Messi e Yamal: a conspiração

A common definition of conspiracy theory is the conviction that a group of actors meets in secret agreement with the purpose of attaining some malevolent goal (e.g., Bale, 2007).
— van Prooijen & van Vugt (2018)

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O Mundial 2026 está prestes a chegar ao fim. Depois da eliminação de França e Inglaterra, ficámos a saber que a final de depois de amanhã, entre Espanha e Argentina, terá sido há muito combinada, pois fará parte de um plano diabólico engendrado pela FIFA. Quem nos conta os pormenores desta coisa sem ponta por onde se lhe pegue é Jimmy Fallon. Efectivamente, no domingo, teremos dois cabeças de cartaz: Lionel Messi e Lamine Yamal. Enquanto todos nos preparamos mentalmente para mais uma final, esta fotografia tem vindo a ser espalhada pelas redes sociais.

É uma foto verdadeira, digo-vos eu, que detesto inteligências artificiais utilizadas para falsificações, informações erradas e desinformações. Trata-se de facto de uma fotografia de Messi com o bebé Lamine Yamal. É mesmo, o próprio, é Yamal em versão bebé, com um ainda jovem Messi, numa fotografia autêntica de 2007.

Obviamente, já temos uma multidão a apontar o dedo à FIFA, acusando-a de ter preparado ao pormenor o guião de todos os jogos de futebol dos últimos anos. Isto é, não se trata de uma partida do destino. A manipuladora FIFA é que determinou a existência de uma final Argentina-Espanha, Messi-Yamal. Volta, Searle, eles não sabem o que fazem.

Fallon diz que isto é tudo um absurdo. Também acho. Só um nabo acreditaria numa história  tão mirabolante, certamente alimentada por quem odeia Messi e Yamal e, mutatis mutandis, futebol. No entanto… Se pegarmos num microscópio, ou mesmo numa simples lupa, reparamos em pormenores, no mínimo, interessantes.

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Nunca esquecer que o futebol é um desporto colectivo

Estes jovens jogadores da selecção de Espanha, ambos adolescentes, são Campeões da Europa em título e estão a um jogo de poderem conquistar o Campeonato do Mundo. Sorte terem nascido em Espanha, porque em Portugal ou Argentina o mais provável seria não calçarem, andarem pelos sub 21 como outros talentos da sua idade como G. Quenda ou R. Mora.

Algumas selecções como a Espanha, sistematicamente renovam, apesar de terem conquistado um inédito Mundial em 2010, não assistimos ao arrastar pelos campos de futebol de Xavi, Iniesta, Busquets, Puyol, S. Ramos e companheiros, a lenda perdurará na memória de quem viveu as conquistas, mas o futebol não é palco para gratidão ou obtenção de estatísticas individuais, mas um desporto colectivo, onde ninguém ganha sozinho, mesmo que por vezes alguns jogadores o façam parecer, como acontece por exemplo na Argentina, um jogador de classe estratosférica teima contrariar o inevitável, apesar da fraca qualidade de futebol praticado, muito por culpa da não renovação dos jogadores, mas o treinador teimosamente está preso na gratidão aos Campeões de 2022.

A vitória da Espanha ontem frente à super favorita França, veio provar uma vez mais que uma boa equipa é mais forte que um grupo de bons jogadores. Luis de la Fuente conseguiu que a soma das invidualidades resultasse num colectivo mais forte, Didier Deschamps não, ficou sempre à espera que o inegável talento individual dos jogadores emergisse, mas ontem, tal não aconteceu.

A Volta a Portugal em Bicicleta 2026

Exactamente.

Portugal não é Cristiano

Confesso que reflecti um bocado antes de avançar para este texto. Mas a irritação é demasiada e não consegui evitar.

Estou farto desta narrativa de que temos de estar gratos a um jogador de futebol pela “identidade nacional” ou por “colocar Portugal no mapa”. Cansa. É redutor. É ignorante e, no limite, é até bastante anti-patriota pensar assim. Se Portugal, enquanto país, deixa a sua imagem depender de um jogador de futebol, para o bem e para o mal, então Portugal não é um país. É um entreposto de néscios deslumbrados com a grandeza de um só um homem.

