Desapareceu uma biblioteca.

 

 

 

“É sempre possível fazer melhor. Mas já sentirei que a minha missão foi cumprida que se aqueles que lerem este livro – e sobretudo aqueles que me confiaram as receitas e os segredos da cozinha tradicional portuguesa -reconhecerem nele a imagem gastronómica da velha Nação que somos. Foi esse o meu objectivo. Oxalá, no final, todos sintam que esta é a verdadeira cozinha portuguesa.”

Maria de Lourdes Modesto, in Cozinha Tradicional Portuguesa, Editorial Verbo, Lisboa/S. Paulo , 1982

 

Missão mais que cumprida.

Parasitas

Calotes novos.

 

Don’t judge this book by its cover

Fonte da imagem: Anna M. Klobucka.

Jéssica morreu e os abutres atacaram

O triste espectáculo com que as televisões nos brindaram durante a última semana acerca da morte da menina Jéssica, é sintomático do estado a que chegou a comunicação social em Portugal.

Com excepção da RTP, o canal público, todas as estações de televisão de cariz informativo tornaram a morte trágica de uma criança num espectáculo de circo que faria corar Victor Hugo Cardinali. O jornalismo caminha a passos largos para a degradação da informação, fabricando factos e aproveitando todo e qualquer fait-divers para lucrar com audiências. Foi assim, também, durante a última semana. O jornalismo tem o dever de informar e relatar os factos com o maior distanciamento possível e não, como parece ser o caso, de ir atrás de evidências de papelão, onde o que interessa fica sempre para trás: o respeito à memória de uma criança assassinada brutalmente.

Os directos que CMTV, SIC ou TVI/CNN Portugal fizeram à porta do velório da menina Jéssica devem envergonhar todos os portugueses. Os códigos deontológicos têm de valer para alguma coisa; e a lei também. Não pode valer tudo, no jornalismo como na vida, para que se tente chegar ao topo de qualquer maneira, pisando quem não tem capacidade de se defender – e, nestes casos, são sempre os mais pobres aqueles que estão em situação débil e sem capacidade de se poderem proteger.

É sabido que nada vai mudar na comunicação social. Vivemos, hoje, na época do mediatismo sem filtro, da azáfama da rede social, da ganância do lucro a qualquer preço. E, com estes pressupostos, não há espaço para se fazer jornalismo.

Jéssica morreu, já nada a traz de volta. Mas os abutres logo cobiçaram o seu corpo. Vivemos as trevas.

E assim vamos!

 

 

 

Aeroporto Francisco Sá Carneiro, 27 de Junho, 18.00h (que raio de ideia baptizar um aeroporto com o nome de um 1º. Ministro que morreu na sequência de um voo!)  Estou a aguardar um voo para Faro. Como tenho tempo, vou circular, e entre lojas de bebidas, de perfumes, de roupa, de calçado e de comes e bebes, entro numa que tem revistas, jornais, livros, brindes, e coisas afins. Depois de ver as capas dos jornais vou dar uma pestanada aos livros. Reparo em dois, um ao lado do outro. Nada contra vender livros, e onde queiram e os aceitem. Tiro a foto que acompanha este post, e pergunto-me se estes livros são a imagem do país que somos. Se calhar são. Se se anda a promover o nosso sol e as nossas praias (do melhor que há) a nossa comida (nem tenho palavras), e o nosso vinho (excelente, quer o dito Vinho do Porto, baptizado em Gaia, quer os tintos do Douro, etc), onde fica a nossa literatura ? (Eça, Pessoa, Camões, Camilo, Gil Vicente, Saramago, Lobo Antunes, Torga, Aquilino, e tantos outros). Deve ser mesmo muito fraca e envergonha-nos, portanto não pode estar nas portas de entrada e de saída do nosso País.

 

O Futebol Clube do Porto teve negativa?

