A Culpabilização da Vítima

Mariana Seabra da Silva

Exemplo de culpabilização das vítimas. Neste caso, pela violência física exercida sobre terceiros, por questões de homofobia.

Em pleno ano de dois mil e vinte e um, ainda se ouve muita gente proferir que a violação acontece fruto de acções, comportamentos ou caraterísticas específicas da vítima. É impressionante que, mesmo quando os indivíduos se deparam com uma quantidade abismal de casos de violação no mundo, no país vizinho e no próprio país, ainda haja quem culpabilize aqueles e aquelas que passam pelo próprio trauma sexual.

Até quando vamos continuar a apontar o dedo à vítima por ter sofrido de assédio, violação ou trauma sexual? Já não basta que estas tenham de lidar com a própria experiência traumática, por si só? Ou a sociedade também tem de cair sobre os ombros das mesmas, dizendo-lhes que as responsáveis por aquilo ter acontecido são elas? Até quando vamos continuar a contribuir para um discurso que perpetua as diferenças e a violência de género, a violência doméstica e no namoro? Até quando? A violação não é culpa da vítima, é culpa do violador. A violação não acontece pela forma como a vítima fala ou veste, se tem mais ou menos tecido no corpo. A violação é um atentado aos Direitos Humanos, é um boicote à Liberdade e à Dignidade Humana.

Empenhemo-nos na mudança dos discursos sociais em casa, no café, com amigos, colegas de trabalho, familiares ou com civis que se cruzem connosco diariamente, principalmente no que respeita ao fenómeno da violação. Empenhemo-nos em educar os homens e as mulheres da sociedade para que a violação não seja vista como algo normal e justificável. Empenhemo-nos em consciencializar as crianças e jovens, adultos e idosos, que o consentimento é a chave principal para o respeito da vontade de cada um, aceitação e empatia pelo ‘outro’. Passar a mensagem de que precisamos de saber como o outro pensa e sente, os seus limites e barreiras, para sabermos o nosso lugar.

Por isso, espero que aprendamos a conhecer melhor o ‘outro’, para podermos aprender o nosso lugar no mundo.

Educação e SONAE ou a arte de desconversar

Com grande pompa, a SONAE passou a semana a desconversar sobre Educação.

Usando do sensacionalismo próprio dos maus autores, anunciou uma espécie de Toda a Verdade Sobre, a fazer lembrar, por exemplo, o recente desplante de José Gomes Ferreira, o autoproclamado melhor – ou mesmo único – historiador português.

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um, por assim dizer, estudo sobre o impacto do professor nas aprendizagens do aluno. E concluiu que os melhores professores têm um impacto mais positivo do que os maus, o que só está, efectivamente, ao alcance de mentes com quociente de inteligência estratosférico. Num vídeo, Manuel Carvalho, funcionário da SONAE, mostra-se entusiasmado com esta descoberta.

Basta ler a primeira página do estudo, para perceber que estamos diante de uma manifestação de preguiça, sendo que conseguem descobrir quem são os melhores professores com base no resultado de provas de aferição e de exames nacionais, ignorando (porque daria trabalho) um conjunto interminável de factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos (que, só por si, é uma expressão dúbia que os tudólogos pagos por fundações reduzem a classificações, neste caso, de provas externas). O Paulo Guinote publicou hoje uma crítica fundamentada ao estudo. [Read more…]

11 anos sem Saramago

José Saramago. O prémio Nobel da Literatura faleceu em 2010.

«Já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder. Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda.»

José Saramago, 2007

Os pesos e as medidas

Chamar “homossexual” é um insulto? Isso pressupõe que ser homossexual seja insultuoso. Para quem? Para um homofóbico?

O gajo ouve “filho da p***” todos os jogos e faz queixa por ofenderem a mãe? Eu sou homossexual, e se alguém, na rua, me gritar “gaaaaaay!” eu grito “pois sou!”… onde está o insulto? [Read more…]

O extraordinário caso do *externado com notas *inflaccionadas

Duh-dih-dih-dah-duh-dah-duh-dih-dah-dah-dah-dah.
Flea

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Trata-se de um caso extraordinário, extremamente curioso e, como outros, merecedor de distinção. Mesmo assim, cá entre nós, prefira-se *inflaccionadas a *inspeção (aliás, entre *inspeção e *externado, venha o diabo e escolha). Há razões que explicam a hipercorrecção *inflaccionadas. Nada explica *inspeção. Nada.

