Tiros de pólvora seca – uma explicação aos “activistas” das redes sociais sobre três L: Linguagem, Ligações e Luta

Fotografia: MAYO

Teve lugar, ontem, na Universidade do Minho, uma manifestação contra o assédio. Depois de várias queixas e denúncias sobre um alegado agressor no campus da U.Minho, centenas de alunos saíram à rua, muitos deles segurando cartazes que diziam “mexeu com 1 mexeu com todEs”. Obviamente, e porque vivemos na Era do Clique, a manifestação e a causa da mesma passaram para segundo plano porque, hoje, de parte a parte, o que interessa é aparecer numa fotografia de cartaz na mão com uma frase impactante, se fores de um lado, ou ir para as redes sociais balbuciar contra os manifestantes, se fores do outro. Já não interessa a luta, já não interessa a realidade. Interessa, sim, aparecer. E se para aparecer eu tiver de escrever “mexeu com todEs”, eu vou escrever, porque sou “bué” inclusivo, sigo a tendência, revolucionário e uma vez até respondi “já vou!” à minha mãe quando ela me chamou para a mesa.

Primeiro, temo ter de explicar, ainda, que os plurais das coisas já englobam vários géneros. Quando dizemos “estamos todOs” ou “estamos todAs” “aqui”, não estamos, em linguística, a discriminar ninguém; estamos, simplesmente, e mediante, muitas vezes, o género do inter-locutor (muitas vezes, até, do género que predomina nos receptores), a indicar que as pessoas estão reunidas naquele mesmo espaço, tanto quanto as que deveriam estar. [Read more…]

O turbilhão educativo

No país onde os governantes adoram justificarem-se com o que se faz lá fora, seria óptimo se olhassem para este exemplo da California.

Every eight years, a group of educators comes together to update the state’s math curriculum framework. (…)
Its designers are revising it now [uma alteração curricular] and will subject it to 60 more days of public review. [Slash[dot]

Repare-se no detalhe da revisão apenas a cada oito anos e com consulta pública, comparando-se com o hábito nacional das alterações educativas anuais (curriculares e outras), feitas em cima do joelho e em modo prepotente.

Deus é mentiroso

Rodrigo Moita de Deus, na sua casa de fados, em Cascais, durante a interpretação de “Nasci para ser ignorante”.

 

Pode um mentiroso ser da família de Deus? Será uma questão teológica, mas, em Portugal, se nos referirmos a Rodrigo Moita de Deus é uma questão de (in)decência. Já não é a primeira vez que este parente do Senhor diz, na televisão pública, mentiras e alarvidades sobre os professores.

O comentador televisivo é, muitas vezes, um espécime da linhagem do tudólogo, que fala de tudo, mesmo, ou sobretudo, se não dominar o tema. Rodrigo Moita de Deus é, portanto, parente próximo de Nuno Crato ou de Carlos Guimarães Pinto.

Deixo uma ligação para o vídeo com a intervenção de Deus no Último a Sair e remato, mais abaixo, com um excerto de um texto copiado do facebook do S.T.O.P. (Sindicato de Todos os Professores), para aqueles que quiserem verdadeiramente informar-se.

Os que não quiserem informar-se, podem limitar-se a ver o vídeo com a palavra de Deus. Com gente desta na família, é natural que as pessoas se afastem da Igreja.

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Nuno falta de vergonha na cara Crato

 

Crato diz que há professores a mais e que “redução é inevitável”

Falta de professores é um “drama anunciado há muito tempo”, diz Nuno Crato

Há muito para repetir (porque já foi tudo dito) sobre o consulado de Nuno Crato. No que se refere às duas declarações patentes na imagem, impõe-se uma pergunta básica: qual é o número mínimo de anos que corresponde a “muito tempo”? Relembre-se que  foi, alegadamente, ministro da Educação entre 2011 e 2015.

Nuno Crato foi um digno sucessor de Maria de Lurdes Rodrigues, cumprindo com denodo a tarefa de demolir a Escola Pública, o que incluiu um ataque continuado aos professores.

Tal como Maria de Lurdes Rodrigues, também Nuno Crato, por ter a mesma quantidade de vergonha na cara, aparece regularmente a dar opiniões sobre Educação. Está no seu direito, porque, em democracia, os incompetentes e os desavergonhados também têm direito a exprimir opiniões.

