O porco e a lama

Uma das maneiras mais claras de ser desonesto consiste em fazer generalizações. Uma pessoa quer dar a sua opinião sobre um assunto, franze um sobrolho experiente e descarrega a sua generalização: os pretos, as mulheres, os ciganos, os homens, os professores, os médicos, os adolescentes, as enfermeiras, as crianças, os jovens de hoje em dia. Dessa descarga nascem injustiças, racismos vários e xenofobias laborais (porque há muita gente com certezas absolutas sobre profissões que nunca exerceu).

Macário Correia afirma que a maioria dos desempregados no Algarve não quer trabalhar. Por uma razão muito simples: Macário Correia conhece todos os desempregados algarvios, o que lhe permite chegar à conclusão de que a maioria não quer trabalhar.

Se Macário Correia não conhecesse todos os desempregados do Algarve, estaria a ser um porco que, ao refocilar na televisão, espalharia lama sobre milhares de algarvios, o que seria inaceitável. Macário Correia não quereria decerto estar ao nível de um católico como Pedro Mota Soares ou de um holandês que reduz tudo a gajas e vinho ou de um alegado jornalista.

De qualquer modo, quero que fique claro: os porcos não são todos iguais.

União Europeia?

Orbán fala sobre “raças puras” e não quer que húngaros pertençam a uma raça mestiça.

A melhor escola do país

A melhor escola do país é aquela em que os alunos não são seleccionados à entrada (por imperativos legais que, por coincidência, também são éticos), em que os alunos não são convidados a sair porque as notas baixaram (mais uma vez, por razões legais e éticas, extraordinária coincidência), em que os alunos são mantidos dentro da escola e das aulas, à custa do esforço e do risco de funcionários e de professores que falam, exigem, discutem, abraçam, debatem, convencem, vencem, sentindo-se frequentemente derrotados.

A melhor escola do país é aquela em que se consegue que um aluno assista a mais uma aula, que pegue finalmente num caderno mesmo que se recuse a escrever, que se esqueça, por instantes, de que tem o pai na prisão, a mãe a drogar-se em casa e os irmãos sozinhos, entre uma galáxia de problemas que afectam qualquer ser humano que é obrigado a perder inocência demasiado cedo ou que não tem a mínima possibilidade de estar isolado no luxo de um quarto individual.

É a escola em que se consegue que um aluno assista, pela primeira vez, maravilhado, a uma peça de teatro, ou que o leve, pela primeira vez, a visitar uma cidade (que pode ser aquela em que vive e não conhece) ou que o leve a entrar, pela primeira vez, num palácio tão espectacular que chega a parecer estrangeiro, o que faz sentido porque, em tantas vidas de tantos alunos, a beleza, a cultura ou o conhecimento são bens estrangeiros sujeitos a taxas alfandegárias proibitivas. [Read more…]

E que direitos serão esses, Ritinha?

Rita Matias: “Há direitos que os homens têm que eu não quero”

O Futebol Clube do Porto teve negativa?

Instado a comentar a época futebolística, Fábio Cardoso, jogador do Futebol Clube do Porto, declarou: “Dou nota oito à época, queríamos mais…”

Tendo em conta que o FCP foi campeão nacional e que ganhou a Taça de Portugal e sabendo que no sistema escolar português só existem duas escalas (1 a 5, para o Ensino Básico, e 0 a 20, no Secundário), poderíamos estar diante de uma avaliação negativa de um jogador tão exigente que o facto de o seu clube não ter ganho a Taça da Liga e a Liga dos Campeões é suficiente para que nem suficiente atribua ao seu clube. [Read more…]

Mentira ou ignorância?

João Costa: “Em 2018 tínhamos apenas 4% dos professores no topo [da carreira] e hoje temos 30%”

Palavras para quê? É ministro da Educação!

Por razões de higiene também ortográfica, é raríssimo comprar o Expresso. Recentemente, João Costa deu a este jornal a sua primeira entrevista na qualidade de ministro da Educação.