Os *fatos também têm explicação.

Continuação de uma óptima semana.

Nótula: João Mendes, obrigado pela notícia.

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Ensino Privado: E novidades?….

Nos últimos dias a publicação de um suposto “ranking” das escolas deu, como sempre, que falar. Nestas alturas e perante este tipo de rankings estilo “produto do ano” ou “escolha do consumidor” ou “Best European destination” lembro-me sempre da notícia do Jornal de Notícias sobre os resultados nas universidades dos estudantes oriundos do ensino privado.

O estudo em causa, que comparou os resultados de 1700 alunos que frequentaram a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) entre 2007 e 2014, foi realizado por uma investigadora do CINTESIS. Não sei se existem estudos mais recentes. Tenho dúvidas que os resultados fossem muito diferentes.

WASP e HNEWME

«White, Anglo-Saxon and Protestant» (WASP) e «homogenous, North European, white, male, and elite». Homogenous, homogeneous

Duas inofensivas reflexões linguísticas acerca de Sócrates

By chance I met this same wine again, lunching with my wine merchant in St James’s Street, in the first autumn of the war; it had softened and faded in the intervening years, but it still spoke in the pure, authentic accent of its prime, the same words of hope.
Evelyn Waugh, “Brideshead Revisited

But was there more to Socrates’s attitude to Sparta than vague and general admiration from afar?
Paul Cartledge

Foto: Anadolu Agency/Getty Images (https://bit.ly/2PPQwv6)

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Provavelmente, em português actual, nunca teremos visto nem o singular *Sócrate (como ‘Socrate‘, em francês), nem o plural *Sócrateses. Provavelmente, repito. E isto vale quer para Sócrates com ‘S’ inicial e ‘s’ final, quer para Sócrates com sigma inicial (Σ) e sigma final (ς). Ora, sabendo que o plural Sócrates corresponde ao singular Sócrates e nunca a *Sócrate e que ao singular Sócrates corresponde o plural Sócrates, também sabemos que o plural lápis corresponde ao singular lápis e não a *lápi e que (para falantes de português europeu de Lisboa e arredores, pois eu digo ‘sapatilhas’) o plural ténis corresponde ao singular ténis e não a *téni (como já ouvi, por hipercorrecção).

A expressão, em inglês, através do “s’ genitive”, de uma relação possessiva em que Sócrates é o possuidor faz-se através de Sócrates’s e não através nem de *Sócrate‘s, nem de *Sócrates’, como se aprende quer nas melhores escolas e afins, quer numa ida a Londres (e.g., St. James’s Park).

Muito bem, Mendes. Muito bem, Maio.

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A tudologia dos economistas ou os pedagogos de sofá

Há anos que é isto: se o tema for Educação, toda a gente sabe tanto ou mais do que os professores. Em Educação, não há leigos. A haver, são, na prática, os professores. No futebol, temos os treinadores de bancada; na Educação, os pedagogos de sofá.

Entre este tipo de pedagogos, avultam os economistas, porque não há assunto que lhes escape, numa arrogância extraordinária que vai da esquerda à direita. Há uns anos, tive uma polémica com Carlos Guimarães Pinto, a propósito de um capítulo de um livro em que os autores explicavam ao mundo tudo o que sabiam sobre Educação. Nessa polémica, sobressaiu a ignorância atrevida de quem cultiva uma ciência social que se arroga o direito exclusivo de explicar tudo o que existe no mundo.

