Da veracidade dos fatos e dos contatos

Hippolyte: Cher Théramène, arrête

— Racine, Phèdre

Fico triste, chateado, zangado, aborrecido.

— Rodolfo Reis, 23/4/2017

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Abrir Abril

As emoções sociais, não tendo exactamente as mesmas características das emoções básicas, têm uma origem neurofisiológica muito aproximada, ou mesmo comum. As emoções básicas, como o amor, o medo ou a repulsa, são, contudo, do ponto de vista neurofisiológico, muito mais antigas, resultando as emoções sociais, como, por exemplo, a admiração ou a compaixão, de estados evolutivos alcançados em tempos mais recentes, sendo a expressão do processo contínuo de aperfeiçoamento do ser humano.
Ainda assim, António Damásio distingue dois tipos de admiração e de compaixão, conforme a sua filiação neurofisiológica e anatómica ao aparelho músculo-esquelético ou ao meio interno e às vísceras.

A admiração que sentimos pelos feitos extraordinários de um grande militar ou de um grande atleta, é uma emoção social com uma origem neurofisiológica diferente, embora simétrica, da admiração que sentimos por um homem santo ou um grande benemérito da humanidade. O mesmo acontece com a compaixão, outra das emoções sociais mais importantes, que sentimos perante quem é exposto a sofrimento físico ou, diversamente, a sofrimento moral ou “mental”.
Existe, contudo, uma diferença importante entre estes dois tipos de emoções sociais. A admiração pelo atleta e a compaixão pela dor física, são emoções que se instalam e também desaparecem com mais rapidez do que a admiração pelo Santo e a compaixão pelo sofredor moral. Dir-se-ia que são emoções mais superficiais, reacções da pele, ligadas neurológica e anatomicamente ao aparelho músculo-esquelético, a estrutura do corpo que permite o movimento no espaço, a deslocação. Numa palavra, a transitoriedade.

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Canções históricas

 

(e também por ocasião da Páscoa)

2 – Bella Ciao

È questo il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
È questo il fiore del partigiano
Morto per la libertà

De como a perspectiva nos interpela e invoca

A lamentação de Cristo, tema que apenas surge após o sec. XI sem qualquer ligação bíblica, nunca antes nos fora mostrado como Andrea Mantegna o fez, sem ser enquadrado na sua deposição da cruz amparado por várias personagens, ou ao colo de Maria.

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Mantegna oferece-nos um corpo não definhado nem débil, mas forte, apesar de já exangue, depositado sobre uma laje, evidenciando as perfurações a que foi submetido nas mãos e nos pés, com os rostos de Maria, S. João Evangelista e, possivelmente, Maria Madalena, sem aflorar seus olhos, [Read more…]

Rodolfo tem razão

Não há contacto

– Rodolfo Reis, 2/4/2017

Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar.

Caetano

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Efectivamente, não há.

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Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)

[André Rodrigues]

O meu primeiro ano da Faculdade foi uma espécie de pesadelo, apenas no segundo viria o gosto de estudar e aprender e, ocasionalmente, algumas notas boas, que são o menos importante, ou deveriam ser.

Nesse primeiro ano, no meio da prosa “barbaramente académica” em que nos afogávamos, havia dois livros (“Estudos de História da Cultura Clássica”, vols. I e II, da FCG), escritos numa linguagem que era, ao mesmo tempo, clara e rigorosa, simples e de uma riqueza profunda. Dava-me a entender uma relação privilegiada com a língua portuguesa, própria daqueles quem lhe conhecem a ossatura.

Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) levava-nos pela mão para aprendermos o que diz um vaso grego sobre a vida daqueles que o fizeram, falava do escudo de Aquiles como um passaporte para uma outra civilização. Falava para todos, alunos do primeiro ano e especialistas, com a mesma clareza cristalina. [Read more…]

Legendas

A legendagem de filmes – primeiro – e das emissões televisivas – depois- foi uma das raríssimas heranças positivas dos tempos “da outra senhora”. Não que a ditadura tivesse preocupações com a integridade da criação artística, como acontece hoje connosco. Longe disso. A verdade é que a legendagem funcionava – independentemente da sua qualidade – como uma última barreira de censura.

