Reabrir as escolas: um mal desnecessário

Entre os entusiastas que passaram a acreditar que este momento de excepção até poderia passar a ser regra e os que defendiam que deveríamos ficar quietos sem fazer nada, a comunidade educativa foi conseguindo o possível, não sem problemas, nunca sem defeitos e com algumas virtudes. Problemas, defeitos e virtudes, todos aprofundados, curiosamente.

Neste momento, a proximidade social ainda acarreta demasiados riscos. Ainda assim, com muita prudência, será possível ir (re)pondo a economia a funcionar. Calculo que, na medida do possível, muitos profissionais irão manter o teletrabalho, minimizando riscos.

A reabertura das escolas só deveria acontecer se fosse absolutamente indispensável e há muitas razões para considerar que não é, mesmo nesta versão minimalista de limitar o acesso aos alunos com disciplina de exame. Por muitos cuidados que se tomem, o risco de propagação aumenta. Além disso, este regresso forçado resulta de um problema que continua por resolver: a subordinação do ensino básico e secundário à Universidade, devido a um sistema de acesso ao Ensino Superior que tarda em ser alterado.

O documento emanado do Ministério da Educação serve para demonstrar, mais uma vez, que se trata de uma instituição governada por pessoas fechadas em gabinetes que não sabem e não querem saber o que é a vida de uma escola, dando ordens que poderão ser difíceis ou impossíveis de cumprir. Seria o momento ideal para que encarregados de educação e/ou directores tomassem posições conjuntas, à semelhança do que já aconteceu com a Escola Secundária Camões.

Aqui ficam algumas leituras: [Read more…]

André Ventura, Nuno Melo e o sonho do silêncio

Muito recentemente, Nuno Melo, ao criticar a presença de Rui Tavares na telescola, deixou claro que, para se ser professor, não se pode ter ideias políticas de esquerda ou que um professor não pode citar um especialista, se o especialista for de esquerda. Não foi isto que disse, mas foi isto que quis dizer, fingindo que defende uma imparcialidade que não o seria, mas antes uma assepsia impossível e indesejável. É claro que não desmontou nenhum dos argumentos usados pelo historiador Rui Tavares, mas a grande vantagem de se ser populista é não estar obrigado a argumentar.

Ontem, André Ventura revoltou-se com o facto de Ricardo Quaresma ter criticado o próprio André Ventura. Qualquer pessoa pode ficar insatisfeita ou magoada ou o que se queira quando é criticada. Quando essa pessoa, no entanto, pretende que haja um mecanismo que permita silenciar a crítica, deparamos com alguém que acredita na existência de um “delito de opinião”, chegando ao ponto de pedir a intervenção das autoridades e defendendo, implícita mas claramente, que a Federação Portuguesa de Futebol deveria tomar uma medida qualquer. [Read more…]

Um molho de Nuno Melo, Salazar e Pavlov

O eurodeputado Nuno Melo criticou a presença de Rui Tavares num dos programas da nova tele-escola, como se pode ler no tuíte que encima esta prosa.

Como ainda não tinha assistido a nenhuma aula, resolvi ir ver, não fosse, por uma vez, Nuno Melo ter razão, algo de que ninguém está livre (peço desculpa pelo adjectivo, porque pode ser visto como uma alusão subliminar ao partido fundado por Rui Tavares).

Na realidade, Rui Tavares é um homem de esquerda, com passagens por alguns partidos. Nunca se sabe se poderia ter aproveitado a oportunidade para catequizar as pobres criancinhas de 5.º e 6.º ano. Por outro lado, Rui Tavares é doutorado em História, com obras publicadas na área, o que, por estranho que possa parecer, faz dele alguém especialmente habilitado para ensinar História. Há pessoas assim multifacetadas: tenho um amigo bancário cuja condição profissional não o impede de conceber uma magnífica carne de porco à alentejana. [Read more…]

Só sei que ninguém sabe

Não tenho o hábito de me informar sobre o vírus da moda, porque não tenho instrumentos e capacidade para saber se a informação distribuída pelos meios de comunicação social ou pelo governo é fidedigna, para não falar na multiplicação de opiniões completamente díspares sobre curvas e contracurvas, testes e infectados, mortos e curados.

Como sou um frequentador assíduo das chamadas redes sociais,

(rede também tem um sentido piscatório. Não chego a saber se sou pescador, se peixe)

tenho assistido, no entanto, a um debate, que digo eu?, um combate entre os que afiançam que Rodrigo Guedes de Carvalho arriou fortemente na ministra da Saúde e os que garantem que Marta Temido goleou o entrevistador. Uma análise muito leviana e suficiente permitir-nos-á perceber que os que elogiam o jornalista são da oposição ao governo; os outros são apoiantes do governo ou, no mínimo, adversários da oposição ao governo, que a política tem matizes que a razão desconhece.

Ou seja: os comentários à entrevista têm a mesma parcialidade e a mesma profundidade que é usada pelos histriões que participam naqueles programas em que hominídeos passam a horas a gritar que é ou que não é penálti, sendo evidente para ambos que é e que não é. [Read more…]

25 de Abril com distanciamento social

Adoro o 25 de Abril. Se o 25 de Abril fosse uma pessoa, faria tudo para que me considerasse seu amigo. Todos os anos, comemoro o 25 de Abril, porque o considero um dos meus maiores amigos. A generosidade do 25 de Abril vai ao ponto de ser bom para quem não gosta dele. Às vezes, penso que o 25 de Abril chegou a frequentar a catequese e saiu de lá cheio de amor ao próximo, incluindo os vendilhões do templo. Não que seja perfeito, mas não me lembro de ter amigos perfeitos.