A propósito das crianças portuguesas que falam “brasileiro”

A também nossa Paula Sofia Luz publicou recentemente uma reportagem que deu algum brado e fez sair muitos patrioteiros de tocas mal frequentadas: “Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro'”. Desde portugueses enojados a brasileiros ressabiados, juntaram-se nos comentários do jornal e das redes sociais dezenas ou centenas de idiotas de ambos os lados do Atlântico, agarrados a estereótipos e a interpretações espúrias da História, ou melhor, de um conjunto de sentimentos e de preconceitos que alguns confundem com História.

O fenómeno da influência do português do Brasil na expressão dos jovens portugueses não é novo e pode (e deve) ser discutido, excluindo qualquer laivo de superioridade ou de inferioridade e incluindo linguistas e professores de Português, sendo que, neste último caso, há um afastamento indesejável entre ambos os grupos – polemizando já um pouco, e sendo eu suspeito, há alguns linguistas que imaginam os professores como meros receptáculos, mesmo quando o assunto é o ensino de uma norma linguística, por muito que este conceito contenha algo de demasiado artificial.

Assim, se é verdade que não faz sentido censurar (em qualquer dos sentidos da palavra) os conteúdos brasileiros, é importante pensar naquilo que se chama o “cultivo da língua”, expressão difusa que se pode prestar a usos elitistas desajustados e que poderá, muitas vezes, entrar em conflito com a natural circulação de palavras e de conceitos. [Read more…]

Direitos Humanos: por cumprir

“Não sou livre enquanto outra pessoa for prisioneira, mesmo que as suas correntes sejam diferentes das minhas” – António Alves Vieira (1987-2018)

Enquanto continuar a haver medo, a luta não terminará. Direitos LGBTQI+ são Direitos Humanos; e enquanto os primeiros não estiverem totalmente assegurados, os segundos nunca serão cumpridos.

Pratiquei desporto muitos anos; futebol, em concreto. Por ter a experiência, sei que estou em condições de dizer taxativamente: o mundo do futebol é um mundo machista e homofóbico. Não se enganem; gosto muito de futebol. Mas as coisas são como são. Por isso, enfrentemos a realidade de frente e mudemos o paradigma.

O medo das represálias por parte do patronato, de colegas e adeptos é avassalador. Saber que se pode ser afastado por se ser homossexual é aterrador, desumano e pressiona, muitas vezes, a que se tome uma decisão. E essa decisão, por norma, tem dois caminhos: a aceitação da vida que se quer levar ou a morte. Não raras vezes, pelo estigma, pelo preconceito, pelo isolamento, este caminho acaba na morte. [Read more…]

Crónicas do Rochedo 46: A Pantera Cor de Rosa nunca me enganou….

A infantilização dos adultos não é coisa nova. Recordo como se fosse hoje quando, nos idos de 90 do século passado, fui a uma reunião na Associação de Estudantes de Engenharia do Porto (FEUP) e o bar da dita estava cheia como um ovo com os marmanjos, futuros engenheiros, em silêncio a ver o “Dragon Ball Z” na televisão. Os mesmos marmanjos que na noite anterior estavam no Ribeirinha e no Academia a emborcar vodkas limão como se não houvesse amanhã entremeadas com umas ganzas e, alguns, a aspirar umas coisas pelas narinas. Nunca percebi o fascínio meio infantil pelo Dragon qualquer coisa Z…

Isto a propósito de hoje, em pleno “telediário” da RTVE24, o canal de notícias 24 da televisão pública espanhola, estar em destaque, como uma das cinco principais notícias a desenvolver no dito, o novo episódio do Super Homem (Marvel) em que o dito se assume como bissexual. Sim, no principal “telejornal” isto é notícia. O Super Homem é bissexual ou, como se diz no meu Porto, “dá para os dois lados”. Eu quando era miúdo sempre desconfiei que o Tio Patinhas era gay não assumido, que a Pantera Cor de Rosa era lésbica e que o Sapo Cocas sofria de violência doméstica. Era tudo deixado à imaginação de cada um. Agora não. É tudo explícito e politicamente correcto. Para o bem das criancinhas. Das criancinhas adultas. Pois as verdadeiras estão-se a cagar para isso.