Relembre-se, a propósito, que João Costa foi secretário de Estado do mesmo ministério durante os últimos seis anos.

A entrevista já foi devidamente escalpelizada pelo Paulo Guinote em quatro textos com a acutilância do costume: um, dois, três, quatro.

Limito-me a realçar o que, de qualquer modo, já foi realçado, roubando, ainda, uma imagem ao Paulo.

Em primeiro lugar, note-se que não há resposta à pergunta. Depois, a verdade é que João Costa trocou a função de professor pela de secretário de Estado e pela de ministro, o que não lhe retira nem acrescenta qualidades. Acrescente-se que João Costa é professor universitário, o que o coloca numa situação diferente da dos professores do Básico e do Secundário (e mesmo nestas duas áreas, há distinções importantes a fazer) e, portanto, afirmar que é “professor” é uma manobra de relações públicas altamente enganosa. Não se trata, aqui, de uma questão de superioridade ou de inferioridade.

A cereja em cima do bolo, no entanto, está nesta ideia insidiosa e repetida de que os professores não sabem lidar com a diversidade social e que isso se resolve com uma qualquer formação milagrosa. Os professores são um dos grupos profissionais que se encontram na primeira linha do contacto com a diversidade social, com tudo o que isso implica de frustrações, de imprevistos, de derrotas e de conquistas, muitas conquistas. [Read more…]

A lata de Maria de Lurdes Rodrigues

Fotografia encontrada no mural do Maurício Brito

Ontem, tive o duvidoso prazer de assistir a um dos reaparecimentos de Maria de Lurdes Rodrigues.

Não escondo o asco que gentinha como a ex-ministra da Educação me causa. Não se trata de uma questão pessoal – os políticos incompetentes e/ou desonestos que prejudicaram o país metem-me nojo, é algo visceral.

Maria de Lurdes Rodrigues faz parte desse rol. A mando do viscoso José Sócrates, foi a responsável por vários desmandos no âmbito da Educação, prejudicando toda a comunidade educativa nacional, sempre adorada por gentalha de vários quadrantes político, ralé fascinada por uma espécie de marialvismo que leva milhares de parolos a adorar cavacos, sócrates, passos e costas, um marialvismo que será ainda um resquício de um sebastianismo pobrezinho que gosta muito de figuras paternas com um ar severo, substitutos de salazarinhos, ai que saudades meu deus. [Read more…]

Burocracia ou ficção?

Preso em fuga entregou-se na prisão de Coimbra, mas foi recusado por não ter documento de identificação

O cabotino populista e a censura

Aqui há dias, André Ventura disse tudo o que queria dizer na Assembleia da República. Santos Silva, Presidente da Assembleia da República, interrompeu para deixar um reparo, tendo o dito Ventura retomado o seu discurso para dizer tudo o que quis dizer.

Enquanto dizia tudo o que quis dizer e depois de dizer tudo o que queria dizer, André Ventura fez-se de vítima, erguendo um queixo queixinhas e cabotino, pior do que o pior actor de um western spaghetti. Queixou-se – depois de ter dito tudo o que queria dizer – de que tinha sido alvo de censura e chegou, até, a invocar o 25 de Abril.

Ainda estão vivas pessoas cujos textos foram censurados e cujos livros foram proibidos. André Ventura sabe isso muito bem, mas não é um português de bem. Mesmo não merecendo o 25 de Abril, tem direito à liberdade de expressão.

Gabriel Mithá Ribeiro, o doutorado útil do Chega, explicou, por assim dizer, que o racismo acabou com a dissolução formal do Apartheid na África do Sul, em 1994 – ou seja, num dia, havia racismo e, no dia seguinte, a partir de uma determinada hora, já não havia (sim, isto é afirmado por alguém que usa o título de historiador). Pela mesma razão, a censura, a partir do momento em que foi legalmente abolida, também não pode existir. Mithá Ribeiro, que é o doutorado útil do Chega, deveria explicar isso ao chefe.

O Chega é uma trupe de maus comediantes com sucesso, o que é preocupante, especialmente pelo que diz de quem vota neles.

