Chapeau, Ana Gomes!

Já uma vez lhe prestei uma humilde homenagem: Ana Gomes, a corajosa e consequente.

E continua a merecê-la.

Aqui https://observador.pt/2018/05/26/ana-gomes-erramos-deixando-que-o-pantano-atolasse-o-pais/

aqui https://www.publico.pt/2018/05/11/sociedade/noticia/transferencia-para-angola-e-tremenda-demissao-da-justica-portuguesa-1829651

ou aqui https://www.youtube.com/watch?v=QafVCcHF0gg&feature=youtu.be

Ana Gomes é uma voz que dignifica a classe política, enfrentando os dissimulados, seja do seu partido, seja da união europeia.

Sobre a 5a Diretiva Anti Branqueamento de Capitais aprovada no mês passado pelo Parlamento Europeu, Ana Gomes afirma que, embora sendo um passo na direcção certa: Ficamos aquém de um resultado que poderia ter um impacto global no que respeita à transparência financeira, por responsabilidade do Conselho onde se sentam os nossos governos”.

(…) ainda há muito por fazer, – alguns dos “paraísos fiscais” e esquemas desregulados que facilitam o branqueamento de capitais por organizações criminosas, corruptos e corruptores do mundo inteiro estão instalados – e bem instalados na UE, valendo-se do vazio de décadas de desregulação financeira neoliberal. Há muito a fazer, em especial, contra a captura de alguns Estados Membros por interesses sinistros, como os das máfias que controlam o “e-gambling” e investem em criptomoedas”.

Ana Gomes é genuinamente íntegra e destemida e, como tal, só pode ser desconfortável para o PS e para o PE. Chapeau, Ana Gomes!

Algumas breves considerações sobre a despenalização da eutanásia

Em primeiro lugar discordo das posições assumidas pelo CDS/PP e PCP, da mesma forma que discordo da posição do BE sobre a votação próxima na Assembleia da República do projecto-Lei que despenaliza a eutanásia. Isto porque os dois primeiros decidiram votar contra, os bloquistas a favor, uns e outros sem concederem liberdade de voto aos seus deputados. Gostaria de ter parlamentares livres, que assumissem as suas posições em vez de acéfalos obedientes ao directório partidário.
Há muita gente que confunde conceitos que vão do testamento vital, ao suicídio medicamente assistido chegando à eutanásia. Vamos por partes, não falamos de eutanásia quando um médico decide colocar um ponto final ao tratamento, por considerar irreversível o estado do doente. Só poderá ser considerada eutanásia quando um doente mentalmente lúcido solicita que lhe seja colocado um ponto final ao sofrimento. Decisão que terá que ser tomada pelo próprio e não pela família, ou qualquer terceira pessoa. [Read more…]

Gaianima: queixa fora de prazo determina absolvição

Segundo dá conta o Jornal de Notícias, na sua edição impressa de 26 de Maio de 2018, a absolvição dos arguidos do caso Gaianima (Vila Nova de Gaia) da acusação do crime de infidelidade, deveu-se ao facto de o actual presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, ter exercido o “direito de queixa” fora do prazo legal. É, realmente, muito azar.

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O preço das gasolinas

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[António Alves]

Não, Portugal não tem a gasolina mais cara da Europa. Também não faz parte da lista dos mais baratos. É o oitavo – sim, leram bem: o oitavo – mais caro da Europa. Existem sete países onde a gasolina é mais cara.
Também não é verdade que o aumento dos combustíveis se repercute imediatamente no preço de todos os outros produtos. A fabricação desses produtos usa essencialmente electricidade, energia em que Portugal é praticamente auto-suficiente.
Os custos de transporte também não pesam assim tanto no custo final de um produto.
O aumento do preço dos combustíveis é um problema para as transportadoras rodoviárias e para o transporte individual, vulgo automobilista particular.
No primeiro caso, dado que existe imensa concorrência entre eles, o que acontece é um esmagamento das margens de lucro dos camionistas. Problema deles.
No segundo caso, dado que o mercado de combustíveis é livre, e o governo não intervém nele, só há uma solução: gastar menos gasolina. Se o consumo baixar muito talvez as gasolineiras baixem o preço para recuperar as vendas.
Meter tretas no facebook não adianta nada.

