O árbitro, o ovo e a galinha

chicken-and-eggO meu gosto pelo futebol é tal que já me levou a assistir a torneios de futebol organizados por juntas de freguesia ou a jogos de campeonatos entre turmas nas escolas por onde tenho passado. Independentemente das idades, as derrotas provocam sempre o mesmo comportamento infantil: a culpa é do árbitro. Tendo caído na asneira de apitar jogos de alunos, fui, mais do que uma vez, acusado de ter favorecido os vencedores, ficando, frequentemente, com a impressão de que terá sido a minha condição de professor a livrar-me de reacções um pouco mais violentas ou de insultos mais coloridos, porque, para os derrotados, a culpa só podia ser daquela personagem cujo papel eu me tinha disposto a encarnar.

Conheço pouquíssimas pessoas capazes de falar verdadeiramente sobre futebol, atribuindo sempre as culpas aos árbitros quando o resultado é adverso. Trata-se de um comportamento perfeitamente transversal: com ou sem formação superior e independentemente da classe social ou do credo, transformam-se em seres ocasionalmente inferiores, reduzindo noventa minutos a um erro do árbitro, o único agente do futebol que, afinal, não pode errar, ao contrário dos jogadores que podem falhar golos de baliza aberta à vontade, porque a culpa nunca será deles. Note-se que nestes seres ocasionalmente inferiores incluo muitos amigos também adeptos do meu clube. [Read more…]

Desconexão ortográfica

conectividadeUma pessoa não pode e não quer estar sempre a pensar em ortografia, mas, muitas vezes, a realidade obriga-nos a pensar nela, não porque ela (a ortografia) esteja presente, mas apenas porque temos saudades dela, por não existir.

Numa passagem pela página da Worten, descubro que um aparelho em que poderei estar interessado tem conectividade e, como se isso não bastasse, ainda tem *conetividade. Olhai, que este é o tempo da multiplicação das duplas grafias, esse milagre proporcionado pelos apóstolos da religião do chamado acordo ortográfico! Assim como Jesus transformou a água em vinho, do mesmo modo os falsos profetas transformaram uma ortografia consistente em carrascão. [Read more…]

Os Dez Mandamentos do Futebol

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1 – se perderes, culparás o árbitro;
2 – se empatares, culparás o árbitro;
3 – se não fores campeão, culparás o árbitro;
4 – se o defesa da tua equipa falhar um corte, culparás o árbitro;
5 – se o médio da tua equipa falhar um passe, culparás o árbitro;
6 – se o avançado da tua equipa falhar um golo, culparás o árbitro;
7 – se o teu adversário directo não perder pontos, culparás o árbitro;
8 – se o árbitro não cometer erros, culparás o árbitro;
9 – se o o árbitro cometer erros, culparás o árbitro;
10 – se quiseres falar sobre futebol, culparás o árbitro.

As infidelidades do PISA e as coisas verdadeiramente importantes

Os que reivindicam a paternidade do sucesso nos últimos testes internacionais são apenas maridos enganados que não conseguem ou não querem ver que o filho que reclamam como seu tem nitidamente a cara de outros, o que faz da Educação aquilo que deve ser: uma insaciável oferecida ou uma oferecida insaciável. Os pobres maridos, evidentemente, são os primeiros a não saber ou, no mínimo, a fingir que não sabem. Por outro lado, são os últimos a querer saber, preferindo ilusões a análises.

De qualquer modo, num país de ignorantes atrevidos, é natural que todos se julguem capazes de fazer testes de ADN e, sem análises, as atribuições de paternidade têm sido mais do que muitas. Dêem-se as voltas que se quiser, mas isto resume-se assim: o sucesso educativo (ou outro qualquer sucesso) de um país resulta de múltiplos factores. Quem acredita um ministro possa ser tão genial que arrancasse o país ao descalabro é parvo; quem finge que acredita não é nada parvo, mas confia que todos os outros o sejam.

O que é verdadeiramente importante continua por fazer ou por desfazer. Entretanto, há dados que não chegam a ser noticiados: recentemente,  a Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência publicou algo sobre a descoberta da pólvora, ao apresentar um estudo sobre a relação entre a condição socioeconómica e os resultados escolares dos alunos no terceiro ciclo; posteriormente, apresentou um outro sobre o Segundo Ciclo. Novidades? Nenhumas: o meio socioeconómico em que vivem os alunos é, muitas vezes, determinante para o seu sucesso escolar. [Read more…]

Ramiro Marques e os “ruídos pela inveja”

transferirO Jorge, no seguimento do Paulo Guinote, assinalou o regresso do Ramiro Marques à blogosfera, o que se saúda, porque rir é o melhor remédio. Saudades, muitas saudades. Para Ramiro, o mundo (d)escreve-se a preto e branco: de um lado, estão os mauzões, ou seja, os “esquerdopatas” (noutros tempos, teriam sido os “comunas”); à direita, estão os bons, isto é, Nuno Crato e Ramiro Marques, a dupla dinâmica, Batman e Robin, Robin e João Pequeno… Estes dois últimos, talvez não, porque isto de andar a tirar aos ricos para dar aos pobres é, de certeza, uma esquerdopatia.

