Parabéns, Zeca

Fotografia: DR.

92 anos de um Mestre.
Parabéns, pá! Fazes-nos cá muita falta.

«Daqui fala o monopólio
Daqui fala o capital
Diga cá senhor ministro
Quanto custa Portugal?»

A partida

Mariana Seabra da Silva

Hoje, dia vinte cinco de julho de dois mil e vinte e um, morreu um dos mais importantes capitães de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho, deixando a dor da partida e a recordação dos seus feitos heroicos.

Numa noite longínqua, a vinte e quatro de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, os militares portugueses que formavam o Movimento das Forças Armadas, arquitectado pelo artilheiro Otelo e outros camaradas, também capitães de Abril, invadem vários lugares estratégicos do país, como a Rádio Renascença e o Terreiro do Paço, dando lugar à missão mais importante das suas e das nossas vidas: a luta pela Liberdade, o derrube do regime salazarista e o fim da Guerra Colonial.

É inegável a importância das mentes que estiveram por detrás de um acontecimento tão marcante na vida de todos, não só daqueles que vivenciaram o regime Salazarista ‘in loco’ e a sua queda, como para mim que, só ouço falar na Revolução dos Cravos em documentários, filmes ou conversas de café com amigos, familiares e/ou desconhecidos. Reconheço a liberdade que tenho como resultado da luta contínua de pessoas como o Otelo, que não descansaram até eliminar o fascismo em Portugal, para que hoje, eu, todos e todas possamos falar sobre História e pensar como esta ainda nos afecta. O que fica na memória é a lembrança de alguém que contribuiu, de forma altruísta, para a libertação do povo português e dos povos colonizados.

Apesar dos erros que cometeste, o povo lembrar-te-á pela libertação que lhe trouxeste.

Agora, “Otelo, vencerás porque o povo vencerá”.  Obrigada por tamanha inspiração, Capitão. Até um dia.

Imagem: Centro de documentação 25 de Abril, Coimbra

O meu avô materno era de Fiscal

Todavia, o jornal da resistência silenciosa em tempos de liberdade de expressão equivocou-se. Efectivamente, Conselho Fiscal ≠ Conselho de Fiscal (aliás, Fiscal não é nem conselho, nem concelho, é freguesia). Penso eu *de que.

***

Portugal: terra de capitalistas sem capital

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.»

Mia Couto

Fotografia de João Carlos Santos

«Is everybody in?

The ceremony is about to begin».

50 anos sem Jim Morrison

I’m the Lizard King. I can do anything.
Jim Morrison

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Pois é. E digo-vos mais: o nosso JJC jamais me perdoaria se me esquecesse deste dia. A sorte é que a minha querida esposa vê televisão, porque eu só me lembrava da data de nascimento (8 de Dezembro de 1943, seus ignorantes).

JJC, já agora, diz ao Jimbo que, amanhã, depois de comprado o arco para a guitarra na loja dos violinos (depois explico-te), vou buscar o livro dele à Waterstones cá do burgo.

Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images

Um grande abraço para ti e, já agora, outro para ele.

Parabéns, Chico Buarque

77 anos de um dos melhores. Parabéns, Chico! 

11 anos sem Saramago

José Saramago. O prémio Nobel da Literatura faleceu em 2010.

«Já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder. Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda.»

José Saramago, 2007

Hank Schmidt in der Beek – Und Im Sommer Tu Ich Malen

Hank Schmidt in der Beek – o artista plástico alemão que vai até sítios com paisagens incríveis e pinta… o padrão das suas camisolas. As fotografias são do também alemão Fabian Schubert.

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E, já agora

José Saramago, 1990. Foto: Juan Guamy.


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago, ‘Cadernos de Lanzarote’, – Diário III – pág. 148, 1995

José Gomes Ferreira ou a ignorância atrevida

José Gomes Ferreira é director-adjunto de informação da SIC e comentador indignado de política económica. Publicou recentemente um livro intitulado Factos Escondidos da História de Portugal. O facto de ser uma figura pública fez com que desse várias entrevistas sobre o livro, o que é legítimo, como é legítimo que tenha escrito e diga disparates que estão ao nível da conversa de café, em que qualquer um, com a barriga encostada ao balcão, diz que sabe mais de História Medieval do que José Mattoso ou que tem lições a dar a Cristiano Ronaldo acerca do modo de marcar livres. [Read more…]

O choque, o horror, a surpresa… e a falta de mundividência

Os italianos Måneskin, feios, porcos e maus para a opinião pública, vencedores do festival Eurovisão 2021, com a canção ‘Zitti e Buoni’

O mundo descobriu esta semana, em choque, que os artistas, sejam elas da música, da pintura, da imagem ou da representação, se drogam à força toda. Não sei se o mundo parou nos últimos cem anos ou se, simplesmente, o mundo é todo crente em Estórias da Carochinha.

