Eu é que sou o pai da criança!

crato_14A partir do momento em que um país se abre ao mundo, após quarenta e oito anos de clausura, é natural que a Educação beneficie, porque as ideias entram, o saber espalha-se, os livros circulam, as mentalidades mudam, enfim, tudo aquilo que a História da Educação em Portugal já sabe e mais saberá no futuro, esse sítio em que o passado fica mais distante e menos presente.

Ainda assim, os que se preocupam verdadeiramente com o assunto vivem insatisfeitos, especialmente quando se fica com a impressão de que o Ministério da Educação é uma instituição cujo principal objectivo é atrapalhar a vida das escolas, introduzindo alterações sobre alterações, sempre com a colaboração de departamentos universitários ou de cliques partidárias.

De qualquer modo, repita-se, as melhorias são evidentes e naturalmente demoradas, porque a Educação leva o seu tempo e porque há, como vimos, quem goste de a atrasar. [Read more…]

Curriculite, a doença do século XXI

f3bc5-diploma-canudoSala de consultas num hospital público (porque é fundamental defender o Serviço Nacional de Saúde). O doente (utente para ministros e gestores) entra, cumprimenta o médico e senta-se.

 

MÉDICO (semblante antecipadamente compreensivo, porque a maior parte dos pacientes é um cambada de hipocondríacos ou de chatos com problemas de saúde sem gravidade): Ora diga lá qual é o problema?

DOENTE: Sotôr, acho que me anda a nascer uma licenciatura aqui no currículo…

MÉDICO (chega-se à frente, preocupado): Mas o senhor esteve na Universidade?

DOENTE (levemente enojado): Nááá, sotôr, até evito passar lá perto!

MÉDICO: É que, isso, anda aí uma epidemia e é preciso ter cuidado, homem! Mas como é que isso lhe apareceu?

DOENTE: Foi no outro dia, quando um secretário de Estado foi à minha terra inaugurar um pavilhão polidesportivo.

MÉDICO: Pois, isso dos polidesportivos é muito perigoso, estão cheios de correntes de ar. E então?

DOENTE: Então, cumprimentei o secretário de Estado, assim com um passou-bem, e começou a aparecer-me… aquilo… no currículo… [Read more…]

O Público e os empatas

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Na primeira página do Público, podemos ler aquilo que está na imagem. Como sabemos, empatar na política ainda é mais feio do que no futebol ou na vida íntima de outros.

Se lermos apenas este título, que é o que fazemos muitas vezes, é evidente que a imagem da esquerda não ficará em bom estado, porque, aparentemente, não quer resolver determinados assuntos. Se a esquerda merece ter bom ou má imagem, poderemos discutir noutra altura, se não vos importais.

Se se quiser, apesar de tudo, pensar um bocadinho, levantar uma dúvida, poderemos perguntar-nos se este título será uma referência a toda a esquerda, PS incluído, ou se haverá algumas divisões.

Ao fazer essa coisa raríssima que é ler a reportagem, ficamos a saber que o PS recusou as propostas dos partidos de esquerda acerca da limitação dos salários dos reguladores, que o PS, ao contrário dos (outros) partidos de esquerda, quer diminuir paulatinamente o número de alunos por turma, que o PS não quer fazer alterações no mapa das freguesias antes das próximas eleições autárquicas, que o PS não quer resolver já muitas questões relacionadas com o sistema bancário ou com os offshores, que o PSD e o PCP não viabilizarão de imediato algumas medidas contra os maus tratos a animais, que há uma proposta do CDS acerca do envelhecimento activo que tarda em ser aprovada, que o PS anda a adiar uma resolução sobre o uso da produção nacional e regional nas cantinas públicas, e, enfim, que há um grupo de trabalho que tem a seu cargo dois diplomas do PCP e do BE acerca do regime jurídico da partilha de dados informáticos e dos direitos de autor. [Read more…]

Quantos professores são necessários?

daviddinisDavid Dinis dá, hoje, professoralmente, as suas notas a agentes políticos, classificando com nota negativa o ministro da Educação, abaixo ainda de Passos Coelho.

Se Nuno Crato foi uma enorme desilusão, Tiago Rodrigues é apenas uma grande ilusão, sobretudo para muitos que são de esquerda. O facto de não estar a pensar rever medidas verdadeiramente danosas para a Educação é prova disso, mas o meu objectivo, agora, é escrever sobre  outros ilusionistas.

