Uma (dupla) lição para a selecção nacional

O que se passou ontem no Grupo E do Mundial foi sensacional. Antes da competição, poucos duvidavam que seriam a Espanha e a Alemanha a passar. A única dúvida era qual das duas passaria em primeiro. Hoje, chegaram a estar as duas eliminadas, mas a Espanha lá se safou, apesar da derrota contra o Japão-sensação. E que isto sirva de lição para a selecção (efectivamente, a selecção) nacional. Uma dupla lição: para não subestimar adversários teoricamente inferiores e para não se encolher perante os gigantes. Porque os gigantes também caem e ontem caíram dois. Se Portugal jogar tanto quanto sabe, com humildade e determinação, o caneco pode mesmo vir cá parar.

A Folha Nacional e a arte de perpetuar noticias falsas

O CH recorreu a um truque clássico do populismo fake: lançou uma “notícia” na Folha Nacional, o seu órgão oficial, aplicou-lhe indevidamente o selo de qualidade da Lusa – por discutível que essa qualidade possa ser considerada – e fez passar a sua propaganda como algo de natureza puramente jornalística.

Como sempre acontece com estas coisas, o partido de Ventura foi apanhado, garantiu tratar-se de um lapso – aparentemente, um dos militantes do partido tinha ali um logo da Lusa à mão e meteu-se sem querer na publicação do partido – e corrigiu a peça, uma hora mais tarde. Com um sincero pedido de desculpa. Mesmo do fundo do coração.

Agora é deixar a internet funcionar. A versão fake Lusa da Folha Nacional vai circular infinitamente, convencendo centenas ou milhares da sua autenticidade, e, a determinado momento, o fake passa a ser verdade por exaustão digital. A extrema-direita contemporânea funciona assim. De Trump a Le Pen, de Abascal a Bolsonaro, o estratagema é comum e recorrente. E profundamente eficaz. Um dos muitos motivos para combater esta gente sem contemplações.

Restauração desta espécie de Independência

Transportado para os dias de hoje, o reino de Espanha era a nossa Rússia e achava-se no direito de nos ocupar. Com a diferença que ocupou. Aturamos os gajos 60 anos, até que as elites se fartaram deles – para o povo, sempre escravo, pouca diferença fazia se o chicote era português ou castelhano – e atiraram o traidor Vasconcelos pela janela, o que teve a vantagem, entre outras, de popularizar o termo “defenestrar”, que é uma bela palavra. E pumba, voltamos a ser independentes para, quatro séculos depois, sermos uma colónia da UE, da NATO, do BCE, do FMI, do PS, do PSD, da Opus Dei, da maçonaria e de resmas de oligarcas com vistos gold. Mas os espanhóis, esses, não passaram nem passarão. Há que manter os mínimos.

Costa contra Costa (e o passismo)

Não me surpreenderia se aquilo de que Carlos Costa acusa António Costa fosse verdade. Acredito até tratar-se de um standard procedure, inclusive para filhas de ditadores menos influentes na política e na economia do nosso país. E tenho um palpite que Costa, o governador, terá provas factuais das suas acusações. O que faria de Costa, o governante, um player menor, vergado aos interesses de Luanda. Como o foram todos os seus antecessores. Um caso interessante para acompanhar nas próximas semanas.

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Jorge Miranda esqueceu-se do Acordo Ortográfico de 1990

For the heuristic purposes of analyzing learners’ L2 performance and L2 proficiency in SLA research, we argue that the broader notion of L2 complexity minimally consists of three components: propositional complexity, discourse-interactional complexity and linguistic complexity.
— Bulté & Housen (2012)

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Efectivamente, Jorge Miranda esqueceu-se de mencionar o AO90, ao apresentar a lista de “muitos e muito graves problemas que a Assembleia da República deveria discutir e obrigar o Governo a enfrentar: a inflação, a lentidão da justiça, a crise nos hospitais, as distorções de serviços públicos, grandes zonas de pobreza“.

Portanto:

  • inflação,
  • lentidão da justiça,
  • crise nos hospitais,
  • distorções de serviços públicos,
  • grandes zonas de pobreza,
  • Acordo Ortográfico de 1990.

Porque Miranda não sabia, mas já sabe. No entanto, se, passado um decénio, ainda não souber, convém perguntar a quem saiba e não ao colega que fala muito, mas sabe pouco.

