Autor convidado – Tito Lívio Santos Mota

E o ar ficou mais leve

Tito Lívio dos Santos Mota

radio-25-de-abril

De manhã levantei-me, comi a correr os corn-flakes e fui para o Liceu, sem ouvir notícias nem nada. O comboio chegou mais ou menos à hora, como de costume. Nada para assinalar até chegar ao largo do recreio. Estranhei ver os colegas em pequenos grupos que falavam baixo, com o Reitor e os outros professores, ar solene, que nos esperavam. « Houve um golpe de Estado, o liceu está fechado, façam o favor de voltar para casa ». Voltei. Desci a encosta até à Estação de Vila Franca de Xira, apanhei outro comboio e cheguei a Alhandra sem perceber bem o que se passava. Ao entrar em casa, dei com a minha avó que dançava e chorava e ria ao mesmo tempo, em frente do rádio-móvel que emitia comunicados. A minha avó sempre comedida, tão entusiasmada ? percebi logo que algo de bom acontecera, que era um « golpe bom ». Na cozinha, a minha mãe acalmava umas vizinhas (tolas) que se angustiavam. « talvez não seja mau, talvez dê um arranjo a isto » avançava timidamente a minha mãe. Sim porque mais não se podia nem se estava habituado a dizer. E o que dizia era já demais para a época. Chega o meu pai um pouco antes do meio-dia, Era de facto um dia diferente. O meu pai que chegava adiantado para o almoço. Põe-se a comer a sopa enquanto as outras duas parvas continuavam o relambório. Às tantas, pousa a colher, sorumbático como sempre, diz « as senhoras de que têm medo ? Olhem, para pior não vai com certeza. Não pode » e voltou à sopa enquanto as outras embatucavam ou lançavam frases do género « se o Sr. Engenheiro acha que sim.. » Entre tanto continuavam os comunicados, cada vez mais animadores a falar de coisas inauditas, de democracia, de liberdade… Ao meio-dia ou à uma hora (não me lembro já) começaram as emissões. Tínhamos acendido o televisor antes, muito antes, mas só passava mira-técnica. De repente, hino da RTP, relógio e Telejornal. E aí foi a coisa mais linda que se possa imaginar. Com gente de carne e osso na frente dos olhos, é muito diferente. Falavam de novo de liberdade, de eleições dentro de um ano, de democracia. Preveniam para ficarmos em casa, etc. Mas quem é que deu atenção a isso ? Nós não ! Saímos, eu e as minhas irmãs, fomos até à « Praça » vimos que havia ajuntamentos, alegria, algumas interrogações também. Mas sobre tudo, um peso que me saía dos ombros, uma coisa nova, estranha, palavras nunca pronunciadas em público que se diziam e se ouviam. Uma alegria estranha que nunca mais senti. Como devem sentir os que escapam à morte e voltam à vida ? sei lá. Voltamos para casa. Não me lembro da tarde, não sei o que se disse, nem o que se passou. Sei que fomos felizes, muito felizes, que o peso continuou a aliviar-nos os ombros, que vimos passar tanques na auto-estrada, que ouvimos todos os comunicados nas emissoras todas que pudemos, que a televisão ficou na mira toda a tarde à espera das primeiras emissões por volta das cinco e do Telejornal das 20h. Das reportagens que iam passando, da música clássica e militar, muito alegre. Eu que nunca gostei de nada militar nem muito menos de música para marchar. Marchar ? isso era nas aulas de ginástica do Camões, quando andava em Lisboa, a cantar o hino da Mocidade. Lagarto lagarto lagarto. Era uma música diferente. Se calhar alguma era a mesma, mas parecia diferente, alegre. Alegre como o nosso coração. Tito Lívio Santos Mota, Montpellier, França.

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