David Dinis, como qualquer neoliberóide-ignorante-atrevido, usa o seu desconhecimento e o fascínio pelas médias, para insinuar que não serão necessários mais professores. A linhagem a que pertence o actual director do Público gosta de dizer que o Ministério da Educação não tem de ser uma agência de empregos que garanta a contratação de todos os que possam e queiram ser professores.

Sendo isso um truísmo, a verdade é que o Ministério da Educação, com destaque para Nuno Crato, tem sido uma agência de desemprego ou, na melhor das hipóteses, um centro de ocupação para professores precários. Os últimos ministros que ocuparam a pasta não foram da Educação e sim do orçamento ou, mais propriamente, foram (e continuam a ser) agentes liquidatários de um sistema público fundamental num país civilizado. [Read more…]

A alergia da direita aos direitos

73938-capitalismoDeus não está muito bem, graças a si mesmo, Marx sobrevive com dificuldades, a Esquerda vai andando e a direita está catatónica, pelo menos em Portugal.

Catatónica, mas à espreita e nunca silenciosa, que isto aqui, felizmente, é uma democracia. Nos últimos dias, dois representantes dessa amável facção falaram sobre direitos, termo que obriga os seus utilizadores à toma de doses maciças de anti-histamínicos.

Rui Rio, candidato a líder da direita, depois de ter despovoado culturalmente o Porto, vai já prevenindo que os governos deram às pessoas direitos insustentáveis, como se os direitos fossem ofertas governamentais e não consequência da justiça e da evolução da humanidade ou como se os direitos necessários fossem dispensáveis. A desonestidade intelectual da grande maioria que vem do CDS até aos órfãos da direita do PS (que é muito grande) insiste, há anos, na ideia de que o problema de Portugal está nos gastos com o Estado Social e não nos desvios de dinheiro pertencente ao Estado Social, para salvar bancos e para pagar as dívidas públicas insustentáveis e nunca sujeitas a auditorias. Rui Rio, tal como Sócrates e Passos Coelho, é apenas um empregado bancário e presidente pouco clandestino das grandes empresas que gostam de lucros elevados alimentados por salários baixos. Para Rio, o país fica no interior das salas em que se reúnem os conselhos de administração. Lá fora, estão as pessoas, espécie cujo único direito é trabalhar por pouco dinheiro e respirar baixinho, como diria Luís Montenegro. [Read more…]

Educação? Perguntem à M80!

m80As escolas – e, portanto, todos aqueles que aí trabalham – são rochedos que vão resistindo como podem às muitas intempéries a que estão sujeitos. Políticos, professores universitários de muitas áreas, empresários, teóricos, cronistas, jornalistas, analistas, todos pensam saber mais sobre Educação do que aqueles que trabalham nas escolas. O costume: num convívio de dez pessoas em que uma seja professor, os outros nove têm sempre explicações a dar e medidas infalíveis para propor, ficando o professor desvalorizado por ser parte interessada. Até Cavaco, com o génio que se lhe reconhece, resolveu, há poucos anos, os problemas nos concursos de professores. [Read more…]

Tirar um curso

Portugal ainda é, em grande parte, Coimbra e o resto é paisagem. Bastava alguém envergar uma capa e uma batina para passar a ser doutor. Uma pessoa podia andar matriculada anos a não estudar e isso seria suficiente para se ser doutor. Ainda assim, nesses tempos, a expressão “tirar um curso” significava ‘concluir uma licenciatura’.

A licenciatura é, ainda hoje, meio caminho para um orgasmo. Há pessoas que perdem força nas pernas e reviram os olhos, sempre que ouvem o nome antecedido de um “doutor”. Não me espantaria que existisse uma tara sexual qualquer que consistisse em alcançar o clímax por ouvir menções a títulos académicos. Aposto, até, que, nos prostíbulos, haverá quem o exija, do mesmo modo que há quem goste de ser insultado ou agredido fisicamente (conta-se mesmo que, no auge, mais de um cliente terá gritado eferreá em vez de chamar por algum ser superior).

E é natural que uma pessoa, de tanto pagar para ouvir, até possa convencer-se de que entrou numa casa para obter favores, sexuais ou outros, e tenha saído de lá licenciado. Ora, se há casas que são conhecidas pelo pagamento de favores, sexuais e outros, são as sedes e as delegações dos partidos políticos. [Read more…]

Jornalismo no Festival Utopia 2016

14717057_695211760630228_1226828883434477353_nSem a Utopia o que é o homem mais do que besta sadia, cadáver adiado que procria? Não foi bem isto que o Sebastião pessoano disse nessa sessão de espiritismo chamada Mensagem, mas serve, como veremos.

