Vitórias no papel

Em Março do ano passado, Trump anunciou que ia entrar em diversas guerras comerciais. E que estas eram boas e fáceis de ganhar.

“When a country (USA) is losing many billions of dollars on trade with virtually every country it does business with, trade wars are good, and easy to win,” Trump tweeted Friday morning. “When we are down $100 billion with a certain country and they get cute, don’t trade anymore – we win big. It’s easy!” [CNBC]

Não fugindo à norma, estas declarações não tinham fundamento e apenas reflectiram o lado narcisista de Trump.

Comparativamente com Agosto do ano passado, segundo o Expresso, o balanço é o seguinte:

  • As importações de produtos norte-americanos pela China caíram 22%;
  • As exportações da China para os Estados Unidos registaram uma quebra de 16%.

Olhando só para estes números, vê-se que Trump não está a ganhar guerra alguma. Nem tal será fácil. Surpresa. O cowboy americano ainda não descobriu os conceitos de win-win e de cá se fazem, cá se pagam.

Mas pode sempre pegar no seu marcador preto com que alterou a rota do furacão Dorian e rabiscar qualquer coisa que lhe amacie o ego.

Ou pode abrir mais excepções, como o adiamento das novas taxas a aplicar aos produtos chineses, essas que, segundo Trump, não afectam a economia americana – apenas para que, afinal, não afectem as compras de Natal, digo, o espírito natalício.

Houve um tempo em que se podia ter controlado a China, quando a indústria se estava a mover em massa do ocidente para o oriente, em busca de salários quase nulos e de ausência de respeito ambiental e laboral. Esse tempo há muito que passou. E não serão taxas sobre importações que irão limitar o gigante amarelo nesta economia interdependente.

Não sejamos é ingénuos!

Finalmente é notícia que “O gigantesco projeto internacional de infraestruturas lançado pela China “uma faixa, uma rota” pode minar os objetivos do Acordo de Paris sobre o clima“ – neste caso, constatado por uma conhecida unidade de investigação chinesa, num estudo realizado em conjunto com a consultora Vivid Economics e a fundação ClimateWorks Foundation.

“Se continuarmos por este caminho, mesmo que todos os outros países do mundo, incluindo os Estados Unidos, países europeus, China ou Índia cumpram as metas, as emissões de carbono mundiais continuarão a explodir”, aponta Simon Zadek, do centro da Tsinghua.

A China é hoje a maior emissora de gases causadores do efeito estufa, correspondendo a 30% das emissões globais.

Para Simon Zadek, Pequim deveria ter uma “política coerente” para a redução das emissões de CO2 no país e no exterior.

Ora uma “política coerente” é aquilo a que o ministro Augusto Santos Silva chamaria de ingenuidade; E também por cá, Governo e o PS fazem a maior questão de não serem ingénuos, querem-se sabidões, finórios. Portanto não desistem de promover a todo o vapor os bons negócios, como por exemplo o acordo UE-Mercosul, que vêm impulsionando como campeões. Que a Amazónia e as comunidades indígenas tenham de sucumbir aos poderosos interesses econômicos da criação de gado, do comércio ilegal de madeira e da produção de soja geneticamente manipulada, paciência, não sejamos é ingénuos!

A Amazónia a arder no fogo do fascismo

A Amazónia continua a arder e o presidente Bolsonaro acusa as ONG ambientalistas de ter ateado os fogos. O mesmo Bolsonaro que colocou uma lobbista do agro-negócio na pasta da agricultura, que acabou com a fiscalização das invasões às reservas indígenas e que permitiu que o desmatamento avançasse sem freio e sem precedentes. O que levou a um aumento desenfreado da poluição para níveis recorde. Confrontado com os factos, Bolsonaro demitiu o presidente do INPE, responsável pelos estudos sobre o desmatamento da Amazónia, e colocou um fantoche seu no lugar. O mesmo aconteceu com a FUNAI. [Read more…]

Suspender a democracia por 6 meses

Manuela Ferreira Leite fez a proposta há uns anos. Boris Johnson conseguiu-o ontem. Tempos e razões diferentes mas com o mesmo princípio. Levar a cabo o que alguns imaginaram, independentemente da vontade dos restantes, sem oposição nem contraditório. Há uma palavra para isto. Depois das areias assentarem, como podem pedir novamente o voto, sabendo-se que este conta quando calha? O populismo não cresce nas hortas. Mas este estrume fortalece-lhe as raízes.