Seja como for, saúde-se o regresso de um homem com um currículo invejável (se não acreditais, perguntai-lhe). Com a generosidade dos frontais, Ramiro deixa-nos um resumo, que inclui, aparentemente, um erro ortográfico. Ele que não se preocupe, porque, quando apagar mais este blogue, estará aqui a imagem a atestar o poder criativo desta sumidade. E também há arquivos. Ele que não se preocupe, como eu dizia.

ruidos [Read more…]

Noite de PISA

pizzaQuando começam a sair os resultados dos testes internacionais, especialmente por serem internacionais, os políticos, já se sabe, aparecem logo a reclamar paternidades e maternidades (porque também há políticas) ou a rejeitar crianças, se forem defeituosas.

Há poucos dias, foi o TIMSS. Ontem, foi o PISA. Apesar de este teste ser feito para avaliar uma parte do percurso de alguns alunos de 15 anos, não há quem não queria reclamar méritos, mesmo que não tenha estado no ministério nos últimos nove anos, ou seja, desde que os alunos em causa entraram para o Primeiro Ciclo. Tudo muito socrático, ou seja, portuguesinho.

O actual ministro, justiça lhe seja feita, deu os parabéns aos alunos e aos professores, essa gente habitualmente menorizada, face aos grandes ideólogos que julgam perceber mais disto a ressonar em gabinetes do qualquer professorzeco a suar numa sala de aula.

No meio de tudo isto, há, a propósito de professorezecos, uma novidade, incluída num relatório que acompanha o PISA: considera-se que os professores portugueses revelam uma estranha capacidade de adaptar o conteúdo e a estrutura das aulas aos alunos. Estranha? Sim, porque é uma ideia contrária às conclusões dos pedagogos de sofá que acusam tudo o que é docência lusa de imobilismos, conservadorismos e outras caturrices que tornariam impossível a boa aprendizagem da juventude. O Paulo Guinote deixa escapar um “In your face” e tem razão. Há alguns meses, abordei lateralmente o assunto. [Read more…]

Pedido de esclarecimento a Assunção Cristas

Leio a notícia sobre a missa em honra de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, mortos por estes dias de Dezembro em 1980. Assunção Cristas, a líder do CDS, esteve presente e, diante dos microfones, entre outras coisas, declarou que os dois políticos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.

No facebook, a nossa Carla Romualdo faz a pergunta que qualquer jornalista poderia ter feito: «Como assim, “deram a vida pelo país”? Eles sabiam para o que iam?»

Inspirado por estas questões, resolvi enviar a seguinte mensagem de correio electrónico ao CDS:

Sou um dos autores do blogue Aventar e gostaria de pedir que fossem esclarecidas as declarações da senhora doutora Assunção Cristas acerca da morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, Segundo o que li, a Senhora Presidente do CDS declarou que ambos “deram a vida, literalmente, pelo seu país”.
Assim, tendo em conta que a expressão “dar a vida” implica ter uma noção de que se iria correr um risco, estaria a senhora doutora Assunção Cristas a afirmar que Amaro da Costa e Sá Carneiro sabiam que havia, no mínimo, grandes probabilidades de o avião se despenhar, como, infelizmente, veio a acontecer? Se sim, poderá, ainda, considerar-se que as outras cinco pessoas que morreram no mesmo acidente também “deram, literalmente, a vida pelo seu país”?
Esta pergunta será publicada no Blogue Aventar. A resposta que V. Exas. queiram enviar será, também, integralmente publicada.
Muito obrigado
António Fernando Nabais
Aguardemos, pois.

Eu é que sou o pai da criança!

crato_14A partir do momento em que um país se abre ao mundo, após quarenta e oito anos de clausura, é natural que a Educação beneficie, porque as ideias entram, o saber espalha-se, os livros circulam, as mentalidades mudam, enfim, tudo aquilo que a História da Educação em Portugal já sabe e mais saberá no futuro, esse sítio em que o passado fica mais distante e menos presente.

