Os incendiários mandam no quartel dos bombeiros

O futebol, goste-se ou não, é um fenómeno social com um peso desmesurado na vida da tribo. É importante, claro, ir educando os elementos da tribo no sentido de darem menos importância ao futebol e, sobretudo, às respectivas ramificações, como sejam os inúmeros programas de aparente debate em que cada lance, repetido dezenas de vezes, é considerado gravíssimo ou inócuo, conforme a cor do comentador.

Na verdade, verdadinha, sobre futebol pouco ou nada se diz. Em teoria, é um desporto praticado por duas equipas de onze; na prática, os únicos agentes desta modalidade são os árbitros. Como se isso não bastasse, os adversários passaram, de facto, a ser inimigos, com reflexos que vão desde insultos até mortes, numa confirmação de que somos homo mas sapiens não e muito menos sapiens sapiens.

Neste fim-de-semana, depois de um intenso Sporting-Benfica, Luís Filipe Vieira veio acrescentar uma mangueirada de gasolina a um incêndio que lavra imparável, sem extinção à vista. Segundo o que percebi, Bruno de Carvalho convidou o presidente do Benfica para assistirem juntos ao clássico, na tribuna do Estádio de Alvalade. Por uma vez, parece-me que o presidente do Sporting teve um gesto nobre, que, de tão raro, faz pensar na atitude do pobre diante de uma esmola demasiado grande. Aceitar-se-ia, portanto, que Luís Filipe Vieira, depois de ter sido mandado “bardamerda” em conjunto com todos os que não são sportinguistas, entre outros mimos, tenha recusado o convite. [Read more…]

Os finalistas do Secundário segundo Maria João Marques

Dedicado à Maria João Marques, que nunca, nunca desilude

 

Cenário: quarto de hotel em Torremolinos. Dois finalistas perdidos de bêbedos. Fábio tenta pegar num colchão e arrastá-lo para a varanda. Tiago tenta ouvir o colega enquanto vomita.

Fábio: Man, ajuda aí a atirar com esta cena lá pa baixo!

Tiago: Pera, que tou a vomitar e não consigo ouvir.

Fábio: Mas tu vomitas pelos ouvidos, man? Na volta, ainda tens as pupilas gustativas nos olhos!

Tiago: Diz agora. Já vi que vomitei o jantar de anteontem, já deve ter acabado…

Fábio: Era para me ajudares atirar esta cena lá pa baixo, a ver se acertamos na piscina,´

Tiago: Man, não curto essa cena, porque esta cena é propriedade privada do hotel.

Fábio: Qu’é qu’isso tem a ver? Não vês que o governo  se vê, qual pasionaria em guerra civil, imbuído da missão de atacar a propriedade privada dos portugueses?

Tiago: , se o governo se vê embebido dessa cena, quessafoda o colchão!

Fábio: É isso, a malta tem ser bons alunos da geringonça, man!

Depois de atirarem o colchão, Tiago tem mais um acesso de vómito.

Fábio: Fogo, já paravas com essa merda.

Tiago: Não pode ser, sou contra a propriedade privada. O que eu tiver comigo é nosso.

Cancioneiro mexiano

Eu não quis sodomizá-lo. Ele é que estava de costas.

Cancioneiro mexiano

Eu não tenho um grande par de cornos. A minha mulher é que é muito generosa.

Cancioneiro mexiano

A água não está cara. As torneiras é que não deviam abrir.

Eu até conheço dois gajos que gastam muito em gajas e bagaço!

As imagens com que escolhemos ilustrar as nossas opiniões são o rabo de fora dos nossos preconceitos mal escondidos, a não ser que sejamos muito hábeis ou que não tenhamos rabo. Dijsselbloem é um dos gatos mais desastrados que tenho visto, e só sobrevive porque vivemos num ambiente em que os políticos nem sequer precisam de ter vergonha na cara, bastando lembrar o amigo Juncker e o seu fascínio pelo charme do défice francês ou, há mais tempo, o Durão Barroso que jurou pela existência de armas terríveis no Iraque e que se pôs a correr para Bruxelas, abandonando, patrioticamente, o cargo de primeiro-ministro do, por assim dizer, seu país.