Recentemente, alguns, vindos da esquerda, desprezando a questão sanitária, descobriram a existência de assimetrias enormes na vida dos estudantes, que o ensino à distância iria fazer sobressair os efeitos que as desigualdades sociais têm sobre as aprendizagens – e a vida, senhores, a vida – dos alunos. As escolas deveriam ficar abertas, mesmo aumentando o risco de contaminação da sociedade, para resolver esse problema. Mais uma vez, a Escola é vista como um paliativo para um problema que os pedagogos de sofá descobriram quando apareceu o ensino à distância. Entretanto, os professores têm sido obrigados a lidar (que é diferente de resolver) com esses problemas, enquanto a tutela despeja nas escolas decisões que só atrapalham, como a manutenção de um número exagerado de alunos por turma ou o eterno adiamento acerca de decisões fundamentais sobre o acesso ao Ensino Superior, entre muita outra tralha. [Read more…]

Uma besta é uma besta é uma besta

Ao que parece (acreditando nas fontes) o menino que escreveu e publicou isto é filho do dono da Luís Simões. É a prova provada que o dinheiro não dá educação.

Pelo fim das vagas no acesso ao 5.º e 7.º escalão da Carreira Docente

Imaginem que um professor anuncia aos alunos, no início do ano, que só será possível dar vinte valores a dois deles e que, caso haja um terceiro, haverá um critério que obrigará a baixar uma das notas.

Já se sabe que as probabilidades de haver notas máximas é sempre mais baixa, mas não há avaliação justa sem que haja a possibilidade de dar a nota máxima a todos os alunos.

Há vários anos, o Ministério da Educação criou um simulacro de avaliação com o único objectivo de impedir que a maior parte dos professores chegasse ao topo de carreira, criando estrangulamentos na entrada para os quinto e sétimo escalões. Na prática, o Ministério faz aos professores aquilo que os professores nunca podem fazer aos alunos. Acrescente-se, ainda, que muitos dos professores que estão nesses escalões gastam mais em deslocações ou alojamento, ganhando menos, servindo o público e financiando o patrão. [Read more…]

Notas sobre o recomeço das aulas

O governo falhou. O fechamento das escolas sempre foi uma possibilidade muito forte. A preparação deveria ter começado aquando do primeiro confinamento, mas o que interessa é adiar, empurrar com a barriga, prometer computadores esperando que não seja preciso entregá-los (o conselho de ministros reuniu na quinta-feira para aprovar a despesa para aquisição de computadores para alunos que começam as aulas hoje) . As salas de aula poderiam estar verdadeiramente preparadas para um sistema misto, com alguns alunos em casa e outros nas escolas, mas não estão.

 

 

Alguns iluminados descobriram que o fecho das escolas aprofunda as desigualdades sociais. Pois aprofunda. Como de costume, esses iluminados tentam explicar aos habituais ignorantes de tudo: os professores. Os professores sabem isso muito bem. Os professores até sabem que a condição sociocultural e/ou socioeconómica dos alunos tem um peso brutal no seu rendimento, havendo crianças que entram no Primeiro Ciclo com limitações vocabulares e, portanto, cognitivas, brutais. Os professores, por várias razões, conhecem a vida de muitos alunos que vivem privados de comida, de afecto e de acompanhamento. Os professores até sabem que as férias, para alguns alunos, são uma tortura. As escolas, na verdade, disfarçam como podem todas essas insuficiências, até porque estão transformadas em mecanismo de compensação das enormes insuficiências de uma polícia social para a juventude.

E enquanto os governos sobrecarregam as escolas, tiram-lhes condições, aumentando o número de alunos por turma, entre outras estratégias que servem apenas para baixar a despesa, mas não para ajudar os alunos.

 

 

O ensino à distância não serve para substituir o ensino presencial, por variadíssimas razões, sendo a mais importante a necessidade de contacto humano. Os professores, de uma maneira geral, no primeiro confinamento, conseguiram fazer o melhor possível, com erros, insuficiências e exageros, aprendendo, experimentando e arriscando. É preciso fazer algo muito evidente: confiar nos professores.

 

 

Convém não esquecer que os professores são os principais financiadores do próprio patrão. Para além dos impostos que pagam, é do próprio bolso que saem as despesas com transportes, alojamento e, até, formação. O material de trabalho dos professores também não é fornecido pelo patrão: da caneta ao computador, é tudo pago pelos trabalhadores. O que de bom se conseguiu fazer durante o primeiro confinamento assentou na propriedade pessoal dos professores, o que, de resto, é costume e, curiosamente, nunca fez parte das reivindicações sindicais. Se os professores não tivessem investido em material informático, o sistema de ensino à distância não existiria. Também por isso, a sociedade deve agradecer, como se agradece a um amigo que nos dá boleia porque tem carro, mas não tem obrigação de nos dar boleia.