Valha-nos Deus que isto está infestado de chalupas. O mundo está mesmo a ficar perigoso…

Professores com vontade, procura-se

Atualmente, desde que nascemos (e pelo menos até atingirmos a maioridade) um terço da nossa vida é passado a dormir, e cerca de outro terço é passado numa sala de aulas ao longo da juventude. Lembro-me que o meu pai apelidava a fase escolar de algo como “o emprego dos jovens” – fazendo o paralelismo, da mesma forma que os pais vão para o trabalho, o trabalho dos mais novos seriam os estudos, onde analogamente o pagamento seriam as pautas pelo desempenho e esforço feitos durante os trimestres e mais tarde a entrada para a faculdade querida de quem assim o almeja.

Sabendo que uma grande parcela da nossa juventude é passada a aprender, causa-me uma enorme urticária a desvalorização geral que se faz sentir nesse que acredito pessoalmente ser dos empregos mais importantes que se pode ter – ser professor. É procupante a falta de renovação de quadros e falta de interesse da minha geração nessa profissão. O Nabais explica bem essa realidade neste texto e aqui também, vinde ler que o gajo escrevinha umas coisas pertinentes.

Os poucos amigos que conheço que enveredaram pela área, desabafam sobre as colocações feitas em locais absurdos bem longe de casa sem qualquer apoio, da quantidade de trabalho absurda, das quantidade de reuniões longas e desnecessárias, somando a isso o facto de terem de gerir a sua vida pessoal neste grande ato de malabarismo.

Em retrospetiva e num exercício de empatia, agora não me é surpreendente o relembrar de professores mais azedos que me marcaram pela negativa e em parte desculpar alguns ou muitos dos seus comportamentos. É graças a esses professores que alunos tal como eu criam anti-corpos a determinadas disciplinas (ou em casos mais severos, à própria escola e ensino em geral). Basta pensar no cansaço acumulado da idade, aliado a problemas do foro pessoal/familiar ou de saúde terem de ser articulados com a responsabilidade de leccionar entre 20 a 30 jovens com as hormonas ao rubro durante cerca de 6h semanais por turma (!) e por vezes de diferentes anos. Fora o trabalho fora de aulas. Para quem nunca tentou dar formação a um grupo de pelo menos 20 adolescentes dificilmente entenderá genuinamente a dificuldade que é captar a sua atenção e interesse durante um período de tempo mais extenso do que 5 minutos.

É precisamente através a esses anti-corpos que se criam em conjunto (e contrastando) com a paixão flamejante de outros professores que nos conseguem cativar, que ao longo desse terço da nossa vida juvenil chegamos aos dias de hoje, parte da personalidade e gostos influenciados. É um terço da nossa vida que estamos em fase de crescimento, onde aprendemos a gerir problemas familiares, com outros hobbies externos, com namoros, com desporto, com amigos, com bullying. adicionando um topping de pressão da eterna pergunta “então e o que é que queres ser quando fores grande?” em mescla com um cocktail de hormonas rebeldes e um (natural da idade) desnorteio da vida de uma forma geral.

Poderia desenvolver muito mais e dar todos os exemplos de casos práticos que me recordo e que evidenciam a receita da desgraça atual, mas ao final de 500 palavras creio ser o suficente para ser óbvio o consequente molde de uma grande parte da vida de todos os educandos, entenda-se, todos nós! Molda-se muito dos interesses pessoais, acrescenta-se conhecimento e disabores que levamos para o resto da vida.

Neste 5 de outubro onde se celebra além do dia da Implantação da República Portuguesa o dia do Professor, para quem ainda não teve filhos, para quem nunca surgiu a oportunidade de ensinar um grupo de jovens, para quem quer e para quem não quiser fica a sugestão de reflexão sobre aquele(a) professor(a) que tinha o pavio mais curto. Empatizar com os problemas que mais certamente nem imaginamos que ele(a) tinha e valorizar quem excerce, para motivar quem nem sequer pensa em excercer devido ao panorama atual. Para que se criem mais condições para a minha geração envergar pela área sem medo de quando o fizerem (à semelhança da memória daquele professor zanzinga que em algum momento já tivemos) ficarem rapidamente com um pavio igualmente curto.

