Aprendam senhores, aprendam como se enxotam mendigos e afins

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José António Cerejo

Este é um texto que era para ser irónico (se eu soubesse sê-lo) e que é dedicado à Câmara de Lisboa e à Junta de Freguesia de Campolide. Resolvi publicá-lo no dia em que, devido à vaga de frio que se faz sentir, foi accionado o plano municipal de contigência para a população sem abrigo.
Ora bem! A Câmara de Lisboa e a Junta de Freguesia de Campolide merecem um prémio. O nome do dito até pode ser Prémio da Inovação Social Autárquica, ou até mesmo do Empreendedorismo Social Autárquico – coisas muito na moda. Imagine-se que, discretamente, sem alarde, nem polémica, conseguiram resolver o problema dos mendigo romenos, um quebra-cabeças que muitas outras autoridades locais, um pouco por toda a Europa, procuram há décadas solucionar sem sucesso.
Que chatice, mendigos nas ruas, gente feia, porca e má a cada esquina e debaixo de cada viaduto, a incomodar quem passa, e quem manda sem poder fazer nada, atado de pés e mãos. E não há muros, arame farpado, rusgas policiais, ou brigadas de limpeza municipal, que lhes resistam.
Os gajos furam por todo o lado e não arredam pé. Chega o Inverno, o frio do Leste empurra-os para terras de clima mais ameno e aí estão eles de novo. É assim desde há mais de vinte anos. Sobretudo desde que a Roménia, com as suas insuportáveis minorias ciganas, aderiu à União Europeia em 2007. [Read more…]

David Dinis e o Público

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Rui Naldinho

David Dinis foi convidado pelos sociais-democratas Alexandre Relvas e António Carrapatoso há cerca de três anos para dirigir o primeiro projecto digital de comunicação em Portugal, o jornal electrónico “Observador”. O referido diário mais parece um blogue da “extinta” PAF, com jornalistas e colaboradores escolhidos a dedo. Os temas, as notícias e os assuntos estão alinhados politicamente, tendo a direita como sua clientela quase exclusiva. Mas, tirando esse “pormenor”, nada terei a acrescentar, uma vez que só lá vai quem quer. Aquilo até nem se paga!

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Trump: um desabafo

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Helena Ferro de Gouveia

Há uns anos em Berkeley entrei no supermercado para fazer as compras semanais. À minha frente na fila estava uma mulher negra com uma criança pela mão. O único item que tinham era uma maçã vermelha e enorme, como são as maçãs da Califórnia. A mulher entregou um cartão, não sei se de débito, se de crédito e não funcionou. Entregou outro. Não funcionou. A maçã ficou na caixa e a mulher saiu do supermercado falando baixinho com a criança.

Em Berkeley um capuccino e uma fatia de bolo vegan custavam 25 dólares no Café Gratitude e, não muito longe de minha casa, ficava Stanford e as empresas milionárias do Silicon Valley.
Quando apanhava o BART, metro, para São Francisco observava o exército de pobres nas estações.
A desigualdade perturba-me, a desigualdade na maior economia mundial – onde há fome, subnutrição, incontáveis sem abrigo, bairros de roullotes e ausência de horizontes para milhões de pessoas – é obscena.

Porque não confio em Trump? [Read more…]

Era uma vez em Portugal

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Marco Faria

Três rapazes, dois dos quais vieram de muito longe, dizem que da Mesopotâmia, quiçá num tapete voador e estudavam aviões em Ponte de Sor.
São filhos do embaixador do Iraque.
Os gémeos, não sei se verdadeiros ou falsos, eram descendentes de um reino de “fakirs”, e desde o saco amniótico que sabiam manejar a arte dos sabres, e deram um enxerto de porrada a um adolescente da Ibéria, tendo este ido parar aos cuidados intensivos de um hospital da cidade de Ulisses e submetido a coma induzido pelos melhores físicos do seu tempo. Foi uma noitada em que todos se lembravam do que ocorrera no Verão passado, 18 de Agosto de 2016. [Read more…]

O sucesso do Capitalismo

Ana Cristina Pereira Leonardo

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Quando a fortuna acumulada de 8 (OITO) marmanjos equivale à miséria detida pela metade mais pobre da população mundial, 3,6 mil milhões de pessoas (TRÊS VÍRGULA SEIS MIL MILHÕES), somos obrigados a concluir que o Capitalismo é um sucesso, pelo menos para oito terráqueos.

Será um Catavento? Ou talvez mais, o quanto pior, melhor!

Rui Naldinho

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A propósito da posição que o Pedro Passos Coelho e o PSD pretendem tomar no parlamento em relação ao Acordo de Concertação Social alcançado para este ano de 2017, Marques Mendes chamou-lhe catavento.