Relativamente a Dijssolbloem, e porque estamos a falar de gente que se comporta como um bêbedo que se esqueceu do alfabeto numa tasca tão reles que nem a ASAE lá entra, tenho a dizer que só se perdem as que caírem no chão. Por muitas voltas que queiram dar ao discurso do holandês, ao escolher a imagem dos dissipadores em mulheres e vinho é evidente que deixou escapar um complexo de superioridade que não é mais do que a manifestação na crença de que faz parte de uma raça superior. Para disfarçar, ainda recorre a uma das minhas palavras preferidas, solidariedade, alegando que isso correspondeu à generosa prática dos povos do Norte, oposta ao parasitismo dos sulistas europeus. [Read more…]

A tromba alheia e o desejo sexual

Segundo um estudo recente, o cérebro dos adeptos de futebol mostra sinais de “amor romântico”. Nada que já não soubéssemos há muito, tendo em conta as figuras tristes que fazemos quando assistimos a um jogo do nosso clube ou quando só vemos virtudes nos claríssimos defeitos da nossa agremiação amantíssima.

Como qualquer apaixonado, achamos piada a toda a graçola proferida pelo nosso presidente, pelo nosso querido treinador ou por um dos lindíssimos jogadores da nossa equipa, porque o nosso amado tem sempre graça. É, ainda, o nosso amor desmesurado que consegue ver num corte adversário uma agressão criminosa e um desarme estética e eticamente irrepreensível num varrimento cego do nosso central tão fofo.  É graças à mesma paixão que a mão com que o nosso atleta alcança o golo não é mão, porque todo ele é pé. [Read more…]

Quando falha a regulação dos bancos

Morreu a tartaruga que engoliu 915 moedas. “Banco” era a sua alcunha.

Empresarialização do ensino público: um país desigual

A reportagem só está acessível, para já, em papel ou num online exclusivo para assinantes. O título aí está, à vista de todos, como muitas das coisas que, no fundo, não vemos.

O excerto que pode ser lido por qualquer navegante virtual é revelador de que o inaceitável acaba por ser aceite como normal.

É uma realidade que escapa a quem vive nos grandes centros urbanos, mas há 61 secundárias onde os alunos não podem escolher o curso que querem, porque não há estudantes suficientes para abrir mais do que uma área de aprendizagem, no 10.º anoO número foi enviado ao JN pelo Ministério da Educação, mas uma busca feita no portal Infoescolas indica que, em mais de uma dezena de casos, essa Secundária é a única do concelho. É o caso de Pampilhosa da Serra e de Oleiros, cujas histórias pode ler ao lado.

O que está a negrito define de que modo o Ministério da Educação toma decisões há muitos anos: para abrir turmas e/ou disciplinas é necessário um número mínimo de alunos. Isto refere-se a escolas públicas, claro, ou seja, a instituições cuja função, entre outras, é a de oferecer aos alunos aquilo que não podem alcançar de outra maneira, a não ser que as famílias tenham dinheiro e/ou (in)formação suficientes.

Assim, em concelhos com poucos habitantes, e de acordo com as directivas do Ministério da Educação, os alunos não podem escolher a área que queiram frequentar no Ensino Secundário, sujeitando-se a um controlo apertadíssimo. Mesmo nas escolas de concelhos mais povoados, as minorias que queiram estudar latim ou alemão não são protegidas, com o próprio Estado a contribuir para o empobrecimento cultural de um país. [Read more…]

Novo Banco brinca às avaliações

A avaliação do trabalho seja de quem for deve basear-se em critérios bem definidos aplicáveis a cada indivíduo. A partir do momento em que uma avaliação esteja dependente de quotas, deixa de ser avaliação e passa a ser um processo de afunilamento de subidas de carreiras. Uma frase como “as avaliações têm de ser baixas” só faz sentido num mundo em que o sentido deixou de existir. Imagino o que (me) aconteceria, se dissesse aos meus alunos “Ó meus ricos meninos, 80% das notas têm de ser baixas!”

Podemos, até, aceitar que uma instituição, por variadíssimas razões, não queira permitir que a maioria dos trabalhadores tenha direito a aumentos salariais. Nesse caso, um mínimo de honestidade obriga a que se declare que, na realidade, não há avaliação. Não é difícil.

