Lettres de Paris #66

C’est Paris

Há uns dias, num café perto do Marché des Enfants Rouges, falei com a minha prima Lena acerca do livro de Julien Green (‘Paris’, Tinta da China, 1ª edição de 2008). Reli o livro, que comprei em 2012, no avião. E falámos dele a propósito da flânerie, palavra que literalmente poderia ser traduzida como ‘vadiagem’, mas que está longe de ser apenas isso. Flâner é basicamente passear pelas ruas e praças e observar e absorver. Com tempo. Ociosamente até. Gosto de pensar em mim como flâneuse, embora na maior parte das vezes que viajo não tenha o tempo necessário para o ser verdadeiramente.
Diz Julien Green no texto ‘uma cidade secreta’ que «Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural (…) porque há muitas parises e a do estrangeiro só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses». E eu sou estrangeira, irremediavelmente, para ter tempo para conhecer o que é possível (mesmo a um parisiense) de uma cidade tão diversa – já o reconheci numa carta anterior – como esta. Mas a verdade é que passear em toda a parte, subir a sítios altos e descer de sítios altos, sentar-me nos cafés, fumar nas esplanadas e observar ociosa, mas atentamente o que vai acontecendo à minha volta é uma das coisas que mais gosto de fazer, em Paris como noutro sítio qualquer. Assim mesmo, sempre estrangeira, estou certa que não conheço nenhum lugar bem, tal como, estou igualmente certa, não conheço nenhuma pessoa bem – nem a mim mesma. As cidades, escrevi também isto num postal de Bucareste, há muito tempo, precisam de tempo, como as pessoas. E as cidades tão múltiplas como Paris precisarão ainda de mais tempo. E, assim, mesmo nunca será suficiente. Ao contrário do que diz Green, no mesmo texto que mencionei, nem mesmo com tempo poderemos afirmar conhecer bem uma cidade (ou uma pessoa). Isto é bom e mau, como quase tudo, sendo que entre estes dois extremos existe toda uma série de possibilidades. Bom porque seremos sempre surpreendidos. Mau porque seremos sempre surpreendidos. Não é contraditório. Absolutamente.

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Sons do Aventar

O discurso.

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Esta madrugada a actriz Meryl Streep, nos Globos de Ouro, foi ao palco receber o seu mais que justo prémio de carreira e fez um discurso brilhante. Podem ver e ouvir neste link.

 

da Ignorância

Platão conta, no seu famoso plágio do Livro de Filolau, um episódio passado com Sólon, o mais sábio dos Sete Sábios da Grécia Antiga.

De visita ao Egipto, Sólon é admoestado com alguma ternura por um velho sacerdote, que critica a tendência grega para, ciclicamente, se auto-destruir para, logo depois, se reinventar do nada. Diz o Sacerdote no Timeu:

Entre vós [os gregos], porém, e entre os restantes povos, todas as vezes que vos acontece estarem equipados com as letras e todas as coisas de que as cidades têm necessidade, de novo, passados os anos habituais e como se fosse uma doença, caem sobre vós e os outros os fluxos do céu, restando entre vós apenas os iletrados e os ignorantes, de tal maneira que voltais ao princípio, tornando-vos outra vez como que novos, sem nada saberdes, nem do que aconteceu aqui, nem do que se passou entre vós nos tempos primitivos.

Así que pasen cinco años

PADRE: Cinco años, día por día. ¡Ay, Dios mío!

— Federico Garcia Lorca, Así que pasen cinco años

Dans le modèle de Klein, l’état spatial est l’opération linguistique de base dans la représentation de l’espace.

—  Arnaud Arslangul (2007)

Fast alle Schnecken, nur etwa drei Gattungen ausgenommen, haben ihre Drehung, wenn man von oben herab, d. i. von der Spitze zur Mündung gehet, von der Linken gegen die Rechte.

— Kant, Von dem ersten Grunde des Unterschiedes der Gegenden im Raum

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Quando, há cinco anos, isto começou a acontecer de forma sistemática

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dei início à recolha de material para um documento, apresentado, um ano mais tarde, na Assembleia da República. A única resposta pública que então obtive foi do ILTEC:

Tal não invalida, é claro, que sejam legítimas as preocupações que o autor expressa no seu trabalho. É importante que os órgãos oficiais, sobretudo num período de transição como este, se esforcem por dar o exemplo e evitem erros.

