Como fazer um deserto em três tempos.

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[Paulo Arantes Barbosa]

Esta filha-da-putice vai dar estrilho.
A GNR anda a medir as copas das árvores dos carvalhos e sobreiros.
Se a distância for inferior a 4 metros, entre copas, multa certa.
Agora vejamos, as copas das quercineas em geral são redondas, e podem ter uma envergadura (largura)na idade adulta de una bons 12 metros. Mesmos se afastadas as árvores uns bons 10 metros na base, tipo deserto alentejano, é impossível ter uma distância entre copas de 4 metros (6 metros para cada lado de copa normal).
Agora vejam bem o que as pessoas vão fazer para não apanhar multas.
Corte radical de Carvalhos e Sobreiros (estes de forma igualmente ilegal).

A estupidez humana é uma grandessíssima puta.

O eterno pára-arranca da Educação

Santana Castilho*

 

1 . Como é sabido, está a ser testado em 235 escolas, desde Setembro transacto, um projecto de autonomia que lhes permite definirem estratégias diferentes de ensino em 25% da carga curricular. Não se conhece qualquer avaliação consistente sobre a experiência. Mas o Governo aprovou a generalização da autonomia e flexibilidade curricular a todas as escolas do ensino básico e secundário. E para completar o quadro surreal de tudo isto, a generalização é … facultativa.  

Do mesmo passo, foi igualmente aprovada a reintrodução no currículo oficial da área de Cidadania e Desenvolvimento, que Nuno Crato, sob a designação de Formação Cívica, havia abolido em 2012. E foram definitivamente extintos os cursos vocacionais, a partir do 5º ano, igualmente instituídos por Nuno Crato, para alunos que manifestavam repetidos insucessos em sede de currículo regular. 

Finalmente, o quadro de mudanças eliminou aquilo a que o Governo chamou “requisitos discriminatórios” para acesso ao ensino superior dos alunos dos cursos profissionais e artísticos (dois exames nacionais, um dos quais de Português). Recorde-se que, até agora, apenas 16% dos alunos desta via prosseguiram estudos superiores: 10% em cursos de especialização tecnológica ou cursos de técnicos superiores profissionais, que não outorgam o grau de licenciado, e apenas 6% em cursos de licenciatura.  

2 . O Governo nomeou Jaime Carvalho e Silva, da Universidade de Coimbra, para dirigir um grupo de trabalho que deverá mudar os programas de Matemática introduzidos por Nuno Crato. Está reaberta a discórdia entre a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de Professores de Matemática. Jorge Buescu, presidente da primeira, perguntou (Público de 10.4.18):

“Não tem sido, afinal, opinião unânime dos agentes do sistema educativo que todos os indicadores de sucesso em Matemática têm vindo a melhorar, alguns deles espectacularmente, na última década e meia? Como é possível que, da noite para o dia, se descubra que afinal se vive um estado de emergência e que, mais uma vez, é preciso mudar tudo?”

Lurdes Figueiral, presidente da segunda, lamentou (Correio da Manhã de 5.4.18) o “tempo perdido”, defendendo que os programas já deviam ter mudado. 

Ora, para além do anterior, que é essencial, há o complementar, que torna o problema algo caricato. Admitem os intervenientes (e o próprio secretário de Estado também o afirmou) que não haverá novos programas para 2018/19. Sendo assim, só em Setembro de 2019 qualquer alteração poderá ser operada, donde a pergunta óbvia: admite-se que uma mudança deste tipo, com a polémica que lhe está associada, seja decidida por um Governo em final de mandato?

3 . A incompetência, que virou obstinação, de Alexandra Leitão, foi corrigida pelo Parlamento (votos a favor do PSD, CDS-PP, PCP, PEV e BE, abstenção do PAN e voto contra do PS), ao decidir realizar este ano um concurso de mobilidade para os docentes dos quadros, por ela grosseiramente prejudicados em Agosto de 2017. Perdeu-se um ano para corrigir os danos causados a, pelo menos, 799 professores. Mas desmentiu-se o ministério, que sempre afirmou tratar-se de um conjunto residual de docentes. Entretanto, o tempo que decorreu para corrigir o erro provocou e vai provocar prejuízos graves. Quem os compensará? 

