A arte de soletrar

de Harold Bloom (1930–2019): Jay Wright: j-a-y-w-r-i-g-h-t, Thylias Moss: t-h-y-l-i-a-s-m-o-s-s, & /ˈnɒstɪk/: g-n-o-s-t-i-c.

Canções Históricas

 

Te Deum, Marc-Antoine Charpentier. 1688

 

Os fatos são averiguados? How dare you?

Predictably, people reacted to the late-night tweets (I had misspelled “douche bag”) with how-dare-you outrage and labeled me a hater and a jealous troll.

Bret Easton Ellis, “White

Como vos atreveis?

Greta Thunberg

***

Como vos atreveis (“how dare you?”) a averiguar fatos?

Enfim, podeis retorquir, tal Vieira:

como vos atreveis a pelejar com tal gente?

Efectivamente:

Em suma, tudo como dantes, no sítio do costume.

***

Novidades no Diário da República

Some of the others seemed altogether slipping their hold upon speech, though they still understood what I said to them at that time. (Can you imagine language, once clear-cut and exact, softening and guttering, losing shape and import, becoming mere limps of sound again?)

— H.G. Wells, “The Island of Dr Moreau

***

Novidades? Além do aspecto, nenhumas. Aliás, já tínhamos reparado nessas mudanças cosméticas e o próprio Governo fez publicidade ao “novo grafismo“. Efectivamente, o grafismo do Diário da República é novo, mas a grafia caótica mantém-se e já tem sete longos anos. Em vez de combater as *seções, os *fatos e os *contatos e acabar com o instrumento que deu à luz este caos (para quem não souber, trata-se do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), o Governo prefere mudar de penteado e arranjar as unhas.

Depois do *contato e dos *contatados de ontem, o *contato de hoje:

Não há novidades. Tudo tranquilo.

Como diria o Patrick Bateman, “Listen, John, I’ve got to go. T. Boone Pickens just walked in…”.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

Música para outro domingo de manhã

Novamente, o Quintetto Anedda, com “A Canção do Outono Japonês”, de Yasuo Kuwahara.

Literatura sem bluff

A apresentação pública foi há um mês (a 18 de Maio, para ser exacto, na Livraria Círculo das Letras, em Lisboa), mas, por circunstâncias várias que não vou detalhar, só agora me foi possível lê-lo com o vagar a que me obrigo para com os livros e autores de que gosto.

É, porém, um livro que se devora em pouco tempo. Tão pouco quantas as páginas de que dispõe (cerca de 30, sem numeração), mas que exigem a atenção aguçada e exclusiva do leitor, como é próprio de todas as coisas que valem a pena.

Chama-se, o livro, “Bluff”, e o seu autor António Ferra. É uma história que nos revela, em flashes curtos, os detalhes da vida de uma Graziela casada com um Jacinto bêbado e disfuncional possuído por t(r)emores de vários demónios que sobrevoam os descampados periféricos de um lugar sem nome nem geografia. Vidas feitas dos vários bluffs da vida real, onde se cruzam enganos e sentimentos, incertezas e contradições, seres e pareceres com alma e sem futuro aparente, pequenas coisas e momentos de humana desumanidade. [Read more…]

O Expresso permite ‘facção’

C’était comme un nouveau monde, inconnu, inouï, difforme, reptile, fourmillant, fantastique.

Victor Hugo

Bon, ce n’est pas bien grave. Paix à son âme.

Michel Onfray (sobre Michel Serres)

They responded in five seconds. They did their jobs — with courage, grace, tenacity, humility. Eighteen years later, do yours!

Jon Stewart

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Efectivamente, sabe-se há uns anos (2010: 103) que o Acordo Ortográfico de 1990 transformou facção com maiúscula inicial numa homógrafa perfeita de Fação, em Sintra.

Foto: Francisco Miguel Valada

Também se sabe que essa transformação não se aplica à ortografia do português do Brasil, justamente devido ao “critério fonético (ou da pronúncia)“, criado para garantir a tal “unidade essencial da língua portuguesa“. De facto, no Brasil, mantém-se a facção e, além dela, mantêm-se o aspecto, a concepção, as confecções, etc., etc. Ou seja, o discurso de Fação, bem conhecido dos leitores do Aventar, não é adoptado no Brasil, precisamente devido à base IV do AO90.