Instado a comentar a época futebolística, Fábio Cardoso, jogador do Futebol Clube do Porto, declarou: “Dou nota oito à época, queríamos mais…”

Tendo em conta que o FCP foi campeão nacional e que ganhou a Taça de Portugal e sabendo que no sistema escolar português só existem duas escalas (1 a 5, para o Ensino Básico, e 0 a 20, no Secundário), poderíamos estar diante de uma avaliação negativa de um jogador tão exigente que o facto de o seu clube não ter ganho a Taça da Liga e a Liga dos Campeões é suficiente para que nem suficiente atribua ao seu clube. [Read more…]

The Mystery of Marilyn Monroe – Netflix

A Netflix acaba de lançar mais um documentário, agora sobre a morte de Marilyn Monroe e as suas ligações com a familia Kennedy. Não é “a última bolacha do pacote” mas está bem feito. Muito graças ao material de arquivo que mostra (algum dele inédito). É a América no seu melhor e no seu pior.

A Arma Secreta Para Ser Escritor

Estamos habituados, ultimamente, a procurar métodos e hacks que nos permitam fazer o que pretendemos, de uma forma mais inteligente, mais produtiva ou, no limite, mais engraçada. Que dê mais gozo.

No entanto, quando o assunto é o ofício da escrita, tenho “más” notícias. A arma secreta para sermos escritores e, sobretudo, para nos tornarmos melhores escritores, é mesmo… escrever. Escrever.

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Treinar o músculo da escrita

Foto: Thought Catalog @ Unsplash

 

Quando procuramos conselhos de outros escritores, ideias que partilhem para que possamos aplicar no nosso próprio processo, é raro algum deles sugerir algo tão estrondosamente novo que nos deixe embasbacados. De facto, a maioria dos conselhos versa sobre as mesmas coisas. Uma variação aqui, uma opinião ali, mas os conselhos de quem viveu para a escrita são muito semelhantes.

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Eunice e a eternidade

Ninguem é eterno, mas existem aqueles que conquistam a eternidade depois da morte. Eunice Munoz, uma mulher extraordinária, conquistou-a em vida. E não foi o seu maior feito. Que descanse em paz.

Abaixo o mistério da poesia

Abaixo o mistério da poesia

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA.

António Gedeão

Dia Mundial da Poesia – Defeat de Michael Prochaska

Refugiados da 1ª Grande Guerra


Defeat

Blood starts drippin’ from the soldier’s wound
Seeps like sewage ‘neath the politician’s room

Deep in the house, white fades to red
And the freedom we’re fighting for seems to be dead
‘Cause we can’t win like he once said
No we can’t triumph over the hate in our enemy’s head
But we’re deep in mud over the bullshit we’ve been fed
While more and more soldiers awake in Heaven’s bed

The wind is blowing like a hurricane
In the frightening desolated lands
Where the wolves are insane
And hawks feast on bloody hands

Bullets flying, children dying, mothers crying
While the beasts are lying and hiding
Behind black curtains that no one’s finding
But God knows the truth, and He’s forevermore sighing

Too many hands washed in widows’ tears
Too many echoed gun shots ringing in ears
Too many hearts frozen numb from fears
Of hope too distant, like skylight chandeliers

Wounded souls soaked in blotched black fate
Disillusioned by dark demons’ fate

Persistent nightmares of woebegone escape:
Screeching fervently under Liberty’s Gate
I grasp the rope fabric with delicate care,
Neck tickling from its bristly hair
My chapped, dry lips whisper a final prayer
Before a tightening ravish pain permeates the air

A bright radiant flash scorches the cloudless horizon
And ashes drift upward, caressing my bare, dangling feet
Bleak, barren, biting malice below seems blazon
But the dead know not the sentiment of defeat.

Michael Prochaska, 2007

“Andamos a Leste”, uma crónica de Madalena Sá Fernandes

Partilho aqui um excerto de uma crónica que li hoje no Público. De Madalena Sá Fernandes.

Manifestações. Uma mensagem no WhatsApp. Um míssil. Miss you! Bombardearam um lar. Também eu, temos de combinar. Vem aí a terceira guerra mundial. Que tal hoje à tarde? Vídeos de pais a despedirem-se dos filhos. Trânsito na Segunda Circular. Os ucranianos. Vou tentar pensar noutra coisa. A Rússia invadiu a Ucrânia. Não te esqueças de comprar leite. Bombardearam uma escola. Vou pôr gasolina. Tomaram Chernobyl. Onde é que eu pus os óculos? Putin ameaça quem intervier. São 20€ de gasolina. Rússia lança ataques aéreos. Qual é a bomba? Pessoas em pânico fogem da Ucrânia. É a bomba 3. A culpa é do Putin. Desculpe, esse carrinho é meu. A culpa é dos EUA. Já não tem alho francês? A culpa é da NATO. No corredor 6 ao lado dos frescos. A culpa é do PCP. Ah, também preciso de champô. A culpa é da China. Patrícia chamada à caixa central. Como é que foi o teu dia? Pela paz. Parece que não estou aqui. Fim da guerra. Também eu, não consigo pensar noutra coisa. Onde é que pus os óculos? Andamos a Leste. 