Portugal tem mais de novecentos anos de História. Já éramos Portugal antes do jogador de futebol e continuaremos a ser Portugal depois do jogador de futebol. Seja esse jogador de futebol quem for. Sim, Cristiano Ronaldo é uma marca e, como tal, usa o marketing e a publicidade a seu favor. E aprendeu-o, sobretudo, em Madrid, no clube que melhor faz lavagem de imagem na Europa. Na Arábia, cimentou-o: depois de lavada a sua própria imagem, especialmente depois da fuga ao fisco espanhol e da violação de Kathryn Mayorga, foi lavar a imagem da pior ditadura do Mundo a troco de muito dinheiro. A carreira futebolística de Cristiano acabou quando saiu da Juventus; tendo, a partir daí, virado a antena para os negócios, sendo o futebol apenas a linha férrea que transportava o comboio até ao destino final.

Um estupendo jogador de futebol que como pessoa deixa muito a desejar, por tudo o que tem mostrado ser neste final de carreira.  [Read more…]

Crepúsculo

Não pretendo fazer uma análise ao Portugal – Espanha que ditou a eliminação da Selecção nos oitavos de final do Mundial 2026. Após o final do jogo, o capitão Cristiano Ronaldo afirmou ter ganho 3 títulos internacionais ao serviço de Portugal, que anteriormente à sua chegada nada ganhava.

Uma vez que Cristiano para o bem e para o mal chama a si o protagonismo, permito-me escrever estas linhas que não pretendem de forma alguma menosprezar a carreira do melhor jogador que o futebol português já produziu.

O futebol é um desporto colectivo, que permite que os executantes talentosos se destaquem, para gáudio dos adeptos que por vezes os elevam ao patamar de Deuses. Mas são sempre as equipas que ganham ou perdem, Léo Messi não seria Campeão do Mundo em título se D. Martinez não tem defendido no último minuto o remate de K. Muani, por exemplo. E tantos outros exemplos poderiam ser apontados a comprovar que ninguém ganha sozinho uma partida de futebol, embora por vezes assim pareça. [Read more…]

Um documento preciosíssimo

Eis a pronunciação dos nomes dos futebolistas e treinadores principais presentes no Mundial de 2026, ainda por cima, realizada pelos próprios. É um apontador precioso para linguistas, educadores, estudantes de línguas, jornalistas e população em geral. Um documento destes transporta, obviamente, alguma carga subjectiva. A este respeito, aponte-se a pronunciação de Stephen por Eustáquio, que me traz à memória a de Curry, e relembre-se a palavra Félix, aqui pronunciada ao vivo e a cores pelo excelente Joāo Félix. Por falar nisso, reflicta-se acerca da forma como se pronuncia Haaland, provavelmente o nome de futebolista mais badalado e tudo por causa da dúvida entre uma vogal oral velar baixa não arredondada e uma vogal oral central baixa. Há outras curiosidades, mas não vos quero estragar o filme. As selecções estão por ordem alfabética dos códigos da FIFA (descobri isso por causa da Noruega e da Nova Zelândia) e os jogadores encontram-se ordenados pelos respectivos números.

Os Knicks são campeões!

Ao cuidado dos fãs mais distraídos dos Knicks (e dos Spurs)

You know, I remember in high school, already I was pretty old. I suddenly asked myself at one point, why do I care if my high school team wins the football game? [laughter] I mean, I don’t know anybody on the team, you know? [audience roars] I mean, they have nothing to do with me, I mean, why I am cheering for my team? It doesn’t mean any — it doesn’t make sense. But the point is, it does make sense: it’s a way of building up irrational attitudes of submission to authority, and group cohesion behind leadership elements — in fact, it’s training in irrational jingoism.
Noam Chomsky

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Efectivamente, esta será a terceira final nacional seguida dos Knicks contra os Spurs: a final da NBA perdida em 1999, a recente vitória na Taça NBA e o momento que começa daqui a pouco.