No Expresso, a facção mantém-se (neste caso, mantêm-se as facções), se o autor for brasileiro:

Se for português e se escrever em português europeu, o autor está impedido de grafar tamanhas monstruosidades

a não ser que [Read more…]

Problema de expressão: Open Conventos

Devia ser como no cinema
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém

Carlos Tê

 

Há uns tempos, escrevi sobre o Pordata Kids. Recentemente, descobri que uma outra iniciativa igualmente meritória foi baptizada e lançada no mundo com o nome Open Conventos.

Se o objectivo é chamar o turista estrangeiro, o que está ali a fazer, desavergonhada, uma palavra portuguesa? Se o alvo é o português, para quê uma palavra inglesa? “Conventos abertos” ou “Abrir os conventos” ou “Conventos desconhecidos” seriam disparates? Tu, leitor, sentir-te-ias menos cosmopolita e, ao mesmo tempo, menos português?

Enquanto se conhece o magnífico património arquitectónico, por que razão se desconsidera o linguístico? Será que somos tão saloios que não podemos participar em iniciativas anunciadas exclusivamente em português? Em vez de uma expressão que não está em nenhuma língua, não seria melhor publicar um anúncio com a mesma expressão em duas línguas, apelando ao indígena e chamando o estrangeiro?

Não sei, talvez já não seja o timing certo para fazer estas perguntas. Fico a aguardar o vosso feedback.

 

As recaídas do Expresso e os «contatos posteriores»

Rogava aos santos que lhe permitissem morrer. Ah! para não ver cumprir-se o inelutável destino, acontecer a inexorável desgraça.

Jorge Amado

Tu já sabes o que é que vai acontecer

— Conan Osíris

All this was real, it was really happening, but with a quality of the unreal; it was reality happening in quite a different way.

— Anna Kavan, “Ice”

***

Escreve o Expresso:

Queda de betão da parte inferior do tabuleiro da ponte da Arrábida origina inspeção.

Felizmente, o caso está a ser acompanhado pela Protecção Civil.

Efectivamente: Protecção.

Como é sabido, não há nem uma recaída sem duas, nem duas sem três, nem três sem quatro — e assim sucessivamente.

Quanto ao Diário da República, não há surpresas.

Aliás, quando se menciona Diário da República, todos sabemos, como cantava ontem Conan Osíris, “o que é que vai acontecer”:

Exactamente: a grafia habitual, no sítio do costume.

***

Mais festa no Aventar: Pedro Correia ganha o prémio UCCLA

No ano em que o Aventar festeja 10 anos de vida, o nosso A. Pedro Correia desengavetou os seus escritos, concorreu ao prémio UCCLA e ganhou. Nada que nos surpreenda, mas que nos deixa naturalmente orgulhosos.

Praças é o título do livro. Será apresentado na Feira do Livro de Lisboa e será vendido nas livrarias FNAC e com o jornal Público.

Deixo mais abaixo a opinião de quem pôde e soube ler estes escritos. É o Pedro Medina Ribeiro, também escritor e que, ainda há pouco, nos deu a honra de um texto comemorativo dos 10 anos cá de casa. Tomai e lede:

Há um par de anos li um grande livro. Ao prazer que retirei da leitura acrescentaram-se outros prazeres.
Em primeiro lugar, tinha sido escrito por um amigo e senti um orgulho enorme naquele amigo que escrevia tão bem.
Em segundo lugar, era prosa inédita. Não é muito bonito dizer isto, mas senti uma ponta de vaidade por ser detentor de conhecimento privilegiado: eu era das poucas pessoas que sabia que, um dia, aquelas folhas viriam a ser publicadas e lidas com o entusiasmo que merecem.
O A. Pedro Correia anunciou ontem que este seu livro ganhou, entre quase oito centenas de manuscritos, o prémio União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa.
E eu fico muito feliz.

Padres polacos queimam livros da saga Harry Potter

“Onde se queimam livros, acaba-se a queimar pessoas.” Heinrich Heine

Faz hoje dez anos

Faz hoje DEZ anos que o Aventar nasceu e daqui a menos de um mês, os mesmos dez que por aqui comecei a andar, cheio de orgulho, que tinha, em pertencer a esta casa.

Os anos foram passando, e … acabei por rumar a outras paragens sem que alguma vez esquecesse o maravilhoso grupo de que fiz parte, e sem que alguma vez me deixasse de sentir aqui, como em minha casa.