Finalmente, fazer-me ficar do lado de Santos Silva é praticamente um milagre. Chego a ter medo de vir a contribuir para a canonização de Ventura. Felizmente, existe a memória.

Mónica Quintela e a pressinha

Em primeiro lugar, peço desculpa por usar palavrões no título de um texto. Efectivamente, “Mónica Quintela” é revelador da minha falta de educação. Espero que não volte a acontecer-me. Se repetir, lavarei a língua com sabão, que é para aprender numa pressinha.

O João Mendes resumiu, e muito bem, o significado deste discurso, chamando, ainda, a atenção para os aplausos dos restantes deputados do mesmo partido da senhora cujo nome não irei repetir, porque quero poupar sabão. São os aplausos de gentinha que acredita no mito passista (já conta como meio palavrão) de que vivemos (nós? mas nós quem?) acima das nossas (nossas?) possibilidades e que era preciso ir além da troika. 

Esta gentinha que aplaude o que escarrou a senhora deputada está muito bem integrada numa minoria parlamentar que cultiva, de modo populista, o ódio aos funcionários públicos, fazendo de conta que estes é que são o problema, quando, com todos os seus defeitos, são um pilar da sociedade, são aqueles que aguentam o sucessivo e frequente servilismo do poder executivo que trabalha para vender o Estado às postas, tornando difícil e frequentemente milagroso o trabalho da administração pública.

A deputada que quer dar lições aos funcionários públicos tem ela própria muitas dificuldades de aprendizagem: para além de ainda não ter percebido que o partido que integra contribuiu para a maioria absoluta do principal adversário, não aprendeu que é feio ganhar eleições à custa de promessas que depois não se cumprem. Era uma pressinha, senhora deputada, era uma pressinha.

 

 

 

GPS: da esquerda para a direita

O Chega, nos últimos anos, foi um desbloqueador de alguma continência a que a direita se sentiu forçada durante alguns anos. Dito de outra maneira: alguma direita perdeu a vergonha e voltou a sentir o odor do 25 de Novembro, porque a direita adora o cheiro a extinção de esquerda pela manhã.

Muita dessa direita, alegadamente defensora da democracia, começou a aproveitar as críticas ao Chega para dizer que os extremos se tocam e que, portanto, o PCP ou o Bloco, por exemplo, eram tão maus como o partido de André Ventura, porque defendem ditaduras ou porque ser de esquerda é ser inevitavelmente defensor de ditaduras.

Algumas pessoas de esquerda ainda têm tentado explicar que há um espectro democrático que inclui partidos de direita, mas não o Chega, mesmo sabendo-se que esta espécie de partido é mais uma jogada populista do que uma agremiação ideologicamente consistente. A verdade, no entanto, é que a quantidade de nazis e de fascistas assumidos torna a subida do Chega preocupante. [Read more…]

Acordos, rendições, História e vida

Há uns anos, Xanana Gusmão foi preso e apareceu na televisão a fazer declarações conciliatórias, depois de ter sido sujeito a um interrogatório “intenso”, nas palavras das autoridades indonésias. Nesse momento, eu integrava num grupo de corajosos lutadores que bebiam bravamente umas cervejas. Havia, até, alguns guerrilheiros mais afoitos que tinham chegado ao ponto de pedir umas tostas mistas. Penso que é fácil imaginar o ambiente pesadíssimo que se vivia naquela trincheira – a vida em combate é dura, meus amigos!

Um dos convivas, enquanto engolia um trago de cerveja, olhou para a televisão e sentenciou, em tom de desprezo, a propósito de Xanana: “Este gajo é um palhaço!” Como é que era possível, alguém, muito provavelmente torturado, trair daquela maneira soez os ideais da justa guerrilha que tinha comandado durante anos? Realmente, não era admissível! Fraco!