É por isso

que existe uma empresa como a Amazon…

Está na mão de cada um de nós boicotar.

António Costa e o Mercosul

Para quem ainda tinha dúvidas, com a sua declaração ao PÚBLICO de que Portugal “sempre se bateu por este acordo” e de que vai empenhar-se para que seja cumprido, com as “preocupações e objectivos” de “salvaguarda dos ecossistemas”, António Costa demonstrou cabalmente que a sua prioridade é o negócio e não o planeta, pois, como bem sabe, as referências ambientais no acordo – tal como nos outros que a UE anda a assinar como quem come uvas – são apenas palavras bonitas sem qualquer força executiva.
Que o acordo com Mercosul obriga a respeito pela “cláusula ambiental” não passa pois de areia para os olhos. A verdade é que este é mais um acordo que segue à risca o modelo de desenvolvimento destruidor que nos trouxe até aqui e que se encontra em total contradição com medidas que pretendem tornar a Europa mais sustentável.
O rei vai nu e tem língua bífida.

A resposta da Gronelândia

Se não é, podia ter sido.

O Trump do Samba

Imagem: ARD  – Plante soja comigo

Há uns dias, num dos melhores programas humorísticos do primeiro canal de televisão alemã (humor, no mínimo, de calibre RAP), Bolsonaro recebeu as honras que merece:

“Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento cresceu significativamente e pode continuar aumentando a longo prazo”, diz uma voz em off, após aparecer uma foto do líder brasileiro como um “bobo da corte do agronegócio”, segurando uma garrafa de pesticida.

O apresentador destaca ainda que o presidente “não se importa nem um pouco” com a suspensão de verbas para projetos ambientais anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente alemão no fim de semana. “Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, afirmou Bolsonaro ao reagir com desprezo ao congelamento dos repasses.

Ehring também fala sobre o acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, chamando o pacto de um “romance destrutivo”. Atrás dele aparece uma fotomontagem retratando o presidente e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como uma dançarina sentada em seus braços.

“Bolsonaro ainda demitiu o chefe do próprio instituto que registrou o desmatamento na floresta tropical”, ressalta o comediante, referindo-se à demissão de Ricardo Galvão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “E também nomeou a principal lobista da indústria agropecuária como ministra da Agricultura”, complementa.

Resta apenas dizer que a conivência da UE com todo este despautério é vergonhosa. Mas os eurinhos à vista para as indústrias automóvel e química são irresistíveis.

Fake news, Expresso?

jb.png

via Expresso

Bolsonaro surpreende com cocó e prisão para jornalistas“? Mas surpreende quem? E com o quê? Com o cocó não é de certeza, que se há coisa que Bolsonaro faz bem, é dizer e fazer merda. Com ameaças de prisão para jornalistas também não deve ser. Fascista que se preze não tolera a liberdade de imprensa e pune exemplarmente os prevaricadores. E o nazi paulista não se cansa de os avisar. Junte-se-lhe o fundamentalismo religioso, e não se admirem se um dia destes descobrirem que um jornalista brasileiro foi fatiado a mando do ayatollah do Whatsapp. As parecenças deste Brasil com a Arábia Saudita não se esgotam no nepotismo e no espírito totalitário.