A Câmara de Gondomar a dar fome às criancinhas das escolas


Esta é a sopa que deram hoje aos alunos na cantina de uma das EB 2 3 de Rio Tinto. Via-se o fundo do prato.
Já na última quinta-feira, na mesma escola, recusaram a fruta (melancia) a uma criança do 6. ano, com o argumento de que já tinha acabado. Mas a criança, não sendo cega, viu que era mentira.
Foi o primeiro dia de aulas e deu-se um desconto.
Hoje não.
Nesta municipalização da Educação à moda de Gondomar, que inclui ter de pagar uma taxa para carregar o Cartão Escolar obrigatório, ninguém está a salvo.
Numa outra escola do concelho, neste caso secundária, tudo o que os professores consomem (cantina, bar ou papelaria) vai para o livro. Bem, é mais um caderninho mal amanhado onde o professor regista aquilo que consumiu.
Alguém na Câmara de Gondomar esqueceu-se que tinha de emitir cartões para os professores e que as aulas começavam em Setembro. Fizeram para os alunos e mesmo assim chegaram mesmo em cima da hora.
Deve ser a isto que chamam municipalização da educação.
Ao menos, salva-se a forma como a Câmara protege os alunos na saída das escolas – as passadeiras devem ser sagradas. Ou se calhar não…

Feliz Dia da Visibilidade Bi!

Hoje é um dia muito importante para mim e para todas as pessoas bi, sejam estas mulheres, homens, pessoas não-binárias, mulheres e homens trans.

O Dia da Visibilidade Bi é um dia de luta e conquistas que poucos querem ouvir falar ou se lembram que existe. Eu lembro-me, não só hoje, como todos os dias. Lembro-me porque nem todas as conquistas foram devidamente alcançadas, principalmente, o acesso ao trabalho e à habitação, bem como a desconstrução de preconceitos e de estigma que as pessoas bi vivem diariamente, no seio das suas famílias, amigos, conhecidos, escola, trabalho e da sociedade em geral. Ainda há pessoas que pensam que a bissexualidade é uma fase ou que é uma questão flexível de escolha entre um género binário. Não é.

Nos dias de hoje, em que celebro alegremente a minha sexualidade, sentada no banco de privilégio de mulher branca e bissexual, dou por mim a pensar na quantidade de pessoas que não têm um espaço seguro para afirmar ou assumir a sua identidade e orientação sexual. Penso na quantidade de países em que a homossexualidade é crime e, portanto, ilegal. Penso nos/nas jovens que são excluídos, humilhados, perseguidos e inferiorizados pelas próprias famílias, quando assumem a sua sexualidade. 

O caminho da desconstrução ainda é longo e moroso. E até lá, lutarei ao lado de todas as pessoas que querem fazer esta batalha de desconstruir-se e desconstruir o mundo.

Feliz Dia da Visibilidade Bi!

Custo por aluno e os sonhos húmidos dos liberais

O Ministro da Educação comunicou ao país que, de acordo com cálculos do Ministério, o custo por aluno na escolas públicas teve um “brutal aumento”. Ainda acrescentou que isso se devia ao facto de haver mais funcionários e mais docentes (o que estará muito longe da verdade) e de ter havido descongelamento de carreiras, levando a que mais professores tenham chegado ao topo de carreira. Passados alguns dias, o Ministério ainda explicou que o custo por aluno foi alcançado graças a uma conta muito simples (simplista, diria eu): divide-se o orçamento do Ministério pelo número de alunos.

O mundo liberal português, imediatamente, veio logo gritar pelas virtudes do privado, onde o custo será inferior. Pelo meio, lá reapareceram os mitos do cheque-ensino e da liberdade de escolha (como se os colégios obcecados pelos rankings deixassem entrar qualquer aluno, independentemente da quantia). Noutros tempos, coube a Carlos Guimarães Pinto fazer figuras tristes. Desta vez, foi Rui Rocha (mais um da madrassa Insurgente) a disparatar.

Vamos, por momentos, imaginar que o aluno da escola pública fica mais caro que o de qualquer escola privada. Esse dado, só por si, não chega e permitir-nos-ia dizer disparates de natureza contrária ao dos liberais, como, por exemplo, que, por vezes, é preciso gastar mais dinheiro para que um produto tenha mais qualidade. Também poderíamos dizer que o barato sai caro (se nos lembrarmos de que alguns colégios preparam os alunos para exames, sem se preocuparem com a formação integral de cidadãos, a crítica até faz sentido).

Nada de novo ou de especialmente importante, mas as seitas, de vez em quando, fazem prova de vida e, normalmente, fazem-no insistindo em disparates.

O *censo, o senso e o sentido: matéria para reflexão (reflictamos)

I asked one of these girls once what she found so attractive about J.D., and she told me it was his terrific sense of humor: something he’d lost track of this particular night.
Sam Shepard, Cruising Paradise

***

A minha resposta imediata e sem filtros a esta pergunta

é muito simples: nem uma coisa (senso), nem outra (*censo).

