Exemplo a não seguir…


-Foi perguntado a António Costa, no final da apresentação das medidas de encarceramento, se no próximo domingo, por ser dia de eleições, seria aplicável a proibição de circulação entre concelhos. tendo o primeiro-ministro respondido que não, uma vez que os cidadãos têm direito de voto, mas também explicou que não poderá ser um universo significativo, uma vez que é obrigatório estar recenseado no local de residência, ainda que admita possam existir cidadãos que mudaram recentemente de residência e ainda não tenham conseguido actualizar a morada.
É do domínio público que o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, habita há vários anos em Cascais, mas está recenseado em Celorico de Basto.
Até podemos considerar que este facto não tem especial gravidade, mas não deixa de ser uma irregularidade cometida por um cidadão, que até pela função que exerce, deveria ser o primeiro a dar o exemplo…

Fechar as escolas?

Os professores

(esses madraços ignorantes, como ainda recentemente demonstrei)

sabem que não há nada melhor do que o ensino presencial. Apesar de serem professores

(e, portanto, pessoas que não percebem nada de escolas, de Educação, de alunos e que têm uma visão limitadíssima da sociedade, porque não fazem a mínima ideia dos problemas familiares, sociais e pessoais dos alunos, esses números em forma de pessoa, e porque só falam com professores),

sabem que o Ministério da Educação não aproveitou o Verão para preparar os vários cenários para o ensino – as salas de aula não estão preparadas, por exemplo, para se darem aulas à distância (nos muitos casos de alunos ou turmas em isolamento); o número de alunos por turma manteve-se igual, não permitindo o distanciamento mínimo aconselhado pela DGS; os computadores para os alunos chegaram tarde e más horas.

Os professores sabem

(mas quem são eles para saber seja o que for, não é?)

que o confinamento dos alunos aprofundará as desigualdades, como tive o atrevimento de afirmar, a propósito de um agradecimento dispensável. [Read more…]

Quem não quer ser milionário?

Segundo parece, não há candidatos suficientes para preencher as vagas dos cursos orientados para o Ensino. Por outro lado, há um grande número de professores no activo que se aproximam rapidamente da idade de reforma. Não deve faltar muito, portanto, para que as escolas voltem a ser inundadas por professores com habilitação suficiente, licenciados em Direito a leccionar História ou engenheiros a ensinar Matemática.

Pode haver quem considere que essa falta de formação inicial poderá afectar a qualidade da leccionação, mas a verdade é que faz sentido: num país em que toda a gente sabe mais de Educação do que os profissionais da área, por que carga de água é que um professor, o menos entendido na matéria, haveria de dar aulas?

A falta de candidatos ao Ensino, no entanto, espanta-me, porque os vários pedagogos de sofá que explicam Educação em todas as direcções sabem perfeitamente que os professores

  • não trabalham
  • recebem salários principescos

  • fazem greve, dia sim, dia não

Notai bem: se alguém não trabalha e é pago, já recebe demasiado. Além disso, não se pode falar bem em salário, já que quem é pago para não trabalhar recebe antes um subsídio. Como se isso não bastasse, os professores, que não trabalham, ainda estão sempre em greve, o que é extraordinário – muito provavelmente, reivindicam melhores condições para não trabalhar. [Read more…]

Ao cuidado do candidato Vitorino Silva (nótula suplementar)

A RTP Internacional retracta-se, mas de forma implícita, para que ninguém dê pela asneira.

Agora, sim, sete candidatos:

Continuo a não apoiar qualquer candidato.

André Ventura e Marine Le Pen, ou a arte de se afirmar defensor dos portugueses de bem e promover quem os persegue e ameaça de morte

Historicamente, França tem sido o principal ponto de chegada para centenas de milhares de emigrantes portugueses, desde a década de 60, quando fugiam da miséria imposta pelo regime salazarista. Estima-se que vivam no país cerca de meio milhão de portugueses e luso-descendentes, a maioria dos quais perfeitamente integrada, sem historial relevante de associação a problemas sociais ou criminalidade, que, não raras vezes, diz “presente” quando se trata de desempenhar as funções que os franceses não querem fazer, das limpezas à construção civil.

Estes portugueses, tão portugueses como qualquer português que habite em solo nacional, são, apesar das vicissitudes, portugueses orgulhosos e patriotas, que investem em Portugal, que constroem casa em Portugal, onde regressam após se reformarem, que geram milhões para o sector do turismo, do Algarve ao Alto Minho, e que transferem milhões de divisas para o seu pé de meia, num qualquer banco português. Apenas para dar alguns exemplos. [Read more…]