 

 

É possível ensinar à distância, mesmo que não seja desejável, mesmo que não seja fácil e mesmo que uma circunstância indesejada não seja suficiente para criar um novo paradigma. O novo paradigma só fará sentido se resultar de uma reflexão. O futuro próximo, esperemos que sem pandemia, poderá incluir a possibilidade de apoiar alunos que, por alguma razão, seja impedido de frequentar as aulas presencialmente, entre outras possibilidades.

 

 

Aprender à distância também é possível e há quem tenha conseguido, graças a um esforço enorme de quem quer aprender e de quem quer que os alunos aprendam. Isso: esforço.

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

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Carta aberta ao Governo de um grupo de professores bloggers com pedido para que seja cumprido o estipulado no Plano de Ação para a Transição Digital, de modo a que os docentes tenham condições para trabalhar a partir de casa. 

 

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

Para ler este conteúdo de forma completa, é favor visitar o blogue Correntes.

 

Fechar as escolas

Fechar as escolas é péssimo. Não fechar ainda é pior.

Fechar as escolas?

Os professores

(esses madraços ignorantes, como ainda recentemente demonstrei)

sabem que não há nada melhor do que o ensino presencial. Apesar de serem professores

(e, portanto, pessoas que não percebem nada de escolas, de Educação, de alunos e que têm uma visão limitadíssima da sociedade, porque não fazem a mínima ideia dos problemas familiares, sociais e pessoais dos alunos, esses números em forma de pessoa, e porque só falam com professores),

sabem que o Ministério da Educação não aproveitou o Verão para preparar os vários cenários para o ensino – as salas de aula não estão preparadas, por exemplo, para se darem aulas à distância (nos muitos casos de alunos ou turmas em isolamento); o número de alunos por turma manteve-se igual, não permitindo o distanciamento mínimo aconselhado pela DGS; os computadores para os alunos chegaram tarde e más horas.

Os professores sabem

(mas quem são eles para saber seja o que for, não é?)

que o confinamento dos alunos aprofundará as desigualdades, como tive o atrevimento de afirmar, a propósito de um agradecimento dispensável. [Read more…]

Quem não quer ser milionário?

Segundo parece, não há candidatos suficientes para preencher as vagas dos cursos orientados para o Ensino. Por outro lado, há um grande número de professores no activo que se aproximam rapidamente da idade de reforma. Não deve faltar muito, portanto, para que as escolas voltem a ser inundadas por professores com habilitação suficiente, licenciados em Direito a leccionar História ou engenheiros a ensinar Matemática.

Pode haver quem considere que essa falta de formação inicial poderá afectar a qualidade da leccionação, mas a verdade é que faz sentido: num país em que toda a gente sabe mais de Educação do que os profissionais da área, por que carga de água é que um professor, o menos entendido na matéria, haveria de dar aulas?

A falta de candidatos ao Ensino, no entanto, espanta-me, porque os vários pedagogos de sofá que explicam Educação em todas as direcções sabem perfeitamente que os professores

  • não trabalham
  • recebem salários principescos

  • fazem greve, dia sim, dia não

Notai bem: se alguém não trabalha e é pago, já recebe demasiado. Além disso, não se pode falar bem em salário, já que quem é pago para não trabalhar recebe antes um subsídio. Como se isso não bastasse, os professores, que não trabalham, ainda estão sempre em greve, o que é extraordinário – muito provavelmente, reivindicam melhores condições para não trabalhar. [Read more…]