De facto, cinco anos depois de os fatos e afins terem começado a ocupar quer o lugar dos factos e afins, quer o quotidiano dos leitores do Diário da República, eis o resultado das acções silenciosas que terão sido conduzidas pelos responsáveis políticos para combater o flagelo ortográfico em curso, baseadas evidentemente em estudos secretíssimos e, sem qualquer sombra de dúvida, aturados, demorados e muito rigorosos:

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Efectivamente, 2 de Janeiro de 2012 e 2 de Janeiro de 2017.

Contudo, hoje é dia 6. O que terá acontecido hoje, dia 6 de Janeiro de 2017? [Read more…]

A Cidade da Alegria

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Durante o mês que decorre, Janeiro de 2017, o primeiro-ministro António Costa visitará a Índia, o segundo país mais populoso do mundo. Quem a conhece, entre os ocidentais, diz que é uma terra deslumbrante e aterrorizadora.

Dominique Lapierre escreveu A Cidade da Alegria (1985), um livro que retrata a vida duríssima dos habitantes de um bairro de lata de Calcutá que, apesar de uma tremenda miséria material, irradiam uma alegria paradoxal e contagiante, alicerçada numa fé religiosa inabalável na qual sustentam a sua resignação. Esta Cidade da Alegria é uma realidade cultural e até antropológica difícil de compreender à luz dos padrões ocidentais, talvez mesmo à luz de qualquer tipo de padrão. É a terra do desespero, com cerca de metade dos seus 12 milhões de habitantes a viver na rua, onde dorme, come, toma banho e satisfaz as suas necessidades fisiológicas, de cócoras, muitas vezes nas bermas das ruas e nos passeios. As vias públicas são autênticos rios de dejectos e da água que serviu para lavar o corpo e a loiça. A maior parte da população de Calcutá que vive nestas condições é proveniente do Bangladesh. Vieram como refugiados, antes e depois de 1971, ano de independência daquele país, fugindo à fome e às lutas entre hindus e muçulmanos. Diz quem esteve em Calcutá que nenhum ser humano fica indiferente ante a imagem catastrófica da Cidade da Alegria, onde a fome, a doença e a morte são constantes a cada esquina.

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Na Via Láctea

 
De Emir Kusturica. Com Monica Bellucci  e Emir Kusturica.
Estreia hoje. Nos cinemas em Lisboa (Ideal, Monumental, UCI El Corte Inglés), Porto (Teatro do Campo Alegre, Alameda Shop & Stop, UCI Arrábida), Cascais (Cinema da Villa), Coimbra (Alma Shopping) e Setúbal (Charlot).

Primavera em tempos de Guerra. Todos os dias, o leiteiro atravessa a fronteira de burro, lançando balas para levar as suas preciosas mercadorias aos soldados. Abençoado pela sorte na sua missão, amado por uma bonita aldeã, um futuro tranquilo parece aguardá-lo… Até que a chegada de uma misteriosa mulher italiana vira a sua vida de pernas para o ar. Esta é uma história de paixão e amor proibido, que os levará numa série de fantásticas e perigosas aventuras. Unidos pelo destino, nada nem ninguém parecem poder pará-los. Vencedor de duas Palmas de Ouro do Festival de Cannes, Emir Kusturica realiza e dirige esta história de amor e guerra, recheada de emoção, comédia e aventura.

Passageiros? Em fuga…

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Como gosto muito de ficção científica e não fiz o trabalho de casa, fui ver o filme “Passageiros”. Meus amigos/as, salvo melhor opinião, é de fugir! Que grande barrete. E é muito bem feito, quem me manda a mim ir ver um filme sem primeiro dar uma vista de olhos ao resumo e às críticas sérias de quem sabe da poda?

Fica o aviso aos leitores do Aventar.

Carrie Fisher (1956 – 2016)

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May the force be with you, princess Leia 😦

Sobre o falecimento de George Michael (1963 – 2016)

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Entretanto, na galáxia das redes sociais, o feed entupiu-se de exéquias virtuais de ocasião, não raras vezes escritas por indivíduos para quem o falecido mais não foi do que aquele cantor gay que foi apanhado numa casa de banho pública em preparos pouco ortodoxos. Mas hoje a comunidade social-tecnológica está de luto pelo que se torna obrigatório aderir à movida.