Quando o inaceitável se torna normal e ninguém se escandaliza, temos a prova de que a sociedade está doente e, de caminho, confirma-se que um dos grandes objectivos dos poderosos continua a ser o mesmo se sempre: desvalorizar o preço do trabalho, sempre em direcção à escravatura. [Read more…]

Sistema prisional

Caxias é uma prisão com muita saída.

Al Jarreau (1940-2017)

A vida vai-me matando a adolescência ou, como teria dito o Manuel Dias, está a morrer uma data de gente que nunca tinha morrido. O cantor que era também músico: uma voz que falava, cantava e tocava, tudo ao mesmo tempo, em muitos géneros.

 

Indisciplina nas escolas: a culpa só pode ser de quem?

O Paulo Guinote já teceu alguns comentários acerca da entrevista a João Sebastião, investigador do ISCTE e antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar. Como a entrevista é curta, aproveitarei para comentar cada uma das respostas. Comecemos.

A indisciplina em sala de aula é um dos problemas da escola portuguesa?
O principal problema da escola é o insucesso escolar porque o objectivo da escola antes de tudo o mais é o de ensinar. Portanto, desviar o assunto para a indisciplina é desviar do essencial. Dito isto, lembro que a questão da disciplina é comum a todas as organizações, não é um problema específico das escolas. Trata-se de garantir que todos os indivíduos nessas instituições tenham comportamentos semelhantes e expectáveis.

João Sebastião começa por não responder à pergunta, preferindo falar daquele que considera o principal problema e não de um dos problemas.

Depois, de certa maneira, considera que a pergunta é um desvio, deixando claro que o assunto não faz parte do essencial.

Finalmente, resolve continuar a não responder, recorrendo à técnica da generalização, talvez acreditando que um problema desaparece se for comum a várias instituições, o que faz tanto sentido como, face a alguém que se queixe de uma dor, dizer-lhe que o mundo está cheio de pessoas na mesma situação. [Read more…]

E se os linguistas dão o alarme? Dêem ouvidos

deemNo Público de hoje, Rui Tavares, de modo muito avisado, chama a atenção para a importância de, no mínimo e com espírito crítico, darmos ouvidos aos historiadores, tendo em conta as perigosas semelhanças entre alguns acontecimentos da actualidade e outros que, no passado, vieram a dar origem a ditaduras ou a confrontos bélicos. O título do texto é “E se os historiadores dão o alarme? Dêem ouvidos”.

Esta tendência para não ouvir precisamente os especialistas é geral. Nos mundos profissionais em que me movo, é, até, grave. Na Educação, por exemplo, as opiniões dos professores são frequentemente desvalorizadas, com a desculpa de que são parte interessada e, portanto, desinteressante, deixando o espaço público inundado por especialistas de gabinete que tudo sabem (ou julgam saber) sobre o que deve ser uma aula ou uma escola.

Acontece que Rui Tavares é um defensor do chamado acordo ortográfico (AO90), tendo-se já pronunciado sobre o assunto com a frontalidade e o voluntarismo que o caracterizam, o que o leva, em relativa coerência, a declarar que adopta o AO90 nas suas crónicas, num jornal que continua a resistir ao uso desse instrumento, numa sã convivência de diferentes visões sobre a ortografia. [Read more…]

Grande avanço científico!

Graças a um estudo recente, descobriu-se que ficar debaixo de uma pedra com quatro toneladas ajuda colunistas russos a deixarem de escrever alarvidades.

Quanto tempo deve demorar uma consulta?!

cronometro-300x300O facto de se estar a discutir quanto tempo deve demorar uma consulta médica é, só por si, um péssimo sinal, um de muitos que indicam retrocesso no que se refere aos direitos mais básicos, tudo porque o mundo está dominado pelo gestor-economista-empreendedor-consultor, esse sábio global que tudo ordena sabendo nada e sem a consciência de que nada sabe. É esta mentalidade simplista que reduz o mundo a folhas de cálculos, competitividade, estatísticas e rankings, tudo em nome de um liberalismo, no fundo, muito controlador.

Uma das grandes lutas do século consistirá em recuperar a autonomia das várias áreas de actividade. Um hospital é um hospital é um hospital, uma escola é uma escola é uma escola e uma pessoa é uma é uma pessoa. Se qualquer profissional é competente e sensato até prova em contrário, o tempo de uma consulta médica deve depender de um médico e nunca de uma besta quadrada com um cronómetro na mão.