Repito: nem uma coisa (senso), nem outra (*censo).

Procuremos sentido.

Ei-lo: em alemão, em inglês, em espanhol, em italiano, em francês e em grego (ainda) não há dados nem em neerlandês, nem em tétum, nem em chinês.

Houve senso? Há senso? Claro que não houve senso, claro que não há senso.

O multilinguismo (há vida além do inglês, fyi) é maravilhoso, sim, mas também extremamente útil para pôr determinados pontos nos ii.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

“Ser queer e lutar contra o conservadorismo”: Uma reflexão sobre os encarregados de educação que não deixam os seus educandos evoluir

Miguel Máximo

Ser queer é uma luta constante, uma luta que só as pessoas da comunidade vivem intensamente, um sentimento único que nos empodera e, no seu sentido mais lato, uma palavra que agrega uma ampla comunidade de identidades não-cisheteronormativas e uma palavra que nós tentamos reescrever o seu sentido outrora pejorativo e discriminatório.

Atualmente, queer é uma palavra inclusiva e não exclui, não ofende, não desrespeita, não violenta nem mata quem faz parte da comunidade, mas há quem fora dela tente constantemente relembrar o seu passado e tentar alterar o seu futuro.

Viver num país de desinformação e de preconceito (dois aspetos que ainda vivem intrínsecos nas vidas de uma grande porção da população em Portugal, mas não na sua totalidade) em volta da questão queer é criar o caos e impulsionar o desrespeito, a violência e a discriminação desmedidos.

O respeito, a compaixão e a coexistência entre indivíduos de diferentes sexualidades e diferentes expressões e identidades de género tem de ser ensinados em casa e em espaço escolar desde o início e não podemos dar-nos ao luxo de continuar a ignorar a questão e a fugir sempre que o assunto vem à tona. [Read more…]

Parabéns, Zeca

Fotografia: DR.

92 anos de um Mestre.
Parabéns, pá! Fazes-nos cá muita falta.

«Daqui fala o monopólio
Daqui fala o capital
Diga cá senhor ministro
Quanto custa Portugal?»

O novo “normal”

As alterações climáticas e os fenómenos naturais extremos, como as cheias na Alemanha, Itália e na China, as ondas de calor no Canadá e nos Estados Unidos que chegaram a atingir temperaturas de 50°C e a provocar milhares de incêndios, têm-se multiplicado à escala global, deixando clara a necessidade da emergência climática e de um plano mundial para a efectiva redução das emissões dos gases de efeito de estufa, da protecção, conservação e recuperação dos ecossistemas terrestres, aquáticos e espécies animais, bem como da transição para modelos ecológicos e sustentáveis que protejam todos os seres existentes na Terra e nos preparem para lidar com fenómenos naturais adversos.

“A década de 2011 a 2020 foi a mais quente que alguma vez se registou, tendo a temperatura média mundial atingido, em 2019, 1,1 °C acima dos níveis pré-industriais. O aquecimento global induzido pelo homem aumenta atualmente à taxa de 0,2 °C por década.” Citado do texto sobre o aquecimento global, no site oficial da União Europeia.
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A Culpabilização da Vítima

Mariana Seabra da Silva

Em pleno ano de dois mil e vinte e um, ainda se ouve muitas pessoas a proferir que a violação acontece fruto de acções, comportamentos ou caraterísticas específicas da vítima. É impressionante que, mesmo quando os indivíduos se deparam com uma quantidade abismal de casos de violação no mundo, no país vizinho e no próprio país, ainda hajam pessoas a culpabilizar o sucedido pelos sujeitos que passam pelo próprio trauma sexual.

Até quando vamos continuar a culpabilizar a vítima por ter sofrido de assédio, violação ou trauma sexual? Já não basta que as vítimas tenham de lidar com a própria experiência traumática, por si só? Ou a sociedade também tem de cair sobre os ombros das mesmas, dizendo-lhes que as responsáveis por aquilo ter acontecido são elas?

Até quando vamos continuar a contribuir para um discurso que perpetua as diferenças e violência de género, a violência doméstica e no namoro? Até quando?

A violação não é culpa da vítima, é de quem viola. A violação não acontece pela forma como a vítima fala ou veste, se tem mais ou menos tecido no corpo. A violação é um atentado aos Direitos Humanos, é um boicote à Liberdade e à Dignidade Humana.