A partir de hoje, e durante os próximos dias, as rádios serão tomadas pelo mesmo ímpeto hipócrita que este ano permitiu que músicos geniais como David Bowie e Prince voltassem a ter espaço entre os excrementos que pululam nas playlists das rádios reprodutoras de qualquer aborto musical imposto pelas editoras. E não, não estou a falar da Last Christmas, essa sempre aparecia pelo Natal.  [Read more…]

Confabulatores nocturni

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Ainda que para muitos permaneça um mistério a devoção com que em Portugal milhões de pessoas, diariamente, assistem a telenovelas, não há dúvida de que essa fidelidade, esse fascínio, se relaciona com o carácter encantatório e de certa maneira hipnótico da estória e dos meios utilizados para a contar.

Jorge Luís Borges mencionou um dia os confabulatores nocturni de que se fazia acompanhar Alexandre da Macedónia na longas campanhas militares. Era um grupo de homens cuja função era contar fábulas e lendas ao discípulo de Aristóteles, pela noite dentro, estratagema que ele usava para enganar a insónia e alimentar os sonhos.

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E os portugueses também descobriram a Austrália

os portugueses descobriram a Austrália

REUTERS/Handout

Não é novidade – tem tudo que o ser? -, mas para fugir ao frequente registo nacional de autocomiseração, aqui fica uma nota diferente.

Um mapa marítimo do século XVI num cofre de uma biblioteca de Los Angeles prova que os aventureiros portugueses, não britânicos ou holandeses, foram os primeiros europeus a descobrir a Austrália, diz um novo livro que detalha a descoberta secreta da Austrália. [Michael Perry, Reuters, 21/03/2007]

O que dizer deste livro?

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Sttau Monteiro escreve-o em 1961 mas podia perfeitamente escrevê-lo em 71 ou 81 ou 91. O livro começa quase sem época. Isto é, a expressão Estado Novo nunca é referida e a primeira referência a um tempo é uma menção à guerra colonial. Assim se percebe, juntamente com a introdução de Pedro, o período em que as personagens vivem. Isto não é de menos pois a indefinição revela já algo do carácter generalista da história. Pessoas como o Gonçalo, a Teresa, o António e, graças aos céus, o Pedro, vão sempre existir. Não precisam de uma ditadura. A ditadura ajuda, mas não é estritamente necessária.

O livro é profético. Sttau Monteiro via claramente o fim do Regime apesar de ele só vir a cair 14 anos mais tarde num belo dia de Abril. Contudo, o que está em causa não é “apenas” o fim do regime em Portugal mas algo muito mais transversal. Aquilo a que Sttau Monteiro chama a “lógica de classe”, ou seja, a injustiça que é conscientemente perpetuada por uma classe privilegiada que despreza os que não nasceram com tais privilégios. Parafraseando o Gonçalo, as classes altas arranjam sempre mecanismos para se protegerem, superando inclusivamente os próprios regimes que as suportam e que elas suportam. Este livro não é mais do que a velha história dos  mais fortes a baterem nos mais fracos e a conseguirem safar-se com isso. Ou quase.

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Oficial otimista e contato com a cultura árabe?

The insights Schmidt gained from studying Wes and from a later case study of himself learning Portuguese during a five-month stay in Rio de Janeiro […] led him to formally propose the Noticing Hypothesis in the early 1990s’.

— Lurdes Ortega (2009:63)

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Quando? Hoje, efectivamente. Onde? No sítio do costume, obviamente.

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RIP

First we take Manhattan, then we take Berlin

lc

They sentenced me to twenty years of boredom
For trying to change the system from within
I’m coming now, I’m coming to reward them
First we take Manhattan, then we take Berlin
I’m guided by a signal in the heavens
I’m guided by this birthmark on my skin
I’m guided by the beauty of our weapons
First we take Manhattan, then we take Berlin

May you rest in peace, Leonard. We’ll take Manhattan for you.

Foto@TVI24

Leonard Cohen (1934 – 2016)

Neste dia tão triste, lembremos um excelente texto da Carla Romualdo (já agora, eis outro) e esta Villanelle que o A. Pedro Correia nos trouxe.

LOL!