4 . Falta-me espaço para falar sobre o monumento ao “eduquês” que é o Parecer do CNE sobre o Regime Jurídico de Educação Inclusiva. De todas as tolices que aí estão impressas, retiro a paradigmática substituição da velha sigla NEE (Necessidades Educativas Especiais) pela ultra moderna CJNMMASAI (Crianças e Jovens com Necessidades de Mobilização de Medidas Adicionais de Suporte à Aprendizagem e à Inclusão). É de tirar o folego a qualquer. Mas é útil para alimentar o caos da gestão pedagógica do ministério, preparar para o que se seguirá e desviar as atenções, como convém, do reposicionamento e recuperação do tempo de serviço dos professores.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt) 

A vergonha

[Samuel Quedas]

Quem é que quer viver num país onde é possível acontecer a coisa abjecta que está a passar-se na SIC?
Por mais que eu tenha uma quase física aversão à figurinha patética de José Sócrates, ou ódio profundo de classe para com escroques como Ricardo Salgado e os seus vários sub-produtos… quem é que quer viver num país, repito, em que é possível ver escarrapachadas numa televisão, antes de haver um julgamento digno do nome, gravações de som e imagem de interrogatórios sigilosos, conversas privadas por telefone, etc?

Eu não quero!
Pudesse eu… e amanhã estaria a fazer as malas para ir viver para qualquer lugar, desde que fosse a milhares de quilómetros desta pocilga infecta.

IMPORTANTE!!
Que mal pergunte – e agora a sério! – alguém tem algum bom contacto para a Nova Zelândia, ou Austrália… ou Canadá…? Não estou a brincar! Por mim, vou embora para a semana, depois de deixar alguns assuntos bem arrumados ou bem encaminhados.

É que ainda me sinto capaz de, mesmo apenas nas artes e na actividade cultural, fazer coisas que, sejamos sinceros, aqui já não há praticamente ninguém interessado em que eu as faça, ou deixe de fazer… ou que viva, ou morra!

Quando o negócio é a doença, não a cura

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[Pedro Pinheiro Augusto]

A Goldman Sachs (actual patroa do Durão Barroso, esse self-made man), publicou um relatório que põe em causa a sustentabilidade do negócio da saúde ao providenciar curas para as doenças. Demonstra com o caso da Gilead, cujo valor dos lucros e acções tem vindo a cair desde a colocação no mercado da cura da Hepatite C, apesar de vender a cura a $84.000/doente.
O capitalismo (que tem as suas virtudes mas o humanismo não é uma delas) tem como fito final o LUCRO sobre qualquer outra consideração. Assim, questiono: Podemos continuar a confiar ao privado a busca das curas para as doenças, sabendo que não é do seu interesse? Da mesma maneira, poderemos algum dia esperar a Paz, quando o negócio do armamento lucra com a Guerra? Algum dia acabarão os incêndios enquanto gerarem lucro?

Lucrando com a ignorância

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[Nelson Zagalo]

E depois venham dizer que está tudo no Google, não é preciso saber nada. É como a Bertrand, existe imenso conhecimento por detrás desta montra, mas aquilo que nos apresenta é apenas a Ignorância Disfarçada de Livro.

Bertrand Livreiros não paga mais a quem lá trabalha e, no entanto, cede a estas estratégias de marketing que nada têm que ver com literacia, cultura ou sequer livros. Porquê? Ganância? Desprezo por quem respeita a livraria e o seu legado secular? Se ainda há pouco dizia aqui que o que me fazia ir a um dos centros comerciais da cidade era a Livraria Bertrand, tenho de confessar que depois de ver esta imagem perdi muita dessa vontade.

Como é que se pode acreditar, ou confiar, numa livraria que, para comemorar o dia do livro, preenche a sua montra desta forma? É com estes livros que a Bertrand espera realizar a sua contribuição para uma sociedade mais formada? Ou a Bertrand quer lá bem saber se a sociedade tem falta de literacia e nem sequer consegue compreender a fraude dos discursos anti-vacinas, anti-alterações climáticas, anti-imigração, etc…, etc…?
Parece que à Bertrand interessa apenas, no final do mês, o pote bem cheio.