Empenhemo-nos na mudança dos discursos sociais em casa, no café, com amigos, colegas de trabalho, familiares e simples civis que se encontram no passeio, principalmente no que respeita ao fenómeno da violação. Empenhemo-nos em educar os homens e as mulheres da sociedade para que a violação não seja vista como algo normal e justificável. Empenhemo-nos em consciencializar as crianças e jovens, adultos e idosos, que o consentimento é chave principal para o respeito da vontade de cada um, aceitação e empatia pelo outro. Passar a mensagem de que precisamos de saber como o outro pensa e sente, os seus limites e barreiras, para sabermos o nosso lugar.

Por isso, espero que aprendamos a conhecer melhor o nosso lugar no mundo.

Educação e SONAE ou a arte de desconversar

Com grande pompa, a SONAE passou a semana a desconversar sobre Educação.

Usando do sensacionalismo próprio dos maus autores, anunciou uma espécie de Toda a Verdade Sobre, a fazer lembrar, por exemplo, o recente desplante de José Gomes Ferreira, o autoproclamado melhor – ou mesmo único – historiador português.

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um, por assim dizer, estudo sobre o impacto do professor nas aprendizagens do aluno. E concluiu que os melhores professores têm um impacto mais positivo do que os maus, o que só está, efectivamente, ao alcance de mentes com quociente de inteligência estratosférico. Num vídeo, Manuel Carvalho, funcionário da SONAE, mostra-se entusiasmado com esta descoberta.

Basta ler a primeira página do estudo, para perceber que estamos diante de uma manifestação de preguiça, sendo que conseguem descobrir quem são os melhores professores com base no resultado de provas de aferição e de exames nacionais, ignorando (porque daria trabalho) um conjunto interminável de factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos (que, só por si, é uma expressão dúbia que os tudólogos pagos por fundações reduzem a classificações, neste caso, de provas externas). O Paulo Guinote publicou hoje uma crítica fundamentada ao estudo. [Read more…]

11 anos sem Saramago

José Saramago. O prémio Nobel da Literatura faleceu em 2010.

«Já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder. Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda.»

José Saramago, 2007

Os pesos e as medidas

Chamar “homossexual” é um insulto? Isso pressupõe que ser homossexual seja insultuoso. Para quem? Para um homofóbico?

O gajo ouve “filho da p***” todos os jogos e faz queixa por ofenderem a mãe? Eu sou homossexual, e se alguém, na rua, me gritar “gaaaaaay!” eu grito “pois sou!”… onde está o insulto? [Read more…]

O extraordinário caso do *externado com notas *inflaccionadas

Duh-dih-dih-dah-duh-dah-duh-dih-dah-dah-dah-dah.
Flea

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Trata-se de um caso extraordinário, extremamente curioso e, como outros, merecedor de distinção. Mesmo assim, cá entre nós, prefira-se *inflaccionadas a *inspeção (aliás, entre *inspeção e *externado, venha o diabo e escolha). Há razões que explicam a hipercorrecção *inflaccionadas. Nada explica *inspeção. Nada.

Os *fatos também têm explicação.

Continuação de uma óptima semana.

Nótula: João Mendes, obrigado pela notícia.

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Ensino Privado: E novidades?….

Nos últimos dias a publicação de um suposto “ranking” das escolas deu, como sempre, que falar. Nestas alturas e perante este tipo de rankings estilo “produto do ano” ou “escolha do consumidor” ou “Best European destination” lembro-me sempre da notícia do Jornal de Notícias sobre os resultados nas universidades dos estudantes oriundos do ensino privado.

O estudo em causa, que comparou os resultados de 1700 alunos que frequentaram a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) entre 2007 e 2014, foi realizado por uma investigadora do CINTESIS. Não sei se existem estudos mais recentes. Tenho dúvidas que os resultados fossem muito diferentes.

WASP e HNEWME

«White, Anglo-Saxon and Protestant» (WASP) e «homogenous, North European, white, male, and elite». Homogenous, homogeneous

Duas inofensivas reflexões linguísticas acerca de Sócrates

By chance I met this same wine again, lunching with my wine merchant in St James’s Street, in the first autumn of the war; it had softened and faded in the intervening years, but it still spoke in the pure, authentic accent of its prime, the same words of hope.
Evelyn Waugh, “Brideshead Revisited

But was there more to Socrates’s attitude to Sparta than vague and general admiration from afar?
Paul Cartledge

Foto: Anadolu Agency/Getty Images (https://bit.ly/2PPQwv6)

