Acordo Ortográfico: a bicha, a bica, as peúgas e o mais que se verá

Roubado ao João Roque Dias

Comments


  1. Nabais, já ninguém diz “bicha”, toda a gente usa “fila”, precisamente por causa do nivelamento da língua, como é próprio de qualquer língua internacional.
    Qt à “bica”, é sobretudo usado em Lisboa, e isso não transforma a palavra em “estrangeiro” para um brasileiro ou timorense.
    A propósito, muitos de nós não sabemos o que é um “pingo”; isso faz com que esta palavra (usada regionalmente em Portugal) também seja “estrangeira”, logo, que se demonstra que a LP não é uma só apesar das diferenças regionais?

  2. António Fernando Nabais says:

    Ninguém diz “bicha”? Em que estudo é que descobriu isso?
    O que é isso do nivelamento próprio de qualquer língua internacional? Não me vai dizer que os americanos e os ingleses não usam palavras diferentes para designar as mesmas coisas, pois não? (http://www.english-zone.com/vocab/ae-be.html).
    A palavra “bica” é usada em grande parte do país e não apenas em Lisboa. De qualquer modo, mesmo fazendo de conta que estamos na presença de regionalismos, escreva lá um texto que demonstre que se pode publicar um texto num Português completamente unificado, com edições iguais aqui e no Brasil.


    • Nabais, ninguém diz “bicha” para designar “fila”, e quem diz é logo gozado. Se tem dúvidas oiça as informações de rádio sobre trânsito: não se usa “bicha”, usa-se “fila”. Pode não dar jeito aos maus tradutores, aos que gostam de multiplicar línguas. Mas a realidade não se compadece com os interesses dos maus profissionais. De resto, lembro-lhe o título de uma revista à portuguesa: “Põe-te na Bicha”. O título é um trocadilho bastante esclarecedor sobre uma a nova assunção que a palavra tomava em Portugal por influência brasileira, isto é, por nivelamento linguístico. Este facto nem sequer é recente, suponho que tenha uns 20 anos, pelo menos.

      Quanto à comparação que faz com o inglês, ela é bem interessante. Por exemplo, é notável a alteração propositada que alguns atores ingleses fazem para adotar um sotaque mais neutro, um sotaque californiano. Alías, o mesmo fazem atores americanos com sotaques maternos novaiorquinos ou do sul. Em segundo lugar, o intercãmbio culturar anglo-americano é tão forte que de ambos os lados do oceano se conhecem os termos diferentes para significados iguais; todos convivem bem com isso, todos são mais cultos por isso, e não existem mais profissionais da tradução a ganhar dinheiro com “duas línguas diferentes”.

      • António Fernando Nabais says:

        Sejamos, então, rigorosos: o que deveria ter dito é que a maioria não diz “bicha”. Por acaso, sempre me recusei e recusarei a renegar essa palavra e pouco me interessa que se seja gozado ou elogiado. O facto de a maioria ter deixado de usar a palavra “bicha” para designar “fila” mostra o mesmo complexo de inferioridade e o mesmo provincianismo que levava os portugueses do século XIX a exprimir-se em francês: neste caso, evitar “bicha” é um efeito perverso das telenovelas e não uma consequência desse mirífico “nivelamento da língua”, tão mirífico que continuamos a usar “camisola” para peças de roupa diferentes, entre muitos exemplos. Não quero, obviamente, dizer que as línguas não sofram influências vindas de países estrangeiros, mas um país civilizado é aquele em que os falantes não se limitam a aceitar acriticamente essas mesmas influências, como acontece, por exemplo, com os anglicismos desnecessários, como é o caso de “timing”.
        Não me estou a lembrar de filmes ou séries em que os actores ingleses usem um sotaque próximo do californiano, a não ser que estejam a desempenhar um papel de uma personagem californiana, do mesmo modo que há actores portugueses a usar sotaque brasileiro, quando é necessário. De qualquer modo, é de ortografia que falamos. Finalmente, acaba por reconhecer que a questão está na força do intercâmbio que leva a que habitantes de países diferentes reconheçam facilmente as diferenças ortográficas, lexicais e sintácticas da mesma língua. Logo, reconhece que é possível viver com ortografias diferentes, porque “todos convivem bem com isso”, tal como eu, há anos, convivo saudavelmente com o Português escrito e falado do Brasil. A propósito, o vosso blogue é de um simplismo pouco sério, quando relaciona críticas ao AO com xenofobia, mas é um problema vosso.
        Já que fala tanto em tradutores, desafio-o a traduzir um texto para português, demonstrando que o facto de o tradutor ser português ou brasileiro não trará nenhuma diferença. Eu já experimentei: http://aventar.eu/2011/02/14/acordo-ortografico-e-se-jose-saramago-fosse-brasileiro/. A propósito do AO, escrevi uma série de textos: http://aventar.eu/tag/contra-ao-90/.

      • xico says:

        Experimente em Inglaterra dizer à anfitiriã que o jantar estava quite good,como se diz na América, a ver se ela não ficará um pouco torta consigo.