A primeira era a proibição pura e simples, a segunda os cortes – por vezes brutais – e, finalmente, a legendagem. A dois níveis: um primeiro, a adulteração das falas, um segundo decorrente da simples dificuldade, ou impossibilidade, da sua leitura dada a baixíssima literacia da maioria da população. As coisas melhoraram muito depois da queda da ditadura e chegaram a elevados níveis na qualidade de tradução. [Read more…]

Olho por olho, (resi)dente por (resi)dente

Uma série de acontecimentos ocorridos recentemente, entre descarrilamentos, um eloquente post de alguém muito atento à matéria ferroviária e actos de residência pífios, levaram-me, em associação livre de ideias, ao novo disco dos The Residents, todo ele construído sobre relatos do crescente número de acidentes de comboio que o incontrolável desenvolvimento tecnológico de finais do século XIX ia produzindo e das “rápidas e desagradáveis mortes” que infligia.

Não pretendendo enveredar pela crítica a mais um capítulo da extensa obra desta super-banda – toda a gente ama os Residents, os quatro decoradores de interiores do apocalipse, embora desconhecendo a identidade dos seus membros, quando não mesmo a sua música (música?) -, não posso deixar de assinalar aqui o seu 84.º álbum, “The Ghost of Hope,” na esperança que vos possa assombrar o luminoso fim de semana que se avizinha.

Ginestlay (hoje, não há fatos)

Rendez-vous, rendez-vous, rendez-vous
Au prochain règlement

Stromae

Aber genau deswegen ist es an der Zeit, über neue Gesten nachzudenken und von Mourinho zu lernen, wie ein paar flüchtig hochgereckte Finger einen ganzen Roman erzählen können.

– David Hugendick

Alors arrivèrent les plus lâches, qui n’ayant pas osé frapper la chair vivante, taillèrent en lambeaux la chair morte, puis s’en allèrent vendre par la ville des petits morceaux de Jean et de Corneille à dix sous la pièce.

– Alexandre Dumas, La tulipe noire

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No outro dia, não havia contato, mas havia fato.

Hoje, não há fato, mas há contato.

Todavia, como sabemos, apesar de haver dias com fato e sem contato e dias com contato e sem fato, há dias com fato e com contato.

Imaginemos um dia. Um dia em que deixe de haver dias com fato e sem contato. Um dia em que deixe de haver dias com contato e sem fato. Um dia em que deixe de haver dias com fato e com contato. Wouldn’t it be good?

Exactamente.

Ainda bem que temos esta petição, a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do AO90 e a Iniciativa de Referendo.

Assinou? Óptimo.

Efectivamente.

Desejo-vos uma óptima semana.

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Li Bai

Li Bai, ou Li Po, foi um poeta chinês do século VIII, nascido em Tokmuk, na actual República do Kirghizistão. Dizia-se descendente de Lao Tsé, o patriarca do Taoismo, e viveu uma vida atribulada, peregrinando por terras da China e envolvendo-se em episódios que foram sedimentando uma lenda que hoje faz dele um dos grandes vultos da cultura chinesa.

Conta-se que, numa das suas peregrinações, Li Bai terá encontrado um grupo de soldados que conduziam um condenado à morte a caminho do seu trágico destino. Aproximando-se, Li Bai fixou o olhar do prisioneiro, observou-o profundamente e concluiu que não se tratava de um mero ladrão, mas de um homem superior. Como trazia uma bolsa cheia de ouro, herdado da última mulher com que fora casado e que entretanto falecera, despejou em frente aos soldados uma parte desse ouro, pedindo em troca que salvassem a vida do condenado. Perguntou-lhe o nome, Guo Ziyi, fixou-o nos olhos e seguiu viagem. Diz-se que muitos anos mais tarde, Li Bai e Guo Ziyi ter-se-ão novamente encontrado e que, dessa vez, terá sido Guo Ziyi a salvar a vida ao poeta.

Diz a lenda que Li Bai terá morrido afogado, quando se lançou a um lago para tentar abraçar o reflexo da lua.