Fotografia: Montra da Livraria Bertrand, Coimbra. Por @Filipe Homem Fonseca.

A mais cobiçada arma russa não é a bomba atómica, é a Gazprom

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[ António Alves * ]

Há cerca de um ano o mundo esteve à beira da confrontação por causa de um vídeo colocado no YouTube. Mostrava um massacre e pretendia provar que o regime sírio tinha usado gás sarin para matar indiscriminadamente população civil. O vídeo mostrava um elevado número de crianças mortas. John Kerry afirmou ao mundo que os americanos tinham provas obtidas “por outros meios”, a partir de “fontes independentes”, “através de processos adequados” contra o regíme Sírio. Os EUA ameaçaram bombardear a Síria.

“Sabemos que o regime [de Bashar al-Assad] ordenou o ataque, sabemos que eles se prepararam para isso. Sabemos de onde foram lançados os rockets. Sabemos onde caíram. Sabemos os danos que eles causaram. Vimos as imagens terríveis divulgadas nas redes sociais e temos provas [do que aconteceu] obtidas por outros meios. E sabemos que o regime tentou encobrir tudo, por isso temos uma argumentação muito forte” – John Kerry

Os russos e chineses ameaçaram auxiliar a Síria. Felizmente houve bom senso e a crise arrefeceu. Mais tarde, veio a provar-se que os rebeldes fundamentalistas islâmicos, que são financiados por potentados árabes amigos dos EUA, eram useiros e vezeiros no uso de armas químicas e, muito provavelmente, mataram premeditadamente inocentes com gás sarin [2] para inculpar o regime de Assad. Nos media ocidentais o coro que então culpava sem provas o regime sírio era praticamente unânime. Por trás do conflito na Síria está o interesse do Qatar e dos EUA [3] em abrir território para fazer chegar um gasoduto à Turquia de forma a abastecer a Europa e retirar à Rússia a sua força estratégica: o gás de que a Europa depende e a Gazprom tem.

A guerra segue dentro de momentos numa Europa perto de si. Não perca os próximos episódios.   * texto de 2014

Eu e as árvores

arvores

[António Manuel Ribeiro]

Hoje um vizinho decidiu terminar com a vida florescente de um pinheiro com uns bons 15 metros de altura. Quando cheguei vi o estandarte, a moto-serra começou a debitar ruído desesperado e os ramos começaram a cair, seguros por cordas que um operário, empoleirado no alto do tronco, faz descer para a relva. É uma decisão.
Comecei a estudar ecologia pelas páginas do vespertino A Capital, anos ’70, onde um senhor jornalista, de nome Afonso Cautela, nos avisava do mal que andávamos a fazer ao planeta e por junto ao bem-estar humano – esse bem-estar não coincide de todo com a política de terra queimada de alguns: matar tudo, cortar tudo.
Mas obrigaria, se houvesse inteligência para tanto, a extirpar a ganância e a arrogância, factores da queda humana continuada. A bem de alguns PIBs, claro, que enchem de regozijo qualquer ministro das Finanças – isolado na sua cátedra, deixa passar o que não lhe diz respeito. É um especialista, logo sabe cada vez mais sobre cada vez menos, para mal colectivo. A propaganda faz o resto.
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Circo a mais, pão a menos

[Santana Castilho]


A 22 e 23 de Março, sob organização conjunta da OCDE, do nosso ministério da Educação e da Internacional da Educação, reuniram-se em Lisboa governantes e sindicalistas de cerca de 30 países. A cimeira (assim foi apodado o encontro)  quis apurar o que fazer para que os professores se sintam bem no trabalho. Como se tal não estivesse, há muito, sobejamente identificado. 

A propósito do acontecimento, Tiago Brandão Rodrigues afirmou ser “a ocasião para levar mais longe o nosso empenhamento com os co-autores das nossas políticas de educação, os professores”. Como se os professores fossem autores de políticas de que discordam e não simples executores, obviamente coagidos.

