João José Cardoso, a árvore

Ontem, o Aventar foi almoçar a Coimbra, o que é o mesmo que dizer que alguns aventadores foram almoçar a Coimbra, levando consigo o espírito desta agremiação. Aqui não há abstenções, mesmo que haja ausências. Por sua vez, os ausentes estão sempre presentes, porque as palavras servem, entre outras coisas, para garantir a presença de todos e entre as palavras estão os nomes das pessoas.

Se é verdade que o Aventar me serve para dar vazão ao desejo de escrever e de falar, não há linha que substitua estes momentos, cheios de provocações e de abraços ao vivo, convívio de amigos improváveis e prováveis, encontros imprevisíveis, como a vida.

Depois do bacalhau com broa e da visita sacramental ao Santa Cruz, partimos à procura da árvore que foi plantada em homenagem ao João José Cardoso, como bons fiéis desta religião pagã que tem no seu altar a figura do nosso amigo, esse nosso Antero cuja força nos encantou a todos. O mito do João ou o João como mito estão assegurados, porque os que com ele conviveram passaram o deslumbramento aos que vieram depois. É vulgar, assim, ouvirmos dizer aos que nunca estiveram com ele que têm pena de que isso não tenha acontecido.

A árvore lá está e é a cara dele, ao que parece um castanheiro já com pequenos ouriços, a simbolizar aquilo a que o Francisco Miguel Valada chamou o proverbial mau feitio do João.

Se o Senhor é o pastor de algumas ovelhas, o João é o primeiro castanheiro deste souto que somos. Aqui estamos, mais uma vez, pá, à tua volta.

Não sei se nos enganámos na árvore, mas sabemos que acertámos em ti. [Read more…]

Educação e SONAE ou a arte de desconversar

Com grande pompa, a SONAE passou a semana a desconversar sobre Educação.

Usando do sensacionalismo próprio dos maus autores, anunciou uma espécie de Toda a Verdade Sobre, a fazer lembrar, por exemplo, o recente desplante de José Gomes Ferreira, o autoproclamado melhor – ou mesmo único – historiador português.

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um, por assim dizer, estudo sobre o impacto do professor nas aprendizagens do aluno. E concluiu que os melhores professores têm um impacto mais positivo do que os maus, o que só está, efectivamente, ao alcance de mentes com quociente de inteligência estratosférico. Num vídeo, Manuel Carvalho, funcionário da SONAE, mostra-se entusiasmado com esta descoberta.

Basta ler a primeira página do estudo, para perceber que estamos diante de uma manifestação de preguiça, sendo que conseguem descobrir quem são os melhores professores com base no resultado de provas de aferição e de exames nacionais, ignorando (porque daria trabalho) um conjunto interminável de factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos (que, só por si, é uma expressão dúbia que os tudólogos pagos por fundações reduzem a classificações, neste caso, de provas externas). O Paulo Guinote publicou hoje uma crítica fundamentada ao estudo. [Read more…]

Pobreza extrema

Na comissão executiva da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril e na respectiva estrutura de apoio são todos pobres: Pedro Adão e Silva é pobre, o secretário pessoal é pobre, os três técnicos especialistas são pobres, os três adjuntos são pobres, o motorista é pobre.

José Gomes Ferreira ou a ignorância atrevida

José Gomes Ferreira é director-adjunto de informação da SIC e comentador indignado de política económica. Publicou recentemente um livro intitulado Factos Escondidos da História de Portugal. O facto de ser uma figura pública fez com que desse várias entrevistas sobre o livro, o que é legítimo, como é legítimo que tenha escrito e diga disparates que estão ao nível da conversa de café, em que qualquer um, com a barriga encostada ao balcão, diz que sabe mais de História Medieval do que José Mattoso ou que tem lições a dar a Cristiano Ronaldo acerca do modo de marcar livres. [Read more…]

Bo tem mel

 

Amor, tu mais eu é igual a ui ui ui

 

 

Diane Keaton e a coligação IL-Chega

Woody Allen, numa homenagem a Diane Keaton, explicou ao público que a cidade natal da actriz é tão reaccionária que ajudar um cego a atravessar a rua é considerado socialismo. Parece uma piada, é uma piada, mas, como geralmente acontece com as piadas, não é absurdo. Entenda-se, aqui, “absurdo” como algo necessariamente inexistente. O curioso do absurdo é ser real. A realidade, aliás, é sempre mais improvável do que a ficção (e do que o humor, uma das suas manifestações).