Foi apresentada/inaugurada, com pompa e circunstância (à parte a falta de pilhas no comando que ligaria a luz), a nova peça de Joana de Vasconcelos. Um galo de Barcelos à beira-Tejo.

Ao longe ouviam-se as grandes gargalhadas de dois Antónios, o Oliveira Salazar e o Ferro!

A minha última viagem ao Trindade

Fui ver a Última viagem de Lenine ao teatro Trindade, posta em cena pelo grupo, Não Matem o Mensageiro. No fim, na sessão de perguntas e respostas com o escritor da peça, o actor único (um brilhante André Levy) e membros da companhia acima referida, foi dito que todo o teatro é político mas esta companhia, ao menos, assume-se. Gostei desta abordagem precisamente pela honestidade. O debate do que pode ou não ser político, quais as formas de arte mais ou menos politizadas, qual a definição de política em si, é extenso e não muito importante para este texto em particular.

O teatro, contudo, é sem dúvida uma das formas de arte mais verdadeiramente políticas que existem. Pela própria ideia de representação e do que ela implica, pelo elo que se cria entre o público e os actores, pelos artifícios literários e gestuais usados.

Estamos em 2016, a precisamente um ano de uma daquelas grandes efemérides da História, a Revolução de Outubro. Seria importante e saudável que houvesse um debate adulto e responsável sobre os acontecimentos revolucionários, sobre o que significou a revolução de Outubro, sobre Lenine e as restantes personagens históricas que o rodeavam. Em qualquer debate deve-se ouvir os vários pontos de vista. Esta peça apresenta um ponto de vista, uma interpretação de Lenine, baseada numa minuciosa pesquisa de factos, com cartas citadas literalmente, com episódios reais a serem mencionados ou retratados. É evidente que há uma grande margem para discordar do ponto de vista e da interpretação, tal como a pessoa lê Gramsci ou Jorge Luís Borges e não tem de acreditar ou apoiar tudo o que lê. Mas não é por isso que não se deve ver ou alimentar este tipo de peças, que se assumem engagés,  em defesa de uma posição.  É ridículo que tenhamos chegado a um tal ponto de absolutismo sectário misturado com alguma indiferença que não consigamos apreciar as complexidades da História, o que ela tem para nos oferecer e que se continue a perder as oportunidades para pensar, pensar a sério, sem falácias e generalizações.

A peça é assumidamente brilhante. André Levy é extraordinário num registo dificílimo, o do monólogo. O texto está muito bom. A quarta parede é ignorada com um recurso apropriado ao humor. Do ponto de vista artístico, está praticamente perfeita. Do ponto de vista político, meus amigos, não dá para fazer spoiler. É ir ver.

Histórias reais – Uma proposta irrecusável

É pouco provável que algum de vós tenha conhecido o Mocambo. Fechou portas em 1958, depois de década e meia de glória no esplendoroso Sunset Boulevard, onde os argumentistas fracassados acabam a boiar nas piscinas. Com a sua decoração carregada de estereótipos de uma América do Sul de caricatura, e as paredes cobertas de jaulas de vidro com papagaios, catatuas, e pombos, devia ser um desses lugares em que tudo é genuinamente postiço. Ver e ser visto no Mocambo era um imperativo para as estrelas da época e nenhuma falhava. E actuar no Mocambo era o empurrão necessário para qualquer carreira musical. Poucos eram, porém, os artistas negros que conseguiam um contrato, numa época em que a segregação racial ainda era a norma.

Impunha-se, portanto, jogar uma carta alta para que uma cantora negra pudesse actuar no Mocambo. Foi necessário que a sua amiga e admiradora fizesse ao dono do clube uma proposta irrecusável. Se ele contratasse certa cantora, a quem apenas a mais preconceituosa burrice poderia cerrar portas, ela, a sua amiga e admiradora, estaria todas as noites na fila da frente do Mocambo, sorriria para as câmaras dos fotógrafos que não deixariam de seguir-lhe os passos e com isso faria ao clube uma publicidade tão esplendorosa que nem o Mocambo poderia desdenhar. [Read more…]