Notícias de ninar

Uma vez tive um pesadelo que ainda hoje me assola.

Sonhei que estava num bar muito manhoso, com vários amigos e havia música no palco. De repente, surge uma menina aos altifalantes, anunciando o próximo artista. Um artista de covers, disse.

  • Senhoras e senhores, Elton John!

Toda a gente aplaudiu muito. Afinal, tratava-se de Elton John, o Sir, o grande Elton John. Na minha mente ecoava “and I think it’s gonna be a long, long time” e “oh, Nikita, you will never know”.

O Sir Elton diz lá umas palavras ao microfone. Diz que dedica a música à CNN Portugal. “Imaginem um mundo onde todos os povos se dão bem”…

“Ui… para onde é que isto vai?”, pensei. “O Sir Elton a dizer-nos para imaginarmos um mundo sem existir Estados Unidos da América?…”

Então, começa a cantar o “Imagine”. E eu penso: “espera lá, aquele não é o Elton John, é o José Cid mascarado de Elton John!”. Vem, viver a vida amor, que o tempo que passou…. Ah? [Read more…]

8M, por Todas As Mulheres do Mundo

Neste dia da Mulher, o meu coração está, como sempre esteve, com todas as Mulheres, sem excepção.

Mas, neste dia da Mulher, quero prestar homenagem às Mulheres ucranianas de todas as idades, crianças, adolescentes, mães e avós. Para além disso, presto homenagem às Mulheres que neste momento se encontram em cenários de guerra: às Mulheres na Palestina, no Iémen, no Afeganistão, no Líbano, na Etiópia ou na Argélia. Resistam. Nunca desistam. O vosso amor é maior.

Feliz dia da Mulher a todas as Mulheres do Mundo.

Vhils em Kiev (2015)

I was in Kiev in 2015 and did a wall about Serhiy Nigoyan (1993-2014) the first Euromaidan activist to have been killed during the dignity revolution on Hrushevskoho Street on 22 January 2014. Since then more than 14,000 people died and now everything escalated in the last few days.

I was worried about the people who invited me to come over and do the wall, but I finally managed to speak to one of the organizers, he is safe for now in Kiev. Offered help to him and to anyone I could, but he told me, don’t worry I don’t want to get out, I’m here to stay. Asked him a second time and he told me the best you can do is tell the story about our project. And that’s what I’m doing.

Portrait in Kiev, Ukraine, depicting Serhiy Nigoyan (1993-2014), the first Euromaidan activist to have been killed during the dignity revolution on Hrushevskoho Street on 22 January 2014. A second-generation Armenian-Ukrainian, Serhiy represents the multicultural dimension of the protests, clearly contradicting the version disseminated in the mainstream media that protestors were fascists. The protests were supported by a majority of the population demanding an end to the corrupt political elite ruling the country. The piece is located at Heavenly Hundred Garden, a community project developed by volunteers in a former derelict site in central Kiev with no official support. This is the only way I could contribute, by paying my respects to those who lost their lives in the name of freedom to choose their own future. The eyes of Serhiy are the eyes of all the Heavenly Hundred.

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Terapia de Casal para um Escritor e o seu Livro

 

O sentimento é, talvez, comum a todos os artistas ou todos os criadores que se aventuram no processo de dar origem a algo. Seja esse algo um livro, um quadro, uma escultura, uma música, um filme. E esse sentimento é uma relação agridoce com a primeira criação, ou com as primeiras criações (para carreiras mais longas). Talvez nem todas as pessoas o sintam. Mas eu senti. Tive, durante muito tempo, uma relação complicada com o primeiro livro que publiquei. Eis as razões para isso.

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Há pessoas a viver na minha mente

Se pensarmos bem, a leitura é uma espécie de alucinação positiva. Esta ideia circula pela internet com alguma facilidade pela sua natureza humorística mas, sobretudo, porque assenta numa lógica de realidade: é que passamos horas a ler livros, que são árvores transformadas enquanto temos alucinações, porque imaginamos coisas que não existem mas que, na nossa cabeça, parecem tão reais. 