Quanto a essa longínqua final de 1999, registe-se a curiosidade da presença, no plantel dos Knicks, de Rick Brunson, o pai do magnífico Jalen Brunson (entrou no jogo 3, no final do segundo período) e, no dos Spurs, de uma das maiores estrelas do basquetebol português: Mario Elie, craque da Ovarense, que viria a ser campeão da NBA por três vezes: exactamente, Mario Elie.

Voltando à actualidade, passados os 4-0 aos Cavs na meia-final (final da Conferência Leste), com uma recuperação histórica no primeiro jogo, vejamos o que acontece frente aos Spurs do extraordinário Wembanyama. Aconteça o que acontecer, já há um campeão: Sochan foi transferido durante esta época dos Spurs para o Benfica… perdão… para os Knicks.

SAN ANTONIO, TX – 29 de Março de 2024: Victor Wembanyama (#1), dos San Antonio Spurs, defende contra Jalen Brunson (#11), dos New York Knicks, a 29 de Março de 2024, no Frost Bank Center, em San Antonio, Texas. Darren Carroll/NBAE via Getty Images https://bleacherreport.com/articles/10114948-knicks-jalen-brunson-scores-61-victor-wembanyama-electrifies-nba-fans-in-spurs-win

Eis uma cábula, com o calendário e os plantéis (se detectardes erros, utilizai sff a caixa dos comentários).

Calendário (hora portuguesa):

  • Jogo 1: 04/06/26 — 01h30 (Knicks em San Antonio)
  • Jogo 2: 06/06/26 — 01h30 (Knicks em San Antonio)
  • Jogo 3: 09/06/26 — 01h30 (Spurs em Nova Iorque)
  • Jogo 4: 11/06/26 — 01h30 (Spurs em Nova Iorque)
  • Jogo 5* (se necessário): 14/06/26 — 01h30 (Knicks em San Antonio)
  • Jogo 6* (se necessário): 17/06/26 — 01h30 (Spurs em Nova Iorque)
  • Jogo 7* (se necessário): 20/06/26 — 01h30 (Knicks em San Antonio

PLANTÉIS

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Neemias Queta foi vítima de Portugal

Efectivamente, isto iria acontecer, mais tarde ou mais cedo. Nem falo do triplo (parabéns, Neemias Queta!), falo disto.

Tivera sido no jogo contra os Knicks e, aqui no Aventar, teríamos sido dos primeiros a dar conta do recado. É o improviso, é a falta de rigor, é o costume.

Foi contra os Pelicans: de Nova Orleães. Nova IorqueNova Orleães, como selecçãoseleção.

Exactamente.

Eis os pontos altos do jogo, com o melhor basquetebolista português de todos os tempos a marcar o primeiro triplo na NBA aos 6:07:

A frase do dia (em inglês):

OK, so we have three ejections: we have Champagnie, Jaylin Williams, Cason Wallace, and Ajay Mitchell–so, four.

Uma óptima segunda-feira, graças à RTP

A palavra do ano de 2026?

Efectivamente, brutal. A ver vamos.

A melhor exibição de Neemias Queta

O poste português Neemias Queta protagonizou esta madrugada a melhor exibição da carreira na NBA e foi a grande figura do triunfo dos Boston Celtics sobre os Philadelphia 76ers, por 114-98, num encontro que confirmou a crescente importância do internacional luso na equipa orientada por Joe Mazzulla.