Ainda assim, os que se preocupam verdadeiramente com o assunto vivem insatisfeitos, especialmente quando se fica com a impressão de que o Ministério da Educação é uma instituição cujo principal objectivo é atrapalhar a vida das escolas, introduzindo alterações sobre alterações, sempre com a colaboração de departamentos universitários ou de cliques partidárias.

De qualquer modo, repita-se, as melhorias são evidentes e naturalmente demoradas, porque a Educação leva o seu tempo e porque há, como vimos, quem goste de a atrasar. [Read more…]

Curriculite, a doença do século XXI

f3bc5-diploma-canudoSala de consultas num hospital público (porque é fundamental defender o Serviço Nacional de Saúde). O doente (utente para ministros e gestores) entra, cumprimenta o médico e senta-se.

 

MÉDICO (semblante antecipadamente compreensivo, porque a maior parte dos pacientes é um cambada de hipocondríacos ou de chatos com problemas de saúde sem gravidade): Ora diga lá qual é o problema?

DOENTE: Sotôr, acho que me anda a nascer uma licenciatura aqui no currículo…

MÉDICO (chega-se à frente, preocupado): Mas o senhor esteve na Universidade?

DOENTE (levemente enojado): Nááá, sotôr, até evito passar lá perto!

MÉDICO: É que, isso, anda aí uma epidemia e é preciso ter cuidado, homem! Mas como é que isso lhe apareceu?

DOENTE: Foi no outro dia, quando um secretário de Estado foi à minha terra inaugurar um pavilhão polidesportivo.

MÉDICO: Pois, isso dos polidesportivos é muito perigoso, estão cheios de correntes de ar. E então?

DOENTE: Então, cumprimentei o secretário de Estado, assim com um passou-bem, e começou a aparecer-me… aquilo… no currículo… [Read more…]

O Público e os empatas

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Na primeira página do Público, podemos ler aquilo que está na imagem. Como sabemos, empatar na política ainda é mais feio do que no futebol ou na vida íntima de outros.

Se lermos apenas este título, que é o que fazemos muitas vezes, é evidente que a imagem da esquerda não ficará em bom estado, porque, aparentemente, não quer resolver determinados assuntos. Se a esquerda merece ter bom ou má imagem, poderemos discutir noutra altura, se não vos importais.

Se se quiser, apesar de tudo, pensar um bocadinho, levantar uma dúvida, poderemos perguntar-nos se este título será uma referência a toda a esquerda, PS incluído, ou se haverá algumas divisões.

Ao fazer essa coisa raríssima que é ler a reportagem, ficamos a saber que o PS recusou as propostas dos partidos de esquerda acerca da limitação dos salários dos reguladores, que o PS, ao contrário dos (outros) partidos de esquerda, quer diminuir paulatinamente o número de alunos por turma, que o PS não quer fazer alterações no mapa das freguesias antes das próximas eleições autárquicas, que o PS não quer resolver já muitas questões relacionadas com o sistema bancário ou com os offshores, que o PSD e o PCP não viabilizarão de imediato algumas medidas contra os maus tratos a animais, que há uma proposta do CDS acerca do envelhecimento activo que tarda em ser aprovada, que o PS anda a adiar uma resolução sobre o uso da produção nacional e regional nas cantinas públicas, e, enfim, que há um grupo de trabalho que tem a seu cargo dois diplomas do PCP e do BE acerca do regime jurídico da partilha de dados informáticos e dos direitos de autor. [Read more…]

Quantos professores são necessários?

daviddinisDavid Dinis dá, hoje, professoralmente, as suas notas a agentes políticos, classificando com nota negativa o ministro da Educação, abaixo ainda de Passos Coelho.

Se Nuno Crato foi uma enorme desilusão, Tiago Rodrigues é apenas uma grande ilusão, sobretudo para muitos que são de esquerda. O facto de não estar a pensar rever medidas verdadeiramente danosas para a Educação é prova disso, mas o meu objectivo, agora, é escrever sobre  outros ilusionistas.

David Dinis, como qualquer neoliberóide-ignorante-atrevido, usa o seu desconhecimento e o fascínio pelas médias, para insinuar que não serão necessários mais professores. A linhagem a que pertence o actual director do Público gosta de dizer que o Ministério da Educação não tem de ser uma agência de empregos que garanta a contratação de todos os que possam e queiram ser professores.