Marcelo Rebelo de Sousa deve ter ficado roído de inveja por Marques Mendes lhe ter roubado esse título honorífico, digno dos personagens que depois de defenderem uma determinada ideia, passados tempos afirmam o seu contrário, garantindo que aquilo que afirmaram antes não é bem a mesma coisa do que estão a defender no presente.

Coisas de políticos! Ou como diz o escritor Rui Zink, “as coisas desesperadas que as pessoas fazem para serem populares e terem muitos likes”!
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Rua 25 de Abril – Carta Aberta

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José Miguel Braga

Caros colegas professores da Escola Secundária Dona Maria II e da Escola Secundária Carlos Amarante:

Não pretendo dar lições a ninguém e muito menos a quem, como eu, procura no dia a dia realizar o seu trabalho com rigor, com boa vontade e com sentido de serviço público.
Sei bem que todos somos diferentes e eu respeito a opinião dos que concordam comigo, dos que discordam de mim, mas também dos cépticos, dos que preferem não se manifestar, dos tímidos, enfim… Como todos sabem, está em curso, até “novas ordens”, um estranho processo de remoção de terras, que afecta os terrenos das “Oficinas de São José”.
De momento, não se vê afixado o alvará, mas tudo indica que se prepara a construção de uma superfície comercial “Continente Bom Dia”. [Read more…]

Funerais de Sá Carneiro e Mário Soares

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Miguel Teixeira

– o “culto” do disparate numa comparação infeliz

Tenho assistido com alguma perplexidade e até surpresa à comparação da afluência do povo aos funerais de Francisco Sá Carneiro e Mário Soares, comparações que são absolutamente disparatadas e desfasadas no tempo e na situação política. Essas comparações têm-nos chegado através de “sites” ligados à Direita radical que não perdoam a Mário Soares o apressado processo de “descolonização”(embora como se tem visto nos últimos dias através de vários testemunhos à Direita, cito Ribeiro e Castro, ex. Presidente do CDS, é injusto ele ser unilateralmente responsabilizado) e ainda por comentadores radicais como João Miguel Tavares.
Em primeiro lugar, devo dizer que considero o Dr. Francisco Sá Carneiro um dos vultos maiores da nossa democracia, que lutou incansavelmente por um Portugal mais justo, tolerante e solidário. Fundou o PPD, um partido de centro esquerda, que pediu inclusivamente adesão à Internacional socialista, situação que alguns mais jovens poderão desconhecer. [Read more…]

Um legado sem herdeiros

Rui Naldinho

sa-carneiro-1O Blogue Direita Política que alguns escribas dizem não ser de gente ligada ao PSD, por não estar devidamente “patenteado”, não soubéssemos nós como estas coisas funcionam, resolveu durante os dias em que decorreram as exéquias fúnebres de Mário Soares, divulgar através do Facebook, uma espécie de elegia a Francisco Sá Carneiro, cuja morte ocorreu há 36 anos.
Percebe-se a orfandade da direita perante figuras que se opuseram à ditadura de forma explícita, e cujos valores democráticos Soares ajudou a construir em Portugal de uma forma ímpar, no contexto político da segunda metade do século XX.

Francisco Sá Carneiro, um homem da alta burguesia portuense, advogado de profissão, que dentro do regime fascista sempre se opôs à ditadura, teve indiscutíveis méritos. Era um democrata naquilo que a palavra tem de mais genuíno. Contudo, não há comparações possíveis entre os dois personagens, porque um viveu na clandestinidade, outro não. Um esteve preso e exilado, outro foi deputado, ainda que da chamada ala liberal da ANP. Infelizmente, Sá Carneiro teve uma vida efémera, motivada por um acidente aéreo com contornos estranhos, que para muitos não passou de um atentado. Soares viveu uma vida longa. Tudo isso são realidades indesmentíveis, mas que não acrescentam nada ao que já se conhece dos dois. Portanto, o valor intrínseco que cada um deles tem na construção do nosso regime democrático, não lhes pode ser retirado. [Read more…]

O poucochinho de 2016

Santana Castilho*

O que se ensina e o modo como a Escola se organiza para ensinar deveria traduzir um projecto de sociedade, decidido de modo suficientemente participado para a representar. Infelizmente, traduz apenas o querer de quem manda em cada momento, fruto da recorrente incapacidade de os partidos construírem um entendimento político que acomode os tempos da Educação. Com efeito, nenhuma reforma se compadece com a duração estreita de uma legislatura.