Tendo em conta a tentação ditatorial do predador que teimamos em ser, a democracia está sempre em perigo. Um dos maiores sintomas actuais desse perigo reside na desvalorização do jornalismo e dos jornalistas, espécie permanentemente ameaçada e um dos pilares da mesma democracia. Assim, aquilo que era um valor aparentemente seguro até há pouco tempo está perigosamente perto de voltar a ser uma utopia, esse não-lugar em que a palavra do jornalista não está a esforçar-se por permanecer à tona de uma enxurrada de infotainment, de exploração de estagiários, de afastamento de gente experiente ou da sobrevalorização de espaços de opinião vendidos e comprados por partidos.

Como apaixonado dos jornais e como admirador e amigo de muitos jornalistas, congratulo-me com o facto de o Festival Utopia 2016 ter como tema, ou melhor, como causa, o jornalismo. Saúda-se, portanto, a parceria entre a Átomo – Cooperativa Cultural e Social, a Junta de Freguesia de Campolide e a Comissão Organizadora do IV Congresso dos Jornalistas.

Para os que usam o facebook e querem saber mais, é só seguir a página. Mais abaixo, é uma fartura de cartazes com o programa musical incluído, que é festa!, e outras informações úteis e agradáveis. Utopia é no Jardim da Amnistia, no combate contra o cadáver adiado que procria, pois. [Read more…]

Cruzei-me com os olhos da minha avó

Isto é por tua causa, João.

Hoje, fui felizmente obrigado a ir até à Rua de Santa Catarina (ou até Santa Catarina, como dizem os meus irmãos portuenses). A manhã estava luminosa, indecisa entre fria e quente. Fui até à Latina, comprei um livro e regressei, de costas para a Batalha. Estava como gosto de estar, com tempo. Como se fosse um turista sem a pressão das visitas guiadas, livre de mapas. À porta do Majestic, fui turista de turistas (já não deve faltar muito para que se organizem percursos de observação de turistas).

Precisava de tomar o segundo café, ler um bocadinho do jornal de ontem, continuar o livro, sentar-me. Ócio, o luxo obrigatório.

Pelo caminho, cruzei-me com uma velha conduzida por um casal. Estava a olhar para mim. Eram os olhos da minha avó. Não da mesma cor, não os mesmos olhos, antes o mesmo olhar, como é que isso se explica? Um certo desamparo, uma espécie de espanto infantil com a realidade, como se tivesse desaprendido tudo o que já soube. Os olhos da minha avó olharam para mim e não me estavam a acusar, talvez porque queira (eu ou ela?) limpar a minha consciência. [Read more…]

Costa está nas minhas mãos?

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Escreverei, um dia, sobre táxis e sobre taxistas e talvez não seja simpático para ninguém, concorrência e políticos incluídos. Para já, declaro apenas que sinto cada vez mais saudades da vírgula ou das vírgulas. Fazes-me falta, vírgula, especialmente quando há vocativos. Eu já sei que Costa está nas minhas mãos, mesmo sabendo que só valho um voto. A vírgula está nas tuas mãos. Usa-a, ó escrevente!

Imagem recortada da primeira página do DN de hoje.

Elena Ferrante: as pessoas têm o direito de saber?

transferir-3Elena Ferrante é autora de uma tetralogia que anda a entusiasmar leitores do mundo inteiro. O nome da escritora é, na realidade, um pseudónimo. Tendo manifestado a vontade de manter o anonimato, respondeu sempre por correio electrónico às entrevistas que concedeu.

Recentemente, Claudio Gatti, um jornalista italiano, terá desvelado a identidade de Ferrante. Sabendo-se que isso vai contra a vontade de autora, parece-me que esta investigação, na melhor das hipóteses, pisa uma fronteira ética. Se um escritor quiser ser apenas um nome ou um narrador, está no seu direito.

Claudio Gatti, no entanto, resolveu complementar a sua descoberta com argumentos a favor da sua investigação. A ser verdade o que se lê no Diário de Notícias, oscilam entre o oco e o disparatado.