Ainda esperei uns segundos, cerrei os olhos em busca de alguma ironia. O valente bebedor estava a falar a sério. Do fundo do meu sossego burguês, sentado em cima de um privilégio que não o deveria ser, limitei-me a dizer que era muito fácil enfrentar exércitos e prisões ali onde estávamos e querer dar lições a um homem que teria sido sujeito sabe-se lá a quê. O meu interlocutor não gostou. Não éramos íntimos e assim continuámos, ninguém perdeu nada com isso. [Read more…]

Durão Barroso, especialista em invasões

Se eu estiver enganado, por favor, corrigi-me, mas o Durão Barroso não apareceu aqui há dias a comentar a invasão russa? Faz todo o sentido – Durão sabe o que é estar ao lado de gente igual ao Putin, gente que inventa pretextos para invasões, guerras que nunca deveriam ter começado, como a maior parte das guerras.

Antes que alguém se distraia (e mesmo assim, nunca irei a tempo de prever todas as distracções), verberar a invasão do Iraque está muito longe de corresponder a elogiar Saddam, o que serve para levar uma pessoa a pensar que, por vezes, é muito difícil escolher um lado, porque há gente odiosa de ambos os dois ou ambos os três ou ambos muitos. Mais uma nota para os distraídos: no caso da Ucrânia, é muito fácil, para já, escolher um lado. Depois, logo se vê, ainda que o Putin já não vá a tempo de se redimir, mesmo se o Ocidente que o condena tenha andado a alimentá-lo durante muitos anos, fechando os olhos com muita força, enquanto estendia a mão, era uma moeda para o ceguinho, por favor. [Read more…]

As descobertas da direita portuguesa ou mesmo mundial

Quando o mesmo homem, num país, desempenha, em anos seguidos e alternadamente, as funções de Presidente da República e de Primeiro-ministro, dificilmente poderíamos falar em democracia consolidada ou mesmo em democracia. Vladimir Putin nunca foi flor que se cheirasse, tal como os oligarcas e mafiosos que o rodeiam e que andam pelo mundo a comprar clubes de futebol e empresas e casas e iates. Putin é um escarro tóxico que aprendeu muito do que sabe no mundo soviético, para, hoje, ser chefe de um bloco capitalista e imperialista, porque o primeiro implica o segundo, a cavalo de uma globalização inevitável e cavalgada por gente muito pouco recomendável, sempre salvaguardada, no entanto, por quantos defendem a pureza de um capitalismo imaginariamente assente numa aparência de meritocracia.

A direita portuguesa ou mesmo mundial descobriu, com a invasão da Ucrânia, que o Putin era mesmo mau. De caminho, aproveitou para continuar a normalizar o Chega, indignando-se muito com a posição equívoca do PCP (que consegue condenar e relativizar, ao mesmo tempo, a invasão russa), como se o PCP não tivesse, há muitos anos, posições equívocas sobre algumas ditaduras, usando de uma linguagem tortuosa para fugir a comentários sobre excrescências como a antiga oligarquia angolana ou a ditadura norte-coreana. [Read more…]

Futebol Clube do Porto Canal

O universo do futebol, como qualquer universo, contém monumentos espectaculares e lixeiras a céu aberto, artistas geniais e gente pouco recomendável.

Há, neste universo, muita gente a fazer figuras tristes. Neste mesmo universo, são sempre os outros que fazem figuras tristes e nunca os nossos. Os nossos, no máximo, reagem a provocações, os outros é que são violentos, desonestos e malcriados.

O último Porto-Sporting ficou marcado por vários episódios tristes, com direito a final apoteótico, no pior sentido da palavra.

Acabado o jogo e recolhidos jogadores, treinadores e dirigentes, eis que todos iniciaram o discurso da culpabilização alheia, reclamando virtudes próprias e escarrando defeitos alheios.

Frederico Varandas, que sempre teve mau perder ou mau empatar, usou a sala de imprensa do Dragão para atribuir as culpas de todos apenas a Pinto da Costa. Do outro lado, os portistas, oficiais e oficiosos, defenderam o presidente portista, erguendo o pendão dos títulos alcançados, quando o que estava em causa era o contributo, directo e indirecto, que tem dado para a lixeira a céu aberto que é o universo do futebol. [Read more…]

Europeu??!!!