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Aquele abraço

Ao fim de duas rondas só há três seleções com duas vitórias: França, Brasil e Portugal. Há a bem encaminhada Espanha, que esteve perto de fazer a mala à Alemanha. Há várias a jogar bom futebol, com destaque para as federações mais pobres com as vitórias do Gana, Senegal, Irão e Marrocos. E depois há uma mão cheia de parcerias que jogam muito, Griezmann e Mbappé, Vinicius e Richarlison, Pedri e Gavi, e outras duas, em Portugal e na Argentina, que seria um épico dramático ver chegar à final.

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Grow a pair, Dr. Fauci

Não sou (nem preciso de ser) negacionista, e sei, como qualquer indivíduo com mais de três neurónios, que na China a transparência é uma ficção. Mas de que país é mesmo a Pfizer, que lançou uma vacina para o mercado sem a testar na prevenção só contágio, apesar de garantir que o prevenia? Grow a pair, Dr. Fauci.

Sabem o que não é proibido no Mundial do Catar?

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A solidariedade com a Palestina, que tantas e tantas vezes foi sancionada nos estádios das democracias europeias. Justifica tudo o resto? Não. Absolve a ditadura do Catar dos seus crimes? Absolutamente que não. Mas não deixa de ser assinalável que seja mais fácil a solidariedade com a Palestina no quadro de um regime autoritário do que nos supostos territórios da democracia e dos direitos humanos.

Sons do Aventar – Noite

Foram muitas as candidaturas para as 4 vagas reservadas às livres submissões, no Festival RTP da Canção 2023, que decorreram no pretérito mês de Outubro.
Este tema, foi um dos muitos que não foram escolhidos. Chama-se “Noite”.

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Miguel Alves é a regra, não a excepção

Não fiquei minimamente surpreendido com o desenrolar e desfecho do CaminhaGate. Até porque Miguel Alves é a regra, não a excepção.

É a regra num universo de 308 autarquias pouco escrutinadas, vezes demais controladas por autênticas quadrilhas partidárias e interpartidárias, que manipulam o uso de orçamentos camarários e fundos europeus em proveito próprio.

Que servem os interesses de empresários e investidores.

Empresários ou investidores, que, por sua vez, financiam campanhas e sacos azuis, a troco de negócios, obras, licenças, empregos ou simples lobby.

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Fernando Gomes, a eterna mocidade que disse à gente o que é ser nobre e leal

O futebol português perdeu hoje uma das suas grandes figuras, dono de uma característica cada vez mais rara e caída em desuso na modalidade: Fernando Gomes era, entre muitas outras coisas, um homem decente.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 80, o Bibota era uma espécie de divindade omnipresente, que entrava em todas as histórias do passado recente do nosso Porto, que ouvíamos aos nossos pais, avós e aos amigos deles. Por ser um avançado fora de série, fundamental na afirmação nacional e internacional do FC Porto, integrando o restrito lote de bibotas europeus, mas também pelo cavalheiro, pelo homem de princípios e exemplo de integridade que foi fora das quatro linhas.

Houve um tempo em que achei que o veria um dia como sucessor de Pinto da Costa, mas há muito que a doença tinha chegado para contrariar e enterrar as minhas expectativas. O nosso Bibota perdeu essa partida, contra um adversário implacável, mas morre de pé, como morrem os vencedores, porque é ele a expressão maior dessa eterna mocidade, que diz à gente o que é ser nobre e leal.

Descansa em paz, capitão Bibota 💙💙

Shhiiiuuuuuuuu!

Finda a primeira jornada os destaques vão para a Arábia Saudita e o Japão, que venceram a Argentina e a Alemanha, os derrotados, mas promissores, Senegal e Irão, Ochoa e Courtois, os melhores na baliza, o golo de Richarlison, o novo R9, a lesão de Jair Neymar, que coloca o Brasil entre os favoritos e, claro, o recorde de Ronaldo, a marcar em cinco Mundiais, e que não precisou de mais do que um jogo para calar a boca aos haters mais aziados.