Num desempenho verdadeiramente dominante, o poste de 26 anos somou 27 pontos — novo máximo pessoal — e 17 ressaltos, dez dos quais ofensivos, completando ainda a estatística com duas assistências, um roubo de bola e três desarmes de lançamento. Em apenas 27 minutos e 17 segundos de utilização, apresentou ainda excelente eficácia: converteu 10 dos 14 lançamentos de campo (71,4%) e sete dos 10 lances livres (70%).
Cecília Carmo

Boston Celtics center Neemias Queta (88) goes in for a lay up by Philadelphia 76ers guard Quentin Grimes (5) during the first half of an NBA basketball game, Sunday, March 1, 2026, in Boston. Robert F. Bukaty/AP https://www.sfchronicle.com/sports/article/queta-s-career-high-27-points-spark-celtics-to-21949757.php

“Não é com slogans que as coisas podem mudar. É com actos.” – Moussa Marega, 2020

O racismo não tem cor clubística.

O racismo não é do SL Benfica, do Sporting CP ou do FC Porto.

Mas os racistas têm clube: e podem ser do Benfica, do Sporting, do Porto ou de qualquer outro clube.

O pior que se pode fazer nestas situações é, por um lado, apontar como racistas todos os adeptos de qualquer clube, o que ajuda, inconscientemente, a relativizar o racismo quando ele acontece perpetrado por adeptos do nosso clube. E acontece, porque os racistas estão em todo o lado. E, por outro, defender quem usa o racismo como arma “legítima” de arremesso, apenas e só por ser do nosso clube. Ou somos anti-racistas ou só o somos consoante a cor da camisola que o racista veste: quando aos racistas, o que os incomoda é sempre a cor da pele. E para isto pouco interessa se o jogador insultado é irritante, chato, trapaceiro ou gozão: se para nos defendermos disso, temos de ser racistas, então já perdemos a razão. Quem passa essa linha deixa de ter perdão.

O racismo e a xenofobia não têm lugar no desporto, porque não têm lugar numa sociedade que se quer saudável, inclusiva e respeitadora de todas as diferenças. E onde o desporto, sobretudo o futebol, devia ser o espelho de todas essas diferenças que nos unem em prol de algo tão bonito.

O que se exige aqui, como noutras situações, o que infelizmente nem sempre sucedeu, é mão pesada: neste caso, para Prestianni, jogador argentino do SL Benfica que, de boca tapada (ou de cara tapada, é sempre o refúgio de quem lança insultos racistas), chamou “macaco” a um jogador brasileiro, no caso Vini Jr. Um jogador tão jovem e com uma atitude destas, caso eu fosse benfiquista, defenderia que nunca mais poderia vestir as cores do clube; por outro lado, não pode, na minha opinião, volta a pisar um relvado num jogo da Liga dos Campeões por muito tempo, se o que queremos é passar o exemplo de que ataques racistas e xenófobos não têm espaço no futebol.

#NoToRacism

Coroado e Azevedo jamais serão vencidos

N’ O Jogo de hoje:

Lage, Bruno Lage

Na despedida do cavalheiro, a minha pergunta é esta: não achais que o Burning Angel dos Arch Enemy é extremamente semelhante ao Hangar 18 dos Megadeth? Eu acho.

Foto: Glorioso

O captain, my captain!

Para outras gerações, como a do meu pai, os capitães foram outros, como o saudoso Fernando “Bibota” Gomes ou João Pinto. Para mim, o Porto teve um, e apenas um grande capitão. E o seu nome era Jorge Costa.

Jorge Costa não era o mais dotado tecnicamente. Mas era a voz de comando de um Porto que sentia, lutava e jogava à Porto.

Um Porto que não se ajoelhava, que não vacilava ou se perdia em vaidades, que comia a relva e deixava tudo em campo.

Um Porto nobre e leal, autor de algumas das mais belas páginas desse livro de honra de vitórias sem igual que cantamos no início de cada jogo. [Read more…]

É o Bicho, é o Bicho

Descansa em Paz, Jorge.

Aprendi a ser portista com o Jorge Costa. Era o jogador preferido do meu pai. Havia Baía, havia Deco, havia Derlei ou McCarthy… “O mais importante? É o Jorge Costa.”, dizia-se aqui por casa naqueles anos gloriosos de 2000 a 2005. Quando Co Adriaanse o afastou, a mágoa nunca foi superada. Mas o Jorge nunca se afastou. Esteve sempre no FC Porto, porque o FC Porto nunca saiu dele.