Concordando com esta ideia, não posso deixar de pensar na forma como também a escrita é uma espécie de alucinação mas de uma forma mais concreta e palpável. É que somos nós, escritores, que criamos as condições para que os leitores possam alucinar com as nossas histórias. O processo para chegar aí… tem tanto de prazeroso como de, lá está… alucinante. 

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Canto a Vozes de Mulheres à Lista Nacional do Património Cultural Imaterial

Já sabemos que a luta pela Cultura, mais ainda a que é imaterial, é uma luta de passada difícil, pelo que a ajuda de todos conta. Subscreve aqui.

“Em 2020, cerca de trezentas cantadeiras decidiram criar a Associação Fala de Mulheres e formular o pedido de inscrição do Canto a Vozes de Mulheres na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial. Este repertório é cantado a três ou mais vozes sobrepostas em movimento predominantemente paralelo e tem localmente diferentes designações, tais como “cantada”, “cantaraço”, “cantaréu”, “cantarola”, “cantedo”, “cantiga”, “cramol”, “lote”, “moda” ou “terno”. É cultivado no centro e norte de Portugal há sucessivas gerações e pode também encontrar-se em comunidades e(ou) grupos geograficamente distantes, mas que, de algum modo, tiveram ao longo da sua história contacto com essas práticas performativas. As cantadeiras argumentam que este canto é uma expressão artística, um património imaterial que vincula as mulheres no combate à vulnerabilidade das comunidades onde residem e reforça a identidade local. Com esta iniciativa pretendem também desocultar o papel das mulheres nos processos e práticas culturais. Apelam, agora, ao seu apoio com a subscrição desta lista, ou, se preferir, através de uma carta endereçada à Associação Fala de Mulheres. Consciente da importância de salvaguardar este património imaterial, cada um dos subscritores declara perante a Direção-Geral do Património Cultural o seu apoio à inscrição do Canto a Vozes de Mulheres na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial.”

O que muda na nossa vida quando começamos a escrever todos os dias

A primeira memória que tenho de escrever uma história remonta ao 3º ano de escolaridade. Meia dúzia de páginas sobre um grupo de adolescentes que ia passar uns dias de férias a uma casa no meio da floresta e cada um deles ia aparecendo morto, de formas diferentes, porque criatividade acima de tudo. Andava, provavelmente, a ver demasiados filmes de terror de série Z; no entanto, só alguns anos mais tarde descobri a paixão pela escrita, com um texto, também em contexto escolar, sobre o poder da escrita.

E, desde aí, passei por várias fases, até que, há algum tempo, decidi começar a escrever todos os dias, sem excepção. E percebi que é algo absolutamente essencial para quem quer dedicar a sua vida à escrita. Há coisas que mudam na nossa vida quando escrevemos todos os dias.

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5 lições que aprendi a escrever o meu primeiro livro

O meu primeiro romance “Nevoeiro” está a caminho do seu sétimo aniversário. Na altura, com 18 anos, sentei-me ao computador com uma ideia e só descansei quando ela estava escrita, completa, feita numa história. No entanto, fruto da tenra idade e da ansiedade gerada por querer ter o livro na mão o mais rapidamente possível, cometi alguns erros que, felizmente, geraram lições importantes.

Assim, ficam aqui 5 lições que aprendi no processo de escrita do meu primeiro livro.

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A máquina de fazer vilacondenses (cinco tostões sobre Valter Hugo Mãe)

Rosa Mota referiu-se, na semana que passou, a Rui Rio como “nazizinho”, pela sua acção na CM do Porto.

Entre várias condenações e várias tentativas de escusa, uma das pessoas que veio, imediatamente, a público defender Rosa Mota foi o escritor Valter Hugo Mãe. Escreveu o meu conterrâneo, no Facebook, que a frase da antiga atleta olímpica tinha sido dita num clima de “nervosismo, sem tempo e de forma imediata”, ou qualquer coisa do género.