Ontem, na Assembleia da República, António Costa destacou a importância dos valores democratas e cristãos, na esteira do papa Francisco, considerando que este não era socialista, o que provocou uma reacção de discordância de João Cotrim de Figueiredo e de André Ventura (este com mais entusiasmo, é verdade) – o papa, para estas duas luminárias, não anda longe do socialismo, o que, nestas bocas, não é um elogio. O amor anda no ar – Cotrim e Ventura já acabam as frases um do outro.

A direita, que, em Portugal, assume, frequentemente, uma essência católica, é, com a mesma frequência, pouco cristã, especialmente se seguir a cartilha liberal. Para esta gente, não há desfavorecidos, há preguiçosos e parasitas. Do mesmo modo, não há privilégios, apenas mérito. O ideal (também cristão) de que uma sociedade justa seja um sistema solidário e redistributivo causa-lhes alergia e tudo aquilo que lhes cause alergia, incluindo ácaros, é socialismo – no fundo, são como os conterrâneos de Diane Keaton: o cego que se desenrasque. E o papa que se deixe de cristianismos.

Odemiração

Um dos meus melhores amigos vive na minha memória. Tinha idade para ser meu pai e foi, durante vários anos, companheiro de tantas conversas. O Manuel Dias, velho jornalista prestigiado, andou pelo mundo inteiro. Contou-me que esteve na Cidade do México, em trabalho. Perdido na metrópole, a caminho de uma sessão com gente fina, deu por si, bem vestido, a entrar num tasco muito pobrezinho, para beber uma cerveja. Não me lembro das palavras exactas, mas o Manuel fez-me ver que tudo ali era miséria, pobreza, fome, os mais pobres dos pobres. Acrescentou: “Nestes momentos, um tipo é obrigado a pensar na sua camisa, na sua gravatinha, nas desigualdades.”

Nem sempre pensamos nas desigualdades. A maior parte das vezes, não pensamos nisso, por um egoísmo que, em parte, é saudável – com tanta miséria e tanta exploração que há pelo mundo, não teríamos tempo para sermos felizes ou, no mínimo, inconscientes ou ignorantes (condições necessárias para se ser feliz). Não teríamos tempo nem descaramento para apreciar a gravata, as jantaradas, os inúmeros privilégios com que somos cumulados, porque a vida que temos não resulta só do mérito, mas sobretudo de uma série de acasos, por muito que os portadores de certezas absolutas, sectários religiosos e políticos, acreditem no merecimento.

O triste espectáculo da escravatura em Odemira não é novidade. Há quem fique admirado por se saber. Fico espantado (até comigo) por não se pensar nisso, por acreditarmos que não é possível no nosso mundo, na civilização europeia. A exploração é tão antiga como a humanidade ou é a maneira de exercermos a nossa selvajaria essencial, lobos uns dos outros. É uma pulsão, é o poder a corromper-nos. [Read more…]

Parabéns a todos!

Hoje é o Dia Internacional do Burro.

Meritocracia? Capitalismo? Os dois?

Novo Banco tem prejuízo mas atribui prémio de 1,9 milhões aos gestores

Anti-histamínicos esgotam nas farmácias

Iniciativa Liberal participa nas comemorações do 25 de Abril

A Euroliga e a infalibilidade liberal

Os liberais defendem a livre concorrência como garantia da melhoria da qualidade seja do que for, de empresas a escolas, passando por hospitais e mercearias, porque o mundo é sempre simples se olharmos para ele com as lentes do dogma.