António Arnaut: in memoriam

Sobre as qualidades pessoais de António Arnaut muitos têm falado, mesmo aqueles que, no fundo, no fundo, não apreciavam o político, gostando ou não do homem, se é que é possível distinguir aquilo que somos daquilo que fazemos ou que fizemos. [Read more…]

Património da inanidade

Notícia de 19 de Novembro de 2015 (Jornal de Notícias):

JN, 19/11/2015

 

Imagem de 25 de Março de 2018 (Caves de Vinho do Porto, Vila Nova de Gaia):

Caves de Vinho do Porto, 25 de Março de 2018

 

José Sócrates e os sadomasoquistas sociais

Imagem via DN

São situações como esta que me fazem perder a esperança na humanidade. Depois de ontem ser confrontado com o semblante sorridente do ex-recluso Isaltino Morais, todo emproado na tribuna de honra do Estádio do Jamor, como se de um indivíduo impoluto se tratasse, hoje dei de frente com esta estupenda manifestação de sadomasoquismo social: José Sócrates, o ex-primeiro-ministro que mentiu descaradamente ao país, e que, segundo a investigação em curso, terá sido corrompido por Ricardo Salgado, entre tantas outras tropelias, foi ovacionado num almoço de apoio. Mas ovacionado por quem? Por cidadãos amnésicos? Por figurantes pagos para ovacionar? Pelos mesmos tipos que compraram os livros que Sócrates não escreveu? Por funcionários do Grupo Lena? Por homo habilis de pau na mão? Aparentemente, a ovação partiu de elementos do movimento cívico “José Sócrates, sempre”. Como? “José Sócrates, sempre”? A sério que essa merda existe mesmo? Já não chegava o episódio de Alcochete para envergonhar o país?

Isaltino Morais na tribuna do Jamor

Sim, eu sei que o homem é autarca do concelho onde se situa o Estádio do Jamor. Mas vê-lo ali, todo sorridente na tribuna de honra, faz-me perder um pouco mais de esperança neste país. Faz-me acreditar, ainda mais, que o crime compensa mesmo.

O roto, o nu e o bloco central

Fotografia via TVI24

No debate quinzenal da passada semana na Assembleia da República, Fernando Negrão questionou o governo e o grupo parlamentar do PS sobre o porquê de demorar três anos a demarcar-se de José Sócrates. É uma pergunta legítima, ainda que pouco ou nada contribua para o trabalho parlamentar, mas é, acima de tudo, a expressão máxima daquela mania dos políticos chicos-espertos que nos tomam a todos por parvos. O velho hábito do roto apontar o dedo ao nu. O bloco central em todo o seu esplendor.

É evidente que o assunto é incómodo para o PS. E é altamente provável que exista quem, no executivo Costa, tenha feito umas marotices com o enfant terrible do PS que fez escola na JSD. Mas já que estamos nisto, seria interessante perceber quanto tempo mais irá o PSD demorar a demarcar-se do Dias Loureiro. É que, não só nunca se demarcou, como não tenho memória de qualquer dirigente do PSD manifestar embaraço por essa grande figura da hecatombe financeira que foi o antigo ministro de Cavaco. [Read more…]

PSD, Santa Casa e Montepio: uma história de hipocrisia carregada de simbolismo

Fotografia via Rui Rio

Pela voz do titubeante Fernando Negrão, que há uns meses era o bombo da corte do seu próprio partido, o Expresso refere que o PSD se terá manifestado “contra a entrada “simbólica”. da Santa Casa no Montepio. Quando li este título, fiquei a pensar com os meus botões: querem ver que já anda tudo à bulha no PSD, outra vez? Querem ver que isto foi boca para António Tavares, um dos porta-vozes do governo sombra de Rui Rio, que acumula funções com a de provador da Santa Casa da Misericórdia do Porto, instituição que prepara uma entrada “simbólica” no Montepio, a cuja assembleia-geral António Tavares irá presidir? [Read more…]