Do mal, o menos. Podia ter sido mais tarde, ou podia nunca ter sido. Foi em 2021 e é oficial, para quem esteve a dormir nas últimas décadas: os artistas drogam-se. O choque, o horror, a surpresa…

Um dia, quando esta poeira (a escolha da palavra é inocente) assentar sobre os artistas, chegaremos aos próximos impolutos que se drogam: trabalhadores da banca e da finança. Quem?! Como?! Não pode ser! Até usam gravata…

Quando estiverem preparados, iniciaremos o III Capítulo desta saga e chegaremos aos médicos. [Read more…]

V. Excias. estão equivocados? Não me parece.

Temos assistido aos pseudo arremessos do BE ao actual governo. Na área da Cultura a tónica tem sido na questão dos precários, nos apoios aos agentes culturais, e recentemente o estatuto dos trabalhadores da Cultura.

Não raras vezes é Ministério da Cultura para ali, Ministério da Cultura para acolá, e por aí adiante. Aliás basta ver o jornal Avante da SONAE, e por exemplo a voz do dono (Governo) neste artigo. Também noutras bandas é igual.

Enfim, a corte no seu melhor.

Mas voltando à questão, não existe Ministério da Cultura. Não no sentido irónico de dizer que esse eventual Ministério não actua, mas de facto não existe.

Desde 1974 até 1980 (6 anos) não houve nos sucessivos governos qualquer pasta governativa  dedicada à Cultura. A partir daí sempre houve Secretaria de Estado da Cultura  e/ou Ministério da Cultura. Com tudo o que isso implica. Em 2011, o Governo da troika extinguiu a pasta. Nesse governo não havia nem Ministério nem Secretaria de Estado. Havia um Secretário de Estado (Francisco José Viegas, e depois Jorge Barreto Xavier, ambos de triste memória). Na altura muita gente  usou o argumento de não haver Ministério. Mas referiam-se à Secretaria de Estado da Cultura, que não havia. Hoje, 2021, passados 10 anos, continua a não haver nem Ministério da Cultura , nem Secretaria Estado da Cultura. Temos uma Ministra e uma Secretária de Estado, mas ambas sem pasta, tal e qual como em 2011. Mas curiosamente o BE nada diz sobre a matéria. Aquilo que seria o exemplo de como o governo da troika tratava (mal) a cultura, não se aplica ao actual governo.

Percebo, e na minha terra esse comportamento tem um nome.

Memória Fotográfica III: Robert Capa

Tal como anunciado no final da edição anterior da rubrica Memória Fotográfica, falaremos, desta vez, do foto-jornalista Robert Capa.

Endre Erno Friedmann, mais conhecido como Robert Capa

Nascido Endre Erno Friedmann, Robert Capa (22 de Outubro de 1923, Budapeste – 25 de Maio de 1954, Thai-Binh) foi um fotógrafo húngaro do século XX. Endre celebrizou-se como um dos melhores fotógrafos de guerra do século XX, tendo feito a cobertura de vários conflitos armados da primeira metade do mesmo século, tais como a II Guerra Mundial ou a Guerra Civil Espanhola.

Robert Capa / London Express

Durante os anos da sua formação, o jovem Endre descobre-se atraído pelos ideais de índole marxista, considerando-se socialista e, acima de tudo, anti-fascista. Perseguido pela polícia política acaba exilado em Berlim, onde completa os seus estudos e se aproxima da actividade jornalística. Em 1931, inicia a sua carreira foto-jornalística. Trabalha para a agência alemã Dephot, antes de se refugiar em Viena, na Áustria e, a seguir, em Paris, na França. É neste ano que fotografa Leon Trótski, intelectual marxista e revolucionário bolchevique que, após a morte de Vladimir Lenin, se opôs a Josef Stalin, num congresso em Copenhaga, na Dinamarca. [Read more…]

Memória Fotográfica II: Lisboa – Cidade triste e alegre, as influências: Edward Steichen, William Klein e Robert Frank

Na sequência do texto anterior da rubrica Memória Fotográfica, abordaremos, desta feita, as influências estrangeiras da obra portuguesa Lisboa – Cidade triste e alegre, de Victor Palla e Costa Martins.