O califa de Mar-a-Lago

No espaço de uma semana, três atentados terroristas nos EUA ceifaram a vida a mais de 30 pessoas. Primeiro na cidade californiana de Gilroy, de seguida em El Paso, cidade fronteiriça de New Mexico, e, finalmente, em Dayton, Ohio. E se é certo que tiroteios são o prato do dia nos EUA, o elevado número de atentados em tão curto espaço de tempo é revelador destes tempos sombrios, ainda mais sombrios do que aqueles a que fomos habituados pelo Tio Sam. [Read more…]

Temas da silly season – II

Ao que parece o BE pretende cancelar a visita do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a Portugal, por não o considerar bem vindo. Nada que surpreenda vindo de quem pratica o folclore político. Como se fosse possível ignorar os 500 anos de história comum, as centenas de milhares de portugueses que vivem no Brasil, os brasileiros que vivem em Portugal, a língua, tudo porque os meninos amuaram quando os brasileiros elegeram quem bem entenderam, como se nós não fizéssemos o mesmo, quer os outros países gostem ou não das nossas escolhas democráticas enquanto povo livre. A democracia tem destas coisas, claro que percebo a dificuldade dos que tentam impor uma agenda à sociedade em lidarem com a divergência.
Não vou gastar uma linha em defesa de Jair Bolsonaro, estou-me nas tintas para o político, interessa-me mais o que se passa cá no rectângulo, em matéria de relações entre estados, os políticos passam, os países ficam. Os meninos mimados da política portuguesa precisam crescer e aprender…

Reflictamos acerca do fato

Nice chap, buys his round.

Ian Hislop

Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few.

Churchill (apud Boris Johnson)

Furthermore, there is an enormous class hatred: how can this uneducated worker who doesn’t even speak proper Portuguese dare to be sitting in the presidential palace?

Noam Chomsky

***

Efectivamente, depois de o livro de Nuno Pacheco ter sido muito bem apresentado, houve uma semana ligeiramente atribulada e o sossego do fim-de-semana.

Chegados a segunda-feira, encontramos isto, no sítio do costume:

Os responsáveis pelo desastre lá vão encolhendo os ombros, assobiando para o ar e, armados em Boris, fazendo de conta que não está a chover.

Apetecia-me escrever umas linhas acerca do verbo reflectir e da nítida função diacrítica do c nas formas arrizotónicas com e: reflecti, reflectia, reflectiam, reflectíamos, reflectias, reflectido, reflectíeis, reflectimos, reflectindo, reflectir, reflectira, reflectirá, reflectiram, reflectíramos, reflectirão, reflectiras, reflectirás, reflectirdes, reflectirei, reflectireis, reflectíreis, reflectirem, reflectiremos, reflectires, reflectiria, reflectiriam, reflectiríamos, reflectirias, reflectiríeis, reflectirmos, reflectis, reflectisse, reflectísseis, reflectissem, reflectíssemos, reflectisses, reflectiste, reflectistes, reflectiu.

Tal função torna-se perceptível, por exemplo, se compararmos com repetir: repeti, repetia, repetiam, repetíamos, repetias, repetido, repetíeis, repetimos, repetindo, repetir, repetira, repetirá, repetiram, repetíramos, repetirão, repetiras, repetirás, repetirdes, repetirei, repetireis, repetíreis, repetirem, repetiremos, repetires, repetiria, repetiriam, repetiríamos, repetirias, repetiríeis, repetirmos, repetis, repetisse, repetísseis, repetissem, repetíssemos, repetisses, repetiste, repetistes, repetiu — e quanto à justificação de -ct- nas formas com i (reflicto, reflictamos, etc.), lembremo-nos da “derivação ou afinidade evidente” e do <x>com valor [ks].

Além dessas apetecidas linhas, também queria propor formalmente uma adenda à lista de Vasco Pulido Valente. Ei-la, informal: agora facto não é igual a fato (de roupa).

Infelizmente, como o “bem-amado kaiser“, ando com pouco tempo: quer para as linhas, quer para a formalização da proposta. Fica para outra altura.