Sendo isso um truísmo, a verdade é que o Ministério da Educação, com destaque para Nuno Crato, tem sido uma agência de desemprego ou, na melhor das hipóteses, um centro de ocupação para professores precários. Os últimos ministros que ocuparam a pasta não foram da Educação e sim do orçamento ou, mais propriamente, foram (e continuam a ser) agentes liquidatários de um sistema público fundamental num país civilizado. [Read more…]

A alergia da direita aos direitos

73938-capitalismoDeus não está muito bem, graças a si mesmo, Marx sobrevive com dificuldades, a Esquerda vai andando e a direita está catatónica, pelo menos em Portugal.

Catatónica, mas à espreita e nunca silenciosa, que isto aqui, felizmente, é uma democracia. Nos últimos dias, dois representantes dessa amável facção falaram sobre direitos, termo que obriga os seus utilizadores à toma de doses maciças de anti-histamínicos.

Rui Rio, candidato a líder da direita, depois de ter despovoado culturalmente o Porto, vai já prevenindo que os governos deram às pessoas direitos insustentáveis, como se os direitos fossem ofertas governamentais e não consequência da justiça e da evolução da humanidade ou como se os direitos necessários fossem dispensáveis. A desonestidade intelectual da grande maioria que vem do CDS até aos órfãos da direita do PS (que é muito grande) insiste, há anos, na ideia de que o problema de Portugal está nos gastos com o Estado Social e não nos desvios de dinheiro pertencente ao Estado Social, para salvar bancos e para pagar as dívidas públicas insustentáveis e nunca sujeitas a auditorias. Rui Rio, tal como Sócrates e Passos Coelho, é apenas um empregado bancário e presidente pouco clandestino das grandes empresas que gostam de lucros elevados alimentados por salários baixos. Para Rio, o país fica no interior das salas em que se reúnem os conselhos de administração. Lá fora, estão as pessoas, espécie cujo único direito é trabalhar por pouco dinheiro e respirar baixinho, como diria Luís Montenegro. [Read more…]

Educação? Perguntem à M80!

m80As escolas – e, portanto, todos aqueles que aí trabalham – são rochedos que vão resistindo como podem às muitas intempéries a que estão sujeitos. Políticos, professores universitários de muitas áreas, empresários, teóricos, cronistas, jornalistas, analistas, todos pensam saber mais sobre Educação do que aqueles que trabalham nas escolas. O costume: num convívio de dez pessoas em que uma seja professor, os outros nove têm sempre explicações a dar e medidas infalíveis para propor, ficando o professor desvalorizado por ser parte interessada. Até Cavaco, com o génio que se lhe reconhece, resolveu, há poucos anos, os problemas nos concursos de professores. [Read more…]

Tirar um curso

Portugal ainda é, em grande parte, Coimbra e o resto é paisagem. Bastava alguém envergar uma capa e uma batina para passar a ser doutor. Uma pessoa podia andar matriculada anos a não estudar e isso seria suficiente para se ser doutor. Ainda assim, nesses tempos, a expressão “tirar um curso” significava ‘concluir uma licenciatura’.

A licenciatura é, ainda hoje, meio caminho para um orgasmo. Há pessoas que perdem força nas pernas e reviram os olhos, sempre que ouvem o nome antecedido de um “doutor”. Não me espantaria que existisse uma tara sexual qualquer que consistisse em alcançar o clímax por ouvir menções a títulos académicos. Aposto, até, que, nos prostíbulos, haverá quem o exija, do mesmo modo que há quem goste de ser insultado ou agredido fisicamente (conta-se mesmo que, no auge, mais de um cliente terá gritado eferreá em vez de chamar por algum ser superior).

E é natural que uma pessoa, de tanto pagar para ouvir, até possa convencer-se de que entrou numa casa para obter favores, sexuais ou outros, e tenha saído de lá licenciado. Ora, se há casas que são conhecidas pelo pagamento de favores, sexuais e outros, são as sedes e as delegações dos partidos políticos. [Read more…]

Jornalismo no Festival Utopia 2016

14717057_695211760630228_1226828883434477353_nSem a Utopia o que é o homem mais do que besta sadia, cadáver adiado que procria? Não foi bem isto que o Sebastião pessoano disse nessa sessão de espiritismo chamada Mensagem, mas serve, como veremos.

Tendo em conta a tentação ditatorial do predador que teimamos em ser, a democracia está sempre em perigo. Um dos maiores sintomas actuais desse perigo reside na desvalorização do jornalismo e dos jornalistas, espécie permanentemente ameaçada e um dos pilares da mesma democracia. Assim, aquilo que era um valor aparentemente seguro até há pouco tempo está perigosamente perto de voltar a ser uma utopia, esse não-lugar em que a palavra do jornalista não está a esforçar-se por permanecer à tona de uma enxurrada de infotainment, de exploração de estagiários, de afastamento de gente experiente ou da sobrevalorização de espaços de opinião vendidos e comprados por partidos.