Em primeiro lugar, recorre ao estafado as pessoas têm o direito de saber. Não é sequer invulgar ouvir jornalistas de rádio e de televisão usarem a pergunta “O público não tem direito a saber?” Sendo certo que um jornalista presta (ou deveria prestar) um serviço público, a verdade é que esta pergunta é apenas sensacionalista e/ou provocatória, porque a realidade é que há assuntos que as pessoas não têm o direito de saber, especialmente a partir do momento em que alguém não quer que se saiba. [Read more…]

Ana Paula Laborinho defende a morte das variedades do português

lusofoniaEm entrevista ao Expresso, Ana Paula Laborinho, Presidente do Instituto Camões, deixa escapar uma série de vulgaridades consentâneas com a Igreja da Lusofonia, cujo evangelho, mais oral do que escrito, está carregado de frases épicas acerca da dimensão internacional da língua e de palavras economesas como “geoestratégico”. Como qualquer sacerdote, crente ou não, é necessário parecer-se deslumbrado, que é uma maneira de se fingir iluminado. E ai de quem se atreva a criticar o deslumbramento! Será classificado como “xenófobo” e “racista”, antes de e em vez de ter direito a argumentação.

O chamado acordo ortográfico (AO90) é, neste contexto, alfaia religiosa que não pode ser posta em causa e, portanto, não pode ser pensada, apenas defendida.

Ana Paula Laborinho, depois de (não) responder a uma pergunta acerca da relação entre língua e “identidade de uma nação”, continua a (não) responder a uma outra: “Tendo em consideração a questão da identidade, é preciso um Acordo Ortográfico?” Ana Paula Laborinho (não) respondeu como se segue:

O Acordo Ortográfico é um instrumento até de internacionalização. É a tentativa de, enquanto língua internacional e num contexto de ensino, não termos de ensinar o português nas suas diversas variedades.

Uma pessoa não percebe o que é que o AO “internacionaliza”: a identidade? A língua? A ortografia? O queijo da Serra? Não me admiraria que fossem os quatro, tantas são as virtualidades do divino instrumento.

O resto da resposta mantém-se na senda do desastre sintáctico e, portanto, semântico. Doravante, os professores de Português, inspirados pelas palavras de Ana Paula Laborinho, poderão definir como um dos seus objectivos “tentar não ter de ensinar o português nas suas diversas variedades.” Não será fácil: um professor não está habituado a tentar não ensinar e, ainda menos, a tentar não ter de ensinar. [Read more…]

Felizes os pobres de espírito, que serão professores de Economia

transferir-2Começo por uma declaração de interesses: se eu mandasse, João César das Neves nunca seria impedido de falar, porque acredito que o mundo precisa de risos, de sorrisos, de gargalhadas. Por outro lado, também é verdade que o mundo precisa de economistas. Com César das Neves, temos divertimento garantido.

Segundo parece, César das Neves escreveu um livro, o que é natural, porque são raríssimos os cidadãos que ainda não o fizeram. Quando saio à rua, sou olhado de lado pelos meus vizinhos, porque ainda não aderi à moda da autoria.

Como qualquer autor, Neves deu início a uma série de entrevistas em que fará aquilo que os autores de livros fazem: explicar em voz alta aquilo que escreveu, porque, hoje em dia, os livros são incapazes de se fazerem entender.

Segundo percebi, de acordo com o resumo da entrevista ao professor de Economia, Portugal não cresce porque está dominado pelos funcionários públicos e pelos reformados, que, por dominarem a política e a comunicação social, escaparam a cortes nos salários e nas pensões, durante o domínio da troika.

Se esta informação for verdadeira, chego à conclusão de que sou uma espécie de Truman e que tenho andado a ser enganado por uma série de colegas e amigos, queixosos de cortes e de congelamentos que, afinal, têm recaído apenas sobre mim. Isto não vai ficar assim, garanto. [Read more…]

César das Neves chama reformados…

…a Pinto Balsemão e a Joaquim Oliveira. É tudo uma malandragem!

E os números do ministério estão errados?

14517558_1131366746949176_7518678896045357102_nJoão Miguel Tavares diz que descobriu que Jorge Coelho está na Quadratura do Círculo ao serviço do Partido Socialista. Para isso, baseou-se numa imagem em que se pode ver que o dirigente socialista está a ler um memorando do Ministério da Economia. Ao ler a cábula que lhe foi enviada, declarando que estudou o assunto em profundidade, não espantaria que o alegado comentador pudesse aparecer nas fotografias de curso de Miguel Relvas.

Jorge Coelho é um dos muitos chicos espertos do centrão cuja mediocridade o ajudou a chegar a altos cargos graças à frequência de aparelhos partidários. Tendo passado pela Mota-Engil, depois de ter estado no governo, Jorge Coelho é, assim, uma espécie de Durão Barroso dos pobrezinhos, no sentido em que terá usado cargos públicos como estágio para voos salariais mais altos.