O confinamento e as escolas

Maurício Brito*
A ver se nos entendemos: o que deveria pesar mais do que qualquer outra coisa é o valor da vida humana. Não está em causa discutir o que é melhor para os alunos, para os pais ou para os professores pois é óbvio que o ensino presencial é insubstituível: para os alunos pelas mais variadas razões e em todos os planos, sejam eles pedagógicos ou sociais; para os pais por ser confortante por diversos motivos; e para os professores, porque sabem que o seu trabalho é incomparavelmente melhor se realizado presencialmente. Mas, volto a dizer, não deveria ser tudo isto a pesar mais numa decisão que, digam o que quiserem e sustentem-se nos estudos que encontrarem, não irá reduzir tão rapidamente o terrível quadro que assistimos neste momento. Irão circular cerca de, afinal, 2,5 milhões de portugueses nos próximos tempos apenas para chegar às escolas. Será necessário fazer um desenho a explicar que isto não faz sentido se o que se pretende é reduzir mais rapidamente uma propagação descontrolada, em que se desconhece a origem de 87% dos contágios e, consequentemente, evitar a perda de mais vidas? Já agora: há algum professor que considere efectivamente que a perda de 15 ou 30 dias de aulas presenciais vá provocar “danos irreversíveis” nas aprendizagens dos nossos alunos? A sério? Quantos alunos ou mesmo turmas inteiras já perderam esses dias de aulas (ou mais ainda) desde que o ano lectivo começou, devido a casos de contágios, quarentenas, outras doenças/lesões e coisas afins? Estes alunos todos estão “irremediavelmente” perdidos? Enfim.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Apesar de saber que assim que os “números” abaixarem e voltarem para “valores” mais aceitáveis, os mesmos que não cumpriram as promessas de providenciar meios a alunos, escolas e professores para o ensino à distância, virão cantar vitória, com os comprometidos de sempre da comunicação social a fazer eco do enorme feito. Independentemente das dezenas ou centenas de pessoas que vierem a falecer devido a uma desastrosa decisão.
*Professor

Com um desenho, ao nível da primária, para ver se se percebe (1)

De pouco vale decretar um confinamento rigoroso para depois ter as escolas a funcionarem como uma autoestrada de contágio.

Porque estarão os decisores políticos, que não serão alheios ao óbvio, em pára-arranque quanto a manter ou não as escolas abertas?

Não havendo explicações, resta-nos adivinhar, sendo a possibilidade de libertar os pais para trabalharem sem interrupções da prole uma provável explicação.

Questões mais do foro económico do que da saúde pública com que diariamente enchem as ondas hertzianas.

Ao cuidado do candidato Vitorino Silva

A RTP anuncia o debate com TODOS os candidatos. Todavia, o anúncio do debate com todos os candidatos só dá palco a seis candidatos e ao moderador. Os candidatos são sete.

Francamente, RTP, não havia necessidade.

Declaração de interesses: não apoio qualquer candidato.

PCP tem medo de ficar atrás de Tino de Rans?

Imagem: RTP/Renascença

Já tinha ficado com a pulga atrás da orelha quando, no debate entre ambos, Vitorino Silva pediu a João Ferreira que aceitasse o convite para debater no Porto Canal. O candidato apoiado pelo PCP não respondeu. Soou estranho.

Hoje, o director de informação do Porto Canal, Tiago Girão, deu conta no Twitter (e mais tarde no próprio canal) que a candidatura de João Ferreira fez uma participação à Comissão Nacional de Eleições sobre os debates de Vitorino Silva contra os restantes candidatos, alegando que esses debates se transformariam numa vantagem de tempo de antena, favorecendo a candidatura de Vitorino.

A CNE emitiu, então, um parecer propondo à ERC uma medida provisória que impeça os debates em questão.

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O verdadeiro artista (*)

André Ventura foi trazido para a lide política pela mão de Passos Coelho, ao dar-lhe palco político em Loures. Constituiu o Chega no meio de ilegalidades apontadas pelo Tribunal Constitucional e que não foram completamente esclarecidas. Viu o seu partido ser elevado ao nível da decência com a coligação dos Açores e posterior abertura ao restante território pelo líder do PSD, Rui Rio.

Porém, para Henrique Raposo, André Ventura é “um filho de José Socrates”. Cola-o a um ex-primeiro-ministro problemático (coloquemos as coisas assim) mas que, para o caso, nada tem a ver com Ventura. Diz que o faz por causa das mentiras e dos maneirismos, como se não tivesse dose igual noutras áreas.

Raposo, ao relacionar Ventura com Sócrates, faz um branqueamento da ligação do Ventura ao PSD. É de artista, como aqueles que metem um nariz vermelho no circo.

∗ título roubado daqui

Adenda: artigo do Henrique Raposo

Os idiotas e o debate de ideias

  O Presidente da República e candidato, Marcelo Rebelo de Sousa, afirma que é “no debate de ideias” que se derrota o Chega e a extrema-direita.
  Como é que se consegue debater ideias com um partido racista, xenófobo e fascista? Toda a gente sabe que foi a debater ideias com António de Oliveira Salazar, com Marcelo Caetano e com a PIDE que se derrotou o regime do Estado Novo…e também foi no debate de ideias que impedimos, depois da Restauração da República, o golpe de Estado que deu origem à Ditadura que vigorou de 1926 até 1974. O lixo põe-se no lixo.
  Diz, também, Marcelo Rebelo de Sousa, que Ana Gomes, enquanto cidadã, poderia ter pedido a ilegalização do Chega junto do Ministério Público e do Tribunal Constitucional. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que existe uma petição, com mais de 16.000 assinaturas, a pedir a ilegalização do partido de extrema-direita (assinaturas mais do que suficientes para o assunto ser debatido na Assembleia da República). O que sr. Presidente sabe, mas não diz, é que foram enviados mais de 300 e-mails para várias instituições do Estado a pedir o mesmo, e foram ignorados. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que muitas pessoas, enquanto cidadãos (como o é a cidadã Ana Gomes), foram à Provedoria da Justiça, aos partidos com assento parlamentar, ao Presidente da AR, ao Supremo Tribunal de Justiça, ao MP junto do STJ, ao Tribunal Constitucional, ao MP junto do TC, à Procuradoria Geral da República, à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias…e até ao próprio Presidente da República.
  O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que o seu partido só poderá ser Governo se se juntar ao Chega. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que não quer queimar o PSD.