Sobre o jogo de Portugal só Bernardo, Ronaldo, Fernandes e Dias têm lugar garantido na seleção, todos os outros estiveram muitos furos abaixo do que é preciso para se ir longe na competição. É tirar o Otávio e meter o Horta, tirar o Félix e meter o Leão, tirar o Guerreiro e meter o Mendes, tirar o Neves e meter o Palhinha, tirar o Danilo e meter o Pepe, tirar o Santos e meter o Mourinho e só tirar o poeta voador se forem a tempo de ir buscar o Éder.

Susana Peralta pergunta:

Sabia que o Parlamento não conhece o OE que hoje vota?“.

Sim, sabia. Aliás, toda a gente sabe. Nem o que hoje vota, nem os que votou para 20122013201420152016201720182019, 20202021 e 2022 [1] e [2].

E gostei do conceito “cacofonia orçamental”: proponho que abranja os “tetos de despesa”, mencionados pela Autora. Os vinculativos, sim, mas também os indicativos.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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Geração de Mulheres Europeias Agressivas

Igor Korotchenko, jornalista do regime de Putin, transmite a mensagem do mestre contra essa nova “geração de mulheres europeias agressivas” que vieram “da cozinha” para a política. Segundo Korotchenko, essas mulheres que até lideram países como a Finlândia ou a Estónia, que lideram ministérios da defesa como na Alemanha, que defendem princípios socialistas ou ecologistas e que até protestaram contra as bases americanas na Europa, são agressivas e rudes contra o regime de Putin e provocadoras da “nova guerra”, obviamente…
Palavras deste calibre também poderiam ter sido proferidas por alguém da bancada do Chega, por um Pedro Frazão por exemplo. Mas não é preciso ir tão longe, no início desta guerra ouvimos excelentíssimos cavalheiros da área do PSD (e até do PS), como José Miguel Júdice, a prognosticar o fim desta Europa das ministras da defesa de saltos altos e de maquilhagem que, obviamente, não seriam capazes de fazer frente a Putin.

Este é um excelente exemplo para quem ainda não percebeu que as fronteiras desta guerra não são as fronteiras da Ucrânia, da NATO ou do Donbas, e que as verdadeiras fronteiras são absolutamente ideológicas, desenham-se entre quem está no campo de Putin, Trump, Orban, Ventura, Le Pen e Bolsonaro e entre quem defende o humanismo, a igualdade, o estado de direito, uma sociedade baseada no conhecimento ou a erradicação da pena de morte. Muito recentemente o cenário Trump-Putin-Le Pen não esteve assim tão longe do horizonte e ainda não está tão afastado quanto isso. Este cenário a acontecer no atual contexto, não tenham dúvidas, seria o fim da picada.

A sério, Expresso? Pára para?

We have to be more cautious in describing quantitative relationships. The one thing that we were just looking at, the interactive things we can do with the new methods, and we have a figure that we will keep, which shows the inflation unemployment counterclockwise spirals in the 70s and the 80s where you have to go through this bulge in unemployment to get inflation down… I mean… clockwise spirals…. Anyway… Like that ⮏. Or, from your point of view, like that ↺.
Paul Krugman

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Pára para? Não era para para? Como em “uma lagosta para para me ver“? Ah! É pára para. OK.

Mais uma recaída. Exactamente. Efectivamente.

E qual é a explicação para factor?

Recaída? Deixaram de adoptar o AO90?

As duas coisas? Nem por isso? Que grande confusão. Tantas hipóteses, Expresso. Apesar de tanta conversa.

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Hoje, quinta-feira, 24 de Novembro de 2022, jogam

a selecção e a seleção. Efectivamente. Porque ‘selecção’ ≠ ‘seleção’.

O Mundial do Qatar, segundo John Oliver

Acho que ficou bem resumido.

O último Mundial do Ronaldo… e de 6500 trabalhadores!

Amanhã, parece que começa o Mundial de Portugal. Muitos já o chamam de Mundial da vergonha, mas não é o suficiente para deixarmos de seguir com a mesma intensidade os heróis nacionais que se irão sacrificar pela nossa pátria. Os direitos humanos são inalienáveis, menos quando se trata de bola, porque o desporto irá unir toda a gente. O Qatar, neste momento, é aquele homem que bate na mulher e depois pensa que resolve tudo com umas flores. Neste caso, as flores são o futebol.