De resto, é um caceteiro cujo momento mais brilhante correspondeu ao célebre “Quem se mete com o PS, leva!” Tanta falta de consistência intelectual, acompanhada por um discurso pobrezinho, fazem de Jorge Coelho o parente pobre do programa, diminuído, para mais, pela presença de gente com a dimensão retórica de um Pacheco Pereira e com a qualidade oratória de um Lobo Xavier, que têm independência suficiente para, pelo menos, não precisarem de prestar sempre serviços partidários ou políticos. Quando essa necessidade existe, nota-se demasiado: ainda me lembro das figuras tristes que Pacheco Pereira fez, nos anos oitenta, a defender o indefensável Cavaco Silva, no Flashback, antepassado da Quadratura na TSF.

A fotografia de João Miguel Tavares confirma, portanto, a pólvora: Coelho está, na SIC, a trabalhar para o PS, o que lhe garante, pelo menos, duas fontes de rendimento. Depois do fait-divers do descobrimento da careca, falta, agora, João Miguel Tavares demonstrar que os números do Ministério da Economia estão errados.

Imagem roubada: facebook de João Miguel Tavares

O impaciente inglês

o-paciente-inglesUm paciente inglês, sujeito às agruras de uma lista de espera, impacientou-se e resolveu operar-se a si mesmo. A história tem mais alguns nós, mas dá que pensar. O pior, para alguns mais tendenciosos, será o facto de o pobre homem ter andado quinze anos inclinado para a esquerda, esperemos que sem cair em extremismos.

Portugal é um país com alguns hábitos estranhos, como, por exemplo, a manutenção, há anos, de épocas de incêndios e de cheias, infelizmente nunca coincidentes. Não sou de ler o Diário da República, mas, diante da constância de fogos estivais e invernais inundações, não me admiraria que as referidas épocas resultassem de decretos. Chegou mesmo a haver um ministro a explanar uma verdadeira teologia da enxurrada, que, para isso, pelo menos, os ministros servem, sejam de Deus ou do Diabo.

Outro hábito estranho é o das listas de espera nos hospitais, numa contradição evidente, já que a espera pode fazer mal à saúde. Se há sítios em que a palavra ‘paciente’ faz sentidos, é nos hospitais.

As listas de espera resultam, certamente, de vários factores e o mercantilismo economês não será um dos menos importantes, com os espécimes que gerem hospitais muito preocupados com competitividade, porque tudo é um campeonato. Os que (se) ocupam (d)o Estado têm, de qualquer modo, tecido o esvaziamento dos hospitais públicos, favorecendo empresas, porque ao lado de uma lista de espera há sempre um hospital privado a abrir. O cidadão que seja desinformado ou desabonado ficará sentado na lista de espera e não faltará muito tempo para que os portugueses, desenrascados como são, passem a tratar da própria saúde, seguindo o exemplo do impaciente inglês. [Read more…]

Programas de Português nos Cursos Profissionais: o que é um ano lectivo?

Para se ser Ministro da Educação, em Portugal, é fundamental não se saber o que é exactamente um ano lectivo. Não faz sentido, mas é normal.

O final do desastroso mandato de Nuno Crato ficou marcado por uma boa notícia: a reposição da Literatura e da História da Literatura nos programas de Português do Ensino Secundário. Talvez estranhamente, alguns não rejubilaram, em nome de um estranho conceito do interesse dos alunos.

Esta alteração curricular deveria ter tido efeitos imediatos nos programas do Ensino Profissional, cujos alunos poderão vir a ser sujeitos ao mesmo exame de Português no 12º ano. Nada disso foi acautelado, o que, mais uma vez, não faz sentido, embora seja normal.

Os novos programas entraram em vigor no ano lectivo de 2015-2016, no Ensino Secundário. No que respeita aos cursos profissionais, os professores continuaram a leccionar o programa que continuava em vigor, devidamente desfasado do do ensino regular.

Este ano, depois de os professores terem começado a planear o ano lectivo, chegaram instruções, no dia 9 de Setembro (exactamente: 9 de Setembro), para que os alunos do primeiro ano dos cursos profissionais (10º ano, portanto) passassem a aprender, finalmente, os mesmos conteúdos do programa de Secundário. [Read more…]

Durão Barroso tratado como lobista? Finalmente!

lobbyistPelas europas eurocratas, vai uma espécie de alarido, com Jean-Claude Juncker a apoplexizar indignações pelo facto de Durão Barroso se ter transferido para a Goldman Sachs. Neste momento, existe, até, a ameaça de que Barroso passe a ser recebido em Bruxelas como um simples lobista, sem direito às honras de antigo presidente da comissão.