  Não se debate com fascistas. Ou há alguém, por aqui, que goste de se banhar em bosta?

Marine Le Pen, presidente do Frente Nacional, numa conferência de imprensa em Lisboa (Portugal), com André Ventura, líder do partido de extrema-direita Português, Chega.                                                                                      PHOTO / REUTERS / PEDRO NUNES

 

A propósito das Presidenciais

Acho curioso como há quem seja capaz de compartimentar quem vota neste ou naquele partido: no PCP votam estes, no Chega votam aqueles, no PS aqueles outros, e por aí fora.
Aquilo que fui percebendo é que os eleitorados são realidades muito mais transversais do que realidades compartimentadas.
Conheci empresários que votavam PCP e operários que votavam CDS.
Há uma mescla de gerações, de sonhos e frustrações, que torna a realidade eleitoral em algo muito mais rico do que grupos ou tendências.
No meio disto tudo, à medida que a República vai degradando-se, o chamado voto de protesto vai ganhando maior peso eleitoral.
O real e concreto perigo para a Democracia é quando o voto motivado pelo ódio e pela revolta se sobrepõe ao voto motivado pelo sonho e pela utopia.

Estão à espera da invasão à Assembleia da República?

Foto: @adn

A invasão que manifestantes pró-Trump fizeram ao Capitólio esta semana devia, não só fazer corar de vergonha todos aqueles que defenderam o (ainda) Presidente dos EUA, com argumentos sobretudo económicos, mas também reflectir sobre a complacência que existe, em Portugal, do mesmo tipo de discurso que levou um apresentador de televisão à presidência da “maior democracia do mundo”.

Hoje, no Plenário da Assembleia da República, foi a discussão uma petição assinada por cerca de 9000 cidadãos contra conferências de extrema-direita em Portugal (num caso que remonta a 2019) e pela ilegalização de grupos de cariz fascista, racista e neo-nazi.

Entre vários argumentos, os peticionários usam a Constituição como argumento máximo para defenderem as suas posições, citando o tão badalado art. 46º/4 que proíbe, e cito: “associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”

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A ditadura e as pessoas de bem

“A única ditadura que quero é aquela onde os portugueses de bem são reconhecidos”

André Ventura, durante o debate com Marcelo Rebelo de Sousa

 

André Ventura (AV) defendeu que quer uma ditadura, o que pode ser um acto falhado, um engano, uma metáfora. Ficarei a esperar, sentado, que os críticos de Mamadu Ba façam o mesmo a Ventura. É verdade que AV não quer qualquer outra ditadura, quer “aquela”, uma ditadura específica. De qualquer modo, parece uma ditadura, cheira a ditadura, sabe a ditadura, esperemos não ter o azar de a pisar e sujar o sapatinho.

E o que caracteriza a ditadura que AV quer? É “aquela onde os portugueses de bem são reconhecidos”. Deve haver algumas ditaduras que não reconhecem os portugueses de bem, o que está mal. Não é uma dessas que AV quer; é só esta.

O que é um “português de bem”? Isso ficará ao critério de AV. Pode parecer um bocado discricionário, mas ditadura que é ditadura não anda a perguntar às pessoas, deixa o ditador decidir e não há necessidade de grandes debates. Além disso, AV foi escolhido por Deus, o que lhe confere a infalibilidade. A pergunta que inicia este parágrafo é, portanto, desnecessária, meus filhos. [Read more…]

Candidatos de primeira e candidatos de segunda

Créditos da Imagem: @Jornal Expresso

Imagem: @Expresso

O António Fernando Nabais já trouxe o assunto ao aventar, mas mesmo depois de algumas mudanças desde esse texto, continua a haver uma discriminação em relação ao candidato Vitorino Silva na candidatura à Presidência da República.

Sou um leitor assíduo do jornal Expresso e acompanho, desde o primeiro debate, na app do jornal, uma série de artigos conjuntos que pontuam os debates e os candidatos, num trabalho de vários jornalistas e cronistas do jornal. Embora estranhe o conceito quase futebolês da análise política, a verdade é que, no final, o que conta são os números.

Vitorino Silva não faz parte dessa análise. Ou seja, os seus debates não são analisados dentro desta estrutura de artigo, nem a sua foto acompanha a imagem que os ilustra (e que ilustra também este texto). Mesmo que existam artigos de análise mais extensos sobre os seus debates, como para os outros, neste particular é excluído.