Ortografia dentro das expectativas

expepectativHá tempos, descobri a mesma palavra escrita de duas maneiras diferentes no mesmo texto, cumprindo as instruções do AO90 e à vontade do freguês. Hoje, ao ler uma entrevista nessa instituição que é A Bola, acontece o mesmo à mesma palavra, com a vantagem de acontecer em poucas linhas. Acresce o facto de que essa mesma palavra, à luz do critério que norteia o AO90 e desnorteia a ortografia, deveria ter uma única grafia, como já tive oportunidade de notar. [Read more…]

Ortografia: apocalipse agora

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Em mais uma volta, mais uma viagem, por um manual de Português de 10º ano, descubro a pergunta acima fotografada, relativa ao soneto “O dia em que eu nasci, moura e pereça”, essa variação talvez camoniana sobre o Livro de Job.

Graças ao chamado acordo ortográfico (AO90), ali está o adjectivo “apocalíticos”. Os autores do manual, para que os alunos não tenham dúvidas, explicam, entre parêntesis, que esta palavra significa “de grande desastre”. Talvez por falta de espaço, não indicam que o adjectivo é da família de ‘apocalipse’.

E, na verdade, como poderiam indicar tal coisa, se o AO90 obriga à separação de membros da mesma família?

Mais uma volta, mais uma viagem, por alguns instrumentos que, alegadamente, ajudam o escrevente a aplicar o AO90.

A Infopédia aceita “apocalítico”, embora, pela transcrição fonética, deixe claro que se pronuncia, por assim dizer, “apocalíptico”. Ora, uma pessoa estranha: mas não impõe o AO90 que se escreva como se pronuncia? Por outro lado, a Infopédia, também aceita que se escreva “apocalíptico”. [Read more…]

O árbitro, o ovo e a galinha

chicken-and-eggO meu gosto pelo futebol é tal que já me levou a assistir a torneios de futebol organizados por juntas de freguesia ou a jogos de campeonatos entre turmas nas escolas por onde tenho passado. Independentemente das idades, as derrotas provocam sempre o mesmo comportamento infantil: a culpa é do árbitro. Tendo caído na asneira de apitar jogos de alunos, fui, mais do que uma vez, acusado de ter favorecido os vencedores, ficando, frequentemente, com a impressão de que terá sido a minha condição de professor a livrar-me de reacções um pouco mais violentas ou de insultos mais coloridos, porque, para os derrotados, a culpa só podia ser daquela personagem cujo papel eu me tinha disposto a encarnar.

Conheço pouquíssimas pessoas capazes de falar verdadeiramente sobre futebol, atribuindo sempre as culpas aos árbitros quando o resultado é adverso. Trata-se de um comportamento perfeitamente transversal: com ou sem formação superior e independentemente da classe social ou do credo, transformam-se em seres ocasionalmente inferiores, reduzindo noventa minutos a um erro do árbitro, o único agente do futebol que, afinal, não pode errar, ao contrário dos jogadores que podem falhar golos de baliza aberta à vontade, porque a culpa nunca será deles. Note-se que nestes seres ocasionalmente inferiores incluo muitos amigos também adeptos do meu clube. [Read more…]

Desconexão ortográfica

conectividadeUma pessoa não pode e não quer estar sempre a pensar em ortografia, mas, muitas vezes, a realidade obriga-nos a pensar nela, não porque ela (a ortografia) esteja presente, mas apenas porque temos saudades dela, por não existir.

Numa passagem pela página da Worten, descubro que um aparelho em que poderei estar interessado tem conectividade e, como se isso não bastasse, ainda tem *conetividade. Olhai, que este é o tempo da multiplicação das duplas grafias, esse milagre proporcionado pelos apóstolos da religião do chamado acordo ortográfico! Assim como Jesus transformou a água em vinho, do mesmo modo os falsos profetas transformaram uma ortografia consistente em carrascão. [Read more…]

Os Dez Mandamentos do Futebol

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1 – se perderes, culparás o árbitro;
2 – se empatares, culparás o árbitro;
3 – se não fores campeão, culparás o árbitro;
4 – se o defesa da tua equipa falhar um corte, culparás o árbitro;
5 – se o médio da tua equipa falhar um passe, culparás o árbitro;
6 – se o avançado da tua equipa falhar um golo, culparás o árbitro;
7 – se o teu adversário directo não perder pontos, culparás o árbitro;
8 – se o árbitro não cometer erros, culparás o árbitro;
9 – se o o árbitro cometer erros, culparás o árbitro;
10 – se quiseres falar sobre futebol, culparás o árbitro.