A banca portuguesa é o cancro da nação

Até os terroristas da Moody’s concordam que o maior risco para Portugal continua a ser a banca. Esqueçam o que dizem os pulhinhas jornaleiros, que servem os pulhas que mandam nisto tudo: não trabalhamos pouco, não vivemos acima das nossas possibilidades nem somos despesistas, excepto nos casos em que o caro leitor acumula funções com a de pulha autárquico que usa dinheiro dos contribuintes para propaganda pré-eleitoral e derivados corruptos. [Read more…]

A revolução saiu à rua no bolso do banqueiro

Cartoon via The English Blog

O CDS-PP juntou-se ontem à perigosa Geringonça para aprovar, com a abstenção do PSD, a obrigatoriedade da banca reflectir a queda da Euribor e o efeito dos juros negativos nos créditos à habitação. Não que os titulares destes créditos se preparem para receber uma pequena fortuna, mas sempre é melhor que um pontapé nas costas.

E agora, a parte interessante da coisa: foi preciso esperar até Maio de 2018 para que o Parlamento fizesse o seu trabalho, colocando um ponto final numa das muitas práticas extorsionárias de sector bancário, que não hesita uma milésima de segundo em reflectir todo e qualquer aumento da Euribor nos créditos à habitação, à mais ínfima parcela do cêntimo, mas que, até ontem, podia simplesmente fazer de conta que, quando a Euribor descia para valores negativos, a taxa de juro batia no zero e não descia mais. Porque sim. Uma das consequências de existirem tantos decisores públicos a viver nos bolsos de banqueiros e quejandos: tudo lhes corre de feição. Se não correr, o contribuinte está cá para lhes deitar a mão.

Amar pelos embaixadores

Fotografia: Manuel de Almeida@SIC Notícias

Imaginem o comentador Marcelo, à mesa da TVI com a Judite de Sousa, a comentar esta tirada do presidente Marcelo, durante a condecoração dos irmãos Sobral:

[Salvador e Luísa Sobral são] “embaixadores mais qualificados e mais eficientes do que a generalidade da nossa diplomacia

Havia de ter piada. Quem não achou piada foram os diplomatas, que, recursos estilísticos à parte, foram tratados abaixo de vencedor da Eurovisão, o que em muitos casos não anda muito longe da verdade, ou não estivesse a diplomacia portuguesa bem artilhada de boys partidários, apesar da sua boa fama internacional. Será que o presidente Marcelo se safava com nota positiva?

A eutanásia mata. A estupidez (ainda) não.

Eis a mais recente lapalissada do CDS-PP. Na sua campanha contra o direito individual de cada um decidir sobre a sua vida, o partido de Assunção Cristas saiu-se com esta obra de humor, digna de figurar no Inimigo Público. A eutanásia, dizem os centristas, mata. Thank you, Captain Obvious! É claro que a eutanásia mata. O objectivo é esse, amiguinhos! Sabemos que vocês gostam muito de liberdades individuais, principalmente aquelas que permitem a rebaldaria financeira ou o financiamento de colégios privados elitistas pelo depauperado erário público, e é com estranheza que verifico que optam por essa postura totalitária de negar um direito individual a quem vive em democracia. E são livres de o fazer. Mas um pouco mais de seriedade não vos ficava mal. Para fazer cartazes palermas, já cá temos a JSD.

A ingenuidade de João Miguel Tavares

É verdade que há uma tendência tribal para devolvermos ao outro lado as acusações, uma espécie de “quem diz é quem é” muito infantil. Isso nota-se nas discussões sobre futebol, quando criticamos o caceteiro adversário sempre que dizem mal do nosso caceteiro. Confirma-se na política, quando a alusão à imoralidade de uns despoleta referência à falta de ética dos outros.