Parabéns Aventar, pelo teu aniversário.

Parabéns Aventar porque a par dos teus dez brilhantes anos, também conseguiste manter a qualidade a que inicialmente te propuseste.

Parabéns Aventadores, pela qualidade que fez com que tanta gente viesse para “nos” ler.

Obrigado Ricardo Ferreira Pinto por me teres convidado nos idos de 2009.
Continuemos!

João

Mais mês, menos mês, faz dez anos que o João me convidou para o Aventar.

Ao João não se podia recusar um convite sem ele se tornar chato. Um chato especial, é certo, mas chato.
O João podia ser um chato maravilhoso, cheio de doçura e candura, insinuante e convincente, e podia ser ríspido e cortante como um x-acto. Era capaz de ser chato quando falava e tataramudeava, e era capaz de ser chato quando se calava e nos olhava com olhinhos trocistas e aquele sorrizinho fuinha.
O João era capaz de ser chato até quando nos encantava. Se alguém não acredita que se pode ser chato e encantador, não conheceu o João. Mas também podia ser um adversário terrível, persistente até ao tutano, determinado como só um grande chato o pode ser.
O João, para dizer a verdade, até na morte foi chato. Não apenas porque morreu, porque essa é a suprema chatice, mas também pela forma como não morreu. Os outros muito nossos que morreram, o Tó, o Rui, o Paulo e mais alguns, ficaram postos em sossego e, depois de devidamente chorados, só aparecem raramente, de longe em longe, numa imagem fugaz, numa frase que recordamos, numa história que contamos, e regressam de novo ao seu repouso lá para os lados obscuros da eternidade. É como se tivessem morrido antes de nós para nos ensinar como se morre, como se permanece imóvel e ausente na penumbra, como, afinal de contas, se comporta um morto depois depois de ter morrido.
O chato do João, não. Está sempre a aparecer quando vamos na rua, quando bebemos um copo, quando discutimos uns com os outros. É inconveniente, interrompe-nos a leitura de um livro sem pedir licença, distrai-nos quando vemos um filme, espreita por cima do ombro se escrevemos um texto, fala-nos ao ouvido quando estamos em silêncio, põe-se a dizer larachas, a fazer advertências, a responder sem ser perguntado. E continua a mandar-nos à merda sem respeito nenhum. “Porra, pá, nunca mais aprendes”, “eu tinha-te avisado”, “és sempre a mesma merda mas já estou habituado”, “se eu não te conhecesse, até era capaz de te dar razão”, “se queres ir aí, vai, mas é só porque não percebes nada do assunto”, “Já te disse mil vezes onde é que se come o melhor cabrito aqui perto, isto se conseguisses imaginar o que é um cabrito a sério”.
O João é tão chato, aliás, que me obriga, para além de o ouvir, a falar com ele quase todos os dias, a fazer-lhe perguntas, a dar respostas por ele, a interrogar-me sobre o que ele acharia disto ou daquilo, a desatinar com ele e apanhar-me a dizer em voz alta “tá as a ver, meu cabrão, aconteceu exactamente como eu te tinha dito”, “olha, João, vai à merda mais o teu cabrito. Descobri um muito melhor que o teu, mas tu é que percebes de cabrito”, ou, quando ele, só para chatear, me vem falar do FCP, “epá, João, às vezes consegues ser quase tão fanático como o Pinto da Costa”. E leva-me regularmente a desabafos “Percebes, João? Esta treta não é fácil”, “Já viste isto?…”, “Repete lá aquela cena…”

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Dias

Sempre que eu oferecia um presente ao meu pai, ele fazia uma coisa que me irritava muito. Sem desfazer o embrulho, revirava-o nas mãos, abanava-o junto ao ouvido, e punha-se a adivinhar: “Isto é um perfume”. “É um cachecol”. “Um livro”.

Claro que às vezes acertava e isso ainda me irritava mais. “Não adivinhes, abre!”, repetia-lhe eu sempre. Ele achava graça a esse jogo. Eu sentia que parte da surpresa se arruinava. Claro está que ele tinha razão, eu ainda não me tinha libertado dessa urgência estúpida que carregamos durante anos, por vezes a vida toda. [Read more…]

Engate a terceira

Fernando Venâncio

A apresentadora Cristina Ferreira terá assegurado ao primeiro-ministro alguns suplementares milhares de votos quando retoricamente perguntou: «Ai, ele era engatatão?». Estava-se no programa da dita, na SIC, com António Costa de cozinheiro e a mulher de indiscreta confidente.