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Coitadinho do Ventura. Alguém pegue nele ao colo e lhe dê muito miminho, que o jornalista mau fez dói-dói ao bebé

Os adeptos do Chega, tanto os mais ferrenhos, como aqueles que começam as frases com “eu não voto neles mas…” estão irritados com o timing da reportagem da SIC, dedicada ao partido de extrema-direita. Já eu prefiro saudar o Pedro Coelho, um dos melhores jornalistas de investigação deste país, que, ao contrário da narrativa repetida pelos adeptos do Chega, nunca poupou partido algum e já deixou em maus lençóis, várias vezes, os poderosos aparelhos do PS e do PSD, antes e depois de eleições. A reportagem sobre o caso BES, “Assalto ao Castelo”, por exemplo, é absolutamente destrutiva para o PS e para o consulado Sócrates. Já antes se havia também debruçado sobre o caso BPN, onde, claro, não poupou o PSD e o cavaquismo.

Podia continuar a enumerar exemplos, do Pedro Coelho e de outros excelentes jornalistas de investigação, como Paulo Pena ou José António Cerejo, mas seria inútil. O adepto do Chega não se interessa por dados objectivos, porque o Chega, tal como o catolicismo ou o islamismo, é uma religião, com enorme potencial para se transformar em fanatismo ideológico, cego e absolutamente imune a factos. Interessa-me, isso sim, sublinhar o seguinte: não há timings para fazer jornalismo. Este documentário está a ser produzido há largos meses, não tendo chegado ao ecrã mais cedo pelo mesmo motivo que tem colocado a nossa vida em suspenso: a pandemia. Não obstante, o jornalismo de investigação não tem que fazer compassos de espera para deixar passar procissões. Tem, isso sim, que informar devidamente o cidadão, para que este possa, no caso da antecâmara de um acto eleitoral, fazer a escolha mais informada possível.

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Basta não falar dele?

Entre os adversários do Chega, há quem defenda que não se deve falar do Chega, que já chega.

Não tenho soluções. Contudo.

(Não tenho soluções, ficais já avisados, é, aliás, o título da autobiografia que nunca publicarei)

As pessoas que fazem afirmações destas têm uma crença definitiva no poder do silêncio. Nada tenho contra o silêncio, que prefiro mil vezes ao barulho, mas não consigo perceber como é que se combate um inimigo de que não se fala. Nem o demónio é ignorado na Bíblia e olhai que a Bíblia sempre é a Bíblia.

Imagine-se o comandante de um exército, rodeado pelos seus conselheiros, mapas espalhados pela mesa de campanha, alguns cachimbos, semblantes gravíssimos, cenhos franzidos. Um conselheiro mais inexperiente arrisca:

  • Talvez devêssemos atacar os ruinlandeses neste…

Não chega a acabar a frase porque sente imediatamente uma pasta com sabor a ferro na boca, percebendo que tem um dente partido. Depois de levar alguns pontapés no chão, o comandante, humano, sereno, levanta a mão:

  • Vamos parar com isso, não somos assim tão selvagens.

O desgraçado levanta-se, tentando perceber o que lhe aconteceu. O comandante, olhando para um infinito próximo, explica:

  • Aqui não se fala dessa gente, porque, se falarmos, eles passam a existir. Isso quer dizer que deixarão tanto mais de existir quanto mais não falarmos deles.

O politraumatizado ainda balbuciou:

  • Mas como vamos combater?

O comandante não consegue evitar que a voz lhe saia mais elevada. Academia Militar, condecorações, vitórias várias, umas, morais, outras, por falta de comparência, anos de experiência a anular o inimigo e ainda tinha de explicar o óbvio:

  • O combate faz-se calando. Nunca ouviu dizer que o calado é o melhor? E tirem-me daqui estes mapas, que ainda digo alguma coisa que não devo.

No campo dos ruinlandeses, diante do silêncio alheio, urdiam-se planos em sossego, a ventura sorria.

Sente-se bem, dr. Rui Rio?

Li ontem uma peça no Público, já com alguns dias, que cita Rui Rio sobre as eleições presidenciais, com o líder do PSD a afirmar que um bom resultado de André Ventura é “mau para o país”.

Say what???

Então o homem anda todo empolgado a legitimar o líder da extrema-direita, abençoou um acordo de governação para Açores entre os dois partidos (do qual nem sequer precisava, sublinhe-se), admitiu acordos futuros a nível nacional, contribuiu, como ninguém, para a normalização do democraticamente anormal, e agora vem dizer que um bom resultado do parceiro é mau para o país?

Que é mau já nós sabíamos.

O único que não só não percebeu, como até contribuiu, activamente, para o reforço da posição do Chega, algo que, eventualmente, poderá garantir ao partido de extrema-direita um resultado mais robusto, foi, precisamente, Rui Rio.

Qual terá sido a parte que o líder do PSD não percebeu?

Debates Presidenciais 2021: Marcelo toma um chá com Marisa, Ventura arrasta Ferreira para o lamaçal

Dois debates, de escassos 30 minutos.