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Provavelmente, em português actual, nunca teremos visto nem o singular *Sócrate (como ‘Socrate‘, em francês), nem o plural *Sócrateses. Provavelmente, repito. E isto vale quer para Sócrates com ‘S’ inicial e ‘s’ final, quer para Sócrates com sigma inicial (Σ) e sigma final (ς). Ora, sabendo que o plural Sócrates corresponde ao singular Sócrates e nunca a *Sócrate e que ao singular Sócrates corresponde o plural Sócrates, também sabemos que o plural lápis corresponde ao singular lápis e não a *lápi e que (para falantes de português europeu de Lisboa e arredores, pois eu digo ‘sapatilhas’) o plural ténis corresponde ao singular ténis e não a *téni (como já ouvi, por hipercorrecção).

A expressão, em inglês, através do “s’ genitive”, de uma relação possessiva em que Sócrates é o possuidor faz-se através de Sócrates’s e não através nem de *Sócrate‘s, nem de *Sócrates’, como se aprende quer nas melhores escolas e afins, quer numa ida a Londres (e.g., St. James’s Park).

Muito bem, Mendes. Muito bem, Maio.

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A tudologia dos economistas ou os pedagogos de sofá

Há anos que é isto: se o tema for Educação, toda a gente sabe tanto ou mais do que os professores. Em Educação, não há leigos. A haver, são, na prática, os professores. No futebol, temos os treinadores de bancada; na Educação, os pedagogos de sofá.

Entre este tipo de pedagogos, avultam os economistas, porque não há assunto que lhes escape, numa arrogância extraordinária que vai da esquerda à direita. Há uns anos, tive uma polémica com Carlos Guimarães Pinto, a propósito de um capítulo de um livro em que os autores explicavam ao mundo tudo o que sabiam sobre Educação. Nessa polémica, sobressaiu a ignorância atrevida de quem cultiva uma ciência social que se arroga o direito exclusivo de explicar tudo o que existe no mundo.

Recentemente, alguns, vindos da esquerda, desprezando a questão sanitária, descobriram a existência de assimetrias enormes na vida dos estudantes, que o ensino à distância iria fazer sobressair os efeitos que as desigualdades sociais têm sobre as aprendizagens – e a vida, senhores, a vida – dos alunos. As escolas deveriam ficar abertas, mesmo aumentando o risco de contaminação da sociedade, para resolver esse problema. Mais uma vez, a Escola é vista como um paliativo para um problema que os pedagogos de sofá descobriram quando apareceu o ensino à distância. Entretanto, os professores têm sido obrigados a lidar (que é diferente de resolver) com esses problemas, enquanto a tutela despeja nas escolas decisões que só atrapalham, como a manutenção de um número exagerado de alunos por turma ou o eterno adiamento acerca de decisões fundamentais sobre o acesso ao Ensino Superior, entre muita outra tralha. [Read more…]

Uma besta é uma besta é uma besta

Ao que parece (acreditando nas fontes) o menino que escreveu e publicou isto é filho do dono da Luís Simões. É a prova provada que o dinheiro não dá educação.

Pelo fim das vagas no acesso ao 5.º e 7.º escalão da Carreira Docente

Imaginem que um professor anuncia aos alunos, no início do ano, que só será possível dar vinte valores a dois deles e que, caso haja um terceiro, haverá um critério que obrigará a baixar uma das notas.

Já se sabe que as probabilidades de haver notas máximas é sempre mais baixa, mas não há avaliação justa sem que haja a possibilidade de dar a nota máxima a todos os alunos.

Há vários anos, o Ministério da Educação criou um simulacro de avaliação com o único objectivo de impedir que a maior parte dos professores chegasse ao topo de carreira, criando estrangulamentos na entrada para os quinto e sétimo escalões. Na prática, o Ministério faz aos professores aquilo que os professores nunca podem fazer aos alunos. Acrescente-se, ainda, que muitos dos professores que estão nesses escalões gastam mais em deslocações ou alojamento, ganhando menos, servindo o público e financiando o patrão. [Read more…]

Notas sobre o recomeço das aulas

O governo falhou. O fechamento das escolas sempre foi uma possibilidade muito forte. A preparação deveria ter começado aquando do primeiro confinamento, mas o que interessa é adiar, empurrar com a barriga, prometer computadores esperando que não seja preciso entregá-los (o conselho de ministros reuniu na quinta-feira para aprovar a despesa para aquisição de computadores para alunos que começam as aulas hoje) . As salas de aula poderiam estar verdadeiramente preparadas para um sistema misto, com alguns alunos em casa e outros nas escolas, mas não estão.