A Escola que o anterior Governo deixou visava criar “recursos humanos” produtivos, pacíficos face aos grupos económicos a que se destinavam e agressivos face à competição desumana que deviam vencer para lá entrar. O que o actual Governo fez para mudar essa Escola e preparar cidadãos capazes de agirem de modo crítico e independente é manifestamente poucochinho.

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Uma história de TERROR!

bes

Carlos Paz

BES / NovoBanco – Algo está PROFUNDAMENTE ERRADO!
Não pode ser SÓ incompetência. Não é possível!

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Para percebermos um pouco do que se está a passar (é impossível perceber tudo – é tão mau que não existe NENHUMA explicação plausível, aceitável, credível, etc…) vale a pena revisitarmos um pouco a história de tudo o que se passou:

A – Período BES/GES

1) Sob a direção de Ricardo Salgado, José Maria Ricciardi, José Manuel Espírito Santo, Ricardo Abecassis, Fernando Manuel Espírito Santo, Manuel Fernando Espírito Santo, António Ricciardi, Pedro Mosqueira do Amaral e Amílcar Morais Pires, entre outros, o Grupo Espírito Santo (GES) fez uma gestão de tal forma desastrada de todos os seus investimentos que entrou em processo de colapso financeiro;
2) O referido colapso financeiro foi sendo escondido ao longo dos anos através de uma série de operações que drenaram os fundos do BES para o GES;
3) Este processo correu SEMPRE sem que a supervisão do Banco de Portugal (BdP), dirigida primeiro por Vitor Constâncio e depois por Carlos Costa, se apercebesse do que quer que seja daquilo que se estava a passar (desvios massivos de dinheiro do BES e dos seus Clientes para esconder os PÉSSIMOS resultados de Gestão do GES);
4) Depois de totalmente destruído o GES, o BES estava perto da falência, numa altura em que todos no mercado falavam disso (auditores, jornalistas, comentadores, etc…), MENOS o regulador/supervisor (Carlos Costa e o seu BdP);
5) Em último estertor os supracitados gestores do GES/BES, com a anuência de Carlos Costa e do BdP, promoveram um processo de aumento de capital do BES – recordemos que Banco estava tecnicamente falido, mas estava a ser protegido pela INCOMPETÊNCIA (para bem da nossa sanidade mental coletiva enquanto Nação, vamos acreditar que nessa época os atos e as decisões decorreram SÓ de pura incompetência) de regulação e supervisão do BdP;
6) Este processo de aumento de capital de um Banco que estava FALIDO teve o alto patrocínio do Banco de Portugal (de Carlos Costa), da CMVM (de Carlos Tavares), do poder político (Cavaco Silva e Maria Luis Albuquerque) e de diversos jornalistas e comentadores (como Marcelo Rebelo de Sousa, amigo e visita de casa da “família”);
7) Nesta altura Carlos Costa (e o BdP) já se tinha apercebido de indícios de Gestão Danosa no BES (em favor do GES e de amigos) mas não tinha coragem para afastar Ricardo Salgado e a sua clique da Administração do Banco – nessa altura Carlos Costa pede (e paga com o NOSSO dinheiro) diversos pareceres jurídicos para provarem que NÃO podia afastar Ricardo Salgado, tendo no entanto a maioria dos jurisconsultos consultados optado por referir que Carlos Costa, se quisesse, podia MESMO afastar Ricardo Salgado;
8) A Administração do BES apercebeu-se que já NADA seria possível fazer para salvar o Banco (BES) tendo havido alguém (ainda se espera um esclarecimento das autoridades judiciais) que promoveu uma imensa purga de fundos, numa única semana, que arruinou definitivamente o Banco;
9) Apercebendo-se tarde, demasiado tarde, do ENORME problema que tinha entre mãos, Carlos Costa afasta finalmente Ricardo Salgado que nomeia para seu substituto o seu próprio braço direito (Amilcar Morais Pires, Administrador Financeiro do BES) que estava envolvido em TODO o processo e, aparentemente (continuamos a aguardar esclarecimentos das autoridades judiciais), em TODAS as decisões;
10) O Banco entra numa espiral negativa e no final da semana fatídica da purga de fundos (nunca esclarecida pelas autoridades judiciais), Carlos Costa é finalmente obrigado a agir (o BdP já não podia continuar a fingir que não percebia o que se estava a passar);
11) Carlos Costa que tinha feito parte da equipa de Durão Barroso em Bruxelas, recorre às autoridades Europeias e promove a montagem, com o patrocínio (ou o comando, nunca o saberemos) da Comissão Europeia e do BCE, de uma operação de “resolução bancária” para o BES;
12) Convém aqui recordar que, apesar de ser este o modelo definido pela TROIKA para os problemas dos Bancos Europeus, este tipo de solução foi ensaiada no BES e NUNCA mais voltou a ser usada em lado nenhum da Europa (mesmo no BANIF em que o “nome” foi o mesmo, a operação foi muito distinta). [Read more…]

Vamos todos morar para o sótão!