As infidelidades do PISA e as coisas verdadeiramente importantes

Os que reivindicam a paternidade do sucesso nos últimos testes internacionais são apenas maridos enganados que não conseguem ou não querem ver que o filho que reclamam como seu tem nitidamente a cara de outros, o que faz da Educação aquilo que deve ser: uma insaciável oferecida ou uma oferecida insaciável. Os pobres maridos, evidentemente, são os primeiros a não saber ou, no mínimo, a fingir que não sabem. Por outro lado, são os últimos a querer saber, preferindo ilusões a análises.

De qualquer modo, num país de ignorantes atrevidos, é natural que todos se julguem capazes de fazer testes de ADN e, sem análises, as atribuições de paternidade têm sido mais do que muitas. Dêem-se as voltas que se quiser, mas isto resume-se assim: o sucesso educativo (ou outro qualquer sucesso) de um país resulta de múltiplos factores. Quem acredita um ministro possa ser tão genial que arrancasse o país ao descalabro é parvo; quem finge que acredita não é nada parvo, mas confia que todos os outros o sejam.

O que é verdadeiramente importante continua por fazer ou por desfazer. Entretanto, há dados que não chegam a ser noticiados: recentemente,  a Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência publicou algo sobre a descoberta da pólvora, ao apresentar um estudo sobre a relação entre a condição socioeconómica e os resultados escolares dos alunos no terceiro ciclo; posteriormente, apresentou um outro sobre o Segundo Ciclo. Novidades? Nenhumas: o meio socioeconómico em que vivem os alunos é, muitas vezes, determinante para o seu sucesso escolar. [Read more…]

Ramiro Marques e os “ruídos pela inveja”

transferirO Jorge, no seguimento do Paulo Guinote, assinalou o regresso do Ramiro Marques à blogosfera, o que se saúda, porque rir é o melhor remédio. Saudades, muitas saudades. Para Ramiro, o mundo (d)escreve-se a preto e branco: de um lado, estão os mauzões, ou seja, os “esquerdopatas” (noutros tempos, teriam sido os “comunas”); à direita, estão os bons, isto é, Nuno Crato e Ramiro Marques, a dupla dinâmica, Batman e Robin, Robin e João Pequeno… Estes dois últimos, talvez não, porque isto de andar a tirar aos ricos para dar aos pobres é, de certeza, uma esquerdopatia.

Seja como for, saúde-se o regresso de um homem com um currículo invejável (se não acreditais, perguntai-lhe). Com a generosidade dos frontais, Ramiro deixa-nos um resumo, que inclui, aparentemente, um erro ortográfico. Ele que não se preocupe, porque, quando apagar mais este blogue, estará aqui a imagem a atestar o poder criativo desta sumidade. E também há arquivos. Ele que não se preocupe, como eu dizia.

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Noite de PISA

pizzaQuando começam a sair os resultados dos testes internacionais, especialmente por serem internacionais, os políticos, já se sabe, aparecem logo a reclamar paternidades e maternidades (porque também há políticas) ou a rejeitar crianças, se forem defeituosas.

Há poucos dias, foi o TIMSS. Ontem, foi o PISA. Apesar de este teste ser feito para avaliar uma parte do percurso de alguns alunos de 15 anos, não há quem não queria reclamar méritos, mesmo que não tenha estado no ministério nos últimos nove anos, ou seja, desde que os alunos em causa entraram para o Primeiro Ciclo. Tudo muito socrático, ou seja, portuguesinho.

O actual ministro, justiça lhe seja feita, deu os parabéns aos alunos e aos professores, essa gente habitualmente menorizada, face aos grandes ideólogos que julgam perceber mais disto a ressonar em gabinetes do qualquer professorzeco a suar numa sala de aula.