Como apaixonado dos jornais e como admirador e amigo de muitos jornalistas, congratulo-me com o facto de o Festival Utopia 2016 ter como tema, ou melhor, como causa, o jornalismo. Saúda-se, portanto, a parceria entre a Átomo – Cooperativa Cultural e Social, a Junta de Freguesia de Campolide e a Comissão Organizadora do IV Congresso dos Jornalistas.

Para os que usam o facebook e querem saber mais, é só seguir a página. Mais abaixo, é uma fartura de cartazes com o programa musical incluído, que é festa!, e outras informações úteis e agradáveis. Utopia é no Jardim da Amnistia, no combate contra o cadáver adiado que procria, pois. [Read more…]

Cruzei-me com os olhos da minha avó

Isto é por tua causa, João.

Hoje, fui felizmente obrigado a ir até à Rua de Santa Catarina (ou até Santa Catarina, como dizem os meus irmãos portuenses). A manhã estava luminosa, indecisa entre fria e quente. Fui até à Latina, comprei um livro e regressei, de costas para a Batalha. Estava como gosto de estar, com tempo. Como se fosse um turista sem a pressão das visitas guiadas, livre de mapas. À porta do Majestic, fui turista de turistas (já não deve faltar muito para que se organizem percursos de observação de turistas).

Precisava de tomar o segundo café, ler um bocadinho do jornal de ontem, continuar o livro, sentar-me. Ócio, o luxo obrigatório.

Pelo caminho, cruzei-me com uma velha conduzida por um casal. Estava a olhar para mim. Eram os olhos da minha avó. Não da mesma cor, não os mesmos olhos, antes o mesmo olhar, como é que isso se explica? Um certo desamparo, uma espécie de espanto infantil com a realidade, como se tivesse desaprendido tudo o que já soube. Os olhos da minha avó olharam para mim e não me estavam a acusar, talvez porque queira (eu ou ela?) limpar a minha consciência. [Read more…]

Costa está nas minhas mãos?

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Escreverei, um dia, sobre táxis e sobre taxistas e talvez não seja simpático para ninguém, concorrência e políticos incluídos. Para já, declaro apenas que sinto cada vez mais saudades da vírgula ou das vírgulas. Fazes-me falta, vírgula, especialmente quando há vocativos. Eu já sei que Costa está nas minhas mãos, mesmo sabendo que só valho um voto. A vírgula está nas tuas mãos. Usa-a, ó escrevente!

Imagem recortada da primeira página do DN de hoje.

Elena Ferrante: as pessoas têm o direito de saber?

transferir-3Elena Ferrante é autora de uma tetralogia que anda a entusiasmar leitores do mundo inteiro. O nome da escritora é, na realidade, um pseudónimo. Tendo manifestado a vontade de manter o anonimato, respondeu sempre por correio electrónico às entrevistas que concedeu.

Recentemente, Claudio Gatti, um jornalista italiano, terá desvelado a identidade de Ferrante. Sabendo-se que isso vai contra a vontade de autora, parece-me que esta investigação, na melhor das hipóteses, pisa uma fronteira ética. Se um escritor quiser ser apenas um nome ou um narrador, está no seu direito.

Claudio Gatti, no entanto, resolveu complementar a sua descoberta com argumentos a favor da sua investigação. A ser verdade o que se lê no Diário de Notícias, oscilam entre o oco e o disparatado.

Em primeiro lugar, recorre ao estafado as pessoas têm o direito de saber. Não é sequer invulgar ouvir jornalistas de rádio e de televisão usarem a pergunta “O público não tem direito a saber?” Sendo certo que um jornalista presta (ou deveria prestar) um serviço público, a verdade é que esta pergunta é apenas sensacionalista e/ou provocatória, porque a realidade é que há assuntos que as pessoas não têm o direito de saber, especialmente a partir do momento em que alguém não quer que se saiba. [Read more…]

Ana Paula Laborinho defende a morte das variedades do português

lusofoniaEm entrevista ao Expresso, Ana Paula Laborinho, Presidente do Instituto Camões, deixa escapar uma série de vulgaridades consentâneas com a Igreja da Lusofonia, cujo evangelho, mais oral do que escrito, está carregado de frases épicas acerca da dimensão internacional da língua e de palavras economesas como “geoestratégico”. Como qualquer sacerdote, crente ou não, é necessário parecer-se deslumbrado, que é uma maneira de se fingir iluminado. E ai de quem se atreva a criticar o deslumbramento! Será classificado como “xenófobo” e “racista”, antes de e em vez de ter direito a argumentação.