 

Três poemas de Li Bai:

 

A um pirilampo
A chuva não apaga o teu fulgor,
o vento aumenta o teu ardor.
Porque não voas para o céu distante
e és, ao luar, uma estrela cintilante?

Este é considerado o primeiro poema de Li Bai, escrito aos dez anos de idade

 

Aos pardais do campo
Porquê voar como o martim-pescador?
Porquê voar como as andorinhas do palácio de Wu?
Grandes redes caçam o martim-pescador,
se há fogo no palácio, os ninho são queimados.
Melhor é voar simplesmente entre os canaviais,
nem águia nem falcão vos poderão agarrar.

 

Ode à Primavera
O coração da Primavera agitado, como vagas.
As mágoas da Primavera esvoaçam confusas, como flocos de neve.
As emoções despertas, enlaçadas em alegria e sofrimento.
Que sinto dentro de mim na mais doce de todas as estações?

Felizmente, não há contatos

Admiror parie{n}s te non cedidisse ruinis qui tot / scriptorum taedia sustineas.

— CIL. IV. 01904

… witches or something like that.

Richard Feynman

Traduz-me!

—Rodolfo Reis, 19/03/2017

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Exactamente, não há contatos. Contudo, há fatos.

Efectivamente, há fatos.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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E UMA PROPOXTA PARA UH NOVO AVKD

José Lourenço

AVKD? O que é?

É uma proposta para um novo ABECEDÁRIO

“E UMA PROPOXTA PARA UH NOVO AVKD”

Regra Principal

Escrever como se fala

Condições:

  • Escrever respeitando o sentido da Fonética;
  • Escrever necessariamente em Maiúsculas;
  • Abolir todos os acentos sem excepção;
  • Colocar o .H. em todas as expressões nasais, letra diacrítica a preservar que servirá para eliminar todos os acentos e Dígrafos vocálicos, conforme in, im, ão, an, am, ae, en, em, oe, on, om, un, um, lhe e nhe e pausas/silêncios.

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Os maluquinhos anti-acordo ortográfico…

… se calhar já se resignavam. Efetivamente, não parece que haja grande coisa a fazer. Temos de aprender a viver com as nossas deceções.

Chuck Berry (1926 – 2017)

«Chuck Berry Dies at 90; Helped Define Rock ’n’ Roll» (NYT)

Biblioteca Joanina pode ser vista no novo filme “A Bela e o Monstro”

A Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra foi a mais directa e reconhecível inspiração para o espaço imaginado no filme da Disney.

A Biblioteca Joanina:

O filme:

Créditos:
Imagens do filme “A Bela e o Monstro: © Walt Disney Pictures.

Imagens da Biblioteca Joanina:© UC | Paulo Amaral

Texto e mais detalhes: página da Universidade de Coimbra

Sobral

Hoje ouvi a canção que ganhou o festival da RTP. Não fazia tal coisa há décadas. Desde que tal evento se transformou num desfile de mediocridade musical e poética que nos provocava vergonha por procuração – e aquilo não é nada connosco. Mas disseram que a canção era da Luísa Sobral e eu gosto dela. Gosto daquela mistura de bossa dos anos 60, cool jazz, palavras que cantam, acompanhamentos e arranjos decentes, tudo regado com o caramelo de uma cândida sensualidade. São canções que parecem feitas para ser cantadas ao ouvido. Não conhecia o mano Salvador, versão masculina da voz da irmã. A mesma entoação, o mesmo jeito, mas não é ela. E nós não conseguimos deixar de pensar no que será a canção cantada pela sua criadora. Não me interessa nada se “ganhamos”- acho piada a esta primeira pessoa do plural…- o festival inter-pimba ou não. Há mais uma boa canção em português. Pela raridade do fenómeno, saúda-se.

O regresso de Maria Joana

Canabidiol é um dos componentes do óleo de Cannabis sativa e da Cannabis indica, normalmente designadas como “Erva”, “Marijuana” ou “Haxixe”. A planta em causa toma o nome de Cânhamo e desempenhou, noutros tempos, um papel muito importante em várias indústrias nacionais, designadamente a indústria têxtil. Dada a sua importância económica, chegou a dar o nome a algumas terras portuguesas, como é o caso de Marco de Canavezes.