No meio de tudo isto, há, a propósito de professorezecos, uma novidade, incluída num relatório que acompanha o PISA: considera-se que os professores portugueses revelam uma estranha capacidade de adaptar o conteúdo e a estrutura das aulas aos alunos. Estranha? Sim, porque é uma ideia contrária às conclusões dos pedagogos de sofá que acusam tudo o que é docência lusa de imobilismos, conservadorismos e outras caturrices que tornariam impossível a boa aprendizagem da juventude. O Paulo Guinote deixa escapar um “In your face” e tem razão. Há alguns meses, abordei lateralmente o assunto. [Read more…]

Pedido de esclarecimento a Assunção Cristas

Leio a notícia sobre a missa em honra de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, mortos por estes dias de Dezembro em 1980. Assunção Cristas, a líder do CDS, esteve presente e, diante dos microfones, entre outras coisas, declarou que os dois políticos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.

No facebook, a nossa Carla Romualdo faz a pergunta que qualquer jornalista poderia ter feito: «Como assim, “deram a vida pelo país”? Eles sabiam para o que iam?»

Inspirado por estas questões, resolvi enviar a seguinte mensagem de correio electrónico ao CDS:

Sou um dos autores do blogue Aventar e gostaria de pedir que fossem esclarecidas as declarações da senhora doutora Assunção Cristas acerca da morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, Segundo o que li, a Senhora Presidente do CDS declarou que ambos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.
Assim, tendo em conta que a expressão “dar a vida” implica ter uma noção de que se iria correr um risco, estaria a senhora doutora Assunção Cristas a afirmar que Amaro da Costa e Sá Carneiro sabiam que havia, no mínimo, grandes probabilidades de o avião se despenhar, como, infelizmente, veio a acontecer? Se sim, poderá, ainda, considerar-se que as outras cinco pessoas que morreram no mesmo acidente também “deram, literalmente, a vida pelo seu país”?
Esta pergunta será publicada no Blogue Aventar. A resposta que V. Exas. queiram enviar será, também, integralmente publicada.
Muito obrigado
António Fernando Nabais
Aguardemos, pois.

Eu é que sou o pai da criança!

crato_14A partir do momento em que um país se abre ao mundo, após quarenta e oito anos de clausura, é natural que a Educação beneficie, porque as ideias entram, o saber espalha-se, os livros circulam, as mentalidades mudam, enfim, tudo aquilo que a História da Educação em Portugal já sabe e mais saberá no futuro, esse sítio em que o passado fica mais distante e menos presente.

Ainda assim, os que se preocupam verdadeiramente com o assunto vivem insatisfeitos, especialmente quando se fica com a impressão de que o Ministério da Educação é uma instituição cujo principal objectivo é atrapalhar a vida das escolas, introduzindo alterações sobre alterações, sempre com a colaboração de departamentos universitários ou de cliques partidárias.

De qualquer modo, repita-se, as melhorias são evidentes e naturalmente demoradas, porque a Educação leva o seu tempo e porque há, como vimos, quem goste de a atrasar. [Read more…]

Curriculite, a doença do século XXI

f3bc5-diploma-canudoSala de consultas num hospital público (porque é fundamental defender o Serviço Nacional de Saúde). O doente (utente para ministros e gestores) entra, cumprimenta o médico e senta-se.

 

MÉDICO (semblante antecipadamente compreensivo, porque a maior parte dos pacientes é um cambada de hipocondríacos ou de chatos com problemas de saúde sem gravidade): Ora diga lá qual é o problema?

DOENTE: Sotôr, acho que me anda a nascer uma licenciatura aqui no currículo…

MÉDICO (chega-se à frente, preocupado): Mas o senhor esteve na Universidade?

DOENTE (levemente enojado): Nááá, sotôr, até evito passar lá perto!

MÉDICO: É que, isso, anda aí uma epidemia e é preciso ter cuidado, homem! Mas como é que isso lhe apareceu?

DOENTE: Foi no outro dia, quando um secretário de Estado foi à minha terra inaugurar um pavilhão polidesportivo.

MÉDICO: Pois, isso dos polidesportivos é muito perigoso, estão cheios de correntes de ar. E então?

DOENTE: Então, cumprimentei o secretário de Estado, assim com um passou-bem, e começou a aparecer-me… aquilo… no currículo… [Read more…]

O Público e os empatas

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Na primeira página do Público, podemos ler aquilo que está na imagem. Como sabemos, empatar na política ainda é mais feio do que no futebol ou na vida íntima de outros.