Na última edição, foi dito que a obra que retrata a Lisboa das décadas de 50 e 60 do século XX é percursora de uma nova forma de fotografar as cidades e quem nelas habita, sobretudo devido à influência de três autores: Edward Steichen, William Klein e Robert Frank. E as suas obras: The Family of ManNew York e Les Americains, por ordem de enunciação.

Comecemos, então, por falar de Edward Steichen e da obra The Family of Man.

The Family of Man, de Edward Steichen, 1955

Edward Steichen nasceu no Luxemburgo no ano de 1879 e foi um fotógrafo de relevo na primeira metade do século XX. Imigra, com apenas um ano de idade, com os seus pais, para os Estados Unidos da América, onde, aos vinte anos, começa a desenvolver o interesse pela arte fotográfica. [Read more…]

Memória Fotográfica I: Lisboa – Cidade triste e alegre

Lisboa – Cidade Triste e Alegre, edições Círculo do Livro, 1959

“Um livro que é um poema, ou uma história de Lisboa que é uma fotografia da cidade (…)”
(in Público, Joana Amaral Cardoso 12 de Abril de 2018)

Em 1959, por iniciativa e trabalho da dupla de arquitectos Victor Palla e Costa Martins, é publicado, pela primeira vez em Portugal, o livro fotográfico Lisboa – Cidade Triste e Alegre.

“O livro reúne cerca de 200 fotografias, que os autores paginaram em estreita relação com excertos de poesia da autoria de Fernando Pessoa (et Álvaro de Campos, Ricardo Reis), António Botto, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde, Gil Vicente, e inéditos de Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, entre outros nomes da cena literária portuguesa de então, com destaque ainda para o texto de abertura de José Rodrigues Miguéis.” (Círculo do Livro, Lisboa – Cidade Triste e Alegre, 1959). Em 2006, após a morte de Victor Palla, o livro foi re-editado. [Read more…]

Jesus não foi o Salvador

Esperava-se o Messias, Aquele enviado de Deus que nos viria salvar. Poucos judeus acreditaram em Jesus, muitos continuaram e continuam à espera do Salvador, outros abraçariam mais tarde o profeta Maomé.
O que estava em causa? A imortalidade, claro, não do visível que se via a apodrecer, mas do invisível, a alma, noutro ou sem corpo, que o original ficava na terra-Mãe a cumprir o seu papel de adubar a terra para aos vindouros.
Jesus foi homem como nós, sem o prodígio de salvar a alma fosse de quem fosse, para além da morte terrena. Não tratou de salvar almas, nenhuma que haja relato ou notícia, mas curou de, pela Palavra, mostrar o caminho ético, moral, de uma vida de solidariedade comungada com todos sem qualquer exclusão.

Titian – Christ Carrying the Cross (cerca de 1560)

Para aqueles que sonhavam com uma unção que os salvasse permanentemente do pecado e lhes garantisse presença junto do Pai, Jesus deu [Read more…]

Abril – mês internacional da Arquitetura Paisagista

Central Park, Nova Iorque

Uma simbiose onde são combinadas em harmonia ciências naturais, sociais e artísticas, são diversos os ramos que definem esta complexa e completa área que é a Arquitetura Paisagista. Muito sustentada na componente vegetal, este é o principal traço que a distingue da Arquitetura que conhecemos. Não é possível falar nesta área sem saltar rapidamente à memória 3 grandes nomes: Frederick Law Olmsted (criador do Central Park, em Nova Iorque), Gonçalo Ribeiro Telles (pai da Arquitetura Paisagista em Portugal) e Francisco Caldeira Cabral (considerado o pai do ensino da Aquitetura Paisagista).

Segundo Caldeira Cabral, esta é uma ‘arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem‘ – os arquitetos paisagistas desenvolvem capacidades para planear e projetar paisagens ecológica, social e economicamente sustentáveis, com vista à promoção da qualidade de vida das comunidades humanas, da qualidade do meio ambiente e da biodiversidade. [Read more…]

Em revisão: A Passage to India, E.M Forster

 

O livro (e o filme) colocam uma pretensa pergunta: o que aconteceu nas grutas de Marabar?

Publicado em 1924, nos últimos suspiros do Império britânico, e adaptado ao cinema por David Lean em 1984, A Passage to India expõe as fissuras e injustiças na sociedade colonial. Um jovem médico indiano é acusado de violar uma inglesa, branca, nas grutas de Marabar. O caso divide a sociedade entre os britânicos que acham que este crime é típico dos indianos e os indianos que vêem em Aziz mais uma vítima do preconceito e arbitrariedade colonial. Só um britânico defende Aziz: Cyril Fielding, um professor de liceu que, afastado da sua comunidade pelas visões pouco convencionais relativamente aos indianos, é agora completamente posto de parte em virtude da sua amizade com suposto violador.