Com José Sócrates sob fogo cerrado, há, é verdade, socialistas a lembrar a existência de Isaltinos ou de Relvas, mais os submarinos e os bêpêénes. João Miguel Tavares, no entanto, desvaloriza isso, colocando Sócrates num patamar superior a todos os corruptos de direita, garantindo que “aquilo que Sócrates procurou fazer nunca ninguém tentou antes: uma colonização feroz e autoritária de todos os ramos do poder – político, económico, financeiro, judicial e mediático.”
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Ordenado mínimo abaixo dos mínimos

Segundo a CGTP, o salário mínimo, caso tivesse sido actualizado desde 1974, seria, actualmente, de 1268 euros, tendo em conta a inflação e a produtividade.

Não possuo dados que permitam confirmar ou desmentir esta afirmação, mas parece-me óbvio que, tendo em conta os factores apontados, o salário mínimo não poderia corresponder ao valor actual. Também me parece óbvio que uma pessoa, em Portugal, não pode viver, mal pode sobreviver, com o actual salário mínimo. Mais: quem ganha o dobro do salário mínimo, consegue sobreviver, porque viver é outra coisa.

Se, numa família com dois ou três filhos, houver dois salários mínimos, chegamos a um ponto em que o único pensamento é o de saber como chegar ao fim do mês com as contas todas pagas, num exercício de malabarismo cansativo ao ponto de ser desumano.

Os empresários também são gente, é verdade, e também têm contas para pagar, são também assaltados por um Estado que está ocupado, há vários anos, por gente que está ao serviço de interesses privados poderosos.

É tudo muito complexo, é certo, mas, num país civilizado, é preciso, no mínimo, pensar nas pessoas, a única razão de ser de um país, ao contrário do que gente indiferenciada chegou a afirmar.

Manual de jornalismo – ou, vá lá, de produção de parangonas

Depois de repetirem 11 vezes a mesma pergunta, mais palavra, menos palavra, a dupla David Dinis e Eunice Lourenço, lá consegui sacar um título para a peça. Não era a parangona aparentemente desejada, como por exemplo “Presidente demitirá Governo se a tragédia se repetir”, mas lá teve que servir.

Incêndios. Marcelo não se recandidata se falhar tudo outra vez

Onde estavas tu, passista, quando o teu herói elogiou Dias Loureiro?

Uma turba passista encheu as redes sociais de indignação, por haver uns quantos socialistas a lamentar a saída de Sócrates do PS, socialistas esses que até elogiaram a governação do ex-recluso. Onde é que já se viu tamanha falta de respeito pelos portugueses?

Importa, contudo, saber onde estava esta malta quando Pedro Passos Coelho cumprimentou Dias Loureiro “de forma muito amiga e especial”, durante uma inauguração em Aguiar da Beira, a que se seguiu uma sequência de elogios do então primeiro-ministro a um dos dois grandes responsáveis por uma das maiores fraudes bancárias da história de Portugal, que custou aos contribuintes alguns milhares de milhões de euros. Estariam ocupados a empreender? Estariam a manipular o Fórum da TSF ou a parir perfis falsos no Facebook? Estariam a observar desde o centro de operações liberal-fascista? Estariam no Panamá a contar notas desviadas através de matrioskas de paraísos fiscais? Estariam a visitar a campa de Salazar? Estariam numa acção de formação sobre como escapar ao pagamento da Segurança Social, ministrada pela Tecnoforma?.

Ninguém sabe.