Num comunicado recentemente tornado público, professores socialistas exprimiram perplexidade perante o comportamento do Governo no actual contencioso com os sindicatos, comportamento esse que, afirmaram, não teve em conta “a necessidade do PS recompor as relações do Governo com os professores portugueses, depois de anos de ataque” aos mesmos. Estes professores referiram que o Governo não honrou o compromisso assinado em 18 de Novembro de 2017 e lembraram a resolução nº1/2018, aprovada na AR pelo PS, BE, PCP e PEV, que lhe recomendou a contabilização de todo o tempo de serviço. Mas o patusco Tiago não ouviu. [Read more…]

O Brasil real é brutal

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[Gil Sotero]

O mito do Brasil cordial, sem violência foi criado e perpetuado ainda no século 19 e os quadros pintados, bem longe daqui, foram financiado por uma elite que queria passar uma imagem nova da identidade brasileira. Como este quadro do Victor Meirelles de 1860 que “retrata” a primeira missa no país como um momento mágico com indígenas dóceis sendo meros espectadores da luz do homem branco colonizador. O próprio pintor era um dos artistas preferidos de D. Pedro II.
Nesta edição do Café Filosófico o historiador Jorge Coli disserta sobre esses mitos criados no Brasil, até hoje, mesmo no cinema brasileiro, contribuem para uma percepção muito limitada do que é o Brasil de verdade: um país violento, dominado por boçais racistas, sinhás, fanáticos e lacaios que mantém as estruturas que lhes convém.
O BRASIL REAL É BRUTAL.

 

Juntar o insulto à injúria

[Santana Castilho*]

António Costa virou a página da perda de rendimentos de um universo significativo de portugueses. Com isso e uma conjuntura europeia mais favorável, gerou um clima de optimismo, de que vai vivendo. O que fez contrasta, inequivocamente, com o ambiente de esmagamento do Estado social e empobrecimento da generalidade dos trabalhadores e reformados, promovido por Passos Coelho. Mas não acabou com a austeridade. Fino, apenas a redistribuiu de modo menos bruto e evidente. Que o digam os diferentes serviços públicos, com o SNS à cabeça, garroteados pelas cativações de Centeno.

Pese embora o crescimento verificado, a verdade é que a acção do Estado, como dinamizador económico, está fortemente condicionada pelo custo da enorme dívida pública. Assim, não se vê uma significativa correcção dos desequilíbrios persistentes na economia portuguesa. A industrialização é pouco expressiva, particularmente quando comparada com a terciarização, onde o turismo marca destaque. A precariedade laboral e os salários baixos persistem e é o poder financeiro que continua a captar o maior quinhão da riqueza produzida. A reestruturação da dívida da banca, politicamente acarinhada e protegida por Costa e Centeno, custou e continua a custar milhares de milhões retirados à coesão de todo um território, ciclicamente fragilizado e desprezado.

É neste contexto que devemos analisar o contencioso entre os professores e o Governo.

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Brasil: licença para matar

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[Gil Sotero]

A licença para matar negros foi dada desde a criação deste país. Os assassinos estão em vários monumentos espalhados pelo país. Cheios de honrarias e sangue. Na prática, a pena de morte já existe para o povo preto brasileiro e aqueles que ousam reivindicar justiça e liberdade, de Dandara a Marielle, são eliminados. Ser preto no Brasil é um perigo mortal. Na foto os cinco garotos metralhados no carro enquanto comemoravam o primeiro salário de um deles. MariellePresente

Brasil: irmãos só às vezes

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[Luís António Santos]

Somos todos CPLP”, mas só às vezes. Somos “países irmãos“, mas só de vez em quando.
O assassinato – com suspeitas de intervenção policial – de uma vereadora no RJ está a ter um enorme impacto na sociedade brasileira mas, por cá, não mereceu sequer uma chamadinha pequenina de primeira página em nenhum dos principais diários (um deles, curiosamente, transferiu há poucos anos para o Brasil um número significativo de jornalistas…precisamente para nos dar a conhecer de uma outra forma esse ‘país desconhecido’).

Marcelo, o pastor

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Isaac Pereira

Em Oliveira do Hospital, Marcelo Rebelo de Sousa comprou uma ovelha, e negra, ainda por cima. Chamou-lhe Oliveirinha. Depois abraçou um pastor rosado que lhe disse do alto do bigode:
– Morreram-me vinte e cinco cabeças. A vida de pastor é dura.
O presidente dos afectos abraçou-o, como não poderia deixar-se ser, e disse, afagando-lhe o pêlo:
– Eu sei. Eu sei.
E foi nesse momento que fiquei a saber que Marcelo já foi pastor.