***

Queriam que Rui Rio fizesse o quê?

rr.jpg

Fotografia: José Coelho/Lusa@TVI24

Depois de Maria Luís Albuquerque e Hugo Soares, foi a vez de Miguel Pinto Luz ser excluído das listas do PSD às próximas Legislativas. E, claro, surgiram imediatamente uma série de indignados, a barafustar contra o presidente do PSD. Mais ou menos os mesmos que apoiaram Santana Lopes, mas que não seguiram com ele para o Aliança, que ainda não garante lugares, cargos e tachos a ninguém. [Read more…]

O racismo de Trump termina onde começa o dinheiro dos outros

dt.png

O rapper A$AP Rocky foi detido em Estocolmo, no passado dia 3, devido ao envolvimento numa rixa, tendo sido acusado pela justiça sueca de agressão. O músico norte-americano poderá apanhar até 2 anos de prisão.

Na sequência da detenção, Donald Trump decidiu intervir, e, sem surpresas, usou a sua conta no Twitter para atacar o governo e a justiça sueca, intrometendo-se, como é seu hábito, na soberania de terceiros. [Read more…]

O Extravagante Boris Johnson

[J. A. Pimenta de França]*

Desconcertante, brilhante, despenteado, amoral

 

Conheço o Boris Johnson pessoalmente, fomos colegas de trabalho no início dos anos 90 quando estive colocado durante três anos na delegação da Lusa em Bruxelas. Ele era o correspondente do Daily Telegraph na capital belga.

Por dever de ofício encontrávamo-nos todos os dias em serviço, incluindo nas muitas viagens ao estrangeiro que os jornalistas encarregados de cobrir a UE e a NATO em Bruxelas são obrigados a fazer para acompanhar os trabalhos das instituições.

É um tipo muito inteligente, culto, simpático, embora arrogante (acho que é uma característica da “British upper class” a que pertence), com um notável sentido de humor, extremamente ambicioso mas, simultaneamente, extremamente desonesto.

Não era exactamente um jornalista, mas sim um político a fazer política através do jornalismo. Mente sem remorsos, torce a verdade de forma que ela se enquadre no que lhe der jeito no momento. Inventava notícias com a maior das facilidades, sempre para pôr em causa as instituições europeias.

Nas suas notícias e crónicas no Daily Telegraph, Boris Johnson apresentava uma narrativa sobre a União Europeia na qual as medidas de Bruxelas só tinham duas leituras: umas eram exigências tresloucadas de burocratas excessivamente bem pagos e desligados da realidade obcecados com a normalização de tudo, desde o tamanho das bananas às placas de matrícula dos automóveis, desligados da realidade; as outras, que não se enquadravam nesta primeira descrição, eram medidas sinistras destinadas a tornar a União Europeia num super-estado policial anulando todas as especificidades nacionais. [Read more…]

Estados Unidos das Bananas

Documentário do canal alemão DW “On Bananas and Republics” sobre o império construído pela empresa United Fruit Company (UFC), considerada a primeira grande multi-nacional. Como esta empresa dominou diversos países da América Central, tomou conta das respectivas infraestruturas e colocou os governos e militares desses países ao seu serviço. A tomada de posse dos caminhos de ferro, telégrafo e terras por parte da UFC. A estratégia do não pagamento de impostos, pioneira no agora omnipresente “planeamento fiscal”. A história de como a revolta dos trabalhadores na Guatemala foi transformada num problema político dos EUA, tendo conduzido a uma guerra civil que durou 36 anos. A forma como a UFC montou uma história sobre a Guatemala, sem paralelo com a realidade, como forma de conter a revolta aos países vizinhos onde ela operava. A dívida dos países da América Central como instrumento de consolidação de poder da UFC. A expressão”República das Bananas” cunhada por O. Henry em 1901 para descrever o regime das Honduras e países vizinhos onde empresas como a UFC podiam fazer tudo o que queriam.

Imagem do documentário “On Bananas and Republics” (clicar para ver)

[Read more…]

A inversão completou-se

Os oprimidos passaram a opressores e os libertadores transformaram-se nos perseguidores.