O chamado acordo ortográfico (AO90) é, neste contexto, alfaia religiosa que não pode ser posta em causa e, portanto, não pode ser pensada, apenas defendida.

Ana Paula Laborinho, depois de (não) responder a uma pergunta acerca da relação entre língua e “identidade de uma nação”, continua a (não) responder a uma outra: “Tendo em consideração a questão da identidade, é preciso um Acordo Ortográfico?” Ana Paula Laborinho (não) respondeu como se segue:

O Acordo Ortográfico é um instrumento até de internacionalização. É a tentativa de, enquanto língua internacional e num contexto de ensino, não termos de ensinar o português nas suas diversas variedades.

Uma pessoa não percebe o que é que o AO “internacionaliza”: a identidade? A língua? A ortografia? O queijo da Serra? Não me admiraria que fossem os quatro, tantas são as virtualidades do divino instrumento.

O resto da resposta mantém-se na senda do desastre sintáctico e, portanto, semântico. Doravante, os professores de Português, inspirados pelas palavras de Ana Paula Laborinho, poderão definir como um dos seus objectivos “tentar não ter de ensinar o português nas suas diversas variedades.” Não será fácil: um professor não está habituado a tentar não ensinar e, ainda menos, a tentar não ter de ensinar. [Read more…]

Felizes os pobres de espírito, que serão professores de Economia

transferir-2Começo por uma declaração de interesses: se eu mandasse, João César das Neves nunca seria impedido de falar, porque acredito que o mundo precisa de risos, de sorrisos, de gargalhadas. Por outro lado, também é verdade que o mundo precisa de economistas. Com César das Neves, temos divertimento garantido.

Segundo parece, César das Neves escreveu um livro, o que é natural, porque são raríssimos os cidadãos que ainda não o fizeram. Quando saio à rua, sou olhado de lado pelos meus vizinhos, porque ainda não aderi à moda da autoria.

Como qualquer autor, Neves deu início a uma série de entrevistas em que fará aquilo que os autores de livros fazem: explicar em voz alta aquilo que escreveu, porque, hoje em dia, os livros são incapazes de se fazerem entender.

Segundo percebi, de acordo com o resumo da entrevista ao professor de Economia, Portugal não cresce porque está dominado pelos funcionários públicos e pelos reformados, que, por dominarem a política e a comunicação social, escaparam a cortes nos salários e nas pensões, durante o domínio da troika.

Se esta informação for verdadeira, chego à conclusão de que sou uma espécie de Truman e que tenho andado a ser enganado por uma série de colegas e amigos, queixosos de cortes e de congelamentos que, afinal, têm recaído apenas sobre mim. Isto não vai ficar assim, garanto. [Read more…]

César das Neves chama reformados…

…a Pinto Balsemão e a Joaquim Oliveira. É tudo uma malandragem!

E os números do ministério estão errados?

14517558_1131366746949176_7518678896045357102_nJoão Miguel Tavares diz que descobriu que Jorge Coelho está na Quadratura do Círculo ao serviço do Partido Socialista. Para isso, baseou-se numa imagem em que se pode ver que o dirigente socialista está a ler um memorando do Ministério da Economia. Ao ler a cábula que lhe foi enviada, declarando que estudou o assunto em profundidade, não espantaria que o alegado comentador pudesse aparecer nas fotografias de curso de Miguel Relvas.

Jorge Coelho é um dos muitos chicos espertos do centrão cuja mediocridade o ajudou a chegar a altos cargos graças à frequência de aparelhos partidários. Tendo passado pela Mota-Engil, depois de ter estado no governo, Jorge Coelho é, assim, uma espécie de Durão Barroso dos pobrezinhos, no sentido em que terá usado cargos públicos como estágio para voos salariais mais altos.

De resto, é um caceteiro cujo momento mais brilhante correspondeu ao célebre “Quem se mete com o PS, leva!” Tanta falta de consistência intelectual, acompanhada por um discurso pobrezinho, fazem de Jorge Coelho o parente pobre do programa, diminuído, para mais, pela presença de gente com a dimensão retórica de um Pacheco Pereira e com a qualidade oratória de um Lobo Xavier, que têm independência suficiente para, pelo menos, não precisarem de prestar sempre serviços partidários ou políticos. Quando essa necessidade existe, nota-se demasiado: ainda me lembro das figuras tristes que Pacheco Pereira fez, nos anos oitenta, a defender o indefensável Cavaco Silva, no Flashback, antepassado da Quadratura na TSF.