No mundo das empresas, e de acordo com o pessoal liberal, o sucesso é sempre resultado do mérito. Se alguém ganha mais, é porque fez por isso e, portanto, merece. Se uma empresa tem lucro, é porque os gestores foram competentes. Críticas à distribuição de dividendos por uma minoria ou reclamações por melhores salários são sempre desvalorizados pela onda liberal, em nome da meritocracia – quem não está melhor é porque não dá para mais e, desde que os mercados funcionem, quem estiver em lugares cimeiros estará sempre por merecimento.

Qual não é o meu espanto, quando vejo tanto liberal adepto do futebol a criticar a ideia da Euroliga (que nem sequer é nova), usando, de maneira inábil, o argumento de que tudo isto é contrário à meritocracia, essa alegada essência do capitalismo! Ora, há muitos anos que os clubes que defendem este projecto se transformaram em empresas cujas receitas são, em grande parte, geridas pela UEFA ou pela FIFA, centrais de negócios disfarçadas de confederações. Estes clubes, para usar a vulgata liberal, estão na posição em que estão graças ao mérito, foi esse mérito que lhes deu poder e projecção, tornando as suas marcas globais. [Read more…]

Pinto da Costa desrespeita Pinto da Costa

Pinto da Costa critica arbitragem do Sporting (2021)

“Falar de árbitros é estúpido, mas há muitos estúpidos” (2012)

Superliga europeia? É o capitalismo, estúpidos!

Superliga europeia vai mesmo para a frente

Sócrates, o multivitamínico

Não tenho instrumentos nem conhecimentos que me permitam avaliar as decisões do juiz Ivo Rosa. Não tenho grande fé na humanidade, respirando apenas uma uma leve esperança de que o confronto dialéctico da vida nos leve, por vezes, a um caminho menos injusto, menos desequilibrado.

José Sócrates representa, para mim, o pior de Portugal, o chico-esperto que finge frontalidade, mas que é só desonesto, o politicote vácuo, uma figura que fica bem numa galeria cheia de medíocres como Durão Barroso, Cavaco Silva, Passos Coelho ou António Costa, todos chefes de uma comandita que, ao mesmo tempo, mantém e corrói a democracia portuguesa, esse território habitado por praticantes de uma corrupção legal, que sobrevive à custa de incompreensíveis prescrições, constantes de leis criadas pelos amigos daqueles irão beneficiar com essas mesmas prescrições.

José Sócrates foi um dos piores primeiros-ministros de Portugal, num campeonato em que quase todos andam perto dos lugares cimeiros. Entregou a tutela da minha área profissional a Maria de Lurdes Rodrigues, uma figura amarga e sinistra, ignorante atrevida erigida em senadora da Educação. Sócrates é, ainda, uma figurinha irritante e suscita-me uma embirração que me levou ao ponto de ficar grosseiramente satisfeito por ter sido preso, quando, na realidade, me faz impressão a facilidade com se recorre à prisão preventiva. A minha intuição diz-me que Sócrates é culpado de tudo o que é acusado e apostaria que ainda há muito de que deveria ser acusado, mas não se sabe o quê. Com a sobranceria que lhe é característica, teve o atrevimento de vir considerar-se inocente, fingindo que não houve prescrições e esquecendo-se selectivamente de que ainda irá a julgamento, podendo, por isso, vir a ser condenado. [Read more…]

Os maus banqueiros na Islândia

A prisão onde estão os maus banqueiros islandeses. Por cá, o problema está nos apoios sociais.

O riso de Louçã e o histrionismo da direita

Na sua rubrica semanal da Sic Notícias, Francisco Louçã troçou de Aline Hall de Beuvink, a propósito de umas declarações proferidas quando era deputada à Assembleia Municipal de Lisboa, em 2019. Na ocasião, Aline Hall relacionou o mito de que os comunistas comem criancinhas com o Holodomor, o que é, no mínimo, discutível.