Se Durão fosse francês, Juncker tudo perdoaria, mas o que me traz aqui hoje é manifestar o meu regozijo, porque um reconhecimento tardio não deixa de ser reconfortante: é que o antigo primeiro-ministro português sempre foi um lobista. Na realidade, o que é que o homem esteve a fazer estes anos todos em Bruxelas que não fosse contribuir para que a Europa se pusesse ao serviço das grandes empresas mundiais e alemãs?

É, portanto, justo que passem a tratá-lo de acordo com a função que sempre desempenhou, como um rei que, finalmente, ocupa o trono depois de desesperar pacientemente por se sentar nele. A Europa poderia aproveitar, aliás, a ocasião e atribuir o mesmo título a muitos outros, começando por Juncker.

Aproveito para confessar que o meu ouvido tendencialmente purista lida mal com a palavra “lobista”. Neste e em muitos outros casos semelhantes, ficaria melhor utilizar “lobisomem”: o lobby continua a ouvir-se e faz muito mais sentido, nesta selva cheia de predadores que ao roubo chamam austeridade, palavra demasiado séria para estar na boca de lobistas.

A angústia das transferências

colocações

Encontrado no mural do Rui Zink

“Contate hoje mesmo!”

contateOntem, numa hora, para mim, matinal, saí de casa, a fim de tomar o primeiro café do dia. A minha única preocupação era saber que teria de disputar o jornal “da casa” com os quatro ou cinco reformados que passam por cada página com uma calma enervante, incluindo a necrologia e os anúncios das meninas que prometem dar vida a mortos. Ao passar pela caixa de correio, verifiquei que já lá estava o habitual prospecto de uma imobiliária. Na frente e no verso, podia ler-se “Contate [sic] hoje mesmo!”, como poderão confirmar na imagem que simpaticamente compartilho. A urgência do primeiro café tornou-se ainda mais urgente. É nestes momentos que admiro a fleuma do Francisco Miguel Valada, que consegue manter a elegância mesmo quando recolhe amostras de fatos e de contatos.

Como é que o verbo contatar  e o nome contato entraram pelos prospectos do nosso país? Façamos, à imitação de outros muito mais sabedores, um resumo da história do chamado acordo ortográfico (AO90). O AO90 foi criado porque, na opinião (ou nas declarações) dos seus autores, era preciso, necessário, fundamental, imprescindível criar uma ortografia única no universo dos países lusófonos. Resultado: muitos desses países ainda não adoptaram o AO90 e entre os países que o adoptaram continua a não haver uma ortografia única ou deixou mesmo de haver ortografia. [Read more…]

Diga ‘expectativa’!

expectativa2Prometi, ontem, que voltaria à expectativa, porque posso.

Vamos por partes, que é Agosto.

Os autores do chamado acordo ortográfico (AO90) valorizam aquilo a que chamam “critério fonético”. De modo simplista, isso quer dizer que devemos escrever conforme pronunciamos, o que, por sua vez, significa que não devemos escrever aquilo que não pronunciamos.

António Emiliano, entre outros, já explicou a impropriedade da expressão “critério fonético” e o disparate em que consiste. Mas deixemos isso, por instantes, porque a expectativa é grande.

Preocupados com o tal “critério fonético”, os autores do AO90 declaram basear-se numa certa e determinada norma culta. Confrontado com a dupla grafia da palavra “expectativa”, revisitei, mais uma vez, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, em busca da transcrição fonética da palavra. Como puderam ver mais acima, embora se admitam duas realizações possíveis para a primeira sílaba, o C pronuncia-se. [Read more…]

As expectativas do acordo ortográfico

Ser professor dá-me, graças ao contacto com os jovens, a possibilidade de aprender, com bastante frequência, novas expressões e novas piadas, porque as modas, como é da sua natureza, vão variando entre o tempo e o espaço. Sendo um curioso da língua e da linguagem, fico sempre fascinado com a descoberta do desconhecido e é sempre com prazer que junto mais uma palavra ou mais uma frase à minha colecção de cromos linguísticos.

Recentemente, adquiri uma mutação humorística da célebre resposta “porque sim”, muito utilizada por pais cansados de explicar ordens. Trata-se da resposta “porque+forma do verbo poder”. Há pouco tempo, um jovem lançou como que uma adivinha: “Porque é que os romanos invadiram a Grã-Bretanha?”. Diante do desconhecimento revelado pelos ouvintes, respondeu “Porque podiam.” Simples e barato.