O confinamento e as escolas

Maurício Brito*
A ver se nos entendemos: o que deveria pesar mais do que qualquer outra coisa é o valor da vida humana. Não está em causa discutir o que é melhor para os alunos, para os pais ou para os professores pois é óbvio que o ensino presencial é insubstituível: para os alunos pelas mais variadas razões e em todos os planos, sejam eles pedagógicos ou sociais; para os pais por ser confortante por diversos motivos; e para os professores, porque sabem que o seu trabalho é incomparavelmente melhor se realizado presencialmente. Mas, volto a dizer, não deveria ser tudo isto a pesar mais numa decisão que, digam o que quiserem e sustentem-se nos estudos que encontrarem, não irá reduzir tão rapidamente o terrível quadro que assistimos neste momento. Irão circular cerca de, afinal, 2,5 milhões de portugueses nos próximos tempos apenas para chegar às escolas. Será necessário fazer um desenho a explicar que isto não faz sentido se o que se pretende é reduzir mais rapidamente uma propagação descontrolada, em que se desconhece a origem de 87% dos contágios e, consequentemente, evitar a perda de mais vidas? Já agora: há algum professor que considere efectivamente que a perda de 15 ou 30 dias de aulas presenciais vá provocar “danos irreversíveis” nas aprendizagens dos nossos alunos? A sério? Quantos alunos ou mesmo turmas inteiras já perderam esses dias de aulas (ou mais ainda) desde que o ano lectivo começou, devido a casos de contágios, quarentenas, outras doenças/lesões e coisas afins? Estes alunos todos estão “irremediavelmente” perdidos? Enfim.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Apesar de saber que assim que os “números” abaixarem e voltarem para “valores” mais aceitáveis, os mesmos que não cumpriram as promessas de providenciar meios a alunos, escolas e professores para o ensino à distância, virão cantar vitória, com os comprometidos de sempre da comunicação social a fazer eco do enorme feito. Independentemente das dezenas ou centenas de pessoas que vierem a falecer devido a uma desastrosa decisão.
*Professor

Quando um elogio é um insulto

João Miguel Tavares elogiou os professores. O Paulo Guinote já escreveu que dispensa certos elogios.

O combate às desigualdades sociais é muito complicado, especialmente quando as prioridades dos governos correspondem a outras áreas em que há fartura de desperdício de dinheiros públicos.

Essas desigualdades são especialmente revoltantes quando atingem crianças e jovens. São essas desigualdades que, se combatidas demasiado tarde, provocam atrasos culturais e mesmo cognitivos.

A Escola é, evidentemente, um das armas mais importantes desse combate. Por isso, retirar condições às escolas é criminoso – e os verdadeiros problemas continuam por resolver (número de alunos por turma, delírios curriculares, burocratização inútil do trabalho dos professores).

A dedicação de todos os que trabalham nas escolas é tão evidente e geral como frequentemente desvalorizada. E, na verdade, é nas escolas que muitos miúdos encontram pessoas que, fora da família, fazem alguma coisa por eles. As políticas sociais para a juventude assentam, então, em grande parte, na ausência do Estado e na presença da Escola. Acrescente-se que essa luta é feita, muitas vezes, para lá do que é imposto pela lei.

João Miguel Tavares e muitos outros opinadores chegam sempre a estes problemas com atraso ou acertam ao lado. Na maior parte dos casos, não querem saber. Como, de certo modo, já está instituído que as políticas sociais para a juventude se limita às escolas, o facto transformou-se em direito e passou a exigir-se às escolas que resolvam todos os problemas relacionados com a infância e com a juventude. [Read more…]

Um professor diz que “é a cereja no topo do bolo”

Efectivamente: «Setor diz que “é a cereja no topo do bolo” para acabar de vez com a atividade».

A directora do Agrupamento de Escolas Escultor Francisco dos Santos quer que os encarregados de educação tirem selfies:

«Solicito que se retrate, o que ainda não fez».

Ontem tivemos Cidadania

Começou ontem a disciplina de Cidadania, com a sua aula semanal de 50 minutos.
Procedemos à eleição do delegado de turma, ou seja, o representante dos alunos. Seguindo o princípio do voto secreto, ganhou o aluno que teve mais votos. A maioria, princípio basilar do sistema democrático.
No final, fizemos uma acta com o resultado e as incidências da votação.
Confirma-se. A disciplina de Cidadania é nociva para a juventude e subverte o papel dos agentes. Então não deviam ser os pais a explicar o que é uma acta e para que serve?
Atenção, muita atenção, o amish de Famalicão is watching you.
Cidadania. O drama, o horror…