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Em 30 de Março de 2009, este era o filme mais visto

via https://playback.fm/birthday-movie

Em 30 de Março de 2009, este era o livro mais lido


via https://playback.fm/birthday-movie

Em 30 de Março de 2009, esta era a música mais ouvida

via https://playback.fm/birthday-song

Hoje, lembrei-me do “agora facto é igual a fato (de roupa)”

Assunto a retomar num Sons do Aventar, onde, como se sabe, aventamos sons.

U2 Live at Red Rocks – The Virtual Tour 2021

Os U2 são os U2 por muitas coisas. Este concerto nas Red Rocks em 1983 é uma dessas. E agora, graças à pandemia, os U2 colocaram o concerto no youtube. Para recordar. Ou para descobrir. Ou então para os mais novos saberem que nos idos de 80 as suas mães eram umas grandes malucas que, como se pode assistir neste vídeo, invadiam os palcos dos concertos e tudo. Ide ver que é de borla.

Dia Mundial da Poesia

21 de Março. Dia Mundial da Poesia.
Senhor do Nilo
de João L. Maio
O capitalista
é como um crocodilo
Predador implacável
Guloso e
Insaciável
Dono e senhor
do despojo
O grande apogeu
do nojo

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Quem poderá traduzir “Lágrima de Preta”?

O racismo pretende construir muros e prisões. Estrutural ou não, deve ser combatido. O objectivo é erradicá-lo, extinguir o racista, não através da violência física, mas condenando-o à inexistência, através da educação, da cultura e das artes. Das artes, insisto. Tudo isto será utopia, mas é pela utopia que devemos ir.

O anti-racismo deve servir para derrubar muros, para explicar ao mundo que não estamos separados pela cor da pele. Como tantas lutas legítimas, também o anti-racismo está sujeito a exageros e perversões. Qual é a diferença? O racismo deve ser destruído, o anti-racismo precisa de ser melhorado. O problema de quem faz força em sentido contrário reside, por vezes, num excesso nascido da revolta ou da necessidade de compensar a força do inimigo.

Recentemente, na Holanda, surgiu uma polémica a propósito da tradução do poema que Amanda Gorman escreveu e declamou na tomada de posse de Joe Biden. Quando se soube que Marieke Lucas Rijneveld, a tradutora escolhida, era uma mulher branca, houve uma revolta tal que esta, apesar de avalizada pela própria autora, pediu desculpa e retirou-se. Pelos vistos, aquele poema só pode ser traduzido por alguém com a mesma cor de pele da autora.

O anti-racismo transforma-se, assim, num racismo de sinal contrário, mesmo que as intenções sejam, originalmente, as melhores. [Read more…]

Viver com lobos

Estava a ouvir a Hélène Grimaud a tocar a Chaconne em Ré menor BWV 1004, para violino solo, de Bach, transcrita para piano por Ferrucio Busoni, quando me lembrei que ela é a fundadora do Wolf Conservation Center. Efectivamente.

Nem rei, nem roque

Pablo Rivadulla Duro, conhecido no mundo da música como Pablo Hasél, é um rapper catalão condenado a uma pena de nove meses e um dia de prisão pela justiça espanhola, por “injúrias ao rei”, “injúrias às autoridades do Estado” e “enaltecimento do terrorismo”, sentença baseada no conteúdo artístico do rapper e em publicações numa rede social.

Sessenta e quatro publicações no Twitter e uma música no Youtube. Foram estas as razões que levaram a justiça espanhola a condenar Pablo Hasél, em 2018, a uma pena de dois anos de prisão, posteriormente reduzida. Em 2020, o Supremo Tribunal de Espanha confirmou a decisão. Agora, em Fevereiro de 2021, Pablo Hasél é forçado a entregar-se às autoridades “de forma voluntária”.
Pablo Rivadulla Duro denunciou, em todas as suas músicas, a censura a que o Coroa espanhola submete o seu povo, os crimes económicos cometidos por Juan Carlos, o rei emérito, a hipocrisia da União Europeia colonizadora e imperialista, o ressurgimento dos fascismos um pouco por toda a Europa. Por isto, foi preso.