Na semana passada, li na revista dominical do JN uma entrevista a Rui Unas. A palavra “expectativa” surgiu grafada das duas maneiras aparentemente permitidas pelo chamado acordo ortográfico (AO90), como poderão verificar nas imagens publicadas mais abaixo. Por que razão é que o jornalista fez isso? Porque podia, claro, autorizado pelo Priberam, pela Infopédia e pelo Vocabulário Ortográfico Português. [Read more…]

Rui Vitória alcança o tetra e garante colinho

Rui Vitória foi pai pela quarta vez.

IMIzade

IMIHavia quem puxasse da pistola quando ouvia falar de cultura. Cada um tem os seus reflexos condicionados. Eu começo a chorar com saudades do dinheiro, sempre que ouço um governo falar de impostos.

Nas últimas horas, tem-se falado muito a propósito do Imposto Municipal sobre Imóveis, IMI para os contribuintes. Não consigo ficar descansado, apesar de ainda não ter parado de comemorar o facto de Passos Coelho não ser primeiro-ministro.

Limito-me, para já, a deixar-vos algumas ligações e a transcrição de um texto de Carlos Matos Gomes encontrado no Facebook. Quando começarmos a pagar mais ou menos, falamos. [Read more…]

Não me toca na parceria público-privada

033_FigueiraFozSegundo parece, a Câmara Municipal da Figueira da Foz fez um acordo com a empresa Malpevent, responsável pela promoção de um concerto de Anselmo Ralph. O negócio é o seguinte: se não se venderem noventa mil bilhetes, a Câmara da Figueira compromete-se a entregar 16500 euros à dita Malpevent. Para além disso, a autarquia prescinde do pagamento de 8800 euros de taxas e assume o pagamento de elementos da Cruz Vermelha Portuguesa (3500 euros).

Em resumo, a Câmara da Figueira não quer uma receita, garante uma despesa e arrisca-se a outra, para minimizar os riscos de uma empresa que promove o espectáculo de um artista extremamente popular, goste-se ou não da música. Acrescente-se que, ao que tudo indica, um concerto de Anselmo Ralph terá custado, em Julho, 48500 euros à Câmara de Elvas. [Read more…]

Passos Coelho e o «bode expiatório para lavar as mãos»

bode2Pedro Passos Coelho é um homem ocupado, já se sabe, e é, portanto, natural, que nem sempre tenha tempo para pensar naquilo que diz, até por falta de hábito. Nos últimos tempos, o ex-governante está demasiado “focado”, para usar um verbo que está na moda, em repetir a ideia de que as possíveis sanções por défice excessivo não se devem ao facto (repito: facto) de que o seu governo deixou um défice excessivo, mas sim à falta de competência do actual governo que ainda não pôde gerar défice excessivo. Passos Coelho é como as criancinhas que partem uma jarra e culpam outro menino que tinha acabado de entrar na sala.

A repetição de ladainhas embota ainda mais o cérebro de quem a reproduz e uma pessoa acaba por baralhar as referências. Há uns anos, Assunção Esteves pôs Beauvoir onde deveria estar Babeuf. Passos Coelho conseguiu misturar numa mesma frase o Antigo e o Novo Testamento e, ao querer acusar o actual executivo de atirar culpas para a burocracia eurocrata, declarou que o governo procura «um bode expiatório para lavar as mãos.» [Read more…]

Festival Eurovisão da Sanção

100589474-Jeroen-Dijsselbloem-dumbfounded-gettyp.1910x1000Não faltará quem diga que o título é um trocadilho engraçadinho e que o autor tem a mania que tem piada. É tudo verdade e outras coisas piores que queiram pensar.

Contudo, a realidade também tem alguma culpa nesta facilidade em descobrir frases que parecem apenas louras burras, mas que, no fundo, são relativamente inteligentes e algumas nem sequer são louras, como se sabe.

Na distante Bruxelas, capital de um Árctico sentimental, há um coro que canta “sanções” e, pelo mundo fora, outros existem que vão na cantiga. Passos Coelho é, além de barítono de créditos firmados, autor (in)voluntário de sanções que ficam no ouvido dos mais distraídos. Curiosamente, ao contrário de outros compositores, Passos Coelho recusa a autoria, mesmo quando se sabe que foi ele que esteve sentado quatro anos a compor, ao lado de Maria Luís, grande artista do pimba financeiro (Maria Luís tem, aliás, uma versão do sucesso de Emanuel, em que o refrão é “E se eles querem um salário ou um direito, nós pimba, nós pimba!”). [Read more…]