É tudo demagogia

Por um lado:

Clara Marques Mendes [PSD] vive em Oeiras com a sua família e declara uma morada em Fafe; Heitor Sousa [BE] tem casa em Lisboa e deu morada de Leiria; Elza Pais [PS] vive a sete minutos da Assembleia da República e deu endereço de Mangualde; Duarte Pacheco [PSD] tem casa no Parque das Nações e declara viver em Sobral de Monte Agraço. Estes são alguns dos exemplos. Segundo as contas da RTP, por viverem fora de Lisboa, os deputados recebem, em alguns casos, mais 1500 euros do que teriam direito se o valor do subsídio fosse calculado com base nas casas que efectivamente detêm em Lisboa. [Público]

Por outro lado:

Mas isto é tudo demagogia, claro. Os senhores deputados ganham pouco e se não for assim ninguém os convence ao duro trabalho no Parlamento.

Les Uns et les Autres

A Direcção Nacional do Partido Socialista coloca em prática a estratégia política que muito bem entende, mandatada e legitimada que está, para o fazer, pelos órgãos próprios do partido. Pode, além disso, mudar de estratégia, tal como ficou bem visível na sequência das recentes declarações públicas de altos responsáveis do PS que, directa ou indirectamente, se referiam a um ex-Secretário-Geral do partido e ex-Primeiro-Ministro de Portugal, declarações essas que levaram o visado, o Engenheiro José Sócrates, a anunciar a sua desfiliação do Partido Socialista.

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Sócrates e o financiamento do PS

Agora que a direção do PS está finalmente a demarcar-se das práticas de José Sócrates, avancemos para a questão seguinte que interessa ao PS:

Sócrates financiou ou não financiou o partido e/ou respetivas campanhas com os milhões que circulavam através das contas de Carlos Santos Silva?

Por exemplo, os eventos glamour das campanhas de Sócrates que atraíram tanta gente genuinamente bem intencionada (inclusivamente alguns que agora legitimamente condenam Sócrates), foram ou não financiados pelo esquema de Sócrates e Carlos Santos Silva? As respostas a estas perguntas são seguramente conhecidas ao mais alto nível do PS. E convém que sejam esclarecidas ou, mais tarde ou mais cedo, poderão cair que nem um trovão em cima do PS. É muito estranho que os problemas financeiros do PS pareçam estar correlacionados com a agenda da Operação Marquês. O que parece – sublinho parece – é que a partir da detenção de Sócrates uma torneira deixou de verter dinheiro no PS e de um momento para o outro descobrimos que o PS tinha problemas financeiros graves. Haverá uma correlação entre o caso Sócrates e os problemas financeiros do PS ou será pura coincidência?

Quando António Costa não distingue velocidade de toucinho

[Santana Castilho*]

O 25 de Abril está a ficar como o Natal: celebra-se uma vez por ano, com doces afectos, e esquece-se todos os dias, com amargas realidades. Em matéria de Educação, a história dos 44 anos que passaram é a história de alterações sucessivas, num faz, desfaz, ditado por caprichos partidários de reduzida dimensão política e menor conhecimento técnico. Como observador atento e persistente do fenómeno, atribuo a António Costa e aos incompetentes a quem confiou a Educação a maior pobreza de ideias e políticas de sempre. Quando julgava que já não era possível ver pior, acabo ainda surpreendido.

 

  1. Alexandra Leitão conseguiu trazer António Costa para a cruzada da soberba. Após perder no Parlamento, soltou o ódio de que vive o seu sectarismo e veio acusar de não serem Centeno os que se lhe opõem. Por conhecer os factos em pormenor, custa-me não lhe responder como merecia. Mas depois de escrever sem o controlo do meu superego, apaguei, contei até dez e ficou isto, o mínimo que se pode dizer de quem não tem escrúpulos para manipular a opinião pública.

É deprimente a actual trapalhada dos concursos. O Governo começou por publicar no Diário da República um aviso de abertura de concurso extraordinário externo, que permitia que a ele concorressem professores do privado que nunca tivessem leccionado em escolas públicas. Fê-lo em flagrante incumprimento da Lei nº 35/2014 (Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas), que o obrigava a negociar com os sindicatos, e da Lei nº 114/2017 (Orçamento do Estado para 2018), que dispõe ser o concurso em análise exclusivamente para docentes “dos estabelecimentos públicos”. Para corrigir este erro grosseiro, o Governo alterou as regras, já com o concurso a correr, sem anular o aviso de abertura, e deu instruções particulares para proceder ao arrepio do que ele diz.