 

Entendo que para o Ocidente este Mundial seja uma vergonha e tal, mas agora esqueçamos isso. Quem não deve esquecer são as famílias dos trabalhadores que faleceram em condições terríveis, aqueles que não podem assumir a sua identidade no Qatar, aqueles que vêem as suas liberdades individuais aniquiladas. No entanto, o Ocidente perde cada vez mais a moral para criticar estes regimes totalitários. A cada oportunidade de ver dinheiro à frente, o Ocidente coloca as tretas dos direitos humanos de parte e verga-se perante os cifrões que lhes são colocados no papel. Perdemos constantemente os valores a troco de preços. A culpa disto já não é do regime assassino do Qatar, é de quem se aceita corromper por tão pouco.

 

Mas esqueçamos isso. Esqueçamos isso, porque sabemos que, em princípio, nunca será um dos nossos ou próximo a sofrer o que esses migrantes sofreram. Esqueçamos isso, porque vivemos neste canto à beira-mar plantado que até é bem sossegado. Esqueçamos isso, porque sim, trabalhadores a falecer é chato, mas agora a preocupação é se o Danilo joga a central. Esqueçamos isso, porque ter um estádio em cima de um cemitério pode não ser agradável, mas já imaginaram se o Félix marca um golo mesmo ao ângulo naquela baliza? Esqueçamos isso, porque é o último Mundial do Ronaldo… O pior é que também foi o último de 6500 trabalhadores.

Nunca nos esqueçamos.

A UTAO é financeiramente iliterada

Numa proposta de alteração ao Orçamento de Estado para 2023, a Iniciativa Liberal (IL) sugeriu a criação de apenas dois escalões, em vez dos seis existentes em 2020 (agora são nove, em 2023).

Mas, diz a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) que “a variação da receita de IRS no Continente em 2020, caso a proposta da IL substituísse a redação do art. 68.º do CIRS em vigor nesse ano, atingiria o montante aproximado de –2,9 mil M€, cerca de 22,8%”. Foi a própria IL que pediu este parecer, por via da Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças.

O parecer esclarece que, caso a proposta da IL estivesse em vigor já em 2020, as finanças públicas sofreriam um rombo de 3.000 milhões de euros. Milhares de milhões que já não são totalmente aplicados na Saúde, na Educação ou na Habitação e que, caso a IL conseguisse pôr na Lei a sua proposta, ficariam ainda mais calvos de meios e profissionais.

A vida adulta, confirma-se, é bastante diferente da adolescência arrebatada que levou a IL a eleger um deputado em 2019 e oito em 2022. Como se viu no Reino Unido, os choques fiscais trazem mais problemas (nomeadamente aos pobres e à proclamada classe “média”) do que benefícios à maioria dos cidadãos (como se aferiu pela situação britânica, há uma minoria que, certamente, lucraria com isso – por isso parem lá de dizer que a Direita não respeita minorias).

Por fim, noutra notícia, datada de 9 de Novembro de 2022, mas que se relaciona: “IRS reduziu desigualdades em 12% em 2020”. Segundo noticia o Jornal de Negócios, uma “análise inédita com base em microdados da Autoridade Tributária mostra que o IRS é um instrumento poderoso de redução das desigualdades de rendimento. Mas mostra também que os rendimentos mais altos estão concentrados numa fatia pequena da população.” Comprova-se, portanto, que a realidade liberal não é a realidade factual e que os ataques dos ultra-liberais à progressividade fiscal não são mais do que um ataque a um dos melhores instrumentos de redução das desigualdades entre a população.

O que importa, pois, não é, então, eliminar a progressividade e adoptar apenas dois escalões, beneficiando quem arrecada mais ao final do ano, mas sim tornar essa progressividade mais justa entre escalões e mais abrangente.

O ainda líder dos liberais diz afastar-se da liderança para “tornar a IL mais popular”.

Ser popular… ou ser populista, Cotrim de Figueiredo?

Ps. Como não poderia deixar de ser, as principais figuras da IL já se predispuseram a acusar a UTAO de ignorância por essas redes sociais fora. O “complexo de deus” tem destas coisas.

“Cerca de 40 detidos por escravizarem centenas de imigrantes em campos agrícolas”

Não fazia ideia de que no Catar havia um lugar chamado Beja.

Aberração em Alvalade

Pouco se falou ou debateu o caso mas, à beira desta aberração, o “esqueçamos isso” de Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu ser menos embaraçoso para a democracia portuguesa.