Bob, o bardo

Os zangados da literatura estão, na sua indignação, a promover Dylan a grande – ou mesmo genial! – músico, tentando, assim, diminuir-lhe a obra poética. “O que ele é é músico” – proclamam. Ora eu, que gosto de Dylan, não o considero um genial músico, um grande cantor e, muito menos um, sequer, razoável instrumentista. Na verdade, sendo um melodista de mérito, com algumas boas ideias musicais que se quedam na sua mais pura simplicidade, é um cantor de voz deveras limitada – para dizer o mínimo – e um ainda mais limitado instrumentista. Dylan é um bardo, um trovador, um poeta que canta as suas palavras. E é aí que se lhe vislumbra a grandeza. Tanta, que acabamos por lhe perdoar as limitações como interprete. E mais: fizemos da sua voz rouca e limitada, do seu estilo simples e básico, valores artístico por si mesmos. É pela palavra que Dylan se eleva aos grandes. E como a palavra é bela, todo o conjunto se ergue como excepcional.
Há muitos anos, encontrei entre os alfarrábios da loja do Ricardo, ali do Arco da Amedina, uma volumosa edição artesanal – e pirata…- das “lyrics” das canções do Bob Dylan. Estava a ler o meu achado na mesa do canto da Brasileira e não tardou a piada sobre se me ia pôr a cantar. Não ia. Mas confirmava esta evidência: há uma grande diferença entre um letrista e um poeta. E raramente se encontram na mesma pessoa. Dylan é uma das excepções. Por cá, José Afonso e Sérgio Godinho – entre os poetas-cantores – são bons exemplos, como Ary dos Santos, Alexandre O’Neill e David Mourão Ferreira o são entre os que têm o segredo de fazer poesia que (se) canta. O movimento que, nos últimos anos, tem trazido para a canção grandes poetas, deu belos resultados; e também disparates intragáveis.
Quem quiser que se entretenha na florentina discussão de saber se o que Dylan faz é literatura ou não. Se o seu nariz cabe no catálogo teutónico de judeus, se os seus genes lhe traem a origem russa. Quero lá saber. Como o Poeta, eu “canto o peito ilustre” Dylaniano.

Ainda o Nobel

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(Jean-Baptiste Auguste Leloir: Homer, 1841.)

Devo dizer que discordo de Francisca Prieto aqui no Delito. “A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.”  Este foi um argumento que vi replicado em vários sítios. Mas não creio que seja de todo assim. Até ao século XVII na Europa, os livros eram lidos em voz alta para uma sala de pessoas (na corte, por exemplo). A literatura não era tanto lida como era ouvida e como era um exercício colectivo. As cantigas de amigo que são a base de qualquer programa de literatura portuguesa, eram originalmente cantadas.

Mais importante: Homero – a ter existido – não sabia ler nem escrever e os seus épicos sobreviveram por via oral até alguém os decidir fixar em escrita. Não podemos dizer simplesmente que Homero já não é relevante pois viveu há muito tempo. Homero é a base de toda a literatura ocidental e quem pensa em literatura e no que ela é hoje não o deve perder de vista.

Hoje em dia, em África e na Índia a oralidade continua a ser uma forma de contar histórias que não têm certamente menos valor do que as ocidentais histórias escritas.

No caso de Dylan, nem sequer estamos a falar na ausência total de um texto porque ele existe sendo “apenas” cantado.

Tudo isto para dizer que a nossa visão de literatura como algo ligado obrigatoriamente a um texto que tem de ser lido individualmente é muito recente.  Eu nem estou necessariamente a favor do Nobel a Dylan. Preferia que o prémio tivesse ido para outros possíveis candidatos. Mas parece-me salutar que a Academia tenha uma visão lata do que é Literatura, uma visão lata da importância da Palavra, seja ela escrita ou oral e especialmente, uma visão que obviamente sabe de onde tudo isto veio.