Técnica? Pouca. Velocidade? Reduzida. Mas muito querer, muita raça e muito Porto. Passava a bola, não passava o homem, passava o homem e não passava a bola. Era um alicerce, o Jorge. Teve ao seu lado jogadores como Aloísio ou Ricardo Carvalho ou até Pepe, este por um curto período, jogadores infinitamente mais talentosos tecnicamente do que o Jorge, mas que nunca teriam sido o que foram sem o Jorge a seu lado.

O Jorge tinha de jogar sempre. Era ele e mais 10. Naqueles anos de José Mourinho, se não houvesse um Jorge, não teria acontecido tanto conto de fadas. Quando a coisa descambava, o Jorge dava um berro. Quando as coisas não corriam como suposto, o Jorge dava serenidade. Quando a euforia se instalava, o Jorge era a água na fervura. Era ele quem segurava aquele plantel, quem transmita o que é ser do FC Porto, o que guiava e o que fazia de pai de muitos dos jovens jogadores.

O Jorge quis sempre o melhor para o seu clube e até nisso soube ter a dignidade de se colocar do lado certo, quando as coisas apertaram, sem que sentisse a honra ferida por aqueles que o acusavam de traição. O Jorge nunca traiu o clube, mas o clube chegou a traí-lo. Espero que nos tenhas perdoado, Jorge; porque como nós, serás sempre um de nós.

“Diz à gente o que é ser Nobre e Leal”.

Para sempre, Bicho. 💙🕊️🤍

Diogo Jota (1996-2025)

Descansa em paz, Diogo.
Como nós, um de nós. 

O meu fim-de-semana desportivo valeu

pelos Knicks.

Bicampeões

Ontem estive em Alvalade, À medida que se aproximava a hora do jogo, o nervoso miudinho, receio que ainda não fosse desta que poderia festejar algo que desconhecia, porque nunca aconteceu durante o meu tempo de vida, apesar de já não ser propriamente jovem.

Após uma primeira parte sofrida, as bancadas repletas com 49 mil pessoas a puxar, a quererem muito conquistar este campeonato, veio o 1º golo marcado por Pedro Gonçalves, recentemente recuperado de grave lesão e já perto do final o 2º, provavelmente o último de Gyokeres perante o seu público.

Final do jogo, explosão de alegria, festejos no estádio, nas ruas, em muitos lares de Portugal e não só, onde quer que estivesse um sportinguista certamente houve celebração desta conquista.

Brunson, Jalen Brunson

Buongiorno

Primeira mão

Segunda mão

Quadrados

Alguém sabe quantos metros quadrados tem o palheiro com logradouro do Luís Filipe Vieira?

#JUNTOS

A nota de pesar

Já lá vai imenso tempo, há 40 anos e alguns dias, abri a pesada porta de casa, saí para o passeio e vi um homem a subir a minha Rua de Santa Catarina, cabisbaixo, quase curvado. Ao passar por mim, vislumbrei-lhe um cachecol do Futebol Clube do Porto a protegê-lo do frio desse longínquo Janeiro de 1985 e, mais impressionante, uma bandeira do Futebol Clube do Porto. Nesse momento, este benfiquista, prestes a sofrer o primeiro gravíssimo dissabor futebolístico doméstico (o terceiro lugar de 84/85), pressentiu os passos da avó materna no granito dos degraus que desaguavam na porta da entrada, olhou para a esquerda, vendo o homem que lentamente se afastava, e perguntou:

— Não há jogo hoje. Porque é que aquele senhor leva um cachecol e uma bandeira do Porto?

— Vai ao funeral do Pedroto —, respondeu-me a minha avó.