O amish de Famalicão marcha para Lisboa

Há um amish em Famalicão que, enquanto encarregado de educação, tomou uma decisão radical: não deixar os seus educandos frequentar uma disciplina OBRIGATÓRIA do ensino básico.
Acho muito bem. Tão bem que decidi seguir-lhe o exemplo. Há uns dias, apanhei uma multa por circular a 130 km/hora na auto-estrada. Não vou pagar a multa. Porque acho que 130 km/hora numa auto-estrada é perfeitamente razoável. E tal como no caso do amish de Famalicão, sou eu que faço a lei e cumpro-a se quiser.
Inicialmente, não percebi o que o incomodava na disciplina de Educação para a Cidadania: É a igualdade de género? É a interculturalidade? É a sexualidade? É a participação democrática? É o bem-estar animal e o ambiente?
Acabei por perceber quando li sobre o assunto. Afinal, este católico radical, membro da Associação Portugueses das Famílias Numerosas, já em 2009 andava a lutar contra a educação sexual nas escolas; pouco depois, andou a recolher asinaturas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo; tem como advogado João Pacheco de Amorim, do Partido Pró-Vida (hoje integrado no Chega), cabeça de lista do Chega nas Legislativas e irmão de Diogo Pacheco de Amorim, ideólogo desse mesmo Chega; esteve recentemente a manifestar-se na Assembleia da República contra um eventual referendo à morte medicamente assistida; faz parte da Plataforma Resistência Nacional (o nome diz tudo). [Read more…]

O envelhecimento da classe docente

 

Vídeo encontrado no ComRegras

Ao meu aluno que passou hoje

Meu querido aluno,
Sei bem o que representa o ensino básico, objectivos gerais e não sei quê, mas queria dizer-te isto porque acho que há limites…
País e professores passam o ano inteiro a dizer-te, a ti que frequentas o ensino básico, que deves estudar muito se queres passar. Se não estudares, reprovas.
Olha que não é verdade. Em termos de avaliação, todo o ano lectivo é a maior mise-en-scéne que algum dia conhecerás.
Fica a saber que, estudes muito, pouco ou nada, o resultado será o mesmo. Mais uns níveis 4 ou 5, talvez, mas se te contentares com um 3, basta fazeres figura de corpo presente. Ou nem isso…
Não é o que te dizem, claro. “Estuda, vais ter negativa. Vais reprovar”.
Tretas. Os teus pais sabem que não é verdade. A menos que sejam burros.
Sabes, querido aluno, em algumas escolas os professores têm de fazer uma justificaçāo oficial quando dão menos de 96% de positivas. Numa turma de 20 alunos… é fazer as contas. [Read more…]

Número de alunos por turma: o arco da governação contra a Educação

Num país governado por gente civilizada, uma turma teria, no máximo, vinte alunos, tal como defendia o secretário de Estado João Grancho, até chegar ao governo, o mesmo governo que aumentou o número de alunos por turma, o mesmo governo dos cortes em nome da troika, dos mercados e de uma dívida pública sempre mal explicada (ou por explicar), o governo liderado por um Passos Coelho que ganhou eleições afiançando que não faria cortes ou que não aumentaria impostos.

(Haverá gente incivilizada – até entre comentadores habituais cá de casa – que dirá que até estudou em turmas de 40 alunos e conseguiu aprender e arranjar um bom emprego. São os mesmos que se orgulham de ter apanhado porrada de cinto do pai violento para defender que uns safanões de vez em quando nem fazem mal. É a miséria dos que não querem o melhor para os outros apenas porque não tiveram o melhor.)

Os governos de Costa, no que se refere à Educação, limitaram-se a um folclore que não tocou no essencial das políticas passistas, nomeadamente no que se refere à manutenção do número de alunos por turma. Há pouco, procederam a uma diminuição cosmética. O verdadeiro objectivo de Costa, no seguimento dos seus irmãos siameses Sócrates e Passos, é cortar na Educação – manter turmas grandes é uma maneira de não contratar mais professores (no tempo de Passos, serviu para despedir professores). [Read more…]

Reabrir as escolas: um mal desnecessário

Entre os entusiastas que passaram a acreditar que este momento de excepção até poderia passar a ser regra e os que defendiam que deveríamos ficar quietos sem fazer nada, a comunidade educativa foi conseguindo o possível, não sem problemas, nunca sem defeitos e com algumas virtudes. Problemas, defeitos e virtudes, todos aprofundados, curiosamente.