Pergunta retórica, sim, mas também supérflua. Todo o político de sucesso é excelente no engatar. Porque, pensando bem, é num contínuo e descarado engate que se condensa a actividade política.

“Engatar”, um verbo feliz. Lembra todos os tipos de engrenagem, de enganchadura, de engalfinhamento. Origina-se no valor “grampo” do vocábulo “gato”. Por isso se adequa tão bem às mudanças da caixa de velocidades. A gente engata, engrena, engancha, ok engalfinha a primeira, depois a segunda, e há quem tenha assentado o rabo numa máquina que mete a sexta. Não sei para que serve, ou qual seja a sensação, mas alguma há-de ter.

Um brasileiro fica em branco com os nossos “engates”. Falarem-lhe em “sites de engate” é atormentá-lo de perplexidades. E, contudo, “engate” é gramaticalmente uma formação de primeira escolha, como deverbal regressivo que é. Eleva o trivial “engatar” ao patamar da abstracção. Pede um tirar de chapéu, e ao menos uma vénia. [Read more…]

Hal

Morreu Hal Blaine (1929-2019), um dos meus mestres – foi-o, mesmo muito antes de lhe conhecer o nome. Nas infinitas horas em que, com os amplificadores aos berros, tentava acompanhar e aprender como faziam os melhores, foi uma das minhas companhias.

O seu nome não dirá muito muito à maioria das pessoas. Ele fazia parte daquela aristocracia de músicos que, nos estúdios de gravação, tocavam com os melhores e, muitas vezes, em vez deles. Quem está atento a estas coisas sabe bem que muitas gravações, mesmo de artistas e bandas famosas, são feitas , de facto, por estas “raposas de estúdio”, muito mais competentes que os seus famosos “encomendantes”. [Read more…]

Portugal escolhe uma decoradora de interiores para a Bienal de Arte de Veneza

A artista Leonor Antunes, que se notabilizou por pendurar coisas no tecto de modo exímio, será a representante portuguesa na Bienal de Arte de Veneza, escolhida pelo ex-demissionário de Serralves, João Ribas, o curador, e abençoada pela senhora Ministra da Cultura, apostada que está em promover internacionalmente o talento artístico lusitano na área da carpintaria de limpos e da decoração de duplexes com mezanine.

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«Conan Osíris é mesmo um artista excepcional?»

Addison DeWitt: More plainly and more distinctly: I have not come to New Haven to see the play, discuss your dreams, or pull the ivy from the walls of Yale. I have come here to tell you that you will not marry Lloyd, or anyone else for that matter, because I will not permit it.

All About Eve

***

No Expresso, é excepcional,

mas também é excecional

e, além de excecional, há excecionalidade.

Portanto, há excepcional, excecional e excecionalidade.

No Brasil do AO90, continua excepcional. Todavia, na Europa do AO90, como sabemos, “excepcionais convertido para excecionais“.

Dez anos é muito tempo (muito!) e andamos há quase nove a aturar a propaganda ortográfica do Expresso.

***

Crónicas do Rochedo XXIX – Península Ibérica 2483 d.C.

ronaldo jornal da Madeira

“Em 2485 vamos celebrar os 500 anos do nascimento de Cristiano Ronaldo e por esse motivo, os responsáveis das cidades do Funchal, Lisboa, Manchester, Madrid, Turim e Miami aqui reunidos, decidiram criar a ACRM (Associação das Cidades Ronaldianas no Mundo) que terão como responsabilidade criar o programa das festividades em todo o ano de 2485 ficando a sede desta associação aqui, na cidade de Madrid” – anunciou em conferência de imprensa a governadora da província de Madrid.

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Together

Um filme sobre o Amor paternal.

 

A pressão ortográfica

Breathe the pressure
Come play my game, I’ll test ya.
Prodigy

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O meu destaque da semana podia ser esta magnífica foto dos heróis do Dragão.

© Global Imagens [https://bit.ly/2TrZPkT]

Todavia, há emergências mais urgentes (a propósito de emergências mais urgentes, durante a semana passada, faleceu José Vieira de Lima, o tradutor que me apresentou o Sam Shepard).