Francisco Louçã esteve muito mal ao transformar este episódio numa afirmação de que o canibalismo infantil dos comunistas era uma realidade: Aline Hall foi muito clara ao classificar isso como um “mito”. Louçã terá querido ridicularizar uma pessoa de direita, mas foi, no mínimo, descortês, distorceu, de modo desonesto, um enunciado claro e portou-se como outros que quiseram transformar a metáfora de Mamadou Ba num discurso de ódio. Ficaria bem a Louçã pedir desculpa, mas temo (e lamento) que isso nem lhe passe pela cabeça.

A direita, no entanto, incluindo a pessoa visada, quis transformar a troça de Louçã numa ridicularização ou mesmo negação do Holodomor, o que não corresponde à verdade. Há, contudo, para isso, razões que a razão desconhece: o ódio cego à esquerda que provoca descargas de adrenalina e de consequente tresleitura ou a mais absoluta desonestidade, aliados a um forte desejo de criar falsas equivalências entre ideologias com base na prática. Histrionismo – palhaçada, para os amigos.

Se eu fosse o árbitro do Luxemburgo-Portugal

Ontem, Cristiano Ronaldo falhou um golo só com o guarda-redes pela frente. Eu, se fosse o árbitro, saía do campo e atirava com o apito.

CR7 em nova modalidade olímpica

Lançamento da braçadeira.

Magina tu isto!

O vídeo que se segue foi publicado pelo juiz Rui Fonseca e Castro. Neste vídeo, declara que irá apresentar uma queixa-crime contra Magina da Silva, Director Nacional da PSP, a quem acusa de ser maçom. No final, desafia Magina para uma luta de MMA (Artes Marciais Mistas), a fazer lembrar as ameaças que os meus colegas e eu trocávamos no oitavo ano, “lá fora vais ver”.

Do ponto de vista humano, é um documento interessantíssimo. No que respeita ao processo de selecção dos magistrados, é caso para ficarmos todos preocupados.

 

O comportamento de Cristiano Ronaldo foi vergonhoso!

Numa das três ou quatro tiradas avulsas em que despejei nas redes sociais a minha indignação face ao comportamento de Cristiano Ronaldo, pessoa amiga deixou o seguinte comentário:

Mas querias o quê?! Que ele continuasse em campo e não atirasse a braçadeira ao chão, portando-se à altura de um atleta profissional, de 36 anos, que sabe agir com desportivismo e maturidade? Tens cada uma…

Lapidar, ou seja, digno de ser inscrito na pedra – está tudo aqui: a falta de profissionalismo, de desportivismo e de maturidade.

É difícil, em qualquer jogo, com a adrenalina no máximo, manter a serenidade? É, mas aos que devem ser exemplos exige-se que façam o mais difícil. É difícil dominar uma bola que vem com força, é difícil driblar em corrida, é difícil rematar com os dois pés, é difícil saltar a 2,56 metros de altura durante 1,5 segundos e cabecear, é difícil ser o melhor marcador de sempre. É difícil não perder a compostura, quando um golo é mal anulado no último minuto de jogo.

É grave que o português mais conhecido no mundo, ídolo da juventude, abandone o campo e atire com a braçadeira de capitão, como se fosse um menino mimado e malcriado.

Também é grave que uma multidão de adultos apoie este comportamento: pais e filhos, jornalistas e cronistas, recorrendo à habitual conversa da inveja, das conspirações das arbitragens ou da necessidade de defender a tribo, elogiaram o que Cristiano Ronaldo fez ontem. O povo português talvez devesse redireccionar esta capacidade de revolta para outros assuntos e, no mínimo, não elogiar a falta de educação só porque joga por nós.

O pequeno-almoço dos comunistas

Se forem carnívoros, comem criancinhas. Se forem veganos, comem bonsais.