Não é admissível que um cidadão português seja proibido de entrar no estádio de t-shirt da Amnistia Internacional vestida com uma mensagem sobre violação dos direitos humanos na construção dos estádios do Mundial do Qatar. Alvalade não é nem pode ser o Lusail.

Pessoalmente, penso que a Amnistia Internacional devia processar o estado português, por permitir esta ingerência inaceitável da FIFA na soberania de Portugal. A Constituição da República Portuguesa protege aquelas pessoas que foram impedidas de entrar no estádio e não está submetida a uma organização corrupta como a FIFA.

Mas foi precisamente a FIFA, voz do seu dono qatari, o Vladimir al Thani, quem levou a melhor.

E eu senti, naquele momento, vergonha de ser português. Vergonha de ver Portugal vergado a um regime totalitário que exigiu o silenciamento e castração de uma liberdade individual fundamental, constitucionalmente protegida. E vieram-me a cabeça as palavras do pastor Martin Niemöller:

  • Quando os nazis vieram buscar os comunistas eu fiquei em silêncio, porque não era comunista.

Que não chegue o dia em que eles venham buscar os tipos com t-shirts da Amnistia Internacional. Os próximos, em princípio, serão vocês.

Até das vitórias temos medo?

Os cerca de 700 estivadores de Liverpool conseguiram uma importante vitória. Depois de uma greve de cinco semanas conseguiram aumentos entre os 14.3% e os 18.5%. Entretanto, por cá, ninguém deu a notícia, estejamos a falar da comunicação social, estejamos a falar da comunicação das demais organizações. Estes conflitos são fundamentais para lembrar que a única maneira de enfrentar a crise económica, política, social e sindical, é a recuperação das formas de luta, mas se as formas de luta não forem notícia, sobretudo quando são vitoriosas, perde-se o efeito pedagógico da sua aprendizagem. O silêncio dos meios de comunicação das grandes corporações é óbvio – estão a trabalhar para os seus interesses – mas dos demais não. Estamos num tempo tão defensivo que até das vitórias temos medo?

Henrique Raposo tem razão

Não é muito frequente mas acontece-me, de longe a longe, concordar com Henrique Raposo. E tem muita razão, quando aponta a seguinte hipocrisia, no artigo de ontem no Expresso: não podemos estar para aqui a barafustar contra a vassalagem ocidental ao totalitarismo Qatari, quando permitimos que aqui, na Europa, mulheres e homossexuais continuem a ser agredidos e subjugados por fundamentalistas islâmicos. Tal como permitimos que a comunidade cigana case meninas de 13 ou 14 anos e as impeça de ir à escola. E se certa esquerda insistir na negação, e continuar a gritar “racismo!”, de cada vez que alguém alerta para o óbvio, mais lhe vale estender uma passadeira vermelha à extrema-direita e enterrar a cabeça no chão para evitar de ver a sua triste figura.

Selecção iraniana goleia o Ocidente

Os jogadores do Irão foram goleados pela Inglaterra, num jogo em que golearam as democracias liberais em prova – Inglaterra incluída – rendidas à proibição do uso de braçadeiras arco-íris e t-shirts a dizer “direitos humanos para todos”. Desafiaram um regime tão violento como o qatari e recusaram-se a cantar o hino, em protesto contra a repressão no país. Ou, escrito em bom português futeboleiro, mostraram que têm uns tomates do crlh*!

Que grandes ovários!

Entretanto, no Qatar, a jornalista e antiga futebolista Alex Scott explica ao mundo porque razão as mulheres são o sexo fraco, com a mesma braçadeira arco-íris que os jogadores europeus tiveram medo de usar enfiada no braço. Isto de as mulheres fazerem mais barulho que os homens na luta pelos direitos humanos no Médio Oriente está a tornar-se um caso sério. Acho que devíamos pensar seriamente na possibilidade de substituir a expressão que evidencia coragem “que grandes tomates” por “que grandes ovários”.

Twilight zone bolsonarista V

Os minions de Bolsonaro continuam a sua saga pela twilight zone, desta vez expandindo o golpe para o espaço sideral. Sim, isto provoca uma certa vergonha alheia. Mas há que admitir que é refrescante ver este exército de alucinados a assumir a sua chalupice. Em código Morse.