No primeiro, onde reinou a educação e a cordialidade, Marcelo foi um elegante cavalheiro. Elogiou a adversária, tendo mesmo ido buscar a questão da luta pelo estatuto do cuidador informal – Marcelo, o hábil analista, fez, como se esperava, um bom trabalho de casa – elogiou o Bloco e até pediu ao moderador para deixar Marisa Matias concluir, quando Carlos Daniel queria passar a palavra ao presidente em funções. Gostava, sinceramente, de ver um Marcelo que não fosse a jogo com a eleição ganha. Assim é só chato. E, no meio do aborrecimento, onde ambos estiveram bem, parece-me, Marisa soube mostrar as garras, mas a teia de Marcelo ocupava já todo o estúdio.

No segundo, a antítese. À primeira pergunta, dirigida a João Ferreira por uma moderadora incapaz de segurar um André Ventura full-Trump mode, o líder do Chega demorou poucos segundos para começar a interromper ininterruptamente o adversário, com piadolas, risos histéricos e chavões. A escola CMTV de discussão futebolística hardcore. Foi um debate penoso. Ventura falava na sua vez e na vez de Ferreira, repetia a táctica Venezuela-URSS-Coreia do Norte (alguém o avise do bromance entre o seu ayatollah Trump e o seu amor norte-coreano, Kim) à exaustão, e tanto se esforçou que lá conseguiu, mais para o final, arrastar João Ferreira para o seu território: a lama. E conseguiu o que quis: caos e histeria. E a moderadora terminou o debate como começou: ausente. Um péssimo debate, excelente para perceber o manipulador populista que André Ventura é.

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Iluminismo Às Escuras: ideologia ou deriva ideológica?

  Há uns quantos iluminados que confundem o plano ideológico com o plano terreno. Ou então não é confusão, é propósito.
  Deixo aqui o meu manifesto, de uma forma redutora, mas para que não haja dúvidas: sou de esquerda, sou socialista democrata, defendo uma economia democrática, baseada no serviço público e posta em prática por cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres em democracia política. Sou socialista, mas também sou democrata. Aliás, antes de ser socialista, sou democrata. Rejeito qualquer tipo de autoritarismo e totalitarismo partidário, rejeito regimes opressores de partido único, rejeito a repressão e a opressão, seja ela de direita ou de esquerda. Sou neto da democracia, da qual os meus pais são filhos e os meus avós são pais. O meu último objectivo, enquanto cidadão e enquanto pensador, é destruí-la. Por tal, não confundo teoria ideológica com a História real; como também não confundo a legítima fé dos Homens com fundamentalismos religiosos.
  Como tal, cada vez mais vejo pessoas da minha geração que parecem não ter aprendido nada com a História e, montadas no ideal (porque hoje o ideal vale mais do que o pensar sozinho), desbravam novos contos de fadas, onde partidos totalitários não são, afinal, assim tão totalitários, onde regimes imperialistas opressores não foram, afinal, tão imperialistas e opressores como pareciam e onde ditadores sanguinários que mataram em nome de um ideal não eram, afinal, tão assassinos como a História mostrou que foram.
  Ter um ideal não nos impede de nada. Não nos impede de questionar, não nos impede de abominar regimes opressores e não nos impede de preferir, sempre, a democracia ao totalitarismo. Identificando-me como socialista democrata, o partido com o qual melhor me identifico com assento parlamentar é o Bloco de Esquerda. Ora, o BE, de raízes pluri-dimensionais, nasceu por oposição a dois partidos: em primeiro lugar, ao PCP, por rejeitar os laivos autoritários e totalitários em que o PCP e os partidos comunistas clássicos redundam; e, em segundo, ao PS, por rejeitar o socialismo dito “real” e uma aproximação do socialismo e da social-democracia à direita. O Bloco de Esquerda é, e sempre foi, um partido que concentra em si várias formas de pensar, à esquerda, diferentes de si mas compatíveis entre si: desde marxistas-leninistas (uma minoria no partido), a trotskistas mandelistas (grande parte da formação do partido foi assente na ideia trotskista de combater o regime opressor soviético) e a socialistas democratas e a sociais-democratas. Não fosse o BE um “partido-de-partidos” (isto é, com base de fundação assente em vários partidos: a saber, UDP, PSR e Política XXI) e não haveria a pluralidade ideológica e de pensamento que existe no Bloco de Esquerda. É também por isto e levado por esta ideia de pluralidade que gosto do BE. Aconselho a leitura do manifesto fundador do partido, de 1999, e deixo aqui o link: https://www.bloco.org/media/comecardenovo.pdf
  Não posso é aceitar que um partido onde me encaixo albergue em si retorcidos mentais que são capazes de enaltecer atrocidades como as que se passaram na antiga URSS e tenham um discurso pró-Partido Comunista. Sei que os há, no Bloco de Esquerda. E, não sendo eu filiado, pouco ou nada posso fazer em relação a isso, senão repudiar e deixar aqui o testemunho da vergonha que sinto por tais factos e dizer-vos que não perceberam nada sobre como o BE surgiu e se fez notar. Comigo não contam para essa “esquerda alternativa” que mais não quer do que uma esquerda antiga baseada na usurpação dos poderes e assente na ladainha dos “trabalhadores e do povo”. Comigo não contam.
  Socialismo, por convicção e pensamento. Democracia, pela Humanidade e contra qualquer tipo de autoritarismo político.