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Pedro Guimarães

Em 2017, VAMOS TODOS MORAR PARA O SÓTÃO!
(e alugar as nossas casas a turistas).

Não, a sério.
Em 2017 desejo que a chamada “economia de partilha” vá para o raio que a parta. Que se proíba pura e simplesmente o Alojamento Local em espaços licenciados para habitação (aka fuck the neighbours licenciamento zero). E já agora, que apareça aí algum político com cojones que diga aos fundos imobiliários que quem manda aqui somos nós.
Quanto à UBER que se proíba também, mas só depois de correrem com todos os taxistas corruptos – ANTRAL incluída. Até lá, fazem falta. Mas não por muito tempo; esperemos, pois não faz sentido um sistema que funciona para os utilizadores mas continua a ser precário para condutores – e 25% evasivo face ao fisco.

E quando estiver tudo limpinho no sector dos transportes e da habitação, que se promova uma reflexão em torno do que é isto de viver numa sociedade de embalagens plásticas. E chegado esse momento, que decidamos então em dar o primeiro passo e ser o primeiro país do mundo a proibir toda e qualquer embalagem não biodegradável em circulação comercial.

E que todos os que exercem a violência e a intolerância, todos os que poluem os nossos rios e florestas, todos os que ignoram os ensinamentos da ecologia, todos os que levam o cão a fazer cócó e não apanharam o presente mais do que 3 vezes na vida, quero que todos, mas mesmo todos, sem excepção, sejam obrigados a passar um ano a fazer voluntariado no IPO.

Era só isso.

p.s.- a foto é tirada nas ruinosas e extremamente caras ruínas de uma tal Escola Afonso Domingues, assunto para outras conversas.

Fartos de sermos tratados como estúpidos

Ricardo J. Rodrigues

Foi hoje escolhida a palavra do ano. Durante semanas, as redações receberam comunicados de uma votação online promovida por um grupo editorial e, esta manhã, os resultados foram anunciados numa conferência de imprensa. Vários meios deslocaram jornalistas, fotógrafos e repórteres de imagem para o evento. À hora de almoço, as televisões reuniram comentadores em estúdio para debater o assunto. Aquela podia ser uma notícia, sim, mas no máximo uma breve. Para a maioria dos cidadãos, a escolha de ‘geringonça’ para palavra do ano tem pouco interesse. Se calhar não tem mesmo interesse nenhum. Mas este é um exemplo que mostra tudo o que se passa de mal com o jornalismo de hoje.

‘Geringonça’, recorde-se, foi a expressão utilizada pelo cronista Vasco Pulido Valente para definir o acordo parlamentar da esquerda. É uma palavra com uma conotação negativa e, se um cronista podia utilizá-la, os jornalistas nunca poderiam fazê-lo. O trabalho dos jornalistas é fornecer aos cidadãos a informação rigorosa de que estes precisam – para poderem formar, esclarecidamente, a sua própria opinião. No entanto, os informadores passaram a utilizá-la despudoradamente, condicionando assim os leitores. E não podemos deixar de pensar nisto quando vemos que as pessoas que deixaram de confiar na imprensa, que não encontram hoje utilidade no que leem, que pensam que os jornalistas deixaram de ser os representantes dos cidadãos e passaram a ser representantes do sistema. Com esta ‘geringonça’, lhes damos razão. [Read more…]

A Lisboa das pessoas

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Pedro Guimarães

Sejamos realistas: para o peão lisboeta que vive fora do chiado, especialmente o mais incapacitado, a estrada é a opção que menos riscos apresenta à locomoção: Se por um lado há o risco de acabar debaixo de um carro, por outro, a perspectiva de caminhar numa superfície livre de obstáculos, lixo, embalagens de toda a espécie, entulho e dejectos caninos, parece infinitamente mais atractiva.

Do ódio a Mário Soares

José Luiz Sarmento Ferreira

Escreve Fernanda Câncio que se a alguém se deve a democracia portuguesa, é a Mário Soares. É uma opinião, naturalmente; e é, como todas as opiniões, uma opinião de que é possível discordar. Mas quem discordar desta opinião coloca-se na difícil situação de alvitrar um nome, ou vários, que constituam uma alternativa mais plausível. Poderão argumentar, e com razão, que o que temos em Portugal não é uma democracia perfeita. Mas que democracia o é? E, se é difícil encontrar um outro nome ao qual se possa atribuir igual responsabilidade pelo actual regime, não é difícil encontrar dúzias de nomes igualmente plausíveis que podem ser responsabilizados pelas suas imperfeições.