Israel e Estados Unidos da América completaram a inversão dos papéis que tiveram na segunda guerra mundial.

Trump não faz estes ataques racistas por acaso. Ele tem uma forte base de apoio no seu eleitorado e nos congressistas republicanos, o que diz muito sobre a generalidade dos americanos também.

Na defesa do seu presidente, um congressista republicano, caucasiano, chega ao ponto de dizer que ele próprio é uma pessoa de cor. “I think we’re going way beyond the pale right now. They talk about people of color. I’m a person of color. I’m white. I’m an Anglo-Saxon”. A negação é, também, uma forma de perpetuação.

[Read more…]

É oficial: Jair Bolsonaro é uma besta

Há cerca de um mês, Jair Bolsonaro lamentou a morte de Tales Fernandes, um artista funk brasileiro que foi um dos mais destacados apoiantes do então candidato presidencial, que dias antes tinha agredido violentamente uma mulher, com quem alegadamente mantinha uma relação extraconjugal e que teria engravidado. A mulher acabou internada nos cuidados intensivos do Hospital Augusto de Oliveira Camargo, numa pequena cidade do interior de São Paulo. [Read more…]

Donald Trump & friends

DT.jpg

Ninguém lhe arranja uma cimeira (ou um negócio de armamento) com o ayatollah Ali Khamenei?

As oportunidades áureo-pútridas do Mercosul

Franguinho com salmonela,  elevado índice de resíduos agrotóxicos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o solo, provoca doenças e mata pessoas, destruição da floresta amazónica, incentivo ao consumo de carne barata e muito mais, tudo associado a esse irresponsável acordo comercial UE-Mercosul – envolto nas impolutas vestes da batalha contra o proteccionismo.

Vale tudo.

Em França, na Alemanha, os agricultores ao menos fazem-se ouvir contra este ataque pérfido. Em Portugal, é só notícias de prosperidade e oportunidades douradas.

Fica um atestado de incompetência também à comunicação social em Portugal.

 

Trump e Kim: como branquear a brutalidade do mais violento dos ditadores

TK.jpg

Foi, efectivamente, um momento histórico e sem precedentes: nunca o líder de um Estado democrático fez tanto para branquear a brutalidade do mais violento ditador à face da Terra. Pior: nunca nenhum o fez a troco de rigorosamente nada. Aguarda-se, com expectativa, a inauguração da primeira Trump Tower em Pyongyang.

É oficial: a Huawei já não está a espiar ninguém

Há coisa de um, dois meses, comprei um Huawei. Comprei por ser um bom telemóvel, segundo o meu guru dos telemóveis, que confirmou ser uma excelente opção pela vantajosa relação qualidade-preço.

Dias depois, o lunático que manda nisto tudo decidiu fazer a folha à Huawei. Alegadamente porque a China estava a usar o gigante tecnológico para espiar os EUA e o Ocidente. E se calhar até está, tanto quanto os EUA espiam o mundo inteiro com um vasto leque de tecnologias desenvolvidas para o efeito.

Desculpas para enganar malta que degusta gelados com a testa à parte, era mais que óbvio que o cerco a Huawei foi apenas mais um capítulo de uma guerra comercial entre China e Estados Unidos, que nos poderá empurrar a todos para um abismo bem mais profundo que o de 2008. Seja pela possibilidade da China inundar os mercados com dívida americana, da qual é o maior credor, seja pelas sanções contraproducentes, que prejudicam a arraia miúda e às quais os senhores do dinheiro continuam e continuarão imunes, seja pelo potencial para escalar militarmente no Pacífico.