Como somos conterrâneos e, em Vila do Conde, frequentamos o mesmo espaço cultural (O Pátio), atrevi-me a responder ao virtuoso Valter. Disse-lhe:

“Ainda que tenha sido infeliz, quem viveu no Porto durante a governação de Rio, sabe o que quis dizer Rosa Mota. Mas convenhamos, o Valter apoiou Elisa Ferraz, outra ‘nazizinha’, para a CM de Vila do Conde”. [Read more…]

Don’t Look Up: Muito mais retrato do que sátira

@Netflix

Segundo o dicionário Priberam, sátira é uma crítica em tom jocoso ou sarcástico. O filme “Don’t look up”, da Netflix, com um elenco de luxo, tem sido apelidado de sátira, um pouco por todo o lado. Percebo, mas não podia discordar mais.

A verdade é que considero o filme mais retrato do que sátira, mais documentário do que ficção. Nada do que lá acontece, por incrível que pareça, me parece demasiado estranho para poder ocorrer “cá fora”, no mundo real. E, não sendo uma obra-prima, nem um filme que será recordado daqui a 100 anos, é um filme que faz pensar, que está perfeitamente ajustado ao momento histórico e isso é muito do que de mais importante se poderia pedir nesta altura.

A verdade é que entramos numa era de profundo obscurantismo em que os alicerces em que fomos construíndo o mundo estão a ser abalados, a ser colocados em causa, deixando a sociedade apoiada em resquícios de informação. Foram rompidos os princípios de confiança nas instituições, na ciência, no conhecimento. Tudo substuído por uma inflação do ego e do comportamento manada, numa caminha de excesso de entretenimento e distracção. A escala de prioridades foi invertida e, apesar de o filme usar uma ameaça objectiva (que, do ponto de vista narrativo, me parece ser uma metáfora para o aquecimento global), a verdade é que as ameaças que o mundo real tem são outras. Muito para além da pandemia, do aquecimento global, da pobreza, da desigualdade, os problemas aos quais, infelizmente, nos habituamos e não devíamos, existe um adormecimento colectivo que poderá transformar o mundo como o conhecemos. Já o está a fazer.

A afastar-nos da essência humana, tornando-nos uma espécie de híbridos entre o humano e a máquina, numa sucessão de respostas pré-definidas, de comportamentos repetidos ao infinito, a caminho de um conformidade de pensamento assustadora, digna dos melhores escritos de Orwell. A parte mais assustadora é a apatia generalizada, porque o inimigo não é concreto. Não está corporizado num ditador, num grupo extremista, numa entidade. A ameaça é uma espécie de aura colectiva que nos empurra para o mesmo fim.

E, da mesma forma que a população do filme nega a existência de um cometa que está, literalmente, acima das suas cabeças, também no mundo real se pensa que está tudo bem, se normaliza o que nunca foi ou será normal, se encolhe os ombros até ser tarde demais

Ode à Paz

Os passos cravam no soalho um tórrido sonoro grave, que inebria o corpo, deixando a pele áspera e fria. As memórias, guardadas numa velha peúga, como quem guarda a primeira poupança, comem-lhe as costuras, desgastam-lhe o tecido, desfazem-na, a pouco e pouco, como notas amontoadas, amarrotadas e velhas, como que ultrapassadas pelo tempo, como quem corta a meta. O fim, enfim.
 
No antro da saudade resguardam-se as memórias, escondidas na sombra, espreitam pela ténue linha de luz que entra pela soturnidade de um quarto fechado. As mãos afagam-lhes a face, como quem as passa pelo rosto de uma criança acabada de nascer. Pelo campo de mártires que, como soldados prostrados se rendem, vagueiam as almas que outrora se manifestavam ardentes de paz, urgentes de amor, sufocadas pela ânsia de nascer de novo. E são tiros, amores, são balas. São balas, amores, são bombas. É napalm cravado nas unhas, é pólvora que polvilha os dentes, é guerra que corrói a mente, que mata a fome dos que matam a gente.
 
E nada resta. E nada basta. E um só tiro não chega.
As lágrimas correm como corre o rio, os gritos imperam no silêncio da multidão, dos transeuntes que carregam o peso do corpo, que o arrastam para uma falésia prometida, para um fim sem chão. Sem tecto. Crianças correm, tentando dar cor ao quadro cinzento da morte. Olhares que se cruzam mas que não se dizem. Que não se deixam sentir, que não se deixam mostrar. Olhares que gritam, vidrados, irados de ódio. Mãos que não se atam, pés que não se libertam, vozes que não se ouvem, corpos que não se tocam. Vidas que não se vivem.