​Guterres, Crato e as suas sombras

Santana Castilho*

Num artigo publicado no Observador, Nuno Crato arguiu contra uma afirmação de António Guterres, feita a propósito do seu recente doutoramento honoris causa (“o que hoje fundamentalmente interessa no sistema educativo não é o tipo de coisas que se aprendem, mas a possibilidade de aí se aprender a aprender”), concluindo que “aprender a aprender, em vez de aprender, é o caminho direto para nada aprender, nem sequer aprender a aprender”.

Esta decantada polémica, na qual se projectam sombras negras de Guterres e Crato, é responsável por um erro de décadas, que tem partido ao meio o que só unido pode dar certo. Com efeito, as alterações que o sistema de ensino tem sofrido caracterizam-se ciclicamente por uma divisão de natureza bipolar: ora se hipervalorizam as ciências da Educação, com desprezo pelo valor intrínseco do conhecimento, ora se hipervaloriza o conhecimento puro, com ignorância daquelas. Ora se centra tudo no declarative knowledge (conhecimento “declarativo“, teórico, baseado no estudo dos factos) ora apenas se considera o procedural knowledge (conhecimento “processual“, prático, mesmo que o actor o não saiba explicar, mas tenha “competências”).
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As crianças

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Sónia Valente Rodrigues

Enquanto professora, sempre me incomodou nos alunos entre os 6 e os 18 anos a tendência para se divertirem atacando outros (ver alguém sofrer causa divertimento). Enquanto diretora de turma, intervim muitas vezes junto de alunos que, com o ar mais sereno e com a atitude mais bem educada do mundo, me diziam: Mas era uma brincadeira! Nós só estávamos a brincar.
Continuo a ouvir essa justificação ou explicação: fizemos isto ou aquilo ao nosso colega mas era só a brincar (enquanto o colega chora ou sofre sozinho).
Não entendo. Nunca entendi. Qual é a explicação para este comportamento? Como se altera este comportamento?
Vem isto a propósito de um relato de experiência de um menino. Esse menino perdeu o pai aos 9 anos. Aos 11 anos, nos intervalos das aulas, ouvia dos colegas algo como isto:

– Olha, X! Olha ali o teu pai (apontando o dedo para o portão).
Ele olhava.
E os colegas riam-se à gargalhada:
– Ah, pois… Não é, tu não tens pai.

E a seguir: nós estávamos a brincar; não era a sério; estávamos todos na brincadeira.
Esta “brincadeira” foi repetida durante semanas e meses…
ilustração Arthur John Elsley

A sério que é à séria?

lingua_portuguesa_televisaoIsaac Pereira

É um erro habitual na forma de falar, sobretudo na região de Lisboa, e em especial, ali para os lados da Assembleia da República. Mas a forma de falar também já se transpôs para a escrita. Frequentemente faz a sua aparição nos jornais e nas têvês, e agora também nos sítios “on-line”.
Isto sim, é a língua no seu esplendor mais virulento.

A expressão “à séria“, possui requintes de modo “chique-burlesco”, e é tão risivelmente paroquial e provincial que até faz um asno cantarolar. É uma espécie de modinha ou coisa que o não valha, assim, como dizer, tão “fin de siécle”, não achas ó Ramalho Ortigão?

Só escrevo isto para que te previnas. Quando leres ou ouvires alguém dizer que “isto” ou “aquilo” é uma coisa “à séria“, passa um raspanete à senhora membrana auricular e, para não chorares, esfrega a retina dos teus meninos olhinhos.

