Carta aberta a Jorge Sampaio

Francisco Camacho | EIRA

Exmo. Sr. Presidente
Dr. Jorge Sampaio
Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães

Endereço-lhe esta carta perante a insustentabilidade a curto prazo da estrutura de produção e criação artística EIRA, de que sou director artístico e fundador, provocada pelo incumprimento das obrigações contratuais no âmbito da programação de Guimarães 2012 –  Capital Europeia da Cultura
A EIRA foi contratada para a co-produção e apresentação do espectáculo “Andiamo!”, tendo cumprido escrupulosamente o acordado e assegurado a estreia na Fábrica Asa no dia 15 de Setembro. Fê-lo na ausência do pagamento de qualquer uma das prestações estipuladas no contrato, datado de 21 de Março, devendo a primeira prestação ter sido paga aquando da sua assinatura. A primeira parcela de 20% do montante total foi paga só a 10 de Outubro e mais nenhum pagamento se lhe seguiu.
Ao longo destes meses, foram assegurados pagamentos de colaboradores e fornecedores assim como a aquisição de bens e serviços indispensáveis à concretização do espectáculo, através de fundos próprios. Recorremos, entretanto, a crédito bancário, o que nos forçou aos encargos adicionais com juros. Na ausência de qualquer resultado perante as tentativas quase diárias de cobrança da dívida ou tão só de garantir um prazo para a saldar, encontro-me eu, e a EIRA, numa situação impossível.
Nunca, ao longo de quase duas décadas de existência da EIRA, nos vimos confrontados com uma situação de gravidade tal que ameaçasse a nossa existência. Neste ano, foi-nos aplicado um corte de 38% no apoio protocolado com a Direcção-Geral das Artes, o que abalou drasticamente o alcance da nossa actividade. A realização do projecto para Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, envolvendo todos os artistas e profissionais a nós mais directamente ligados, parecia ser um contributo para suprir a difícil situação financeira e um estímulo à manutenção de um núcleo artístico dinâmico. Ao invés, integrar a programação de Guimarães 2012 pode, a curto prazo, ditar o nosso fim e o fim de um conjunto de condições laborais e artísticas que com a EIRA fui paulatinamente conquistando nos últimos vinte anos, obrigando-me a abandonar o espaço onde trabalho desde 1997 e a despedir toda a equipa.
Claramente, destruir o tecido cultural de um país não é conforme ao espírito de construção de uma União Europeia e aos ideais que motivaram a criação das Capitais Europeias da Cultura. Mas é o que sucederá se a Fundação Cidade de Guimarães, a cujo Conselho Geral o senhor preside, não agir rapidamente de modo a que a instabilidade e os prejuízos já infligidos a inúmeros artistas e organizações não resultem seguidamente na sua ruína. Não é admissível desvirtuar a missão dessa entidade a ponto de contribuir para juntar ao pergaminho de berço da nação de Guimarães o apodo de fossa dos artistas.
Apelo à sua intervenção urgente, acreditando que ela poderá contribuir para uma solução. Não sendo dado a manifestações de desespero, acredite que esta carta é já um sinal de quem não sabe que gesto deve ser o próximo.
Atenciosamente,

Francisco Camacho
Lisboa, 29 de Outubro de 2012.

Comments


  1. Que triste tudo o que acontece no país – só há os vampiros ao mais alto nível – que triste que triste que miséria

  2. Tito Livio Santos Mota says:

    esta gente recebeu dinheiro de todo o lado.
    As finanças do evento não têm nada que ver com crise ou dívida soberana.
    Que fizeram ao dinheiro?
    Deixaram deslizar o orçamento?
    Retirem-no do bolço ou desenrasquem-se, que para isso são pagos e bem pagos !

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