Neste momento, a proximidade social ainda acarreta demasiados riscos. Ainda assim, com muita prudência, será possível ir (re)pondo a economia a funcionar. Calculo que, na medida do possível, muitos profissionais irão manter o teletrabalho, minimizando riscos.

A reabertura das escolas só deveria acontecer se fosse absolutamente indispensável e há muitas razões para considerar que não é, mesmo nesta versão minimalista de limitar o acesso aos alunos com disciplina de exame. Por muitos cuidados que se tomem, o risco de propagação aumenta. Além disso, este regresso forçado resulta de um problema que continua por resolver: a subordinação do ensino básico e secundário à Universidade, devido a um sistema de acesso ao Ensino Superior que tarda em ser alterado.

O documento emanado do Ministério da Educação serve para demonstrar, mais uma vez, que se trata de uma instituição governada por pessoas fechadas em gabinetes que não sabem e não querem saber o que é a vida de uma escola, dando ordens que poderão ser difíceis ou impossíveis de cumprir. Seria o momento ideal para que encarregados de educação e/ou directores tomassem posições conjuntas, à semelhança do que já aconteceu com a Escola Secundária Camões.

Aqui ficam algumas leituras: [Read more…]

A segunda pessoa do plural

Disse-me que pusesse a mesa para dois mas o convidado do senhor engenheiro, a segunda pessoa, vai demorar muito tempo?
— António Lobo Antunes, “A Morte de Carlos Gardel

***

Em português, a segunda pessoa do plural tem tanta importância como as primeira, segunda e terceira do singular e as primeira e terceira do plural e esta realidade deve estar reflectida formalmente (ou seja, no ensino). O caso do padre Carlos Cabecinhas, abundantemente divulgado nas redes sociais, é uma prova daquilo que acabo de afirmar. Convém recordar a teoria dominante: a forma vós é “muito rara em Portugal e limitada a registos dialectais (sobretudo no Norte de Portugal), litúrgicos ou muito formais” e tem “géneros textuais específicos (oratória e textos religiosos)” (pdf). Isso não impede que, felizmente, haja quem defenda a “utilidade no ensino destas formas” — contudo, como veremos, o aspecto “textos históricos” para “os alunos (pelo menos os que seguem Humanidades)” aduzido por Ana Martins, sendo verdadeiro, é demasiado redutor. Já agora, no Brasil, a conversa é outra (pdf).

Quando me dizem que o vós caiu em desuso (pdf), servindo isso de justificação para não ser ensinado, por exemplo, a alunos de português língua estrangeira, instintivamente e, às vezes, admito, um pouco exaltado (ou seja, nem tecnicamente, nem pedagogicamente), alego ter exactamente o mesmo direito à vida que têm outros compatriotas meus, igualmente falantes de português, permanentes utilizadores de vocês (+ terceira pessoa do plural), pronunciadores de dez[ɔ]ito e c[o]mo (“é como queijo”), calçadores de ténis sempre dispostos a fechar as respectivas malas de viagem e os respectivos cacifos com cadeados. Tenho exactamente os mesmos direitos, apesar de pronunciar dez[o]ito (“tens dezoito anos”) ou c[u]mo (“são como divãs”) e de dizer sapatilhas ou aloquete e, para o caso em apreço (o único aqui relevante), recorrer frequentemente ao vós, tendo a minha infância e a dos meus amigos de infância sido fértil em “onde ides?” e “tende cuidado!” dos mais velhos.