Na época dos Descobrimentos, a fibra de cânhamo era usada para produzir, além do vestuário, muitos artefactos fundamentais à indústria naval, como, por exemplo, cordas e velas. As cordas de cânhamo, extremamente resistentes, estão eternizadas na famosa Janela Manuelina do Convento de Cristo, em Tomar.

O Canabidiol é um componente químico da planta do qual está ausente o princípio psicoactivo, tendo sido isolado em laboratório no final dos anos 30 do século XX e objecto de registo de Patente nos Estados Unidos, em 1940, com o número 2.304.669.

Passados mais de sessenta anos, a 7 de Outubro de 2003, uma outra patente foi registada, também nos Estados Unidos, relacionada com as aplicações possíveis dos Canabinóides, incluindo  o Canabidiol, em determinados domínios da medicina e do tratamento de algumas doenças. Mais concretamente, o objecto da patente em causa, que tem o número 6.630.507, é o uso de Canabinóides como antioxidantes e neuroprotectores. O texto introdutório do registo dessa patente é o seguinte:

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Para tudo. 

Ortografia para tudo. Só não parou a asneira do CM que, escreveu “pára” no lugar de “para”. Jornal que, supostamente, segue o AO90.

Nota: este post está escrito de acordo com o AO90, não sei se terão reparado.

A nossa primavera

Lie to me if you will at the top of Beringer Hill
Tell me anything you want, any old lie will do
Call me back to you

A Ponte é uma miragem

gaia

Quem tenha estado atento à evolução da cidade do Porto nos últimos anos, não pode ter deixado de reparar numa transformação, em alguns caso radical, do ambiente da cidade. Para o bem e para o mal, o Porto é hoje um lugar muito diferente daquele que conhecíamos há poucos anos. Visitado diariamente por milhares de turistas, modificou a sua paisagem e a sua energia, interveio profundamente no património edificado e as suas ruas, cafés, livrarias e monumentos estão hoje cheias de pessoas oriundas dos mais variados países do mundo e das mais diferentes culturas. Mesmo os seus lugares históricos, e os mais pitorescos, sofreram um processo profundo de adaptação, a maioria das vezes no sentido de melhor responderem às exigências da nova indústria rainha da cidade, o Turismo.

Vila Nova de Gaia é a cidade que fica do outro lado do rio. Do ponto de vista turístico, a sua principal ligação à cidade do Porto é pela Ponte Luís I, uma das mais belas obras de engenharia legadas pelo século do ferro, que constitui um ex libris das duas cidades da foz do Douro e faz parte de uma das mais belas paisagens urbanas do mundo.

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Os Conselhos do Chico

Há vários anos que é assim. Quando a inquietação me assalta de rompante e não consigo encontrar uma explicação lógica para compreender ou tentar explicar esse acontecimento, ou até mesmo quando não encontro uma explicação lógica para explicar algo que se está a passar no mundo, pego nos meus discos do Chico para ali encontrar a explicação. É impossível não conseguir achar a resposta nos Conselhos do Chico. A obra do Chico é tão vasta, tão genial, tão sublime, tão humana ao ponto de crer que o Chico não é do século passado, não é deste século e não é dos próximos – é um ser transcendente a todos nós que vive noutra era, muito mais avançada – é outra forma, é outra matéria. É um ser que foi enviado para nos ensinar a saber como lutar. Nós é que somos ao lado dele gente tola na lufa-lufa que são os nossos dias, metidos quase sempre nas nossas vidas mundanas, na nossa eterna insatisfação, no nosso esforço abnegado para querer mais deste mundo quando o mundo não nos quer dar mais nada.

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A exactidão e o estendal II

Pegou no estendal, uma armação leve, duas patas para apoiar no chão, dois braços que se abrem e fecham, pegou nele com a roupa ainda estendida, empurrou-o para fora de casa, arrastou-o a ranger pela tijoleira do chão, pelo empedrado da rua, e foi sentar-se com ele no largo ali ao pé.