Hoje é o dia europeu da disfunção eréctil.

Já alguém avisou Gabriel Mithá Ribeiro?

 

Gabriel Mithá Ribeiro é o coordenador do Gabinete de Estudos do Chega e tem ascendência africana, indiana e síria. É o senhor que está à esquerda, salvo seja.

Já alguém o avisou de que Diogo Pacheco de Amorim considera que os portugueses têm como cor de origem o branco e que pertencem à raça caucasiana?

Tendo em conta as origens e a cor de pele de Mithá Ribeiro, ainda mais escura do que a de Pacheco de Amorim, poderá continuar no Chega ou estaremos na véspera de tratamentos como o que fez Michael Jackson? Mais: tendo nascido em Moçambique, deveria voltar para a terra dele?

Seja como for, o Hitler também estava longe do estereótipo do alemão alto, louro e de olhos azuis. Isto tem alguma graça, por enquanto.

A cor de origem

Diogo Pacheco de Amorim deve ter sido vendedor de automóveis: “Ó meu amigo, isto está um bocado escuro, mas a cor de origem é branca – é raspar um bocadinho e recupera-se!”

A insuportável superioridade moral de João Miguel Tavares

Entre alguma direita democrática, há muitos que se distraem a defender o Chega. Para quem anda há tanto tempo a dizer que o crescimento do Chega se deve à esquerda (o que faz algum sentido), seria conveniente, nomeadamente para os eleitores do PSD, que a derrota monumental da direita nas últimas eleições

(sim, sim, não esqueçamos: derrota monumental da direita. Também não me esqueço da derrota monumental da esquerda, mas ficará para depois)

se deve à indefinição de Rio relativamente ao Chega – a origem da debandada dos votos de esquerda no colo do PS.

João Miguel Tavares resolveu dar uma lição de democracia a todos os que desprezam o Chega, mostrando-se escandalizado com o tratamento dado a elementos desse partido em debates televisivos e condenando os preconceitos revelados pelos adversários. Já Rui Rio, relembre-se, sentiu necessidade, na ausência de André Ventura, de explicar a posição do Chega relativamente à prisão perpétua. Podemos (e devemos) acusar o Chega de muita coisa, mas não de falta de agressividade ou, como se diz no futebol, de raça, algo que se aplica também aos chamados caceteiros, o que pode ser um elogio ou não. [Read more…]

Vitória moral

Tendo em conta o empate técnico das sondagens, Rui Rio vai reclamar uma vitória moral.

No creo en nazisinhos, pero que los hay, hay!

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril

Rui Rio, a genealogia da moral pública

Rui Rio nos bastidores – um testemunho

Texto encontrado no mural de Facebook do jornalista Paulo Moura, republicado com autorização do autor.

Foto: Fernando Veludo

 

«Há uns anos, fiz, para o Público, uma grande entrevista a Rui Rio, quando ele era presidente da Câmara do Porto. Correu mal.

Em parte, a culpa foi minha: como, na altura, Rio se recusava a dar entrevistas, alegando que os jornalistas lhe deturpavam as declarações, eu propus mostrar-lhe o texto, antes da publicação, para ele confirmar que não havia declarações deturpadas ou colocadas fora de contexto. [Read more…]

Rui Rio e o 25 de Abril

Rui Rio, como muita direita portuguesa, tem um problema com o 25 de Abril, o que é natural. Essa direita, também de Rio e alegadamente democrática, chega mesmo a relativizar a ditadura do Estado Novo, enveredando por preciosismos terminológicos, tentando provar que não era fascismo. Até imagino que, num acto de revisionismo analgésico, os que foram torturados pela PIDE, por exemplo, relembrem o seu passado e esqueçam as suas dores, ao descobrir que, afinal, os torturadores não eram fascistas.

Em Portugal, temos um problema com a Justiça, desde a morosidade dos processos até às custas. Espera-se que, em campanha eleitoral, os políticos falem do assunto. Rui Rio falou. Mais valia ter ficado calado.