Mortes que vêm sem dizer, mortes de vidas por viver.
 
As odes cantam a urgência da paz, a vivência do caos, o vazio de uma casa abandonada. Odes cantam a grandeza do Homem, a mendicidade dos que não se deixam mendigar. Abaixo o Homem! Abaixo esta desumanidade tão humana, aniquilada pelos que matam de sede. Atrozes os choros das mães que dão a morte às portas da vida. Guitarras tomam de assalto Bagdad, flores explodem na Palestina, a Lua invadiu a Síria, o Sol brilhou no Iémen. Amor espalha-se pelo mundo e o tráfico de paz bateu recordes históricos. Foi o jornal da uma. E eu desligaria a TV, sorrindo como um miúdo.

Em memória de Magazino

Faleceu, esta quinta-feira, vítima de doença prolongada, o disc-jockey Luís Costa, conhecido no mundo da música como Magazino.

O artista lutava contra a leucemia desde 2019 e inspirou centenas de pessoas pela forma como lidou com a doença e contra ela lutou. Ficou célebre, em Outubro deste ano, numa das últimas entrevistas que deu, uma frase sua:

(…) se não fosse o SNS… Tenho comprimidos que custam ao Estado 600 euros por dia. Se já os estou a tomar há mais de um ano e meio, faz as contas. Já gastei ao Estado milhares de euros só em medicação. Fora os internamentos e as transfusões de sangue, que, disseram-me outro dia, já levei mais de 170. Num hospital privado custam 375 euros cada saco. Agora multiplica. Sou muito grato. Grato ao Estado e a todos os profissionais. Se não fosse o Estado já tinha ido embora. Era impossível. Tinha um seguro de saúde que cobre tratamentos oncológicos até 60 mil euros. Isso não chega a um mês num hospital privado. Critica-se muito, mas se não fosse o SNS eu já tinha morrido.

Magazino, em entrevista ao Sapo24

Fotogafia: Nuno Ferreira Santos

O Luís lutou até onde pôde. O Estado auxiliou com o que pôde. Mas toda a estória tem um fim, seja ele qual for – umas vezes triunfante, outras vezes prostrados sobre nós. Depois de dois anos de luta árdua e de nunca ter baixado os braços, Magazino parte, mas não sem antes nos deixar uma mensagem:
Façamo-lo, recordando que a vida é hoje tudo aquilo que amanhã não será mais.

Tiros de pólvora seca – uma explicação aos “activistas” das redes sociais sobre três L: Linguagem, Ligações e Luta

Fotografia: MAYO

Teve lugar, ontem, na Universidade do Minho, uma manifestação contra o assédio. Depois de várias queixas e denúncias sobre um alegado agressor no campus da U.Minho, centenas de alunos saíram à rua, muitos deles segurando cartazes que diziam “mexeu com 1 mexeu com todEs”. Obviamente, e porque vivemos na Era do Clique, a manifestação e a causa da mesma passaram para segundo plano porque, hoje, de parte a parte, o que interessa é aparecer numa fotografia de cartaz na mão com uma frase impactante, se fores de um lado, ou ir para as redes sociais balbuciar contra os manifestantes, se fores do outro. Já não interessa a luta, já não interessa a realidade. Interessa, sim, aparecer. E se para aparecer eu tiver de escrever “mexeu com todEs”, eu vou escrever, porque sou “bué” inclusivo, sigo a tendência, revolucionário e uma vez até respondi “já vou!” à minha mãe quando ela me chamou para a mesa.

Primeiro, temo ter de explicar, ainda, que os plurais das coisas já englobam vários géneros. Quando dizemos “estamos todOs” ou “estamos todAs” “aqui”, não estamos, em linguística, a discriminar ninguém; estamos, simplesmente, e mediante, muitas vezes, o género do inter-locutor (muitas vezes, até, do género que predomina nos receptores), a indicar que as pessoas estão reunidas naquele mesmo espaço, tanto quanto as que deveriam estar. [Read more…]

Omar Souleyman

Fotografia: Stuart Sevastos

O músico sírio Omar Souleyman foi detido na passada quarta-feira, na Turquia, por acusações de terrorismo.