E contudo o ódio a Mário Soares está aí, ubíquo e tonitroante, e todos nos damos conta dele. Não sei se são muitos os que odeiam Mário Soares; sei que o odeiam com tal intensidade que parecem muitos, talvez mesmo a maioria dos portugueses.

Não será este o caso, certamente; a gratidão tem por hábito ser mais discreta que o ódio; mas talvez haja interesse em saber quem o odeia, e porquê.

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Soares é fixe? A História fará o seu julgamento.

Rui Naldinho

soaresSoares foi um personagem controverso, por vezes até polémico. Isso é indesmentível. Mas, ao mesmo tempo, alguém incontornável na história da nossa democracia. Menorizar o seu contributo para a liberdade que hoje desfrutamos como povo, é no mínimo, não ter memória. E um povo sem memória não tem História.
É verdade que Soares foi o grito de liberdade que por vezes se confundiu com a vaidade. O tribuno republicano e maçon, que por vezes se comportou como um monarca. Um bonacheirão que por vezes tinha tiques de arrogância. Mas isso não pode diminuí-lo como o personagem mais importante na construção da nossa democracia.

O carácter de Soares era por vezes errático e as opiniões dividem-se a seu respeito. Há quem veja nele alguém que não olhou a meios para atingir os seus fins, mas também há quem veja nele o pai do regime político no qual ainda hoje vivemos.

Contrariamente aos seus mais fervorosos detractores, eu considero que o seu maior pecado foi o ter “mandado engavetar o socialismo”. Aí, de facto, ele borrou a pintura, e mostrou que tinha uma agenda diferente da que alardeava.

Mas, Mário Soares faz jus a frase de Ortega e Gasset, quando o filósofo espanhol afirmava: “O Homem é ele e a sua circunstância.”

Comecemos pelo princípio da nossa democracia e algumas das situações mais polémicas do percurso do velho antifascista

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Os lesados do BES e os lesados do ME

Santana Castilho*

Sem direito a perguntas, logo sem a maçada de dizer quem paga, quem assume as garantias e se o milagre agrava ou não as contas públicas, António Costa anunciou, em conferência de imprensa, a solução do decantado problema dos lesados do BES. Perito que é em dar boas novas e virar páginas, quando o vi numa escolinha, pronto para a mensagem de Natal, admiti, por momentos, que ia anunciar a solução para os lesados do ME. Qual quê!
Em 30 de Novembro último, o Ministério da Educação tornou pública a intenção de abrir um concurso para integrar nos quadros os docentes com um mínimo de vinte anos de serviço e cinco ou mais contratos a termo resolutivo, celebrados nos últimos seis anos. São estes e muitos outros, precários de uma vida, os lesados do ME, um ministério que vive há anos fora da lei, explorando miseravelmente quem o serve e concebendo maliciosamente soluções que iludem, sem resolver. É disto que trata a proposta, glosada com as coreografias governamentais e sindicais habituais e o pesadelo de sempre.
São duros os meus qualificativos? Que é, senão déspota, quem exige aos outros um contrato estável ao cabo de três anos de serviço, mas permite vinte para si e, ainda assim, os armadilha com requisitos desprezíveis? Que é, senão desprezível, a subtileza de persistir em considerar que os contratos anuais e sucessivos tenham que ser no mesmo grupo de recrutamento? Que é, senão iníquo, ardiloso e inconstitucional, deixar para trás docentes com maior antiguidade, só porque já foram vítimas de injustiças anteriores? Que é, senão inaceitável, a utilização abusiva de milhares de contratos de serviço de duração temporária, ano após ano, que violam o Direito da União Europeia (Diretiva 1999/70/CE), como, aliás, foi reconhecido pelo respectivo Tribunal de Justiça?
Desde há muito que os concursos de professores geram injustiças e criam castas, por via de sucessivas mudanças de regras, donde a ponderação da iniquidade desapareceu. Tudo indica que assim será, uma vez mais, com alguma coisa a mudar para que tudo continue na mesma, tónica aliás dominante da actual aposta na Educação. [Read more…]

Natal

Rui Naldinho

Alegrai-vos, apesar de tudo! Porque é Natal…

Os crentes festejam este dia, que no calendário litúrgico é atribuído o nascimento do menino Jesus. Nem o pagão descrente resiste a este cenário mítico do Natal, emprestando nessa noite igual a tantas outras, a sua emotividade aos familiares e amigos.

mesa de natal

Chego a casa horas antes da ceia do Natal, entro porta a dentro e reparo numa sala cheia de um consumismo inadequado aos tempos que correm. As crianças vão brincando diante da árvore iluminada de cores pisca-pisca, sobre um chão decorado com embrulhos enlaçados.  Algures, numa parede ao fundo arde um lume brando sem cessar, diante dos meus olhos transeuntes lacrimejados de chamas. Ao centro, há uma mesa com deliciosas iguarias confeccionadas pelos nossos ancestrais costumes. Intuo eu que serão degustadas à vez, numa sequência de ritos até que o cansaço nos esmoreça.