Segundo Rio, uma das duas pessoas que poderá vir a ser primeiro-ministro, a Justiça, em Portugal, é menos eficaz desde o 25 de Abril. Deduz-se que seja o de 1974.

Disse o novel humorista e presidente do PSD: “Tirando os julgamentos políticos, em termos de eficácia, desde o 25 de Abril a justiça piorou”. Para quem mede as acções apenas pela sua eficácia, Rio está errado – os julgamentos políticos foram de uma eficácia imbatível, até porque não havia grandes demoras e até se devia poupar dinheiro.

Entretanto, com todos os defeitos que podemos e devemos identificar em muitas áreas, só quem sofre de algum défice de cognição (também) democrática é que pode dizer que Portugal está pior agora do que antes do 25 de Abril. Este Portugal cheio de defeitos é o melhor de sempre, em todas as áreas. É claro que é muito mais difícil governar em democracia e talvez Rui Rio não goste de dificuldades, o que se notou muito durante o seu consulado autárquico. [Read more…]

A maioria trabalha para sustentar uma minoria

Estado perdoa 81 milhões a empresário que estava a ser julgado por burla ao BPN

Esta malta com Mercedes à porta é, efectivamente, uma vergonha!

Da fractura do fémur aos apoios sociais

A antropóloga Margaret Mead afirmou, certo dia, que o primeiro sinal de civilização humana era um fémur humano com sinais de uma fractura curada – um achado arqueológico com cerca de 15000 anos. Mead explicou que, para que tivesse havido essa cura, houve pelo menos uma pessoa que perdeu tempo a tratar de outra. Se um animal sofrer uma fractura no mundo selvagem, acabará por morrer.

O meu cinismo sussurra-me ao cérebro uma série de possibilidades menos simpáticas, como a de um canibal que curou uma refeição para melhor a engordar, mas, seja como for, acredito que a humanidade reside neste combate quotidiano contra o predador que também somos – se, de um lado, temos esta solidariedade ortopédica, temos de lembrar a frase “O homem é lobo do homem”, presente na Asinaria, de Plauto.

Humanidade será, então, solidariedade, o que quer dizer que a sua ausência é selvajaria.

Há quem ponha Deus no seu lema, preferindo, talvez, o do Velho Testamento, essa figura castigadora e terrível, que chegou ao ponto de afogar a maior parte da humanidade, por considerar que as pessoas eram demasiado defeituosas. O Novo Testamento, cuja personagem principal, Jesus, tem a mania de dizer àquele que nunca pecou que atire a primeira pedra ou de ajudar os desvalidos (antepassados decerto dos beneficiários do RSI), transmite uma mensagem que alguns considerarão laxista, fraca. Num debate com Jesus, André Ventura perguntar-lhe-ia se não tinha vergonha de se ter deixado crucificar com um ladrão de cada lado, mostrando-lhe uma pintura do Gólgota. Já os ricos não terão de preocupar com o buraco da agulha ou com o pagamento de impostos; dos pobres poderá ser o Reino dos Céus, mas nunca o Rendimento Social de Inserção.

Numa sociedade civilizada, humana, ajudar os mais fracos é um dever. Nesta mesma sociedade, não se pode abandonar alguém que fracturou o fémur ou que não tenha meios para se sustentar. Haverá sempre o perigo do parasitismo, mas há valores antigos como o da presunção da inocência, início de um caminho difícil, porque fácil é acusar sem provas. Seguir este caminho não é ser de esquerda ou de direita, é ser decente.

Quem disparar acusações a torto e a direito, atirando lama sobre aqueles que recebem apoios sociais, com o único objectivo de recolher uns votos, ainda tem um longo caminho a percorrer até chegar às fronteiras da humanidade. Não terá uma fractura, mas é uma fractura. Temos o dever de ajudar também quem pensa assim, não lhe entregando votos.

Chega: disparar primeiro e depois se vê

Uma das bandeiras do Chega é, como se sabe, a subsidiodependência. E o Chega, quando agita bandeiras, faz uma barulheira desgraçada.