“Se é que Deus existe…”

Chegado a um balcão dos CTT, instalado numa casa de comércio, deparo-me com um idoso de aparência octogenária junto ao balcão, de roupas limpas mas desgastadas, magro, com ombros curvados pelo tempo, pescoço magro a destoar com a cabeça larga, apoiado numa bengala e de máscara presa abaixo do nariz.

Por entre uma respiração cansada, o idoso solicitou à funcionária que o ajudasse no pagamento da conta que constava da correspondência registada que acabava de levantar, remetida por uma entidade pública.

A funcionária, solícita, ajudou mas não foi capaz de esconder a sua indignação: a conta a pagar era de um cêntimo. A resposta do idoso, por entre a respiração cansada e forçada, que soou a uma mescla de derrota e de revolta, foi “Temos de pagar, menina. Temos de pagar”.

Paga a conta, o idoso agradeceu à funcionária o seu cuidado, desejando “Que Deus a ajude”. E após voltar-se para a porta de saída, olhou ligeiramente para trás e considerou “Se é que Deus existe…”, e apoiado na sua bengala saiu para a rua como se carregasse o mundo às costas, fustigado pelo vento e por uma chuva miudinha.

Numa breve cena, assisti a uma total desconstrução do progresso, da eficácia, da proximidade e da racionalidade, com que nos querem vender a modernidade coeva. À desconstrução de políticas, discursos, projectos, apoios, planos, bazucas, da era digital, dos “simplexes”, da inteligência artificial, dos “summits”, das redes, dos Direitos Humanos, dos discursos e das promessas. À desconstrução da fé.

Faz Marcelo Rebelo de Sousa muito bem em ir ao Catar pugnar pelos Direitos Humanos, entre um jogo de bola e umas “selfies”. Os tais direitos que, de início, eram para esquecer, mas que, afinal, já são para lembrar.

Até porque cá por casa está tudo bem. Graças a Deus. “Se é que Deus existe…”

O Mundial do Qatar, o lobista Sarkozy e as armas que al Thani lhe comprou

O Qatar garantiu a organização do Mundial em 2010. Na altura, Nicolas Sarkozy era presidente de França e lobista do violento regime Qatari. A UEFA, fundamental na escolha do Qatar, era liderada por Platini. E Platini foi um dos convidados para uma célebre reunião na residência oficial de Sarkozy, juntamente com o Vladimir do Qatar, Tamim bin Hamad al Thani. A reunião terminou com duas certezas: que o Mundial de 2022 seria no Qatar e que o Qatar encomendaria 14 mil milhões de dólares à indústria francesa do armamento. Pelo caminho, com os trocos que sobraram, ainda compraram o PSG.

Ainda bem que estas coisas não passam na televisão. É um aborrecimento, ter que levar com a realidade, quando há tanto futebol para ver.

Por este rio acima: 40 anos

“Por este rio acima”, sexto álbum de Fausto, comemora 40 anos de existência.

Editado a 19 de Novembro de 1982, é o sexto álbum de Fausto, sendo o primeiro álbum de uma trilogia chamada “Lusitana Diáspora”, que inclui ainda “Crónicas da Terra Ardente” (1994) e “Em Busca das Montanhas Azuis” (2011).

Inspirado nas viagens de Fernão Mendes Pinto relatadas em “Peregrinação” (1614), contraria a obra no sentido em que Fausto nunca saiu de Lisboa para compor o disco e sendo a viagem do cantautor uma viagem interior, em que o seu “eu” desflora o país que o rodeia e as tormentas do seu povo.

Editado pela Triângulo da Sassetti, produzido por Eduardo Paes Mamede, escrito, composto e interpretado por Fausto, com a companhia de Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral e Rui Júnior, o disco “Por este rio acima” será, para sempre, um marco na cultura popular portuguesa.

Fausto Bordalo Dias nasceu em 1948 no interior do navio “Pátria”, algures entre Angola e Portugal.
Fotografia: Manuel Castro

Cultura de cancelamento no Qatar 2022

Os talibãs do cancelamento descobriram agora que irá começar um Mundial de futebol no Qatar e correram em matilha, apontando baterias à FIFA, promovendo um boicote que está condenado ao fracasso, porque a cultura woke apesar de histriónica, pode até conseguir boa imprensa e condicionar políticos no Ocidente, mas é irrelevante no Mundo. [Read more…]