Porque é Natal… [Read more…]

O topete dos pais apressados do PISA

Santana Castilho*

Guterres tomou posse como Secretário-Geral da ONU. Ronaldo arrebatou outra Bola de Ouro. Cada família portuguesa vai gastar neste Natal 359 euros, diz a Deloitte, e Marcelo vai beijar as 207 crianças que nasceram ontem, prognostico eu. Que importa que no mesmo dia tenham morrido 284 portugueses? Que importa que a Der Spiegel diga que Ronaldo subtraiu 150 milhões ao fisco? Que importa que as contas da Deloitte sejam o resultado de uma média que junta os gastos obscenos de poucas famílias aos gastos miseráveis de dois milhões de pobres? Que importa tudo isso e quem sou eu para contrariar a euforia deste nosso modo bipolar de viver? Mas a festa dos pais apressados dos resultados do PISA, essa, tenho que a contraditar.

Quando toca a hora de colher louros, é enternecedor ver ex-ministros, que se digladiaram e reclamaram autores de teses opostas, aceitarem que as suas políticas, juntas, produziram bons resultados. O paradoxo talvez se resolva se trocarmos as premissas da equação. Se em vez do “graças a Lurdes Rodrigues” ou do “graças a Nuno Crato”, dos prosélitos, tentarmos os bem mais certos “apesar de Lurdes Rodrigues” e “apesar de Nuno Crato”.

Ambos escreveram artigos sobre os resultados do TIMMS e do PISA (DN de 7/12). Antes de se porem em bicos de pés, qual casal modelo, pais apressados do sucesso alheio, eles que humilharam, acusaram, denegriram e prejudicaram os professores como ninguém, tiveram o topete de lhes tecer, agora, rasgados elogios. Que pouco decoro! [Read more…]

Deixaste-nos, Laura

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Ana Barros

Relembro, agora, a primeira vez que nos encontrámos. já lá vão longínquos 30 anos.
as duas “velhotas” numa turma de garot@s, uma a aprender, outra a re_aprender, alemão.
tu a aprendê-lo porque, na altura, querias ler Nietzsche no original para as tuas provas na universidade; eras assistente estagiária. eu, porque, à falta do que fazer, queria ocupar algum do meu tempo a relembrar uma língua que sempre me cativou.
foi instantânea a empatia que se criou entre nós. assim foi durante este tempo todo. e eu sempre a admirar a mulher brilhante que eras.
fui às estantes procurar os teus livros. no meio do caos, encontrei o “Variações sobre o entre-dois” e o “Alteridades feridas”, os marcantes dois volumes do teu “Diário de uma mulher católica a caminho da descrença” e o “Ajudas-me a morrer?“. neste último, releio a tua dedicatória: “Para a Ana Paula, a amiga de todas as ocasiões”. tenho consciência que o não fui. poderia ter sido muito mais presente e nunca te pedi desculpa por isso.
sentia já a tua falta durante estes anos em que tanto sofreste; neste momento, sinto que foi a libertação que te chegou na forma que nos (os outros) dói mais.
descansa, agora, em paz e em liberdade total, minha amiga.

Memórias submersas

Rita Matos Gomes
©Grete Stern

©Grete Stern

chegou-me à pouco a lembrança, e tomou-me de assalto.
foi talvez pela hora, final de dia, mas chegou pelo cheiro.
era um momento só meu, e de paz total.
tinha todo um ritual preliminar.
primeiro, era o abrir da janela. os adultos insistiam, era primordial.
a seguir, tirava-se de dentro da gaveta do armarinho a caixa dos fósforos.
previamente tinha de vir um dos primos mais velhos, eles só quem detinha o poder e a altura necessária.
então, riscava-se o fósforo, e numa operação demorada tentava-se convencer o velho esquentador teimoso e senil que tinha que acender. muitos fósforos eram necessários .
eu gostava de ficar com esse papel, na ousadia de ficar raspando o pauzinho na caixa, até que ele explodisse numa alegria de chama.
depois, punha-se a tampa metálica e pesada no fundo da banheira de esmalte, com pés de animal em cima de esfera. [Read more…]

Expresso meu, Expresso meu! Há alguém mais SPIN do que eu?