— Carla Romualdo

Accuracy
Accuracy
Practice all day for accuracy

— Smith/ Tolhurst/Dempsey

quand vos copies seront terminées, cherchez dans le dictionnaire les mots de l’orthographe desquels vous ne serez pas sûr.

Stendhal

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Efectivamente, durante as tardes de sábado, convém ler o Aventar.

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O regresso do maior vampiro deste país

A propósito. No dia em que o maior vampiro deste país regressará ao grande ecrã para ser entrevistado às 21 horas pela mão do Vítor Gonçalves. Mais uma vez anda o nosso rico dinheiro, que tanto nos custou a ganhar, a ser jogado janela fora pela RTP para ouvir os mexericos, as insinuações baratas e a subjectividade indevida e imoral de um canalha que viveu uma vida inteira a alimentar-se do sangue e do suor dos portugueses. Serviço público? A pergunta é de retórica. Todos conhecemos minimamente a agenda da besta, os propósitos e os objectivos que ele visa alcançar, a constante necessidade de se reafirmar e a incapacidade de se manter fora das esferas de controlo. Um vampiro a sério não deixa de querer chupar até ao dia da sua morte.

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Sou o meu próprio Comité Central

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Excertos da entrevista de José Afonso ao jornal «Sete» de 22 de Abril de 1980

Sobre a regularidade de publicação de discos:
«Houve só uma época, logo após o 25 de Abril, em que como sabes não tínhamos mãos a medir, e em que isso aconteceu. Foi uma fase de expectativa, em que eu reflecti sobre o que devia fazer, se deveria ir para o ensino, se a minha função de cantante se justificava no novo processo que estávamos a viver. Pus mesmo a hipótese de me afastar, porque cantores de origem populares seriam vozes muito mais representativas do que as nossas e o processo nos iria ultrapassar. O certo é que fui extraordinariamente solicitado, eu e os meus colegas, de tal maneira que fiquei completamente «nas lonas».»

Sobre a imagem de radicalismo que transmitiu na fase pós-25 de Abril:
«Isso foi uma fase que se desculpa, que quanto a mim é um reflexo do próprio processo, apareceram coisas diferentes porque apareceram realidades diferentes e um público também, pelo menos em superfície e em quantidade, diferente. Dantes eu cantava para Assembleias Populares, mas muito mais restritas. No final do fascismo era-me mesmo já praticamente impossível cantar em público e nos dois últimos anos eu vivia quase só entregue a uma tarefa de propaganda e de agitação, difundia livros e panfletos, de apoio aos presos políticos, etc.»

Sobre a censura nos últimos tempos do Marcelismo:
«Sim, e no final acabei por ser preso [depois de fazer uma sessão num pinhal para tentar escapar à Polícia]. Com o 25 de Abril surgiu uma oportunidade enorme para chegarmos às fábricas, aos locais de trabalho, ir às aldeias onde havia comissões de moradores que estavam a fazer o seu caminho público, o seu fontanário, etc.. Participei muito directamente nesse processo, eu e outros cantores que tiveram uma actividade incrível nesse aspecto.»

Sobre as discordâncias em relação ao PCP 

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Elegia a Stefan Zweig

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No final do Grand Budapest Hotel, o narrador diz a propósito do protagonista, Monsieur Gustave, o concierge do hotel: I think his world had vanished long before he ever entered it. But I will say, he certainly sustained the illusion with a marvelous grace.

Stefan Zweig, cujos livros inspiraram o filme de Wes Anderson, também sustentou diversas ilusões com uma extraordinária graciosidade. O filme de Maria Schrader Vor der Morgenröte ou em Francês, Adieu l’Europe, pretende mostrar isso. Vemos Zweig com uma educação e polidez de outra época, uma luzinha de civilização num mundo cada vez menos civilizado. O filme escolhe sublinhar este aspecto – a forma como Zweig se relacionava com os outros – em detrimento de uma reflexão mais profunda sobre o pathos que guiou os últimos anos da sua vida. Infelizmente, é precisamente por isso que o filme se torna numa banalidade.