Se lermos apenas este título, que é o que fazemos muitas vezes, é evidente que a imagem da esquerda não ficará em bom estado, porque, aparentemente, não quer resolver determinados assuntos. Se a esquerda merece ter bom ou má imagem, poderemos discutir noutra altura, se não vos importais.

Se se quiser, apesar de tudo, pensar um bocadinho, levantar uma dúvida, poderemos perguntar-nos se este título será uma referência a toda a esquerda, PS incluído, ou se haverá algumas divisões.

Ao fazer essa coisa raríssima que é ler a reportagem, ficamos a saber que o PS recusou as propostas dos partidos de esquerda acerca da limitação dos salários dos reguladores, que o PS, ao contrário dos (outros) partidos de esquerda, quer diminuir paulatinamente o número de alunos por turma, que o PS não quer fazer alterações no mapa das freguesias antes das próximas eleições autárquicas, que o PS não quer resolver já muitas questões relacionadas com o sistema bancário ou com os offshores, que o PSD e o PCP não viabilizarão de imediato algumas medidas contra os maus tratos a animais, que há uma proposta do CDS acerca do envelhecimento activo que tarda em ser aprovada, que o PS anda a adiar uma resolução sobre o uso da produção nacional e regional nas cantinas públicas, e, enfim, que há um grupo de trabalho que tem a seu cargo dois diplomas do PCP e do BE acerca do regime jurídico da partilha de dados informáticos e dos direitos de autor. [Read more…]

Quantos professores são necessários?

daviddinisDavid Dinis dá, hoje, professoralmente, as suas notas a agentes políticos, classificando com nota negativa o ministro da Educação, abaixo ainda de Passos Coelho.

Se Nuno Crato foi uma enorme desilusão, Tiago Rodrigues é apenas uma grande ilusão, sobretudo para muitos que são de esquerda. O facto de não estar a pensar rever medidas verdadeiramente danosas para a Educação é prova disso, mas o meu objectivo, agora, é escrever sobre  outros ilusionistas.

David Dinis, como qualquer neoliberóide-ignorante-atrevido, usa o seu desconhecimento e o fascínio pelas médias, para insinuar que não serão necessários mais professores. A linhagem a que pertence o actual director do Público gosta de dizer que o Ministério da Educação não tem de ser uma agência de empregos que garanta a contratação de todos os que possam e queiram ser professores.

Sendo isso um truísmo, a verdade é que o Ministério da Educação, com destaque para Nuno Crato, tem sido uma agência de desemprego ou, na melhor das hipóteses, um centro de ocupação para professores precários. Os últimos ministros que ocuparam a pasta não foram da Educação e sim do orçamento ou, mais propriamente, foram (e continuam a ser) agentes liquidatários de um sistema público fundamental num país civilizado. [Read more…]

A alergia da direita aos direitos

73938-capitalismoDeus não está muito bem, graças a si mesmo, Marx sobrevive com dificuldades, a Esquerda vai andando e a direita está catatónica, pelo menos em Portugal.

Catatónica, mas à espreita e nunca silenciosa, que isto aqui, felizmente, é uma democracia. Nos últimos dias, dois representantes dessa amável facção falaram sobre direitos, termo que obriga os seus utilizadores à toma de doses maciças de anti-histamínicos.

Rui Rio, candidato a líder da direita, depois de ter despovoado culturalmente o Porto, vai já prevenindo que os governos deram às pessoas direitos insustentáveis, como se os direitos fossem ofertas governamentais e não consequência da justiça e da evolução da humanidade ou como se os direitos necessários fossem dispensáveis. A desonestidade intelectual da grande maioria que vem do CDS até aos órfãos da direita do PS (que é muito grande) insiste, há anos, na ideia de que o problema de Portugal está nos gastos com o Estado Social e não nos desvios de dinheiro pertencente ao Estado Social, para salvar bancos e para pagar as dívidas públicas insustentáveis e nunca sujeitas a auditorias. Rui Rio, tal como Sócrates e Passos Coelho, é apenas um empregado bancário e presidente pouco clandestino das grandes empresas que gostam de lucros elevados alimentados por salários baixos. Para Rio, o país fica no interior das salas em que se reúnem os conselhos de administração. Lá fora, estão as pessoas, espécie cujo único direito é trabalhar por pouco dinheiro e respirar baixinho, como diria Luís Montenegro. [Read more…]