Rui Naldinho

terminalO inefável Spin do Dr. Passos Coelho na estação televisiva SIC descobriu há dias; vejam lá, só agora se lembrou deste assunto; que o novo Terminal Ferroviário do Barreiro será mais uma daquelas obras sem qualquer interesse para a economia nacional. Apenas servirá os interesses de alguns privados! Eu sempre apreciei a verdade e a coerência das pessoas, mesmo as que não partilham das mesmas ideias cá do rapaz. Mas fico sempre intrigado com certos silêncios e tempos de espera, e logo quando são assuntos de Estado que atravessam várias legislaturas.

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Falemos de refugiados

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Helena Ferro de Gouveia

No mundo quase perfeito de Freiburg, uma pequena cidade estudantil alemã conhecida pelo seu activismo anti-nuclear e pro direitos civis, uma jovem estudante de medicina de 19 anos foi violada e assassinada.
Maria era voluntária, como muitos outros universitários, num centro de acolhimento a refugiados e estes eram a sua causa.
Maria nasceu no seio de uma família culta, o pai é jurista , consultor da Comissão Europeia, e um dos autores da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
A jovem foi morta por um afegão de 17 anos, que chegou à Alemanha como menor não acompanhado.

Este crime suscitou de imediato uma tentativa de aproveitamento político pela extrema-direita. Tentativa que fracassou por três motivos: o comportamento responsável dos media alemães no tratamento deste caso (faça-se uma análise da linguagem utilizada e descobre-se objectividade, factos e não sensacionalismo); a intervenção dos partidos políticos democráticos à direita e à esquerda e as declarações da família da jovem.
Logo após ser conhecido quem é o presumido autor a família de Maria apelou a quem estivesse solidário a dor que sentiam que doasse para uma iniciativa de apoio à refugiados. Essa seria a vontade de Maria.

O ódio combate-se com Amor.
Este é um dos muitos momentos em que tenho tanto orgulho em ser também alemã.

Braga e as luzes

iluminacao-bragaJaime Manso

Era uma vez uma cidade, lá num reino muito longe, que tinha um Governador que passava os dias ao espelho, e mostrou aos seus amigos que era bom estar ao espelho e admirar-se com ele próprio!
Um dia, de tão ocupado de andar a tirar fotografias para as revistas e jornais que o bajulavam esqueceu-se do Natal! Então ligou aos seus amigos e perguntou – E o Natal? Como é do Natal? As luzes e os enfeites!?! – Mas os amigos estavam todos ocupados, uns ao espelho também; outros a matar árvores ou, assinar projectos com parecer negativo (e ao espelho também).

O Povo gritava nas ruas, – AS LUZES DE NATAL?? Os enfeites??

Ele, furibundo, contratou uma empresa cara, pois os amigos do reino viraram-lhe as costas depois dos favores e das traições. Então, enfeitou, já tarde duas ruas da cidade e na praça central levantou, à pressa uma árvore de Natal! [Read more…]

Portugal, um país recheado de comentadores “imparciais”

Rui Naldinho

A nossa Lusa Pátria está cheia de comentadores doutorados nas suas agendas mediáticas, mas incapazes de analisarem e interpretarem factos e fenómenos fáceis de serem explicados. São personagens que debitam sabedoria em cátedras das faculdades, e em palanques de congressos para os quais estejam habilitados pelo seu curriculum académico, mas não conseguem entender a razão de ser das coisas mais simples. Nunca percebi os motivos para tal ignorância, depois de tantas horas de estudo.

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Eduardo Cintra Torres é um conhecido sociólogo e crítico de televisão, que gosta de parecer aquilo que não é, nem nunca foi, imparcial na sua análise.
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Requiem por um espaço de pensamento livre

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Pedro Pereira Neto

O conteúdo seguinte constitui citação literal retirada dos Estatutos da Universidade da Beira Interior, consultados hoje, a partir do seu website institucional:

“Capítulo I – Natureza e Regime Jurídico, Missão, Objetivos, Atribuições e Símbolos
Artigo 1º – Natureza e Regime Jurídico
1. A Universidade da Beira Interior é uma Instituição orientada para a criação, transmissão e difusão da cultura, do saber e da ciência e tecnologia, através da articulação do estudo e do ensino, da investigação e do desenvolvimento experimental.
2. A Universidade da Beira Interior, adiante designada abreviadamente por UBI ou simplesmente Universidade, é uma pessoa colectiva de direito público e goza de autonomia estatutária, pedagógica, científica, cultural, administrativa, financeira, patrimonial e disciplinar”.
Em que medida é esta informação relevante? Foi conhecida recentemente a decisão da Presidência da FCSH-UBI de proibir a realização já (por si) autorizada da conferênciaSahara Ocidental: a luta pela autodeterminação de um povo”, que teria lugar amanhã, dia 6 de Dezembro. Motivo invocado: “não criar um conflito institucional de Estado que colocasse a UBI nos órgãos de comunicação social pelas piores razões“.