Legalidade à moda de Braga

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Ludo Sousa

A propósito das recentes notícias sobre a implementação de um regulamento de controle de consumo de álcool aos trabalhadores da Câmara Municipal de Braga:
Dão a entender as notícias sobre o assunto que os sindicatos aceitaram a implementação do regulamento. Nada mais falso! O STAL emitiu parecer desfavorável que não foi tido em conta.
Refere também a notícia que os testes de álcool se encontram em vigor na AGERE e na TUB. Nada mais falso!
“Esqueceu-se” a comunicação social de dizer que um Administrador da AGERE foi, há anos, condenado a seis meses de prisão, remíveis a multa, por aplicação dos testes aos trabalhadores nos termos do regulamento, que é ILEGAL:

Aliás, o regulamento da CM de Braga viola a Lei (várias) em quase todo o seu articulado contraria todas as disposições/recomendações acerca deste tipo de regulamentos como forma de prevenção de controle excessivo de álcool e substâncias psicotrópicas nos locais de trabalho. É um regulamento proibitivo, penalizador e não preventivo. Feito para “tramar” alguns “por” encomenda!

Tenha vergonha a Câmara Municipal de Braga!
Tenha vergonha o senhor Ricardo Rio!
A autarquia de Braga não tem sequer um Regulamento de Saúde e Segurança no Trabalho!
A Autarquia de Braga tem uns estaleiros municipais pragados de Ratazanas!
A Autarquia de Braga tem os trabalhadores do sector operacional num estaleiro com coberturas de amianto, com infltrações, com tectos escorados para não derrubarem!

Haja VERGONHA!

Nota: sintam-se avisadas as autarquias que no Distrito de Viana do Castelo intentem tal proeza!

A Pastora

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Vinhais © Humberto Almendra

A Mocidade Portuguesa e as armas nas escolas

mocidade_portuguesaPaulo Ricca

Com 10 ou 11 anos de idade, finais dos anos 60, frequentava eu o 1.º ano do 1.° ciclo do secundário no então Liceu D. Manuel II, e éramos obrigados a ter duas “aulas” semanais patrocinadas pela Mocidade Portuguesa. Uma eram as chamadas “actividades”, em que se faziam umas palhaçadas proto-militares com a farda completa vestida; outra, era uma aula de “desporto”, que na maior parte das vezes em nada se distinguia de uma aula de ginástica (era ministrada no ginásio, ou ao ar livre nos campos de jogo).
E digo na maior parte das vezes porque o monitor das ditas aulas se lembrou certo dia de fazer algo diferente: levou para o ginásio uma espingarda de pressão de ar, pendurou um alvo com círculos concêntricos na parede, e mandou formar fila para que cada um afinasse a pontaria e desse um tiro.

Catraios daquela idade ainda nem das feiras tinham prática em fazer tiro ao alvo, pelo que o resultado foi o que seria de esperar: muito chumbo na parede, e um ou outro que atingiu o alvo ficou longe do centro. Perante tal inabilidade, o monitor, cujo nome esqueci, era um desses “chefes de quina” ou “de castelo” da MP, resolveu ser pedagógico; apontando o círculo mais pequeno do alvo, informou: “vocês têm que pensar que, à distância de cem metros, a cabeça de um preto é deste tamanho!”

Lembrei-me deste episódio, claro, a propósito desta polémica das armas nas escolas nos EUA, e as soluções da besta do presidente. Porque nos distantes anos 60 em Portugal se “normalizava” o uso de armas entre os estudantes, desde que fosse para matar os maus. Estudantes neste caso ainda recém-saídos do ensino primário.

Fiquei atónito com aquela aula. E revoltado. Ainda não tinha nada do que viria a chamar “consciência política”, mas talvez o episódio tenha ajudado a criá-la. Isso e ter lido “Os Miseráveis” pouco depois.

Quanto ao monitor, espero que tenha tido um mau 25 de Abril.

Quando a OCDE se presta a animar festas

Santana Castilho*

O ciclo das loas à flexibilização curricular e ao perfil do aluno do século XXI, iniciado sob os auspícios de uma apresentadora televisiva e de um treinador de futebol, teve a festa de encerramento no passado dia 9. O animador convidado foi, agora, Andreas Schleicher. Profetizando como convinha aos organizadores, o homem previu, implicitamente, o fim dos exames do 12º ano, tal como hoje são conhecidos. Atrevido, disse que o novo modelo da flexibilidade curricular é a forma como os professores gostariam de dar as suas aulas. Vidente, falou de uma tensão existente nas nossas salas de aula.