A fotografia de João Miguel Tavares confirma, portanto, a pólvora: Coelho está, na SIC, a trabalhar para o PS, o que lhe garante, pelo menos, duas fontes de rendimento. Depois do fait-divers do descobrimento da careca, falta, agora, João Miguel Tavares demonstrar que os números do Ministério da Economia estão errados.

Imagem roubada: facebook de João Miguel Tavares

O impaciente inglês

o-paciente-inglesUm paciente inglês, sujeito às agruras de uma lista de espera, impacientou-se e resolveu operar-se a si mesmo. A história tem mais alguns nós, mas dá que pensar. O pior, para alguns mais tendenciosos, será o facto de o pobre homem ter andado quinze anos inclinado para a esquerda, esperemos que sem cair em extremismos.

Portugal é um país com alguns hábitos estranhos, como, por exemplo, a manutenção, há anos, de épocas de incêndios e de cheias, infelizmente nunca coincidentes. Não sou de ler o Diário da República, mas, diante da constância de fogos estivais e invernais inundações, não me admiraria que as referidas épocas resultassem de decretos. Chegou mesmo a haver um ministro a explanar uma verdadeira teologia da enxurrada, que, para isso, pelo menos, os ministros servem, sejam de Deus ou do Diabo.

Outro hábito estranho é o das listas de espera nos hospitais, numa contradição evidente, já que a espera pode fazer mal à saúde. Se há sítios em que a palavra ‘paciente’ faz sentidos, é nos hospitais.

As listas de espera resultam, certamente, de vários factores e o mercantilismo economês não será um dos menos importantes, com os espécimes que gerem hospitais muito preocupados com competitividade, porque tudo é um campeonato. Os que (se) ocupam (d)o Estado têm, de qualquer modo, tecido o esvaziamento dos hospitais públicos, favorecendo empresas, porque ao lado de uma lista de espera há sempre um hospital privado a abrir. O cidadão que seja desinformado ou desabonado ficará sentado na lista de espera e não faltará muito tempo para que os portugueses, desenrascados como são, passem a tratar da própria saúde, seguindo o exemplo do impaciente inglês. [Read more…]

Programas de Português nos Cursos Profissionais: o que é um ano lectivo?

Para se ser Ministro da Educação, em Portugal, é fundamental não se saber o que é exactamente um ano lectivo. Não faz sentido, mas é normal.

O final do desastroso mandato de Nuno Crato ficou marcado por uma boa notícia: a reposição da Literatura e da História da Literatura nos programas de Português do Ensino Secundário. Talvez estranhamente, alguns não rejubilaram, em nome de um estranho conceito do interesse dos alunos.

Esta alteração curricular deveria ter tido efeitos imediatos nos programas do Ensino Profissional, cujos alunos poderão vir a ser sujeitos ao mesmo exame de Português no 12º ano. Nada disso foi acautelado, o que, mais uma vez, não faz sentido, embora seja normal.

Os novos programas entraram em vigor no ano lectivo de 2015-2016, no Ensino Secundário. No que respeita aos cursos profissionais, os professores continuaram a leccionar o programa que continuava em vigor, devidamente desfasado do do ensino regular.

Este ano, depois de os professores terem começado a planear o ano lectivo, chegaram instruções, no dia 9 de Setembro (exactamente: 9 de Setembro), para que os alunos do primeiro ano dos cursos profissionais (10º ano, portanto) passassem a aprender, finalmente, os mesmos conteúdos do programa de Secundário. [Read more…]

Durão Barroso tratado como lobista? Finalmente!

lobbyistPelas europas eurocratas, vai uma espécie de alarido, com Jean-Claude Juncker a apoplexizar indignações pelo facto de Durão Barroso se ter transferido para a Goldman Sachs. Neste momento, existe, até, a ameaça de que Barroso passe a ser recebido em Bruxelas como um simples lobista, sem direito às honras de antigo presidente da comissão.

Se Durão fosse francês, Juncker tudo perdoaria, mas o que me traz aqui hoje é manifestar o meu regozijo, porque um reconhecimento tardio não deixa de ser reconfortante: é que o antigo primeiro-ministro português sempre foi um lobista. Na realidade, o que é que o homem esteve a fazer estes anos todos em Bruxelas que não fosse contribuir para que a Europa se pusesse ao serviço das grandes empresas mundiais e alemãs?