  3. Estou.me nas tintas para o brasil e brasilês – deviam fazer “bicha” para tratar da Amazónia e não extinguir mais tribus indias como se pode ver am mapa exposto no museu de Manaus – são mais as extintas do que as sobreviventes – e agora quem vir extinguir a lingua aqui – que se lixem e vão para a terra deles fazer malfeitorias – brasileirices – leio inglês e americano e os basileiros se queizeram que aprendam português sobretudo os que invadiram o país com casas de alterne – só trazem lixo – se os franceses não sabem português é natural – são parvos – se os ingleses também não – é natural – é difícil demais – se os espanhóis só falam cervantes é natural – não conseguem falar lingua nenhuma do mundo – que brasileiros não falem português nem escrevam é natural – só percebem de samba – nunca fizeram nada no país que habitam e agora invadem isto e compram o que querem – nada sabem fazer coitados – ah inventaram o mensalão que parece que exportaram para aqui a idéia – não cabem no país deles ?? v~em aqui aprender o quê ?? pelos vistos nada

  4. J. Roque Dias says:

    A quem não quer ver a floresta, por ver apenas a árvore da “bicha”, aqui ficam mais umas coisas: http://issuu.com/roquedias/docs/jrd_ensaio_cegueira/1


  5. Nabais, aceitar nivelamentos linguísticos dentro da mesma língua não é uma questão de complexo de inferioridade, pelo contrário; é uma questão de engrandecimento do uso linguístico com o objetivo (consciente ou inconsciente) de recusa de ghettos, de querer abranger e conviver com outros utentes da mesma língua. Este nivelamento não pode ser confundido com francesismos do século 19; francesismo é querer continuar a escrever consoantes mudas num sistema ortográfico baseado na etimologia simplificada.
    Quanto à possibilidade de viver com ortografias diferentes na mesma língua, ela existe, claro. O que é conveniente é saber se, a esse respeito, a língua portuguesa deve acompanhar as outras grandes línguas internacionais de segundo plano – espanhol, francês, alemão, árabe, e até o holandês – ou deve acompanhar o inglês, uma língua que não tem concorrente e que, em instituições internacionais, adota a ortografia e as aceções americanas sempre que os EUA estão presentes, em detrimento da ortografia inglesa.
    Aproveito para lhe dizer que não tenho nenhum problema em ler em Português do Brasil de que gosto naturalmente desde muito novo. Mais ainda, lamento que o apartheid cultural promovido nos últimos anos pelos interesses económicos dos maus tradutores e dos maus editores impeça a chegada e divulgação em Portugal de livros escritos na versão mais difundida da língua portuguesa.
    Por fim, simplório é imaginar que em Portugal a generalidade daqueles que se opõem ao AO não estão essencialmente a destilar ódio ao Brasil. De onde vem essa pequenez? Da xenofobia, do racismo (muitos portugueses imaginam que usar ortografia diferente da brasileira faz deles pessoas com olhos azuis, cabelo loiro e 1.90m de altura) e ainda, infelizmente, de uma das principais caraterísticas negativas dos portugueses: a inveja. Mas estes são as ovelhas.
    Depois existem os pastores (o lobby dos maus tradutores e dos maus editores). E existem ainda meia dúzia (e não mais) de “terra-tenentes”. Esses servem outros desígnios que pode ser que um dia sejam expostos; é uma questão de seguir “fluxos” com origem em Espanha e França. Mas não será preciso chegar aí, como veremos.
    Sobre o uso de “bichas” que o Nabais diz que prefere, não sei que lhe dizer mais; talvez apenas isto (pra acabar num tom bem disposto) se você gosta de “ir para a bicha” ou “pôr-se na bicha”, olhe, por mim, mais sobra.

    • António Fernando Nabais says:

      Insisto: deixar de dizer “bicha” para designar “fila”, porque para os brasileiros essa palavra designa homossexual é, na minha opinião, uma idiotice. Ainda lhe digo mais: em tom jocoso, uso muito facilmente “bicha” para designar “homossexual”, porque me parece uma palavra menos ofensiva que “paneleiro”.
      O seu comentário ao uso de termos em francês no século XIX (e da primeira metade do século XX) não faz sentido. Sem ter nada contra as naturais modificações da língua, considero provinciana a pequenez portuguesa de ir buscar ao estrangeiro palavras desnecessárias: era o que acontecia com o francês antigamente e acontece com o inglês hoje. Acontece, também, com o português do Brasil. Considero, portanto, outra idiotice dizer “timing” em vez de “prazo” ou “momento”.
      Os livros brasileiros não entram no mercado português por causa dos maus tradutores e dos maus editores? Confesso que não percebi. E deviam entrar só porque são escritos na versão mais difundida da língua portuguesa, independentemente de serem bons e maus?
      Quanto à ligação que faz entre crítica ao acordo e xenofobia, nota-se que é apenas preconceituoso e, portanto, pouco rigoroso: mostre-me o que foi escrito por gente séria que critica o AO90 e demonstre, aí, a existência de xenofobia.
      Entretanto, gostaria que me demonstrasse, também, que é possível escrever um texto igual no Brasil e em Portugal, já que o AO90 permite esse milagre. Parece-me que é melhor esperar sentado.
      A sua piada final é de tão mau gosto como qualquer uma em que eu use a palavra “paneleiro”. E tenha cuidado: mesmo depois do AO, não se escreve “bem disposto”, mas sim “bem-disposto”.

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