vez mais gritante. Porém, a gritaria não passa de música maviosa aos ouvidos das multinacionais e dos governantes incapazes que lhes servem de sabujos.


1 Segundo o 5º Relatório do Governo Alemão sobre Pobreza e Riqueza, referente a 2017,  15,7% da população vive abaixo ou no limiar da pobreza. Trata-se de quase 13 milhões de pessoas. Um aumento de 3% em relação a 2002.

 

Cristiano Centeno no Real Madrid?

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Fotografia: Julien Warnand/EPA

Centeno vinha de um país pobre, num contexto particularmente delicado. Treinou intensamente, deu nas vistas numa inesperada geringonça, ainda que sem grande futuro, e não demorou muito até que o seu talento despertasse o apetite de grandes emblemas estrangeiros.

Lá fora continuou a dar nas vistas. Tinha a rara habilidade de saber aproveitar os ventos favoráveis para apresentar números históricos, driblando os seus companheiros de equipa mais indisciplinados, ao mesmo tempo que iludia os sócios da instituição com o seu jogo de cintura.  [Read more…]

Estamos a pagar para destruir a Natureza

 

João Vasco Gama

O património natural tem um valor instrumental estimável (cuja destruição causa danos materiais e humanos quantificáveis) e um valor intrínseco inestimável (quanto é que a extinção dos Koalas vai custar? O impacto na actividade económica pode ser reduzido, mas isso não quer dizer que não seja uma perda relevante…).

O debate racional sobre os impactos ambientais da actividade económica deveria encontrar-se entre dois extremos. Um extremo daria um valor infinito ao valor intrínseco e consideraria qualquer impacto ambiental da actividade económica inaceitável – seria voltar para as cavernas, por assim dizer. O outro extremo daria um valor nulo ao valor intrínseco e consideraria que apenas nos importa maximizar o lucro no longo prazo, considerando aceitável toda a transacção económica que produzisse uma mais valia superior ao dano ambiental na componente “instrumental”. Seria só ver cifrões à frente, e só querer saber do consumo (no longo prazo). As posições não extremistas mas racionais estariam algures entre estes dois extremos. [Read more…]

A ler

O recuo dos rendimentos do trabalho, por Alexandre Abreu.

Há festa na Comissão

A eufórica Comissária Europeia do Comércio

Já a caminho da porta de saída, pressurosa, a (ainda) actual Comissão Europeia celebrou mais dois sucessos referentes a acordos comerciais: no final de Junho, anunciou um acordo político sobre o acordo comercial com o Mercosul e assinou os acordos comerciais e de protecção do investimento com o Vietname.

O acordo EU-Mercosul é sem dúvida uma boa notícia para a indústria automóvel, sobretudo a alemã, e um amargo revés para os direitos humanos, a protecção do ambiente e do clima e para a agricultura de pequena escala. Declara-se a salvação do clima em Osaka, continuando a destruí-lo através do acordo UE-Mercosul.

Quanto ao acordo comercial com o Vietname, este país do sudeste asiático não ratificou, até à data, três das oito normas laborais fundamentais da OIT e as violações do direito do trabalho fazem parte da vida quotidiana. Por exemplo, os smartphones Samsung são produzidos no Vietname em condições de trabalho subterrâneo. Ora, tal como é regra nos acordos comerciais da UE, o Acordo UE-Vietname não contém quaisquer disposições vinculativas em matéria de protecção ambiental ou de direitos laborais.

Mas isso é, sempre que se trata de negócios, secundário; o regozijo pelo “maior acordo comercial do mundo” é enorme e nele está sempre presente a cantilena da vitória contra o proteccionismo de Trump. Acontece que “Fazer o oposto de Trump”, não é  exactamente o mesmo que continuar a assinar acordos que accionam a descida de padrões sociais e ambientais e estimulam o corrupio de produtos com ou sem sentido, à custa do descalabro climático.

É tão simples quanto isto: “Comércio livre ou ecologia!”

A casta de políticos mainstream e os adstritos comentadores andam a vender a tese de que o comércio livre é a resposta ao proteccionismo ceguinho de Trump. O que não gostam nada de enfrentar e empurram energicamente para debaixo do tapete, é a questão crucial da contradição intrínseca entre, por um lado, a promoção de um modelo de desenvolvimento que, à custa de ignorar as externalidades negativas, rodopia os produtos pelo globo, os vende ao preço “mais barato” e fomenta o descarte e, por outro lado, o combate ao descalabro climático.

Conforme sintetiza Serge Halimi: Doravante, todos sabem que o elogio, que se tornou consensual, dos produtores locais, dos circuitos curtos ou do tratamento in loco dos resíduos é incompatível com um modo de produção e de troca que multiplica as «cadeias de valor», isto é, que organiza a engrenagem dos porta-contentores nos quais as componentes de um mesmo produto «atravessarão três ou quatro vezes o Pacífico antes que ele chegue às prateleiras de um estabelecimento comercial».

Com o poderoso leque de acordos de livre comércio que a EU quer fazer passar à pressão, os Verdes, tão em moda, têm agora óptimas oportunidades de demonstrar quão verdes realmente são, seja no Parlamento Europeu, seja (em alguns casos em que a UE não conseguiu evitar que os acordos tivessem que “descer” ao nível nacional) nos respectivos parlamentos.

Não confio nada e parece que tenho razão: O parlamento do Luxemburgo está em vias de ratificar o CETA (acordo UE/Canadá), com o voto favorável dos Verdes.

As oportunidades áureo-pútridas do Mercosul

Franguinho com salmonela,  elevado índice de resíduos agrotóxicos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o solo, provoca doenças e mata pessoas, destruição da floresta amazónica, incentivo ao consumo de carne barata e muito mais, tudo associado a esse irresponsável acordo comercial UE-Mercosul – envolto nas impolutas vestes da batalha contra o proteccionismo.

Vale tudo.

Em França, na Alemanha, os agricultores ao menos fazem-se ouvir contra este ataque pérfido. Em Portugal, é só notícias de prosperidade e oportunidades douradas.

Fica um atestado de incompetência também à comunicação social em Portugal.

 

Mercosul, o meganegócio

Imagem: Fundação Heinrich Böll

É banal e fatal: quando chega à parte do negócio, não há valores elevados que resistam.

Bolsonaro atenta declarada e sabidamente contra os direitos humanos e o ambiente? Mas que importam essas minudências, se em cima da mesa das negociações está o Mercosul (acordo de livre comércio da UE com a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) com oportunidades bem rechonchudas, entre outros, para a indústria automóvel, a manufatura e a indústria química? Nadinha, principalmente para António Costa, Angela Merkel, Pedro Sánchez, o holandês Mark Rutte, o sueco Stefan Löfven, o tcheco Andrej Babis e o letão Krisjanis Karins, que lançaram um veemente apelo à Comissão Europeia para a conclusão do Mercosul, a que chamam um “histórico” acordo comercial.

Por parte da sociedade civil, mais de 340 organizações exigiram em carta aberta que a União Europeia suspenda imediatamente as negociações do Mercosul, devido à deterioração dos direitos humanos e das condições ambientais no Brasil. A carta foi dirigida ao presidente da comissão europeia por ocasião da reunião do Conselho Europeu, que decorreu entre quinta-feira e ontem, em Bruxelas. [Read more…]