Aprendizagens irrecuperáveis

Sem prejuízo de melhores opiniões e de estudos especializados, gostaria que alguém me explicasse, como se eu nunca tivesse tido ou dado aulas, de que modo é que, havendo meios e vontade, um aluno ficará

brutalmente

violentamente

extraordinariamente

irremediavelmente

prejudicado nas aprendizagens, chegando-se ao ponto de os especialistas

(ou seja, toda a gente excepto os professores)

anteverem uma catástrofe cognitiva, um atraso talvez mesmo mental, a estupidificação de uma geração inteira, uma bomba atómica que arrasará para sempre o cérebro das crianças confinadas. [Read more…]

A tudologia dos economistas ou os pedagogos de sofá

Há anos que é isto: se o tema for Educação, toda a gente sabe tanto ou mais do que os professores. Em Educação, não há leigos. A haver, são, na prática, os professores. No futebol, temos os treinadores de bancada; na Educação, os pedagogos de sofá.

Entre este tipo de pedagogos, avultam os economistas, porque não há assunto que lhes escape, numa arrogância extraordinária que vai da esquerda à direita. Há uns anos, tive uma polémica com Carlos Guimarães Pinto, a propósito de um capítulo de um livro em que os autores explicavam ao mundo tudo o que sabiam sobre Educação. Nessa polémica, sobressaiu a ignorância atrevida de quem cultiva uma ciência social que se arroga o direito exclusivo de explicar tudo o que existe no mundo.

Recentemente, alguns, vindos da esquerda, desprezando a questão sanitária, descobriram a existência de assimetrias enormes na vida dos estudantes, que o ensino à distância iria fazer sobressair os efeitos que as desigualdades sociais têm sobre as aprendizagens – e a vida, senhores, a vida – dos alunos. As escolas deveriam ficar abertas, mesmo aumentando o risco de contaminação da sociedade, para resolver esse problema. Mais uma vez, a Escola é vista como um paliativo para um problema que os pedagogos de sofá descobriram quando apareceu o ensino à distância. Entretanto, os professores têm sido obrigados a lidar (que é diferente de resolver) com esses problemas, enquanto a tutela despeja nas escolas decisões que só atrapalham, como a manutenção de um número exagerado de alunos por turma ou o eterno adiamento acerca de decisões fundamentais sobre o acesso ao Ensino Superior, entre muita outra tralha. [Read more…]

O palhaço e o anão do caralho

No fim-de-semana, os portugueses puderam assistir a um debate entre um palhaço e um anão do caralho. Quando temos a possibilidade de ouvir vozes autorizadas, não devemos desperdiçar a ocasião e todos sabemos que, desde o mundo académico do futebol até ao campo relvado da política, não há melhor do que um palhaço e do que um anão do caralho.

A garantia de que estas duas designações estão bem aplicadas releva do facto de que os participantes no debate as aplicaram um ao outro: coube ao anão do caralho designar o outro como palhaço, levando a que este, simpaticamente, confirmasse que o oponente era exactamente um anão do caralho.

O rigor, como se sabe, nasce, frequentemente, do distanciamento – nada melhor do que um Outro para nos definir. Ainda recentemente descobri a minha condição de bovino, quando um simpático automobilista me chamou a atenção para o facto de me ter esquecido de assinalar a mudança de direcção, gritando-me ternamente: “Ó boi, olha o pisca!” E aquele momento foi, para mim, uma epifania, o reconhecimento de que só um animal ruminante poderia andar a pastar no meio do trânsito, sem explicar para onde vai. Mugi uma desculpa e pensei em palha. [Read more…]

É um grunho, mas é nosso grunho

Ontem, Sérgio Conceição foi, mais uma vez, expulso do banco, mostrando, novamente, uma total falta de autocontrolo. Segundo parece, a explosão ter-se-á dado, no momento do segundo golo, em resposta a uma provocação que teria saído da boca do treinador do Portimonense, aquando do empate.

A adrenalina, como se sabe, não é boa conselheira, e o cérebro reptiliano ainda cá está, cheio de memórias do tempo em que descemos das árvores e em que éramos impelidos a atacar os nossos semelhantes porque pertenciam a uma tribo diferente e vinham apagar-nos a fogueira e roubar-nos as mulheres ou a comida ou as duas. O futebol, visto ou jogado, acorda o australopiteco que vive dentro de nós.