Pois. Soubera da morte do Pedroto, dias antes, pela telefonia da cozinha. E o meu pai, portista doente, dera-me então uma longa palestra sobre o jogador Pedroto e o treinador Pedroto. Fosse como fosse, os meus 12 anos de vida reservavam bonés, cachecóis e bandeiras de clubes de bola a acontecimentos desportivos, logo, excluíam-nos de funerais. Por isso, a minha pergunta à porta de casa. Comecei a fazer contas simples. Daí a poucos minutos, o enlutado portista iria chegar ao Marquês e apanhar um autocarro (o 20? o 21?) para a Rotunda da Boavista e, apeado, rapidamente chegaria a Agramonte. Ou seja, em princípio, deveria ser meu vizinho, para não apanhar um transporte em Gonçalo Cristóvão. Como diria o Sherlock, when you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth. Talvez. Há mais variáveis. Nunca saberemos.

Não sei quais são as razões para a direcção do Glorioso não endereçar uma nota de pesar pela morte de Pinto da Costa. Se fosse presidente do Benfica, teria escrito imediatamente uma nota de pesar, sem mais quês, exactamente no momento em que soube do funesto acontecimento, ontem, no final do Santa Clara 0-1 Benfica, pelo amigo do meu amigo David. Mas a verdade é que não sou, nem quero ser, presidente do Benfica. Desconheço o porquê de não se enviar uma, mesmo que sinceramente lacónica, nota com um “O Sport Lisboa e Benfica, através do seu Presidente, expressa as suas mais sentidas condolências ao FC Porto e à família e amigos de Jorge Nuno Pinto da Costa”. Sem descrições, excepções, hipocrisias, exageros. Lacónica. Não sei quais são as razões para a ausência da nota de pesar. Ainda por cima, sem conflito explícito. Gostaria de saber quais são os motivos, para poder validá-los ou não. Na ausência de justificação minimamente aceitável, discordo em absoluto. Agradecido.

Como diria o outro, disse.

 

Não, não morreu

A cidade acordou triste. Quase como se não quisesse acordar. Quase como se não quisesse reconhecer o que tinha acontecido. Se já é genética e orgulhosamente cinza, hoje esse cinzento parecia mais negro, mais pesado. Porque ele morreu.

Chovia. Chovia como se o céu também chorasse. Chovia como se o Universo soubesse que não podia ser de outra maneira. Porque ele morreu. 

As pessoas agasalhavam-se e escondiam-se debaixo da roupa que desta vez também os protegia contra a realidade. Contra a inexorabilidade da vida. Que os deixava sofrer dentro o que não queriam mostrar ao mundo. Porque fazê-lo era aceitar que tinha acontecido. Porque fazê-lo tornava tudo tão real. Porque fazê-lo era render-se à verdade que não queriam, era aceitar a última derrota, aquela que não pode ser revertida, aquela onde não há “remontada”. Porque fazê-lo era dizer alto o que não conseguíamos sequer dizer em surdina. Era permitir que o pesadelo se tornasse inelutavelmente real. Era gritar o que teria eventualmente de ser gritado: ele morreu. 

Mas, por favor, ainda não. Deixem-me sonhar um pouco mais. Deixem-me viver um pouco mais onde ele também ainda vive. Onde ele está ao alcance de um abraço, de um “bom dia”, de um aceno. Onde o mundo não parece incompleto. Onde o mundo não tem este buraco imenso com o qual teremos de viver daqui para a frente. 

Porque quando o amanhã chegar e vai implacavelmente chegar, só nos resta o exemplo, o legado, o espírito que ele nos foi deixando. Porque se o ser do Porto, se o ser do Norte, se o ser Portista não foi algo que ele criou ou inventou, foi algo que ele e só ele descobriu e mostrou ao Mundo. 

Porque nunca como hoje fez e faz tanto sentido sermos o que ele nos permitiu ter orgulho em ser. O que ele e só ele transformou e engrandeceu. Da inescapável maldição de se ser menos, de se ser irrelevante, de se ser para sempre segundo para a vaidade, a insolência, a certeza de ser um dos poucos, um dos que não aceita a danação que nos impõem, um dos que nunca calará a raiva onde inevitavelmente a petulância cobarde do poder dos corredores nos coloca.