Mas esta enormidade afigurou-se coisa de somenos ao primeiro-ministro António Costa, que resolveu ampliá-la pedindo ao Tribunal Constitucional que trave o concurso interno para os professores do quadro, nos moldes decididos pelo Parlamento. Recordemos a génese do problema: no ano transacto, mudando arbitrariamente e em segredo procedimentos de uma década, Alexandra Leitão enganou e prejudicou centenas de professores (estão pendentes 799 recursos hierárquicos e duas centenas de acções em tribunal) que concorreram de boa-fé; depois de um ano de meritória luta, o parlamento substituiu a razão da força totalitária da secretária de Estado pela força da razão democrática dos professores. [Read more…]

Manuel Pinho: a minha humilde homenagem a um trabalhador singular

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No dia em que se celebra o Trabalhador, poucos portugueses serão tão dignos de homenagem como Manuel Pinho. O homem, o académico, o político independente, que se entregou de corpo e alma às funções ministeriais para as quais foi chamado, que desempenhou com mérito e distinção.

Porém, o ex-ministro foi mais do que um político excepcional. Durante o seu mandato, conta-nos a revista Visão, Manuel Pinho não se rendeu ao ócio ou à preguiça, nem nos raros momentos que lhe restavam, depois de toda a azáfama governativa e das coisas do dia-a-dia de um homem normal. Não. Nos tempos mortos, tão mortos que quase não se encontrava registo deles, Manuel Pinho trabalhava para ajudar a desenvolver e a elevar a banca portuguesa. Ministro durante o dia, consultor do BES nas horas vagas. Pela módica pechincha de 14 mil e tal euros mensais. O Ronaldo faz isso em duas horas. E o Capelo Rego está ali no canto a rir-se. [Read more…]

A Geração 20/30 de António Costa

A Moção Política de Orientação Nacional com que o actual Secretário-Geral do PS, António Costa, se apresenta ao próximo Congresso, tem como título “Geração 20/30” e as suas propostas desenvolvem-se sobre 4 vectores fundamentais que, segundo o líder socialista, se constituem como “as grandes questões estratégicas que se colocam ao país”.

A saber:

  1. As Alterações Climáticas
  2. A Demografia
  3. A Sociedade Digital
  4. As Desigualdades

O facto de serem quatro “as grandes questões estratégicas” é, em si mesmo, parte significativa da estratégia de António Costa, que pretende centrar e estabilizar o discurso político com o qual justifica uma certa suspensão da acção governativa em torno dos postulados e do dogma da “regra de ouro”, buscando com isso uma anestesia, ou mesmo uma regressão da expectativa, a qual considera já plenamente satisfeita com a “devolução de rendimentos” e o “fim da política de empobrecimento”.

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A novela do Infarmed

Uma cidade faz-se e cresce a partir da força das suas instituições e da massa crítica que consegue gerar. Essa massa crítica resulta não apenas do grau de consciência cívica dos seus cidadãos e do modo como estão prontos a colocá-la ao serviço da cidade, mas também do seu lastro histórico, ou seja, de como e em que medida essa massa crítica foi construindo Cultura (Civilização) aos longo dos anos e dos séculos, sedimentando-a num corpo colectivo e identitário chamado Cidade. Uma Cidade não é um lugar onde vão muitos turistas que pagam para se divertir. Isso é um bordel.

Vem isto a propósito da inaceitável instrumentalização de importantes instituições do país, a que se assistiu na novela da putativa transferência do Infarmed para o Porto, já antes agravada por uma brincadeira eleitoral que teve como epicentro a Agência Europeia do Medicamento e uma “candidatura” vergonhosa, feita numa capela, que colocou em causa não apenas a credibilidade do Porto, mas a de Portugal como um todo.