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Mais uns fatitos

Qu’ils soient sacrés par les foules, ces hommes
Qui scrutèrent les faits pour en tirer les lois,
Qui soumirent le monde à la mesure, et, comme
Un roc hérissé d’or, ont renversé l’effroi.

Émile Verhaeren

É um escândalo!

— Rodolfo Reis, 19/2/2017

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Nótula: Segundo amigo atento, este meu texto mereceu algures a melhor atenção, através de uma adaptação. Não dei por ela, mas acredito no meu amigo. Durante os últimos dias, além do The Handbook of Portuguese Linguistics, tenho lido a imprensa alemã, uns poemas do Verhaeren e regressei a uma selecção de textos cá de casa e ao Sainte-Beuve sobre o Voltaire — exactamente, o Sainte-Beuve, aquele que «n’a étudié Voltaire ni comme philosophe, ni comme historien, ni commme poète, ni comme auteur dramatique, ni comme romancier», como escreveu Allem. Efectivamente, além do Aventar, do Público e de alguns textos técnicos para o meu trabalho, não tenho lido muita coisa em português. Quando tiver tempo e pachorra, debruçar-me-ei sobre o assunto indicado pelo meu amigo. Continuação de uma óptima semana.

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Turismo, novamente o Porto

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Hoje, na Visão, Ana Matos Fernandes (Rapper Capicua) escreveu um artigo sobre o Turismo e a cidade do Porto. Para a autora, a recente vitória da cidade do Porto (European Best Destination 2017) não a faz celebrar. E logo a ela, como refere na sua crónica, que: “sempre apregoei o Porto como a cidade mais linda”. Qual é então o medo de Capicua?

Segundo a própria, o medo que o turismo seja mais importante que a cidade. Que a Ribeira fique sem roupa a secar à janela ou o Bolhão sem tripeiras e que fachadas impecáveis de azulejo mas com uma cidade inteira que teve de ir morar para outro lado. E não celebra devido ao medo de perder o Porto para sempre, citando: “à medida que o Porto vai perdendo a sua gente e, com ela, a sua graça”.

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A recessão calorosa

O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido correctamente a sua função.

Miguel Torga

passaríamos pela sala do senhor Oliveira, que nos ouviria de olhos esbugalhados e testa toda franzida e perceberia logo que ui, essa zona quando dói é sinal que a coisa já está bastante mal, isso não me cheira nada bem

— Carla Romualdo

Hic ostendit propheta, si a bonis eloquiis interdum propter taciturnitatem debet taceri, quanto magis a malis verbis propter poenam peccati debet cessari.

— Regula Benedicti

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Há alguns anos, avisei: “vem aí a recessão“. Ei-la, calorosa.

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Os Tradutores Contra o Acordo Ortográfico (aos quais agradeço a foto aqui reproduzida, tal como ao autor, Daniel Abrunheiro) indicaram esta distinção proposta por Malaca Casteleiro, na entrevista dos assentos: [Read more…]

Carlos Paredes

Carlos Paredes (Coimbra, 16 de Fevereiro de 1925 – Lisboa, 23 de Julho de 2004)

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Não percebeu a ideia? Não faz mal, passamos outra vez!

Sim, aconteceu ontem. Sim, aconteceu na RTP. Confirmem nas vossas boxes de tv cabo. Os que tiverem uma. Sim, a RTP voltou a passar o mesmo episódio d´ O Apocalipse de Estaline que tinha passado na semana passada. E alguém ainda teve o descaramento de modificar a sequência dos episódios no site. Assim, o episódio que passou no passado dia 6, aparece no site da televisão pública como exibido no dia 13. A prova de tal facto? Se o programa é semanal e é apresentado de forma exaustiva com um spot que o anuncia como um dos programas de proa da estação para esta época do ano, não faria o mínimo sentido provocar um hiato de uma semana na exibição do mesmo.

Erro de televisão? Não creio. Uma autêntica vergonha, patrocinada com o dinheiro dos contribuintes, com propósitos políticos altamente vincados que visam executar a propaganda que a direita quer que a RTP execute.