Entretanto, o G-20 reuniu-se e Trump andou por lá a roçar-se em alguns dos ditadores mais canalhas que o planeta pariu, como o talhante saudita ou o oligarca-chefe da mother Russia. E no regresso ainda foi apertar a mão ao Kim da Coreia. Mas antes de bater continência ao senhor absoluto de Pyongyang, Trump reuniu-se com Xi Jinping e levantou as sanções à Huawei. Parece que, afinal, já não estão a espiar ninguém. Ainda não é desta que fico sem acesso às aplicações e o Google pode continuar a espiar-me à vontade e a entregar os meus (nossos) dados à espionagem norte-americana. Tudo está bem quando acaba bem.

Mercosul: O histórico momento de mais um prego no caixão do planeta

Foto: DPA

Com a conclusão do acordo de livre comércio com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), o bando político que governa o lado europeu do mundo provou mais uma vez que a sua irresponsabilidade e hipocrisia são abismais.

Por obséquio, explicai-nos como, mas COMO se conciliam os constantes compromissos de cumprimento dos acordos de Paris sobre o Clima com a promoção da devastação da floresta amazónica e da biodiversidade, a contaminação e esterilização dos solos à custa de práticas de monoculturas intensivas de grande escala ensopadas em pesticidas, a pecuária encharcada de antibióticos, a engenharia genética, a manutenção das externalidades negativas – p. ex. porque os custos dos danos ambientais adjacentes ao transporte de produtos não são incluídos no preço dos mesmos – enfim, com a prossecução do mesmo modelo de desenvolvimento obsoleto e destruidor que está a arruinar o planeta?

E COMO se encaixa a exaltação dos direitos humanos como valores europeus e a falta de pruridos em assinar acordos com quem os despreza, como Bolsonaro faz gala em demonstrar que faz?

Denominais de histórico este acordo comercial, porque sois uns farsantes cínicos, dirigentes rasteiros desta Europa esfiapada.

É que não sabeis escrever História. Escreveis episódios de telenovela reles e perversa, seguindo o primário lema do sacrifício do planeta em benefício dos lucros da vossa indústria trapaceira.

A prova

Já se sabia que a tese de a Huawei ser um perigo para a segurança dos EUA tinha uma forte possibilidades de ser um bluff. Agora, a prova está aí. Como era óbvio, a questão sempre foi uma guerra comercial, onde os americanos exerceram toda a sua força para tentar não perder o controlo comercial e técnico das futuras redes 5G.

Se havia um perigo de segurança há uns meses, este continua a existir agora.

O que é que mudou, então? Por um lado, diversas empresas americanas começaram a fazer pressão para que a barreira colocada à Huawei fosse levantada, pois os seu negócios estavam a ser afectados. E se há argumento a que Trump é sensível, o lucro é, porventura, o principal. Ver, por exemplo, a anacrónica decisão de reforçar o investimento nas central de carvão (“beautiful, clean coal“).

[Read more…]

Boas notícias que chegam de Istambul

Erdogan bem tentou, mas a repetição do escrutínio apenas veio aprofundar os números da derrota eleitoral. Que seja o princípio do fim para o autoritário presidente turco.

A corrupção de Moro

sm2.jpg

O cerco aperta-se em torno de Sérgio Moro. O juiz brasileiro, em tempos tido como uma espécie de herói nacional, é, afinal, um player politico de longa data, que usou o seu poder e influência de magistrado para manipular e condicionar o julgamento de Lula da Silva, favorecendo, de forma objectiva e intencional, a ascensão de Bolsonaro, que premiou Moro com um ministério, por serviços prestados à extrema-direita brasileira. E não, não se trata de defender Lula da Silva. Trata-se de constatar dois factos: que o julgamento do antigo presidente foi uma farsa, encenada pelo Ministério Público brasileiro, e que esse Ministério Público, comandado à distância por um juiz que se está nas tintas para a separação de poderes, se deixou corromper e mentiu os brasileiros. Não admira que Bolsonaro o tenha escolhido.

Miguel Duarte ou Matteo Salvini?