Suspeito de ligações ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que defende a auto-determinação e a liberdade religiosa do povo Curdo, considerado “organização terrorista” pela Turquia, os Estados Unidos da América e a União Europeia, Omar acabou por ser libertado no passado dia 19 de Novembro.

O PKK, partido que se define como socialista, nacionalista curdo e marxista, trava, desde os anos 80, uma luta contra a Turquia pela auto-determinação do povo curdo, minoria étnica e religiosa, historicamente ostracizada pela maioria muçulmana na Turquia e noutros pontos do globo. A maioria dos seus componentes foram sujeitos à pena de morte, aquando do Golpe de Estado na Turquia em 1980, tendo outros conseguido fugir para a Síria, onde se radicalizou e aproveitou o florescer da Primavera Árabe e da Guerra do Iraque para marcar posição. [Read more…]

Paulina Chiziane (Prémio Camões 2021)

Nótula: Os meus agradecimentos ao meu colega Euclides Antônio Lazzarotto, por, parafraseando Chiziane, me ter dado a descobrir mais uma das maravilhas que esta língua tem. E ao José Mário Teixeira, por achar (e bem) que o Aventar é um lugar indicado para alojar esta pérola.

Crónicas do Rochedo 46: A Pantera Cor de Rosa nunca me enganou….

A infantilização dos adultos não é coisa nova. Recordo como se fosse hoje quando, nos idos de 90 do século passado, fui a uma reunião na Associação de Estudantes de Engenharia do Porto (FEUP) e o bar da dita estava cheia como um ovo com os marmanjos, futuros engenheiros, em silêncio a ver o “Dragon Ball Z” na televisão. Os mesmos marmanjos que na noite anterior estavam no Ribeirinha e no Academia a emborcar vodkas limão como se não houvesse amanhã entremeadas com umas ganzas e, alguns, a aspirar umas coisas pelas narinas. Nunca percebi o fascínio meio infantil pelo Dragon qualquer coisa Z…

Isto a propósito de hoje, em pleno “telediário” da RTVE24, o canal de notícias 24 da televisão pública espanhola, estar em destaque, como uma das cinco principais notícias a desenvolver no dito, o novo episódio do Super Homem (Marvel) em que o dito se assume como bissexual. Sim, no principal “telejornal” isto é notícia. O Super Homem é bissexual ou, como se diz no meu Porto, “dá para os dois lados”. Eu quando era miúdo sempre desconfiei que o Tio Patinhas era gay não assumido, que a Pantera Cor de Rosa era lésbica e que o Sapo Cocas sofria de violência doméstica. Era tudo deixado à imaginação de cada um. Agora não. É tudo explícito e politicamente correcto. Para o bem das criancinhas. Das criancinhas adultas. Pois as verdadeiras estão-se a cagar para isso.

Valha-nos Deus que isto está infestado de chalupas. O mundo está mesmo a ficar perigoso…

Memória Fotográfica IV: Magnum Photos Inc.

Há algum tempo que a rubrica Memória Fotográfica não tinha qualquer publicação. Mas, tal como prometido na última edição, está de volta para vos falar da Magnum Photos.

Logotipo da Magnum Photos

“A Magnum é uma comunidade do pensamento, uma qualidade humana partilhada, a curiosidade sobre o que acontece no mundo, o respeito pelo que se passa e o desejo de o transcrever visualmente.”

Henri Cartier-Bresson

Em 1947, depois de findada a II Guerra Mundial, é fundada a agência fotográfica Magnum Photos, pela mão de quatro fotógrafos pioneiros da fotografia como veículo noticioso e de informação. Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, David Seymour e George Rodger, fotógrafos francês, húngaro, polaco e inglês, respectivamente.

George Rodger, David Seymour, Robert Capa e Cartier-Bresson

Relacionada directamente com a história de vida e carreira dos seus fundadores, a cooperativa alberga centenas de fotógrafos de todo o mundo, sendo, provavelmente, a mais profícua agência fotográfica de todo o mundo. Fiel aos seus valores de fundação, mas a evoluir com o tempo e com os seus cooperantes, o trabalho da agência foca-se no retrato de um mundo centrado nas pessoas e na cultura enraizada, desafiando convenções, regras estabelecidas, e, com a maior transparência, propõe-se a transcrever uma fiel imagem do mundo. [Read more…]