Novas expressões poéticas

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© Ted  Russel/Polaris

Marco Faria

Não que as letras de Bob Dylan sejam uma arte menor. Muito pelo contrário, uma letra musical pode ter a qualidade de um poema ou de um romance. Mas a decisão da Academia sueca é discutível. Desde logo, o problema maior está em encaixar letras de música num reconhecimento por razões de Literatura.
Há claramente uma interpretação extensiva ao encaixar Bob Dylan no reino dos laureados. Química é Química, Física é Física e Literatura deveria ser Literatura. Se a Academia queria atribuir o Nobel a Dylan teria de criar um prémio para a Música ou a Composição Musical. Anunciar que é-lhe atribuído o Nobel da Literatura «por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana» evidencia um descuido: é referida a palavra “canção”, não obstante a referência a “expressões poéticas”. A canção em Bob Dylan, como na generalidade desta arte, só existe porque há uma combinação entre escrita, sons provocados por instrumentos musicais, voz humana, pausas e uma infinidade de coisas.
Seja como for, abriu-se um novo capítulo. Não tão surpreendente como seria atribuir o Nobel da Física a Ronaldo, quando ele tenta contrariar a lei da gravidade; ou da Medicina, quando faz fintas, pondo as cabeças dos adversários viradas do avesso; ou ainda da Literatura, porque um golo pode ser um momento estético ou, no dizer do Nobel, uma “expressão poética”. Não se engane na estante quando for às compras; Dylan está mais na secção musical…
A Academia sueca decidiu e está decidido.

“Eu quero ficar sozinho”

José Mário Branco fala, canta e escreve a minha língua nativa.
Nada contra Dylan, tudo pelo lusofonia. Prémio Camões já ontem, já.

“O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!”

Efectivamente

#RuiReininho2017

O Nobel

A ideia de que o Nobel da literatura premeia alguém que é o melhor de todos é um bocado ingénua para não dizer impossível (o melhor de todos é o Tolstoy e já não lhe podemos dar um prémio).
O que o Nobel premeia é alguém que é muito bom de uma forma consistente e que a maior parte das vezes o merece verdadeiramente. Não é a questão de ser o melhor de todos mas é sim de ser muito bom e de ser premiado em resultado disso. Se formos a pensar no Nobel em termos competitivos enlouquecemos.
É óbvio que há pessoas que o receberam e que não mereciam e pessoas que não receberam e que mereciam. Mas o Nobel premiou, ao mesmo tempo, pessoas como Thomas Mann, Saramago, Garcia Marquez, Toni Morrison, Gunter Grass ou Neruda . Ou seja, o desprezo que muitos sentem em relação ao Nobel da literatura pode ser compreensível mas simultaneamente parece-me de mau gosto rejeitá-lo e reduzi-lo a um prémio atribuído por razões políticas. Por muitos génios que não foram reconhecidos, muitos outros foram.

Em Faro… ou nas Ilhas Faroe

Elena Ferrante: as pessoas têm o direito de saber?

transferir-3Elena Ferrante é autora de uma tetralogia que anda a entusiasmar leitores do mundo inteiro. O nome da escritora é, na realidade, um pseudónimo. Tendo manifestado a vontade de manter o anonimato, respondeu sempre por correio electrónico às entrevistas que concedeu.

Recentemente, Claudio Gatti, um jornalista italiano, terá desvelado a identidade de Ferrante. Sabendo-se que isso vai contra a vontade de autora, parece-me que esta investigação, na melhor das hipóteses, pisa uma fronteira ética. Se um escritor quiser ser apenas um nome ou um narrador, está no seu direito.

Claudio Gatti, no entanto, resolveu complementar a sua descoberta com argumentos a favor da sua investigação. A ser verdade o que se lê no Diário de Notícias, oscilam entre o oco e o disparatado.

Em primeiro lugar, recorre ao estafado as pessoas têm o direito de saber. Não é sequer invulgar ouvir jornalistas de rádio e de televisão usarem a pergunta “O público não tem direito a saber?” Sendo certo que um jornalista presta (ou deveria prestar) um serviço público, a verdade é que esta pergunta é apenas sensacionalista e/ou provocatória, porque a realidade é que há assuntos que as pessoas não têm o direito de saber, especialmente a partir do momento em que alguém não quer que se saiba. [Read more…]

Porque era governado por um bando de mentecaptos analfabetos

“Mas porquê?! Por que é que Portugal quereria deixar escapar esta colecção?”

São Miguel Arcanjo

São Miguel Arcanjo, escultura de António Teixeira Lopes

São Miguel Arcanjo, escultura de António Teixeira Lopes

 

Celebra-se no próximo dia 29 de Setembro São Miguel Arcanjo.
Na imagem, a escultura de António Teixeira Lopes, do espólio da Casa-Museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia.
Uma peça magnífica e a revisitar.