Sempre que damos dinheiro a um arrumador de carros, podemos estar a fazer parte da cadeia do tráfico de droga, com tudo o que isso implica de muitos contras e poucos prós (podemos, por exemplo estar a adiar um assalto ou a agressão a um familiar). Por outro lado, é verdade que não deixamos entrar em casa todos os desfavorecidos do mundo, por muito que nos preocupemos. Além disso, não deixamos no chão alguém que esteja caído, a não ser, talvez, que tenhamos a certeza de que merece estar no chão. [Read more…]

O futebol é um lugar corrupto

mp.jpg

O mundo do futebol, só não vê quem não quer, é um lugar corrupto. É corrupto em Portugal, é corrupto em Espanha, é corrupto no mundo obscuro dos agentes e dos fundos de investimento, é corrupto na UEFA, na FIFA e na CONCACAF.

A corrupção no futebol é, portanto, planetária. Manifesta-se na viciação de resultados, nos subornos a árbitros, dirigentes e jogadores, nas votações que atribuem lugares ou a organização de grandes eventos futebolísticos. Há luvas para todos os gostos, lavagem de dinheiro e comissões estratosféricas que ninguém consegue perceber. Há fruta para dormir, padres para rezar missas e malas cheias de dinheiro sujo – ou já lavado – com as quais se compra um pouco de tudo que se relacione com a bola. O futebol é hoje um esgoto a céu aberto que ofusca o espectáculo dentro das quatro linhas. [Read more…]

Resumo do silencioso massacre sudanês

s.jpg

Pedro Amaro Santos

SUDÃO:
— 500 mortos (pelo menos 19 são crianças);
— 723 feridos (pelo menos 49 são crianças);
— 650 presos;
— 54 violações;
— 1000+ desaparecidos.

Em dezembro de 2018, começaram os protestos contra o Presidente al-Bashir. Os manifestantes exigiram que fosse deposto. Os protestos forma motivados pelos cortes súbitos do governo nos subsídios para pão e combustível.

A 6 de abril, os manifestantes encheram a praça em frente ao principal quartel militar. Cinco dias depois, os militares anunciaram que derrubaram o governo de al-Bashir.

Os protestos evoluíram para um pedido de transição para a democracia, acreditando que um longo período de transição era essencial para reconstruir completamente o governo do país. No entanto, os militares, controlados pelo Transitional Military Council (TMC), tomaram o poder sobre o governo.

O conselho é liderado pelo tenente-general Abdel Fattah al-Burhan e apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e pela Rapid Support Force (RSF) – também conhecida como Janjaweed, a força paramilitar responsável pelas atrocidades cometidas em Darfur.

Os líderes das forças militares e organizadores dos protesto acabaram se unir num grupo chamado Alliance for Freedom and Change e, cerca de um mês depois da deposição de al-Bashir, chegaram a um acordo. A 15 de maio anunciaram que haveria um período de três anos de transição para um governo civil de poder repartidos.

Algumas semanas depois, tudo mudou. A 3 de junho, o RSF e outras forças policiais espancaram e abriram fogo sobre manifestantes não-violentos durante um protesto. Mataram mais de 60 pessoas e feriram mais de 300. Iniciaram a chamava grande ofensiva militar (major military crackdown).

Esta semana, o número de mortos subiu para mais de 100, depois terem sido encontrados mais de 40 corpos no rio Nilo. A RSF também foi acusada de violar mais de 70 pessoas durante o ataque.

Pelo menos 19 crianças foram mortas e 49 ficaram feridas. Outras estão a ser capturados, recrutadas e sexualmente abusadas ​​pela RSF.

Os manifestantes pró-democracia sudaneses são principalmente a população jovem do país. Os direitos limitados das mulheres do Sudão estão bem documentados: casamento infantil e o abuso sexual continuam a ser problemas no país.

Desde a semana passada, tem havido relatos de blackouts na rede móvel e internet. Os meios de comunicação estão proibidos de transmitir notícias sobre o conflito.

 

 

Sim, a extrema-direita tem um ligeiro atraso mental

e depois temos este excremento a declarar-se não culpado de um atentado que fez questão de filmar.