É, portanto, justo que passem a tratá-lo de acordo com a função que sempre desempenhou, como um rei que, finalmente, ocupa o trono depois de desesperar pacientemente por se sentar nele. A Europa poderia aproveitar, aliás, a ocasião e atribuir o mesmo título a muitos outros, começando por Juncker.

Aproveito para confessar que o meu ouvido tendencialmente purista lida mal com a palavra “lobista”. Neste e em muitos outros casos semelhantes, ficaria melhor utilizar “lobisomem”: o lobby continua a ouvir-se e faz muito mais sentido, nesta selva cheia de predadores que ao roubo chamam austeridade, palavra demasiado séria para estar na boca de lobistas.

A angústia das transferências

colocações

Encontrado no mural do Rui Zink

“Contate hoje mesmo!”

contateOntem, numa hora, para mim, matinal, saí de casa, a fim de tomar o primeiro café do dia. A minha única preocupação era saber que teria de disputar o jornal “da casa” com os quatro ou cinco reformados que passam por cada página com uma calma enervante, incluindo a necrologia e os anúncios das meninas que prometem dar vida a mortos. Ao passar pela caixa de correio, verifiquei que já lá estava o habitual prospecto de uma imobiliária. Na frente e no verso, podia ler-se “Contate [sic] hoje mesmo!”, como poderão confirmar na imagem que simpaticamente compartilho. A urgência do primeiro café tornou-se ainda mais urgente. É nestes momentos que admiro a fleuma do Francisco Miguel Valada, que consegue manter a elegância mesmo quando recolhe amostras de fatos e de contatos.

Como é que o verbo contatar  e o nome contato entraram pelos prospectos do nosso país? Façamos, à imitação de outros muito mais sabedores, um resumo da história do chamado acordo ortográfico (AO90). O AO90 foi criado porque, na opinião (ou nas declarações) dos seus autores, era preciso, necessário, fundamental, imprescindível criar uma ortografia única no universo dos países lusófonos. Resultado: muitos desses países ainda não adoptaram o AO90 e entre os países que o adoptaram continua a não haver uma ortografia única ou deixou mesmo de haver ortografia. [Read more…]

Diga ‘expectativa’!

expectativa2Prometi, ontem, que voltaria à expectativa, porque posso.

Vamos por partes, que é Agosto.

Os autores do chamado acordo ortográfico (AO90) valorizam aquilo a que chamam “critério fonético”. De modo simplista, isso quer dizer que devemos escrever conforme pronunciamos, o que, por sua vez, significa que não devemos escrever aquilo que não pronunciamos.

António Emiliano, entre outros, já explicou a impropriedade da expressão “critério fonético” e o disparate em que consiste. Mas deixemos isso, por instantes, porque a expectativa é grande.

Preocupados com o tal “critério fonético”, os autores do AO90 declaram basear-se numa certa e determinada norma culta. Confrontado com a dupla grafia da palavra “expectativa”, revisitei, mais uma vez, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, em busca da transcrição fonética da palavra. Como puderam ver mais acima, embora se admitam duas realizações possíveis para a primeira sílaba, o C pronuncia-se. [Read more…]

As expectativas do acordo ortográfico

Ser professor dá-me, graças ao contacto com os jovens, a possibilidade de aprender, com bastante frequência, novas expressões e novas piadas, porque as modas, como é da sua natureza, vão variando entre o tempo e o espaço. Sendo um curioso da língua e da linguagem, fico sempre fascinado com a descoberta do desconhecido e é sempre com prazer que junto mais uma palavra ou mais uma frase à minha colecção de cromos linguísticos.

Recentemente, adquiri uma mutação humorística da célebre resposta “porque sim”, muito utilizada por pais cansados de explicar ordens. Trata-se da resposta “porque+forma do verbo poder”. Há pouco tempo, um jovem lançou como que uma adivinha: “Porque é que os romanos invadiram a Grã-Bretanha?”. Diante do desconhecimento revelado pelos ouvintes, respondeu “Porque podiam.” Simples e barato.

Na semana passada, li na revista dominical do JN uma entrevista a Rui Unas. A palavra “expectativa” surgiu grafada das duas maneiras aparentemente permitidas pelo chamado acordo ortográfico (AO90), como poderão verificar nas imagens publicadas mais abaixo. Por que razão é que o jornalista fez isso? Porque podia, claro, autorizado pelo Priberam, pela Infopédia e pelo Vocabulário Ortográfico Português. [Read more…]

Rui Vitória alcança o tetra e garante colinho

Rui Vitória foi pai pela quarta vez.