No sítio do costume, continuam a chumbar nos testes ortográficos da norma que eles próprios criaram e impuseram.

Já agora, é engatar e não enganar (efectivamente, é uma discussão interessante).

***

Keith Flint (1969-2019)

Ricardo Araújo Pereira na TVI


Adoro humor inteligente, com qualidade. Ricardo Araújo Pereira é do melhor que temos em Portugal nestes dias, sem medo de afrontar as vacas sagradas do regime nem fazendo favores ou servindo qualquer agenda. Da esquerda à direita do espectro político nacional, varreu tudo e todos. Imperdível!

Calaram o CALE-se

O “CALE-se” era o mais importante Festival de Teatro da cidade de Gaia. Calou-se, mas deixou uma carta aberta:

 

Carta aberta do Cale Estúdio Teatro ao público, a propósito do fim do “CALE-se” Festival Internacional de Teatro

Houve um tempo em que falar de tradição não era apenas falar do passado mas, sobretudo, num contexto mais alargado, um tempo em que se percebiam e aceitavam as tradições como uma “permanência no desenvolvimento e na continuidade”, conforme muito bem defendeu em tempos António Sardinha.
Nesse contexto, o terceiro sábado de Janeiro (o próximo, dia 19) era culturalmente marcado em Vila Nova de Gaia pela abertura do “CALE-se” Festival Internacional de Teatro, facto que este ano não acontecerá, pelos motivos já apresentados no encerramento da edição de 2018, que importa agora recordar ou somente informar.

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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto…

 

Álvaro de Campos

Boletim meteorológico

Cette arrogance est absolument insupportable. Mais pour qui vous prenez-vous? Mais pour qui vous prenez-vous, Emmanuel Todd? Vous ne passez plus les portes!

Alain Finkielkraut

I think that’s the way things work. You have some… It’s not that you… I mean, belief formation is often contingent on the outcomes that you want. You want a certain outcome and you construct a system of beliefs which makes that exactly right and just.

Noam Chomsky

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Efectivamente.

Efectivamente, estava eu a escrever, 2019 continua com dias de céu geralmente limpo (Magnolia foi há 20 anos). Há vento. Vento que vem, desde 2012, do outro lado do Atlântico, como se vê pelo contato, mas em geral fraco, devido a ‘respetivo’ em vez de ‘respectivo’.

Há possibilidade de formação de neblinas em forma de contatos todas as semanas.

O arrefecimento, apesar de lhe chamarem noturno, é nocturno (para si, minha senhora). Quanto ao mar, há ondas, muitas ondas, só ondas (my wave), só ondas (waves roll in my thoughts) e há espuma (Fort ans Meer! ans Meer! es schäume die Welle), muita, muita espuma. A temperatura da água do mar, como os pareceres, não interessa rigorosamente nada.

***

Feliz Natal


Este ano regresso a Fairytale of New York, porque alguns talibãs, doutrinadores do pensamento único, consideram ofensiva, logo passível de censura a letra desta bela canção.
Tempos perigosos para a Liberdade quando patrulheiros do politicamente correcto pretendem reescrever a História, mudar estátuas, nomes de ruas, culpar povos pelo passado, proibir ou impor comportamentos, incluindo a linguagem, entre outras barbaridades, na busca pelo homem novo, com que tantos tiranos sonharam…
A todos desejo um feliz Natal.

Teilhard de Chardin

Por Desconhecido – Archives des jésuites de France, CC BY-SA 3.0

“A menor molécula de carbono é função, em natureza e em posição, do processo sideral total; e o menor protozoário está tão estruturalmente ligado à urdidura da Vida que a sua existência não poderia ser anulada, por hipótese, sem que se desfizesse a rede inteira da Biosfera. A distribuição, a sucessão e a solidariedade dos seres nascem da sua concrescência numa génese comum. O Tempo e o Espaço juntam-se organicamente para tecer, em conjunto, a Base do Universo. Eis onde nos encontramos, eis do que hoje nos apercebemos…”