Que Tiago Brandão e João Costa lhe tenham dado procuração para dizer o que disse, não duvido. Mas um pouco de recato para não anunciar tensão dentro de salas em que não entrou e não falar por professores que não ouviu, era exigível pela tensão, essa sim bem exposta publicamente, entre a sua condição, permanente, de director para a Educação da OCDE e o seu papel, temporário, de animador de uma romaria de directores aderentes e investigadores recorrentes. [Read more…]

O Cardeal

cardeal_mr_grey © Alexandre Martins

Os professores entre a frouxidão e a má-fé

Santana Castilho*

Quem tenha acompanhado o comportamento negocial do Ministério da Educação após a assinatura do compromisso estabelecido com os sindicatos, em 18 de Novembro de 2017, vê inflexibilidade e má-fé. Entre outras, duas questões são determinantes no conflito latente, sendo que a ordem para as resolver não é arbitrária: primeiro, o reposicionamento correcto na carreira (porque os professores recém-vinculados não podem ser alvo das interpretações delirantes da secretária de Estado Alexandra Leitão); depois, (e só depois para não se amplificarem as injustiças de reposicionamentos incorrectos) a recuperação do tempo de serviço, como referido na declaração de compromisso e recomendado pela Resolução n.º 1/2018, da Assembleia da República.

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O “Dia do Perfil dos Alunos” e o perfil do Governo

[Santana Castilho*]

Se há um “Dia Internacional da Comida Picante” (16 de Janeiro), um “Dia Mundial das Zonas Húmidas” (2 de Fevereiro), um “Dia do Engolidor de Espadas” (28 de Fevereiro), um “Dia Mundial da Higiene das Mãos” (5 de Maio), um “Dia Mundial do Mosquito” (20 de Agosto) e um “Dia Mundial do Pijama” (20 de Novembro), como esperámos tanto para enriquecer o arquivador da República com o “Dia do Perfil dos Alunos”?

A lacuna foi suprida a 15 de Janeiro transacto, com o glamour de uma festa muito moderna. No elenco principal brilharam Catarina Furtado, famosa apresentadora de espectáculos televisivos, e Fernando Santos, auspicioso treinador de futebol. O elenco secundário foi constituído por 323 “comunidades educativas” (designação do século XXI para aquilo a que os arcaicos da minha geração chamavam “escolas”).

Descido o pano deste Carnaval antecipado, arrisco o veredito da Quarta-feira de Cinzas.

No âmago da concepção que o secretário de Estado João Costa diz moderna está o logro de arrastar prosélitos acríticos para a criação do aluno novo, com um caudal de vacuidades que falharam há duas décadas. João Costa vem forjando a ilusão de que com iniciativas inferiores se obterão resultados superiores.

O modo como os alunos integram o que aprendem nas diferentes disciplinas foi objecto, na anterior experiência da denominada “gestão flexível do currículo”, de uma coreografia de actividades de “faz de conta” e de uma sobrecarga de burocracia escolar e procedimentos inúteis, que agora se repetem. [Read more…]

O desagravo do pastel de bacalhau

Santana Castilho

Fui à minha galeria de grotescos inscrever o despacho nº 11391, do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, publicado no D.R. de 28 de Dezembro do ano findo. O verbete anterior é de Abril de 2015 e regista que, em consultas compulsivas de saúde ocupacional, as mulheres tinham de apertar as mamas até esguicharem leite, se queriam continuar a ter reduções de horário para amamentação dos filhos. Concedo que, comparado com isto, o Ministério da Saúde melhorou. Agora, apenas decidiu proibir a venda de uma extensa lista de produtos em bares que funcionam em instalações suas.

Do cortejo imenso de carências e problemas do SNS, o iluminismo do Governo escolheu os malefícios dos rissóis e dos pastéis de bacalhau e, do ano saboroso, na proclamação do seu cardeal, o governo do PS retirou o gosto da mortadela e congéneres. Numa pressurosa lista de sinal bom, recomendam-se sandes de alface e cenoura ralada e fixa-se “a disponibilização obrigatória de água potável gratuita”, não passasse pelos neurónios politicamente desalinhados de algum comerciante disponibilizar versões de água com suspensões de coliformes de terceira geração. [Read more…]

Discos (ou K7) Revelações Nacionais 2017

Francisco Sousa Barros

1- LOT – Mother Board
2- Greengo – Dabstep
3- Black Zebra – Nonsquare

Discos Nacionais do Ano

Francisco Sousa Barros

1- 10.000 Russos – Distress Distress
2- Orelha Negra – Orelha Negra 2017
3- Surma – Antwerpen

A banalidade do mal e o sabor dos anos que passam

[Santana Castilho*]

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia.”