Convém recordar que há menos de um ano o Supremo Tribunal espanhol abriu uma investigação ao rei Juan Carlos I por suspeita de delitos de corrupção internacional, branqueamento de capitais e fraude fiscal, num esquema que lhe terá rendido, e à Coroa espanhola, cerca de 65 milhões de euros, em conluio com a Arábia Saudita. Como se não bastasse, Juan Carlos esteve também envolvido noutro escândalo: a caça ilegal de espécies ameaçadas em África, usando fundos públicos. Em Agosto de 2020 fugiu para os Emirados Árabes Unidos. Coincidências.

A juntar a tudo isto, o The Economist, numa publicação feita na semana passada, considerava Espanha uma “democracia plena”. Portugal, como se sabe, baixou à categoria de “democracia com falhas”. Se as falhas da Democracia portuguesa são piores do que a suposta plenitude democrática espanhola, não sei. Sei, isso sim, que Portugal não tem presos políticos. Nem Monarquia. Nem dinheiro. Talvez o The Economist, por ser uma revista do mundo económico, se baseie noutros factores, que não a Democracia, para aferir democracias. Não sei.

Espanha é aqui ao lado. A realidade não é assim tão distante, no entanto, em Portugal, nada se diz. A bem de uma suposta diplomacia internacional com “nuestros hermanos”, é óbvio que o Governo português, nomeadamente na pessoa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, nada irá dizer. O que é curioso, quando nos lembramos que foi este mesmo Governo que, há não muito tempo, se apressou a pôr-se ao lado do imperialismo Estado-unidense e Europeísta, reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Venezuela. Coincidências.

Não espanta, portanto, que num país tão próximo, tão histórico e tão cheio de pó por limpar, ainda não se tenha instaurado a única forma de governo realmente democrática: a República. Tudo o que vem associado à Monarquia, fosse no século XV, seja no século XXI, cheira a estrume. E continuará a feder enquanto uma só família detiver todo o poder concentrado nas suas mãos. E não há Parlamento fantoche com coligações de esquerda que o mascare.

Liberdade para Pablo Hasél.

 

Lembrar um mestre

Por estes dias tenho pensado muito em George Steiner. A morte dele, há precisamente um ano, fez antever um 2020 que nada trazia de bom.

Steiner é uma das presenças intelectuais mais assíduas na minha vida. Não há semana que passe sem que eu leia qualquer coisa que ele escreveu ou disse. A longa entrevista ao programa Beauty and Consolation, os artigos no New Yorker, excertos das Dez Razões para a Tristeza do pensamento estão nos favoritos do meu computador, na pastazinha onde escrevo passagens que me marcam. Antes do confinamento, comprei alegremente as quatro entrevistas a George Steiner feitas por Ramin Jahanbegloo e publicadas pela VS.

Acusado frequentemente de snobismo – uma questão que das várias que ele suscita é a menos interessante – Steiner entendia algo de muito importante sobre o trabalho intelectual: ele é suposto ser díficil. A literatura, por exemplo, é um constante diálogo entre diversas formas de pensamento, entre várias personagens e enredos e formas narrativas, e só a leitura incansável nos pode transmitir a plenitude de determinado livro ou história (estória).

Li vários artigos extraordinários sobre Steiner depois da sua morte. Mas o mais notável, pela sua compreensão da obra e do homem, foi o de Diogo Vaz Pinto no Jornal I em Dezembro de 2020:

Dotado de uma abrangência incomparável, move-se com uma elegância e uma desenvoltura que nos absorvem, com aquela capacidade de aceder à realidade como se a atraísse a um ínvio argumento, ressaltando algum padrão inusitado, aspectos finos e que traduzem uma qualidade mítica numa razão de outro modo insuportável. Deste modo, ensina-nos a perdoar à vida, e até à condição humana “o facto de ser a coisa indiferente e pontual que é”. Steiner diz-nos que as artes da compreensão (hermenêutica) são tão variadas quanto os seus objectos, e que “não há nada de mais exasperante na condição humana que o facto de nós podermos significar e/ou dizer seja o que for”.

 

Pense e Fique Rico

 

@luadepapel

Não consigo precisar com toda a certeza, mas penso que a primeira vez que li um livro que se enquadre na categoria de “auto-ajuda” ou de “desenvolvimento pessoal” foi por volta dos 13 anos. Na altura “O Segredo”, de Rhonda Byrne.

Fiquei fascinado com toda uma série de conceitos como a lei da atracção, a força do pensamento e tantos outros que, estando mais ou menos atentos, já ouvimos falar pelo menos uma vez.

Nestes 12 anos que se passaram, fui do fascínio por estes livros à crítica profunda e ao rótulo de “banha da cobra” e adjectivações semelhantes. Posso dizer que atingi o equilíbrio no que à perspectiva sobre estes livros diz respeito (será que eles ajudaram?).

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