Teilhard de Chardin

“Em 1926, os Superiores dos Jesuítas ordenam a Teilhard que termine o seu ensino no Instituto Católico. Em 1927, Roma recusa o imprimatur para o livro Le milieu divin. Em 1933, Roma ordena ao Padre Teilhard que recuse toda e qualquer função em Paris. Em 1938, proíbem-lhe a publicação de L’energie humaine. Em Abril de 1941, manda para Roma a sua obra-chave, Les phénomène humain. Em 6 de Agosto de 1944 tem conhecimento de que esta obra foi recusada pela censura. Não virá a aparecer Les phénomènes humains senão depois da sua morte. Em Setembro de 1947 é convidado a deixar de escrever filosofia. Em 1948 é-lhe interdito aceitar a cátedra oferecida pelo Colégio de França. Em Junho de 1950 a censura recusa Le group zoologique humain. Em 1955 proíbem-lhe participar no Congresso Internacional de Paleontologia. A hierarquia não deixa, durante toda a sua vida, de o privar de meios de expressão. Até a sua morte, fora alguns artigos técnicos, a sua obra é apenas conhecida em fragmentos feitos ao duplicador que circulam clandestinamente.
(Garaudy, 200).”

in
Teilhard de Chardin
de Ernest Kahane
Colecção Estudo e Ensaio, Editora Delfos
Tradução de Ricardo Madeira Romão

O Comboio Eléctrico a Barcelos


Chegou no mesmo dia em que os americanos poisaram uma sonda em Marte.
É uma coincidência cósmica que confirma Barcelos como o centro da galáxia.
© Valdemar Rodrigues Pereira

Tu t´appelais Maria Schneider

Morreu hoje Bertolucci. O genial realizador, cujos filmes são padrão de referência do cinema europeu e estão na nossa memória, dos que temos idade para isso. Acima de todos 1900, o imperdível.

Morreu hoje Bertolucci – a notícia aparece em todos os media. Os elogios ao defunto são rasgados, terá um lugar eterno na história da cinematografia.

Morreu hoje Bertolucci, o realizador que quebrou a vida de uma rapariga de 19 anos.

Morreu hoje Bertolucci, o cineasta que traiçoeiramente engendrou, em conluio com Marlon Brando, 48 anos, a simulação da violação anal de uma miúda de 19 anos, perante as câmaras. Sem que ela soubesse o que ia acontecer, para exacerbar a autenticidade.

O filme, ficou como expoente de libertação da sexualidade. De que sexualidade?

Antes da sua morte por cancro em 2011, Maria Schneider repetidamente denunciou o abuso traumático de que foi vítima, a humilhação que sentiu. Ninguém a ouviu, a ninguém interessou. Nos 50 papéis que desempenhou depois do Último Tango em Paris, Maria nunca mais voltou a despir-se.

Numa entrevista que deu em 2013, Bertolucci contou o “detalhe” “da cena da manteiga” – de como traçou com Brando o plano de enganar e abusar de Maria; “De certo modo fui horrível para a Maria porque não lhe contei o que ía acontecer, porque queria a sua reacção como uma rapariga, não como uma actriz (…) Queria que ela sentisse, não que representasse a raiva e a humilhação.”  E se afirmou que se sentia culpado, também disse que não o lamentava; sentia-se culpado por não lamentar. De Maria, disse que ela o odiou para o resto da vida.

Morreu hoje Bertolucci, impune.

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O que dizer deste livro?

Para comemorar os cem anos da Revolução Russa, decidi-me a ler um livro que, segundo um amigo marxista, era o preferido da CIA. A responsabilidade desta leitura não deve ser atribuída apenas à Revolução, mas também a George Steiner que me despertou a curiosidade pela figura de Pasternak quando nos conta a história que relato neste texto que escrevi, após um simpático convite do Pedro Correia.

Yuri Andreevitch Jivago é nos apresentado em criança a chorar a morte da mãe. Abandonado pelo pai, o rapaz é entregue a um tio e a amigos que o sustentam e educam. A facilidade com que ele escapa à pobreza contrasta com a vida difícil de Larissa após a morte do pai. Apesar dos avisos sobre a quantidade de personagens que romances russos contêm, Doutor Jivago centra-se sobretudo nestas duas personagens. Ligados, desde a juventude, por uma série de coincidências lamentáveis, Larissa e Yuri vivem paralelamente numa Rússia dividida por extremas desigualdades sociais, até que se encontram na Primeira Guerra Mundial, onde a igualdade da situação – a morte num campo de batalha é para todos – os une.

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