E não estou sozinho: há mais meliantes que praticam algumas destas patifarias em português actual. Por exemplo, [Read more…]

Pelo cancelamento dos exames nacionais do Ensino Secundário

Ensinar e aprender em tempo de crise

Tomada de Posição do Conselho Pedagógico da Escola Secundária de Camões

23 de abril de 2020

SOBRE A REALIZAÇÃO DE EXAMES NACIONAIS NO ANO LETIVO 2019/2020

 

Considerando que:

  1. A evolução da pandemia, conhecida como COVID19, é incerta quer em termos globais, quer no caso específico de Portugal.
  2. O pico da doença poderá ainda não ter sido atingido e, que na presente situação, quaisquer previsões para um eventual regresso às atividades letivas presenciais são totalmente prematuras.
  3. As condições definidas para a realização dos exames do ensino secundário por parte do Sr. Primeiroministro visam exclusivamente fazer deles um instrumento de acesso ao ensino superior.
  4. O recomeço das aulas presenciais previsto para maio tem apenas como objetivo a preparação dos alunos para os referidos exames.
  5. Essas aulas poderão pôr em causa a saúde pública de toda a comunidade escolar, obrigando ao levantamento do processo de isolamento, e que expõe a comunidade escolar a riscos desnecessários e de consequências imprevisíveis. Destaca-se, para este efeito, o facto de os jovens, por serem particularmente assintomáticos, se tornarem vetores de transmissão de grande risco.
  6. O novo calendário de exames irá inevitavelmente condicionar o início do próximo ano letivo, que deveria começar atempadamente de forma a poderem ser recuperadas as aprendizagens que ficaram atrasadas no corrente ano letivo.

O Conselho Pedagógico da Escola Secundária de Camões decide:

  1. Exigir ao Ministério da Educação o cancelamento dos exames do ensino secundário.
  2. Solicitar ao Ministério da Educação, em coordenação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que elabore novas formas de acesso ao ensino superior válidas para o corrente ano letivo e que não passem pela ponderação de qualquer tipo de exames realizados em 2020.
  3. Divulgar o mais amplamente possível a resolução ora aprovada junto de escolas, organizações representativas da comunidade escolar e população em geral.

Críticas leva-as o vento

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[Anabela Laranjeira]

Hoje, por curiosidade, estive a ver as duas “aulas” para o 1ºCiclo na RTP Memória. Fui apanhando também, sem surpresa, a chuva de críticas às professoras que lá apareceram.
Concordo que, para actrizes, são bem canastronas, mas eu não faria melhor figura. Não sei que imagem têm vocês, os das críticas, da figurinha que fazem frente a câmaras.

O Matias viu comigo a professora Isa e gostou muito da história da Mosca Fosca; até já conhecia a história, e respondeu com ânimo às perguntas que ela ia fazendo. As crianças, em geral, identificam-se com a figura dos professores. Têm-lhes respeito e manifestam empatia, a empatia que vocês, os das críticas gratuitas a quem trabalha, não têm.

Li muitos comentários parvos por aqui, tenham juízo! A professora Isa não é contadora de histórias, também não é animadora de festas de anos, não critiquem a forma autêntica como se vestiu e como leu a história. Ela é isso mesmo, uma professora, não é a Xana Tok Tok! Mudem para o Canal Panda se querem mais ânimo amigos.
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Educação: proximidade à distância

[Rui Correia]

Tenho andado um bocadinho apreensivo com a utilização que vai sendo feita das videoconferências com alunos.

Estamos a atravessar um momento que representa uma grande oportunidade para colocar em prática aquilo que uns chamam Aprendizagem ou Pedagogia Diferenciada e outros chamam outras coisas, mas que significam a mesma preocupação:

a cada miúdo uma atenção especial. Particular. Única como ele.

Porque a aprendizagem remota pode aproximar-nos, muito humanamente, uns aos outros.

Há professores a dividir as suas turmas em grupos, multiplicando as videoconferências e a sua carga de trabalho, para poder dedicar mais tempo a cada aluno.

Aplaudo sonoramente essa dedicação e profissionalismo.

A ideia de replicar um modelo magistral, unidireccional, de ensino por videoconferência, ou seja, circunstâncias em que um fala e os outros escutam é, per se, uma prática pedagogicamente muito limitada e mortalmente aborrecida. Não deve ser repetida agora em vídeo.

A utilidade de uma aula não se mede por tudo quanto um professor faz, mas por tudo quanto os seus alunos produzem. [Read more…]