Vem aí uma época de reforço de Lobbies…

Em vésperas de Portugal assumir a Presidência do Conselho da União Europeia, mais de 60 organizações da sociedade civil portuguesa subscreveram uma carta aberta exigindo que, em especial durante este período, o interesse público seja colocado acima dos interesses empresariais. Concretamente, a carta apela a que:

  • o Governo português assegure que os interesses empresariais não tenham acesso privilegiado às suas decisões durante a Presidência (e para além dela)
  • sejam promovidas políticas livres de interesses da indústria de combustíveis fósseis. E acrescenta: “Foi chocante saber que o plano de recuperação do coronavírus do Governo português foi elaborado por um representante da indústria dos combustíveis fósseis. Este tipo de acesso privilegiado deve terminar imediatamente; é contrário ao interesse público e profundamente inapropriado.”
  • seja defendida a transparência legislativa e de lobbying, sendo o Governo instado a “impulsionar o seu registo nacional de transparência dos lobbies, implementando urgentemente a proposta de lei nacional sobre lobbies.” e
  • que o Governo português abra o seu processo de tomada de decisões sobre a UE para permitir o escrutínio por cidadãos e deputados portugueses, afirmando a carta que: “os deputados em Portugal não têm grande capacidade de responsabilizar o Governo pela sua tomada de decisões da União Europeia, nem de escrutinar essas posições antes de serem apresentadas em Bruxelas.

Enfim, vamos tentando fazer ouvir a nossa voz nesta luta de David contra Golias…

Nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda, excepto todas as que foram

Sempre que alguém ousa tecer uma crítica aos abusos do capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada, rapidamente surge alguém que nos recorda uma de duas coisas (ou ambas): que 1) Cuba e Venezuela existem e que 2) nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda.

Sobre o primeiro ponto, é interessante verificar que raramente se traz a China para esta equação, apesar de se tratar de um regime que monitoriza, persegue e oprime os seus cidadãos como nenhum, talvez com a excepção da Coreia do Norte. Imagino que tal não seja alheio a uma das características desse incriticável capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada: a China é o seu motor. E porque, é bom dizê-lo, não faltam governos e governantes, no ocidente democrático, a sonhar com um poder (proporcionalmente) igual ao de Xi Jinping. Erdogan, Orbán, Bolsonaro, Borisov ou Morawiechi, os candidatos acumulam-se e já nem se dão ao trabalho de dissimular. [Read more…]

O Chega como cavalo de Tróia do PSD

César Alves

Quem achasse que Portugal estava imune aos fenómenos de extrema-direita que, um pouco por todo o mundo, despontam, foi surpreendido pela ascensão meteórica de André Ventura.

O líder do Chega pode ser apenas a versão portuguesa do que se vê por aí mas, por outro lado, há a possibilidade de nos bastidores estarem a acontecer coisas, invisíveis aos nossos olhos, mas que daqui a uns anos nos façam pensar: como é que não vi isto.

André Ventura, ex-militante do PSD, foi candidato à Câmara de Loures, em 2017, pela mão de Pedro Passos Coelho. Com um discurso xenóbofo, dirigido à comunidade cigana, Ventura, apesar do 3º lugar, conseguiu melhorar o resultado face a 2013, numa autarquia historicamente comunista. [Read more…]

Vergonha nas Presidenciais: Tino de Rans fora dos debates

O presidente do Partido Reagir Incluir Reciclar – RIR, Vitorino Silva (Tino de Rans), momentos após entregar o seu processo de candidatura às Eleições Presidenciais, no Tribunal Constitucional, em Lisboa, 23 de dezembro de 2020. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Tino de Rans, por opção das três televisões, não participará nos debates frente-a-frente que ocorrerão nos dias 2 a 9 de Janeiro.

A candidatura de Tino tem, à face da Lei e da Democracia, o mesmo valor de todas as outras. Esta exclusão revela de um elitismo absolutamente escandaloso. O facto de a televisão pública ser cúmplice desta situação é ainda mais vergonhoso, mas, em Portugal, a televisão é pública para receber dinheiro e privada para o gastar.

Os restantes candidatos têm, aqui, uma ocasião para confirmar que fazem, verdadeiramente parte do jogo democrático. É fácil: deverão recusar-se a participar em debates, a não ser que esta situação seja alterada.

Este é, demasiadas vezes, o país do senhor doutor, do respeitinho e pasto da partidocracia. Há um cheiro a mofo muito perigoso, até porque a humidade pode dar cabo das fundações de uma casa.

Declaração desinteressante de interesses: até hoje, não estava a pensar em dar o meu voto a Tino de Rans.

A Banalização da História

A História não é estática. Engane-se quem pensa que sim. A História é, antes de tudo, História. Contudo, o passado não nos pode amarrar nem, em sentido contrário, nos desprender. A História há-de ser sempre uma lição, um alerta e, sobretudo, um facto. Questionar a História faz-nos bem, desperta-nos e ensina-nos.

Há hoje uma tendência para a desvalorização histórica. O que não pode acontecer, não é aceitável e, em contra-senso, demonstra-nos uma falta de noção histórica de quem envereda pelo caminho da desvalorização e da falta de noção histórica.
Certas franjas à direita insistem hoje num discurso que envergonha a noção histórica.