Porque se hoje a cidade está triste, se hoje a cidade se sente órfã, se sente perdida, também devemos ter pressa em perceber que ele não, não morreu. Porque gente como ele não morre. Apenas perde a mortalidade dos normais para ficar para sempre vivo no lugar que por ser excepcional, único e indispensável, arrebatou. Conquistou. Tomou. Contra tudo e contra todos. 

Na pressa de precisarmos de perceber que o mal que o obrigou a ser o que precisávamos que ele fosse, está mais vivo e mais forte que nunca. Mais canalha e mais tentacular. Mais perigoso e mais letal. Porque nunca como hoje estiveram tão próximos da vitória final e de nos colocarem onde sempre quiseram que estivéssemos. 

E por isso, também por isso, ele não pode ter morrido. Porque aceitar que ele tenha morrido era aceitar que tínhamos perdido. E se há algo que ele nos ensinou é que nunca desistimos de ganhar, mas acima de tudo, não desistimos de ser, de lutar, de nos transcender, de viver, de importar. 

Ele podia ter sido igual a tantos outros antes dele. Podia ter-se resignado à força avassaladora do mal. Podia ter sido apenas um entre muitos. Que vivem a vida dos pequeninos. Que nada fizeram. Que só sabem dizer que sim. Que acatam sem qualquer “mas” o que os mandam ser. Que se rendem ao conforto. Não foi. Não é e devemos ter pressa em que nunca seja. 

Porque para além do que nos ensinou, do que nos mostrou, do que nos ofertou, deixou-nos a imortalidade de saber que se não nos importarmos, se não nos elevarmos, se não lutarmos, morremos muito antes de começar a viver. 

Obrigado, Presidente. Num obrigado infinito. Num obrigado que repetirei sempre e para sempre. 

Nunca houve ninguém como tu, Senhor Presidente. Nunca haverá ninguém como tu. Nunca. Mas também já não precisamos. Porque tu foste, és e serás eternamente o nosso Presidente. 

Já dizia Baquílides:

Lá no alto, cortando o éter profundo com as suas ágeis asas douradas, a águia, mensageira de Zeus, intensamente trovejante e plenamente dominante, confia com bravura na sua força poderosa, e pássaros de canto delicado agacham-se com temor.

Parabéns aos Philadelphia Eagles!

A frase italiana do dia

Joao Felix e Gimenez parlano la stessa lingua: la lingua di chi sa giocare a calcio“.

Títulos internacionais

Lembra o El País.

O Chega já tem mais títulos internacionais do que o Benfica nos últimos 50 anos.

Nótula sobre a qualidade analítica da propaganda anti-Lage

Top quality research requires outstanding methodological skills.
KP/LDC

 

Equiparar os quatro pontos em quatro jornadas de Lage aos quatro pontos em quatro jornadas de Pereira só pode ser natural num jornal português praticante da resistência silenciosa em tempos de liberdade (exactamente) e que capitula perante o nefando AO90. No mundo real, não é natural que Rogério Azevedo não indique explicitamente o seguinte: nos quatro pontos em quatro jornadas de Pereira, houve uma derrota contra uma equipa actualmente com 22 pontos, enquanto os quatro pontos em quatro jornadas de Lage têm uma derrota contra uma equipa actualmente com 41 pontos e que (credo!) é o actualíssimo campeão nacional. Lá se foi a comparabilidade. E o cálculo é simples. O resto, sim, aceita-se: Braga e Santa Clara (derrotas) têm os mesmos pontos e Gil Vicente e AVS – Futebol SAD (empates) distam uns míseros três pontos entre si. O Benfica e o Sporting ganharem a Estoril e Boavista é absolutamente normal. O que não é normal é continuarmos a ter propaganda, em vez de análise rigorosa. Ainda por cima e repito, para cálculos tão simples.