Cheiro a mijo

Quando um jornal de referência publica um título como “Ricardo Araújo Pereira não mijou fora do penico, considera ERC”, o dia está ganho, porque é como se uma pessoa muito circunspecta usasse um palavrão raríssimo e porque permite imaginar uma votação da ERC com o presidente a dizer algo como “Quem considera que Ricardo Araújo Pereira mijou fora do penico? Muito obrigado! Quem considera que Ricardo Araújo Pereira não mijou fora do penico? Certo! Quem se abstém? Pronto, nesse caso, fica aprovado que Ricardo Araújo Pereira não mijou fora do penico. Vamos, agora, analisar a queixa do doutor Marinho e Pinto relativa ao programa de Ricardo Araújo Pereira.”

Da leitura da notícia, é importante, ainda, realçar a seguinte afirmação de Marinho e Pinto: “Não se pode urinar na cara das pessoas num programa de televisão.” Depreende-se, portanto, que possamos dedicar-nos a essa higiénica actividade, desde que não o façamos no pequeno ecrã. Prevejo, a propósito, o nascimento de um novo nicho de mercado, o da produção e venda da fralda-máscara, que uma pessoa nunca mais estará segura, de acordo com a jurisprudência involuntariamente criada por Marinho e Pinto.

Para que o leitor possa também formar uma opinião sobre assunto tão momentoso, seguem-se dois vídeos: o que motivou a queixa e um, mais antigo, em que Ricardo Araújo Pereira entrevistou Marinho e Pinto, correndo, portanto, todos os riscos menos o de levar com um monumental fluxo urinário nas trombas. [Read more…]

Euro 2016

transferir (1)Não é bonito apontar para os erros dos outros, quando nos chamam a atenção para os nossos. Não há cantilena mais embirrante do que a lamúria do pois toda a gente faz o mesmo e eu é que sou condenado.

Em princípio, portanto, estaria pronto a criticar o facto de Portugal ser um desses queixinhas que apontam para os défices alheios com o fito de desculpar o próprio.

A verdade, no entanto, é que há números que dão que pensar e que podem facilmente transformar um queixinhas num queixoso com razão.

De acordo com o Institute for Economic Research, já houve 114 violações das metas estabelecidas e, neste momento, apenas Portugal e Espanha estão sujeitos a possíveis sanções. Essas 114 (por extenso: cento e catorze) violações não foram levadas a cabo apenas por Portugal e Espanha: o país que mais vezes falhou neste campeonato foi a França, mas Juncker já explicou por que razão a França não pode ser castigada.

Note-se, ainda, que as possíveis sanções são consequência do défice deixado por Passos Coelho e por Maria Luís Albuquerque. Relembre-se, também, que os vários falhanços das metas estabelecidas foram sempre considerados sucessos pelas mesmas instituições que hoje ameaçam um governo que ainda não falhou as previsões. Percebe-se: com Passos, o país continuaria a retirar direitos e dinheiro aos trabalhadores, que os PIIGS querem-se pobrezinhos e prontos a pegar nas bandejas com bebidas exóticas.

O verdadeiro Euro 2016 é este, o campeonato em que há jogadores que são árbitros e que, por isso, podem distribuir porrada à vontade, porque são os donos do apito. Todos sabem que as metas do défice não são alcançáveis, mas usam-nas como instrumento de pressão, para ajudar multinacionais e bancos, à espera do prémio.

Isto já está a dar maus resultados e a União Europeia não é união e nem sequer se pode dizer que seja europeia, porque a ideia de Europa deveria ser outra, especialmente depois de tanta História.

Adiamento criminoso: redução do número de alunos por turma

800Há pouco tempo, Duarte Marques, deputado do PSD, terá feito referência à possibilidade de haver menos mil turmas nas escolas, no próximo ano lectivo. Alexandra Leitão, a Secretária de Estado da Educação, respondeu que o governo não prevê redução de número de turmas. De qualquer modo, os números não poderão ser verdadeiramente conhecidos antes do final deste mês e, mesmo assim, com algumas dúvidas.

A ideia de que iria haver menos turmas, de qualquer modo, ficou a pairar, mas não passa de um fait-divers cujo impacto não deveria ter sido ampliado.

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Pública (ANDAEP), a propósito deste tema, afirmou que, para manter os empregos dos professores, bastaria que de diminuísse o número de alunos por turma.

O desemprego é um drama e uma sociedade dirigida por gente civilizada deve preocupar-se com isso, equilibrando, o mais possível, os problemas humanos e as finanças públicas. [Read more…]