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As rendas excessivas da EDP no país da imprensa comunista

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Fotografia: Paula Nunes@ECO

António Mexia é o exemplo acabado de um homem de sucesso em Portugal. Deu aulas, foi para a política, daí para organismos e empresas públicas, com a passagem da praxe pelo BES, e regressou à política, de onde em bom rigor nunca chegou a sair, para integrar o executivo Santana Lopes, entre Julho de 2004 e Março de 2005. Dai seguiu directo para a cadeira de presidente do Conselho de Administração da EDP, onde continua, hoje sob a batuta do regime chinês. Em 2014 recebeu de Cavaco Silva a mais alta condecoração da Ordem de Mérito Empresarial. Três anos depois, foi constituído arguido no caso relacionado com as rendas excessivas da EDP. Aquele percurso clássico.  [Read more…]

22º Congresso do PS | Moções Globais de Estratégia

“Reinventar Portugal” e “Geração 20/30” são as duas moções globais de estratégia a ser apresentadas ao próximo Congresso (22º) do Partido Socialista, pelos dois candidatos ao lugar de Secretário-Geral, Daniel Adrião (Reinventar Portugal) e António Costa (Geração 20/30).

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25 de Abril: de 1974 a 2018

Não tenho dúvidas. 25 de Abril de 1974 foi o dia mais importante das últimas décadas na História de Portugal.

Não mudou apenas o regime nessa data.

Para o melhor e para o pior, o país redesenhou-se, abandonou ideias imperiais, virou-se para a Europa, garantiu direitos para os cidadãos, socializou funções do Estado, combateu o analfabetismo e a pobreza extrema, aboliu bairros-de-lata, abriu fronteiras a outros povos, mas também escancarou portas a novas clientelas oportunistas e deixou que se instalassem pseudo-elites resultantes dos equilíbrios então gerados e das dinâmicas de mudança.

São estas que agora discursam no parlamento e nas celebrações. Corrompidas e demagogas, fizeram das encenações oficiais o Dia das Belas Intenções e juram nesta data aquilo que proscrevem durante o ano.

Neste 25 de Abril que já não é do povo ouve-se falar em povo. Também em justiça social, em diminuição das desigualdades, em combate à corrupção e à acumulação de riqueza não tributada, etc.

Contudo, se antes o problema era o 24 de Abril, agora o que é preciso mudar é o 26 de Abril e os dias que se lhe seguem.

O fascismo que espreita

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44 anos depois, mais do que nunca, devemos estar vigilantes. O fascismo espreita ao virar da esquina, com novas roupagens e apelos, aqui como em grande parte do continente europeu, para não falar na ascensão do novo fascismo americano.

Por cá, neste rectângulo que a resistência anti-fascista libertou, ainda existem partidos políticos com assento parlamentar com fascistas assumidos nas suas fileiras, outros com fascistas hipócritas que não se assumem, autarcas e dirigentes públicos corruptos que se comportam como pequenos tiranetes e a mesma impunidade que protegia os poderosos do passado. Não é um cenário particularmente animador. [Read more…]

Uma espécie de Protocolo

No passado mês de Janeiro foi aqui analisado um estranho Protocolo que a Câmara de Gaia, pelo punho do seu presidente, assinou com uma “escola de línguas” chamada Lancaster College, Protocolo esse que foi profusamente publicitado pela comunicação social como sendo uma “oferta de 75 bolsas de estudo” para famílias “carenciadas” do Concelho de Gaia.

Esse artigo de Janeiro apontava várias “inconformidades” ao referido Protocolo, tais como um Segundo Outorgante, o tal “Lancaster College”, que aparece no documento identificado com um número de pessoa colectiva pertencente a outra empresa, facto que aparentemente tem justificação na circunstância pouco ortodoxa de o Lancaster College não ter, simplesmente, existência jurídica.

Mas, afinal, o pior estava para vir:

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