Apesar de tudo, esperançado no efeito civilizador da evolução, tenho a convicção de que, por respeito aos grunhos que eram os nossos antepassados, devemos ser melhores.

Chegado aqui, não me espanta que Sérgio Conceição continue a não conseguir controlar o grunho que também é, porque a sua personalidade, no meio da gasolina que é o mundo do futebol, só poderá ser assim. Neste momento, já nem sequer tem a desculpa de ainda ser um jovem em formação. Na verdade, já tem, como é costume dizer-se, idade para ter juízo.

Também já não me espanta, embora me preocupe, o facto de haver quem veja no descontrolo de Sérgio Conceição as virtudes essenciais do portismo. Os argumentos são variados: o quem não se sente não é filho de boa gente; o as pessoas do Norte são mesmo assim; o somos Porto, contra tudo e contra todos; o isto é a luta contra o centralismo lisboeta que nos oprime; o futebol não é para meninas. E milhares de adultos, incluindo pais de família, independentemente das habilitações literárias ou da classe social, exaltam as tristes figuras em que o treinador do Porto é useiro e vezeiro. Se uns querem deitar fora o bebé e a água do banho, estes defensores de Sérgio Conceição acreditam que a banheira, o bebé e a água do banho são um só e têm de ser conservados. [Read more…]

Também tu, bruta?

Diz a regra que só há notícia quando o homem morde o cão. Assim, é natural que uma mulher ciumenta que esfaqueou o marido 22 vezes tenha sido notícia em Inglaterra. Por incrível que pareça, o marido sobreviveu, o que é tão insólito que tem também de ser notícia.

Em Inglaterra, a comunicação social pôs a ênfase no número de facadas. Por cá, o Correio da Manhã realçou o facto de o marido ter perdoado a mulher, que é, na verdade, outra faceta inaudita, mas talvez o limite do homem fosse a vigésima segunda facada. A vigésima terceira seria falta de respeito. Talvez a esposa enraivecida tenha parado, ao ouvir o homem ensanguentado e indignado: “Se voltas a esfaquear-me, está tudo acabado entre nós!”

Outra possível explicação para o número de facadas pode estar, ainda, na idade do filho. O rapaz tem 22 anos. Coincidência? Não me parece. O mesmo rapaz escondeu as armas do crime e chamou a ambulância, dizendo, de acordo com a notícia, que “o pai estava deitado no chão com ferimentos na cabeça e um furo nas costas.” Enquanto esperava, ficou a jogar futebol no jardim. Por um lado, parece ser um rapaz com grande poder de observação; por outro, não gosta de desperdiçar tempo.

Joanne declarou que não queria matar o marido, apenas magoá-lo. Tendo em conta o resultado obtido, só podemos reconhecer a competência da senhora. Para já, irá passar seis anos na prisão e, quando sair, terá o marido amantíssimo à espera, numa casa em que não haverá um único canivete. Manda-se vir tudo o que tiver de ser cortado e serão felizes para sempre. [Read more…]

Um uniforme do Ku-Klux-Klan

Foi o que pedi aos meus pais, quando, na adolescência, li, pela primeira vez, Os Maias.

Quem poderá traduzir “Lágrima de Preta”?

O racismo pretende construir muros e prisões. Estrutural ou não, deve ser combatido. O objectivo é erradicá-lo, extinguir o racista, não através da violência física, mas condenando-o à inexistência, através da educação, da cultura e das artes. Das artes, insisto. Tudo isto será utopia, mas é pela utopia que devemos ir.

O anti-racismo deve servir para derrubar muros, para explicar ao mundo que não estamos separados pela cor da pele. Como tantas lutas legítimas, também o anti-racismo está sujeito a exageros e perversões. Qual é a diferença? O racismo deve ser destruído, o anti-racismo precisa de ser melhorado. O problema de quem faz força em sentido contrário reside, por vezes, num excesso nascido da revolta ou da necessidade de compensar a força do inimigo.