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Braga às escuras

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António Ferreira

Braga, centro da cidade, 17h30m de sábado, 3 de Dezembro.

Já não é só a periferia que está votada ao abandono.
O centro da cidade, dita cidade do comércio, está como se (não) vê. As grandes superfícies comerciais continuam a proliferar enquanto o comércio tradicional definha na escuridão.
Acresce a isto a não existência de uma comunicação social independente na cidade. Os casos, os acasos, as situações avolumam-se e a vergonhosa classe de jornalistas dos dois diários da cidade olham para o lado enquanto assobiam e fotografam todas as inúmeras aparições do fotogénico Ricardo Rio, seu putativo patrão.
Foram precisos apenas 3 anos para a Câmara Municipal de Braga transformar a cidade numa amostra triste, gélida e escura daquilo que já foi.
Foto © Ana Silva

Deixem o Tua em Paz!

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Filipe Esperança

Se há assunto que tem vindo constantemente para as luzes da ribalta é o recente (ou não) caso da Vale do Tua.
Mas… por onde começar a relatar toda esta patranha de peripécias?
Pelo início, obviamente. Estávamos no final de 1991, e foi já depois de constantes ameaças de encerramento que a CP, mandatada pelo Governo e por uma constante de encerramentos ferroviários desde 1988, decidiu encerrar o troço da Linha do Tua compreendido entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros. Basta uma rápida pesquisa no Google para compreender que este infeliz acaso deixou a última porção do troço (Macedo de Cavaleiros – Bragança) completamente isolada da restante rede, sem ligação ferroviária, e com transbordos rodoviários que eram demorados e pouco articulados. Dias depois, um descarrilamento em Sortes viria a ditar “temporariamente” o fim dos comboios na Linha do Tua, entre Mirandela e Bragança. Temporário ou não, a verdade é que foi preciso esperar pelo dia 14 de Outubro de 1992 para que surgisse uma nova “machadada” nesta importante infraestrutura: pela calada da noite, e durante um forte apagão nas comunicações locais, a CP levava (pela via rodoviária) os comboios e carruagens presentes nas Estações de Bragança e Macedo de Cavaleiros, e sob a justificação de que o material precisava de “manutenção”.
Jamais, em tempo algum, os transmontanos duvidariam da palavra da CP ou dos seus responsáveis… mas a verdade é que o comboio não regressou a Bragança. [Read more…]

Ideias feitas

Carlos Araújo Alves

Nunca a direita entrincheirada aceitará que Estaline, ao derrotar Hitler, permitiu que a Europa continuasse a viver em Democracia, nem a esquerda entrincheirada aceitará que Fidel, apesar da inicial libertação do seu povo do colonialismo, da constituição de um dos melhores sistemas públicos de saúde e de ensino, fosse um ditador feroz.
A vida é tecida destas contradições, cuja falta de liberdade de quem se mete em trincheiras de ideias feitas não consegue ver, quanto mais aceitar.

Mário Ferreira está equivocado

comboio-machu-picchu Carlos Almendra Barca Dalva

Profundamente equivocado. Profundamente.

Honrou-me com dois minutos do seu tempo o empresário da área do Turismo Mário Ferreira, num comentário deixado à carta aberta que ontem lhe dirigi.
Li-o com atenção, com muita atenção.
E permita-me dizer-lhe: está equivocado em quase tudo quanto diz. Quase tudo.

Novamente, vamos por partes?

A sua primeira frase, curiosamente, é a pura das verdades:
“O importante é que visitem o Tua, falem bem ou mal estou todos a falar…”

É verdade: há já cerca de uma década que a linha do Tua passou a fazer parte do quotidiano noticioso de Portugal. A par da linha de Sintra e de Cascais, é mesmo a via férrea de que os portugueses já ouviram falar e até sabem onde fica. E, repare, saber os rios, as serras e as vias de comunicação já não faz parte do programa escolar há muitas décadas.
No entanto, a linha do Tua… toda a gente conhece.

“Gostava que me mostrassem as máquinas a vapor construídas em Portugal.”
Ninguém lhe prometeu mostrar máquinas a vapor construídas em Portugal pela razão simples de que, para além de alguns improvisos oficinais, elas nunca existiram. Todas quantas cá circularam foram importadas da Alemanha, de Inglaterra, da Suiça, de França, até mesmo dos Estados Unidos da América (mas sem aquele design piroso). Importadas, modelos de séries comuns ou com as modificações solicitadas pelas empresas da altura. [Read more…]