Penso que podemos entender subsidiodependência como um sinónimo de parasitismo. Não haverá apoios sociais sem parasitismo, como não há medicamentos sem efeitos secundários.

A questão está em se a dimensão do parasitismo e dos efeitos secundários é suficiente para medidas mais drásticas. Depreende-se, então, do discurso do Chega, que a subsidiodependência é uma praga social, com multidões de parasitas alojados no erário público ou, para usar o chavão de Ventura, num país em metade vive à custa da outra metade, o que inclui Mercedes à porta e telemóveis e o diabo a quatro.

Diga-se, de passagem, que o parasitismo endémico, pandémico ou localizado deve ser combatido.

Nos Açores, o Chega alcançou uma boa votação com este discurso de combate à subsidiodependência como um problema, defendendo que é preciso reduzir os apoios sociais. A responsabilidade epistémica, a que se refere o César no seu magnífico texto, obrigaria a que o anúncio deste problema estivesse ancorado num conhecimento profundo.

Parece que, afinal, falta ao Chega-Açores esse mesmo conhecimento profundo, como se pode deduzir do pedido que fez à Assembleia dos Açores, com o deputado do partido a pedir informações sobre o RSI na região.

Diz um ditado antigo: “Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.” Nem responsabilidade, nem epistémica – o Chega é o pistoleiro bêbedo do faroeste que dispara primeiro e depois se vê.

Bernardo Ferrão e Ângela Silva…

…são consultores de campanha de Rui Rio. No comentário do debate entre Rui Rio e Catarina Martins, limitaram-se a explicar quais foram os erros de Rio e o que deverá fazer a seguir. Espero que o PSD lhe pague bem.

Rui Rio, porta-voz do Chega

No debate com Catarina Martins, Rio esteve a explicar a posição do Chega sobre prisão perpétua.

Está aberta a época de caça ao voto docente!

O governo de António Costa, durante os últimos seis anos, não reverteu as várias malfeitorias perpetradas por Maria de Lurdes Rodrigues e por Nuno Crato e conseguiu acrescentar algumas da sua responsabilidade, incluindo o roubo de tempo de serviço.

Como há eleições, cá está a prometer fazer o que não quis fazer e deveria ter feito enquanto foi primeiro-ministro.

Note-se que não é possível discordar do ainda chefe do governo quando afirma que é preciso acabar “de uma vez por todas com este absurdo que é [a carreira docente] ser a única carreira no conjunto do Estado em que durante décadas as pessoas têm de obrigatoriamente se apresentar a concursos e andar com a casa às costas e andar de escola em escola de quatro em quatro anos”.

O problema é que “este absurdo” é antigo, não apareceu a semana passada – no mínimo, António Costa teria de explicar por que razão não resolveu este problema, mas o que interessa agora é o soundbite da promessa, sequioso de votinhos. Do lado dos professores, se houver sensatez, só pode haver desconfiança e votos contra. Basta lembrarmo-nos das maiorias absolutas de sócrates e de passos para sabermos do que as casas gastam.

Costa ainda faz uma ligação vazia, fazendo depender a vinculação de mais professores aos quadros de uma alteração do modelo de concurso. Não se percebe (ou talvez se perceba, mas já lá vamos), uma vez que é perfeitamente possível vincular mais professores mantendo o modelo.

O modelo é centralista, é verdade, e cego, é certo, fazendo depender a colocação de uma nota. As injustiças que advêm deste modelo, no entanto, são também a garantia de que não há possibilidade de cunhas. Costa, tal como o resto do arco da governação, sonha entregar as escolas às câmaras municipais, incluindo no embrulho a escolha dos professores.

A municipalização da Educação, tal como a regionalização, é uma ideia maravilhosa no papel e terrível em Portugal. Diante do caciquismo endémico que transforma tantos presidentes da câmara em pequenos ditadores que distribuem favores e dinheiros, as escolas ficariam entregues a caprichos e cunhas.

Costa, amigo, não contes comigo!