Tenho ouvido, por mais do que uma vez, a comparação entre o tempo da Outra Senhora e os tempos que vivemos. Seja porque estamos hoje limitados na nossa liberdade de associação (por conta da pandemia), seja porque certa direita não aceita o Governo de esquerda que se encontra no poder. Desvalorizar os acontecimentos passados, comparando-os aos acontecimentos do presente é, antes de ser demagogia pura e dura, um “cuspir” na História e naqueles que a viveram. Antes de podermos entrar pela demagogia adentro e compararmos a democracia em que vivemos a uma ditadura passada, teremos de aprofundar as nossas noções históricas, quer sejamos de esquerda ou de direita.

A luta pelo regime democrático não pode escolher lados, mesmo que a ditadura que se instalou em Portugal durante mais de quarenta anos tenha sido de direita. A luta pelo regime democrático deve tocar-nos a todos: socialistas e todos no seu espectro, liberais e todos no seu espectro. Contra todo o tipo de extremismos: de direita ou de esquerda.

Quando se tenta encobrir e desdenhar tempos em que a PIDE ostracizava, perseguia, torturava e matava é desonesto, mas, acima de tudo, é uma atitude ignóbil e ignorante de quem não respeita nem estudou História. Compará-la aos tempos modernos é boçalidade. Repito: o combate aos nacionalismos, aos fascismos e aos atropelos contra a Humanidade, deve pertencer a todos os que acreditam na República e na Democracia.

Assumo-me de esquerda. Defendo o socialismo democrático. Num passado recente governou em Portugal um Governo de direita, encabeçado por Pedro Passos Coelho e apoiado em democratas-cristãos. Por muito que esse Governo tenha atropelado certos direitos e tido tiques de autoritarismo com cheiro a velho, nunca, mas nunca, o poderei equiparar a um Governo fascista, liderado por António de Oliveira Salazar, Governo esse que se regia pela opressão e repressão dos seus cidadãos, que se escudava numa polícia política impiedosa, injusta e assassina, e que reforçava o seu poder através das suas colónias.

A banalização da História é tema para os ignóbeis. O combate contra qualquer extremismo, seja de direita ou de esquerda, repito de novo, cabe a todos os democratas, sejam estes de direita ou de esquerda. O resto fica com a ignorância histórica. O resto, nunca mais.

Nos tempos modernos: fascismo nunca mais.
25 de Abril, sempre!

Quando um elogio é um insulto

João Miguel Tavares elogiou os professores. O Paulo Guinote já escreveu que dispensa certos elogios.

O combate às desigualdades sociais é muito complicado, especialmente quando as prioridades dos governos correspondem a outras áreas em que há fartura de desperdício de dinheiros públicos.

Essas desigualdades são especialmente revoltantes quando atingem crianças e jovens. São essas desigualdades que, se combatidas demasiado tarde, provocam atrasos culturais e mesmo cognitivos.

A Escola é, evidentemente, um das armas mais importantes desse combate. Por isso, retirar condições às escolas é criminoso – e os verdadeiros problemas continuam por resolver (número de alunos por turma, delírios curriculares, burocratização inútil do trabalho dos professores).

A dedicação de todos os que trabalham nas escolas é tão evidente e geral como frequentemente desvalorizada. E, na verdade, é nas escolas que muitos miúdos encontram pessoas que, fora da família, fazem alguma coisa por eles. As políticas sociais para a juventude assentam, então, em grande parte, na ausência do Estado e na presença da Escola. Acrescente-se que essa luta é feita, muitas vezes, para lá do que é imposto pela lei.

João Miguel Tavares e muitos outros opinadores chegam sempre a estes problemas com atraso ou acertam ao lado. Na maior parte dos casos, não querem saber. Como, de certo modo, já está instituído que as políticas sociais para a juventude se limita às escolas, o facto transformou-se em direito e passou a exigir-se às escolas que resolvam todos os problemas relacionados com a infância e com a juventude. [Read more…]

The Rio-Ventura emoji-chatice connection

Não se descarte a possibilidade de estarmos perante uma conspiração de assessores do PSD e do Chega, a soldo de socialistas, da extrema-esquerda ou da Venezuela. Ou, quem sabe, perante uma coligação informal que, em princípio, terminará no dia em que Ventura, triunfante, regresse ao PSD para tomar conta do aparelho. Seria uma grande chatice, é certo, mas os emojis compensarão a maçada.