 

 

Alguns iluminados descobriram que o fecho das escolas aprofunda as desigualdades sociais. Pois aprofunda. Como de costume, esses iluminados tentam explicar aos habituais ignorantes de tudo: os professores. Os professores sabem isso muito bem. Os professores até sabem que a condição sociocultural e/ou socioeconómica dos alunos tem um peso brutal no seu rendimento, havendo crianças que entram no Primeiro Ciclo com limitações vocabulares e, portanto, cognitivas, brutais. Os professores, por várias razões, conhecem a vida de muitos alunos que vivem privados de comida, de afecto e de acompanhamento. Os professores até sabem que as férias, para alguns alunos, são uma tortura. As escolas, na verdade, disfarçam como podem todas essas insuficiências, até porque estão transformadas em mecanismo de compensação das enormes insuficiências de uma polícia social para a juventude.

E enquanto os governos sobrecarregam as escolas, tiram-lhes condições, aumentando o número de alunos por turma, entre outras estratégias que servem apenas para baixar a despesa, mas não para ajudar os alunos.

 

 

O ensino à distância não serve para substituir o ensino presencial, por variadíssimas razões, sendo a mais importante a necessidade de contacto humano. Os professores, de uma maneira geral, no primeiro confinamento, conseguiram fazer o melhor possível, com erros, insuficiências e exageros, aprendendo, experimentando e arriscando. É preciso fazer algo muito evidente: confiar nos professores.

 

 

Convém não esquecer que os professores são os principais financiadores do próprio patrão. Para além dos impostos que pagam, é do próprio bolso que saem as despesas com transportes, alojamento e, até, formação. O material de trabalho dos professores também não é fornecido pelo patrão: da caneta ao computador, é tudo pago pelos trabalhadores. O que de bom se conseguiu fazer durante o primeiro confinamento assentou na propriedade pessoal dos professores, o que, de resto, é costume e, curiosamente, nunca fez parte das reivindicações sindicais. Se os professores não tivessem investido em material informático, o sistema de ensino à distância não existiria. Também por isso, a sociedade deve agradecer, como se agradece a um amigo que nos dá boleia porque tem carro, mas não tem obrigação de nos dar boleia.

 

 

É possível ensinar à distância, mesmo que não seja desejável, mesmo que não seja fácil e mesmo que uma circunstância indesejada não seja suficiente para criar um novo paradigma. O novo paradigma só fará sentido se resultar de uma reflexão. O futuro próximo, esperemos que sem pandemia, poderá incluir a possibilidade de apoiar alunos que, por alguma razão, seja impedido de frequentar as aulas presencialmente, entre outras possibilidades.

 

 

Aprender à distância também é possível e há quem tenha conseguido, graças a um esforço enorme de quem quer aprender e de quem quer que os alunos aprendam. Isso: esforço.

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

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Carta aberta ao Governo de um grupo de professores bloggers com pedido para que seja cumprido o estipulado no Plano de Ação para a Transição Digital, de modo a que os docentes tenham condições para trabalhar a partir de casa. 

 

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

Para ler este conteúdo de forma completa, é favor visitar o blogue Correntes.

 

Fechar as escolas

Fechar as escolas é péssimo. Não fechar ainda é pior.

Fechar as escolas?

Os professores

(esses madraços ignorantes, como ainda recentemente demonstrei)

sabem que não há nada melhor do que o ensino presencial. Apesar de serem professores

(e, portanto, pessoas que não percebem nada de escolas, de Educação, de alunos e que têm uma visão limitadíssima da sociedade, porque não fazem a mínima ideia dos problemas familiares, sociais e pessoais dos alunos, esses números em forma de pessoa, e porque só falam com professores),

sabem que o Ministério da Educação não aproveitou o Verão para preparar os vários cenários para o ensino – as salas de aula não estão preparadas, por exemplo, para se darem aulas à distância (nos muitos casos de alunos ou turmas em isolamento); o número de alunos por turma manteve-se igual, não permitindo o distanciamento mínimo aconselhado pela DGS; os computadores para os alunos chegaram tarde e más horas.

Os professores sabem

(mas quem são eles para saber seja o que for, não é?)

que o confinamento dos alunos aprofundará as desigualdades, como tive o atrevimento de afirmar, a propósito de um agradecimento dispensável. [Read more…]