José Saramago

1. Passou o Natal das ocas farturas. Por comodidade e interesse, o Natal comercial tem varrido da memória dos homens o verdadeiro Natal, menos fantasioso, aquele em que Herodes, o Grande, ao saber do nascimento do Rei dos Judeus, mandou assassinar todos os recém nascidos em Belém, para varrer o alegado concorrente. Segue-se a passagem de ano e é tempo do habitual balanço.

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Surma – O Silêncio como Inspiração

Francisco Sousa Barros

Cruzei-me com a Surma pela primeira vez no Walk&Dance 2017. Pelos ouvidos já me tinham passado alguns temas e fui até Freamunde com o propósito de confirmar em palco os atributos.

No fundo de uma serena e distinta viela estava montado o palco. O público foi-se sentando no chão, entre paralelos e carpetes. O ambiente, quente, de fim de tarde primaveril, com o sol a diluir-se entre as paredes das casas, começava a parecer perfeito aos primeiros sons vindos do palco. Ao fim de pouco tempo já estava completamente conquistado e passei o resto do concerto apenas a apreciar as abstratas pinceladas sonoras que aquela mulher, sozinha com a sua voz singular, no meio de guitarra, baixo, teclados, pedais, samples, ou seja lá mais o que for, ia traçando. [Read more…]

Se houvesse ministro da Educação …

Santana Castilho

  • Em 25 de Agosto passado, muitos professores do quadro foram colocados a centenas de quilómetros da residência. A 6 de Setembro, outros menos graduados profissionalmente ficaram com os lugares dos primeiros. Seguiram-se acções em tribunal, declarações e manobras políticas e pronunciaram-se os importantes: Presidente da República, primeiro-ministro e provedor de Justiça. Foram sensibilizados todos os grupos parlamentares e fizeram-se eficazes manifestações de rua. Quase quatro meses volvidos, os ludibriados são apenas candidatos ao novo ludíbrio de um ilegítimo e inútil concurso extraordinário. Houvesse ministro da Educação e isto nunca teria acontecido.
  • Os professores do ensino artístico especializado foram sempre objecto de tratamento segregador em sede de contratação e carreiras. Em vez de lhes aplicar a legislação que regula o exercício profissional dos outros professores, a tutela considera-os como técnicos especializados.

Lendo o actual projecto de decreto-lei para regular a contratação dos professores do ensino artístico, parecem claras duas intenções: institucionalizar a desigualdade entre estes docentes e os das outras áreas e conferir aos directores das respectivas escolas um poder discricionário e não sindicável para decidirem quem contratam. Trata-se de retomar, em permanência, uma espécie de bolsa de contratação de escola, que legitime a falta de habilitação exigível para se ser professor. Houvesse ministro da Educação e não seria assim. [Read more…]

JLo os primeiros 2 meses

[Mwangolé]

Com ou sem fundamento, correu o boato que na tentativa de condicionar a acção de João Lourenço, algumas pessoas próximas do anterior Presidente da República procuravam ligar o actual Presidente a algum escândalo de corrupção. Mais recentemente circulou que a avalanche de exonerações e nomeações estava concertada entre JLo e o ainda número 1 do partido no poder, José Eduardo dos Santos. Boatos, teorias, suposições nunca passam disso mesmo, existem para todos os gostos e são impossíveis de provar. Mas se é possível até acreditar que JLo limpasse o aparelho do Estado de algumas pessoas, que Zedú, com a anuência deste, não tivesse tido coragem para o fazer, torna-se difícil acreditar que tal acontecesse com os familiares mais próximos, ou seja os filhos. Verdade que Filomeno dos Santos continua à frente do Fundo Soberano, mas a sua implicação nos papéis do paraíso e fracos resultados, podem em breve traçar o destino de Zenú.

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