Ana Gomes: nem carne, nem peixe

A transição de um certo eleitorado bloquista disposto a votar em Ana Gomes é real e preocupa-me.
A minha análise pessoal é a de que as pessoas, dispostas a votar em Ana Gomes, não estão a ver todo o panorama eleitoral e as consequências políticas que daí podem resultar. Marisa Matias vai a jogo com o apoio do Bloco de Esquerda, ao contrário de Ana Gomes, que sendo do Partido Socialista, não conta com o apoio do partido. As consequências políticas de um futuro resultado de Ana Gomes e de Marisa Matias são diferentes; porque Ana Gomes e Marisa Matias, mesmo estando as duas à esquerda, são diferentes e candidatam-se com programas e propósitos diferentes.
Quando a eleição acabar, Ana Gomes continuará onde está. E Marisa Matias também. Ana Gomes como comentadora num qualquer canal generalista, a levantar muito a voz e a dar uma sua opinião sobre um qualquer tema. Marisa Matias como deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em representação da esquerda europeia e de todos e todas nós, portugueses e portuguesas que, à esquerda, querem uma Europa mais livre, mais justa e mais igualitária.
A transição de eleitorado que, em legislativas, vota Bloco de Esquerda e que, dia 24 de Janeiro, pretende votar em Ana Gomes, esquece-se que votar na Independente é enfraquecer a esquerda (que segundo as sondagens não perfaz, junta, a votação de Ana Gomes – e falo de Marisa Matias e João Ferreira) e fortalecer a extrema-direita de André Ventura, ficando este à frente dos candidatos da esquerda e apenas atrás de uma Independente sem apoio partidário e de Marcelo Rebelo de Sousa, que segue para uma re-eleição tranquila, com o apoio da direita mainstream (PSD e CDS), e que, mais à frente, essa ultrapassagem (pela direita) poderá ter repercussões em futuras Legislativas. Muito menos aceito que certas pessoas votem em Ana Gomes levados pela “promessa” de André Ventura, de que, ficando atrás desta, se demitiria do Chega: 1- é óbvio que não se demitirá; 2- mesmo que o fizesse, isso tiraria o Chega do Parlamento e da vida política? A resposta é não.
Há duas coisas mais ou menos certas: Marcelo Rebelo de Sousa será re-eleito e Ana Gomes ficará em 2º lugar, seja com 16% ou 13%. Agora é convosco decidir quem fica em 3º, se o candidato da extrema-direita ou algum dos candidatos da esquerda. Menos dois ou três pontos percentuais em Ana Gomes continuarão a mantê-la em 2º, mas mais 2 ou 3 pontos percentuais em Marisa Matias ou João Ferreira podem ser a diferença entre fortalecer a extrema-direita ou colocá-la atrás da esquerda.
Falo, especialmente, para os jovens. Pensem à frente: uma eleição não é apenas uma eleição. Muito menos esta. Quem se diz de esquerda aproveitará este clima de facções e polarização política para reforçar, com o seu voto, a esquerda. Signifique isto votar em Marisa Matias ou em João Ferreira, não em Ana Gomes que vai em representação dela própria, votando em consonância com o presente mas, acima de tudo, com aquilo que se perspectiva no futuro. E esse futuro, estou certo, não terá Ana Gomes como cabeça de cartaz. Mas poderá ter Marisa Matias e/ou João Ferreira.

Demita-se!

Faça um favor a si mesmo e ao país, Eduardo Cabrita. Ganhe vergonha na cara e demita-se.

É um favor que faz também ao Primeiro-Ministro, o qual já tem culpa por manter a “total confiança” política em alguém que não a merece. E ao fala-barato presidencial que até agora se manteve reservado.

Mas, sobretudo, é um serviço que presta ao país, face ao enxovalho que recebemos internacionalmente e, sobretudo, ao assassinato de uma pessoa por parte dos que exercerem funções no Estado português.

Um assassinato!

Cabrita diz que andou preocupado nove meses. E porém, isso não o impediu de mentir ao parlamento e de demorar 17 dias a abrir um inquérito, quando o assunto foi tornado público pela comunicação social. No SEF e no ministério, primeiro tentaram esconder, depois usaram a peneira para tapar o sol e agora, apertados, estrebucham.

Sobre a ideia do botão de pânico, é uma constatação de que há motivos para pânico quando alguém vai ao SEF.

Dissolver o SEF? O problema não é a estrutura, mas sim as pessoas dessa estrutura. E estas não vão desaparecer. Mais do que mudar a estrutura, importa mudar os comportamentos que conduziram a este crime. Assim, com o que está a ser feito, mais parece um movimento para proteger o ministro do que uma tentativa de se resolver o problema.

Concluindo, é mais um episódio, este o mais grave de todos, de um ministro que não tem auto-crítica quanto ao que diz e faz.

Brandos costumes pidescos

Assinalou-se, na Quinta-feira, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e o momento não podia ser mais oportuno, na medida em que o país parece ter acordado para o estranho caso do cidadão ucraniano que foi espancado e torturado até à morte por inspectores do SEF, nas instalações desta força de segurança, no aeroporto Humberto Delgado. Uma bela forma de homenagear o resistente antifascista que dá o nome à infraestrutura.

Qual é o problema desta nossa indignação colectiva? É que já passaram nove meses desde que este atentado contra os direitos humanos foi perpetrado. E, com a excepção de algumas jornalistas, como Valentina Marcelino, Fernanda Câncio, Joana Gorjão e Daniel Oliveira, entre (poucos) outros, a opção pelo silêncio foi geral. Não tendo o caso sido abafado, pouca importância lhe foi dada nos headlines e alinhamentos noticiosos. As redes sociais, sempre implacáveis, não ebuliram como habitualmente acontece com casos de racismo, ou de tiradas xenófobas da extrema-direita. Um silêncio que envergonha, mais ainda por ter feito parte dele. [Read more…]