Recentemente, na Holanda, surgiu uma polémica a propósito da tradução do poema que Amanda Gorman escreveu e declamou na tomada de posse de Joe Biden. Quando se soube que Marieke Lucas Rijneveld, a tradutora escolhida, era uma mulher branca, houve uma revolta tal que esta, apesar de avalizada pela própria autora, pediu desculpa e retirou-se. Pelos vistos, aquele poema só pode ser traduzido por alguém com a mesma cor de pele da autora.

O anti-racismo transforma-se, assim, num racismo de sinal contrário, mesmo que as intenções sejam, originalmente, as melhores. [Read more…]

Moedas irá privatizar Lisboa e entregar a gestão à esposa

Carlos Moedas, candidato do PSD à câmara de Lisboa, foi um súbdito fiel de Passos Coelho, esse Miguel de Vasconcelos que esteve ao serviço do poder estrangeiro, durante o período em que Portugal esteve sob ocupação da troika.

Uma das promessas que levou Passos Coelho ao governo foi a de não privatizar à toa, como podemos verificar num vídeo inesquecível, criado pelo Ricardo Santos Pinto.

Os CTT foram privatizados, sabendo-se que davam lucro e tinham, ainda, outras funções na compensação de um dos maiores problemas nacionais, o desequilíbrio entre litoral e interior, num país com regiões que caminham a velocidades demasiado diferentes.

Carlos Moedas teve um papel fundamental nessa e noutras privatizações. Por coincidência, a esposa de Carlos Moedas veio a integrar a estrutura que passou a gerir os CTT privatizados e transformados em lojas de má literatura, ao mesmo tempo que abandonaram povoações e passaram a funcionar pior, porque a incompetência é exclusiva do sector público, uma das mentiras da direita liberal para tomar conta de negócios e de monopólios.

Note-se que o PSD, na oposição, e bem, atacou o PS devido às teias familiares que atravessam o actual governo, mas já se sabe que o argueiro no olho alheio é sempre maior do que a trave que está no meu.

Caso ganhe as autárquicas em Lisboa, será que Carlos Moedas irá privatizar a câmara? Se isso acontecer, a esposa transitará para a equipa que passará a gerir a cidade? A brincar, a brincar…

Deixo, a seguir umas ligações sobre a importância de Carlos “videirinho” Moedas nesta história. É instrutivo, divertido e poupa-me trabalho. [Read more…]

Orgulho no passado?

Há pessoas que louvam a grandiosidade do passado português, com um discurso que revela arrepios e êxtases. As batalhas medievais, a gesta dos Descobrimentos, a acção dos restauradores da Independência, tudo é apainelado, pintado em murais virtuais gigantescos, do tamanho de uma glória incomensurável.

Não sou insensível aos feitos extraordinários dos nossos antepassados. É verdadeiramente incrível a coragem de quem participou num combate medieval ou a abnegação de quem viajou em frágeis naus por oceanos desconhecidos e entrou em selvas inóspitas. Talvez por ser um impotente de sentimento, como dizia Carlos da Maia, não consigo, no entanto, sentir orgulho, admiro à distância, gosto de saber, consigo espantar-me.

As mesmas pessoas que sentem orgulho no passado relativizam quase sempre as atrocidades. Ou porque outros fizeram antes o mesmo ou pior ou porque não fomos tão maus como os outros ou (e este é sempre muito interessante) porque é preciso atender ao contexto. Também há quem defenda que, no meio de tudo, interessa realçar o papel civilizador.

Colonizar um território foi sempre o mesmo – é como se eu, transportando uma arma, uma cultura e uma religião, entrasse no apartamento de uma família desarmada e lhes explicasse, tendo em conta a evidência da arma e a superioridade da cultura, que teriam de passar a viver na despensa, passando a existir para me servir a mim e aos meus. Algures, no meio ou no fim da história, ainda ficaria surpreendido com alguma reacção agressiva. [Read more…]