O meu amor ao 25 de Abril não vai ao ponto de gostar das comemorações oficiais. Não preciso delas. Por um lado, irritam-me os que se consideram seus proprietários, censurando os que não gritam as mesmas palavras de ordem; por outro lado, ainda me irritam mais os que nunca lhe perdoaram, os que participam nessas comemorações a contragosto, exibindo, julgando-se superiores, a ausência do cravo na lapela, sempre prontos a descobrir defeitos na democracia e a relativizar a ditadura, a ditadura do Salazar honesto que não metia dinheiro ao bolso, como se isso transformasse um escroque num virtuoso.

Os que querem comemorar o 25 de Abril à força fazem-me lembrar os beatos que só podem orar a Deus em Fátima, numa estranha crença que, como é costume, chega a desprezar a Omnipotência em que, afinal, não acreditam. Não lhes ficaria mal, num tempo em que se recomenda o distanciamento social comemorarem o 25 de Abril à distância. [Read more…]

A honra de estar vivo

Há poemas tão nítidos, tão aparentemente prosa, tão imediatamente coração que é fácil percebê-los e ficamos surpreendidos com essa facilidade, cheios de palavras de outros que dizem exacta e misteriosamente tudo aquilo que pensamos. O sortilégio da literatura, aliás, é este: encontrar, nos outros, palavras que são nossas.

Este poema de Jorge de Sena, ampliado pela voz de Mário Viegas, é ainda mais fácil de perceber quando nos apercebemos de que estar vivo é uma honra, de que cada vida vale mais do que qualquer mundo, de que as pessoas são mais importantes do que a economia. A economia, aliás, embora pense que não, precisa desesperadamente das pessoas. [Read more…]

A política não é um vírus

António Costa brincou com o deputado João Cotrim de Figueiredo. Quem está na trincheira do primeiro, adorou o comentário e cantou uma vitória épica; do outro lado, houve quem se escandalizasse, também por não gostar que se chame a atenção para as contradições dos liberais. António Costa pode ter tido uma vitória tangencial, mas o episódio não passou de uma mera escaramuça parlamentar que não acrescenta nada de essencial. Parece-me, no entanto, que estamos diante de uma oportunidade para discutir se é possível o liberalismo em tempo de paz e estatismo em tempo de guerra, sabendo-se, desde já, que nada é assim tão simples.

Não é a altura para discutir isso, dizem alguns, porque estamos em circunstâncias adversas. Pelo contrário: é fundamental, porque o objectivo é que o mundo continue e que todos saiamos à rua para retomar as nossas vidas. É fundamental pensar que Estado queremos ou se queremos Estado.

O que me parece muitíssimo escandaloso em António Costa, por exemplo, é a afirmação de que não falta nada ao SNS, uma mentira que está a passar pelos pingos mediáticos sem molhar o primeiro-ministro. É verdade que, na trincheira do PS e de muita esquerda, há uma crispação quando se apontam os muitos problemas do SNS, como se isso fosse uma crítica ao conceito. Para mim, ser de esquerda é exactamente criticar o desinvestimento público que enfraquece o Estado em áreas em que tem de ser forte, áreas que não podem estar sujeitas à ditadura do lucro ou à libertinagem dos mercados. [Read more…]

Sondagens e outras coisas que não interessam

No tempo em que havia futebol e, consequentemente, programas em que se discutia corrupção e arbitragens, era vulgar perguntar aos telespectadores, através de inquéritos, quem seria o futuro campeão nacional ou se pensavam que o árbitro teria prejudicado ou beneficiado determinado clube em determinado lance. Confesso que nunca fiquei espantado com os resultados. Mais: nunca estive interessado em conhecer os resultados.

Hoje, fiquei a saber que, de acordo com uma sondagem, os portugueses (é sempre assim que anunciam o resultado de uma sondagem) têm uma opinião positiva acerca da actuação do primeiro-ministro e do presidente da República ou vice-versa. Se fosse ao contrário, também não me admiraria. Mais: não estou interessado.

Mesmo sabendo que é complicadíssimo gerir um país nas circunstâncias em que o mundo se encontra, haveria outras sondagens mais importantes. Por exemplo: quantos profissionais de saúde pensam que António Costa estava enganado (ou que mentiu) quando afirmou que não faltava nada nos hospitais nem era previsível que viesse a faltar?

Há muitos argumentos contra: que devemos estar todos unidos, que o corporativismo pode atrapalhar, que pode haver pessoas do contra. É tudo verdade, mas eu continuo a preferir que as pessoas de cada área falem da área em que trabalham. Na verdade, as sondagens nem sequer fazem muita falta, sobretudo se dependerem de politiquice ou de clubismo, que são mais ou menos a mesma coisa.

Je suis Uderzo

Hoje, morreu-me Uderzo. Esta construção verbal, não sei se uma reminiscência da voz média, é perfeita para exprimir que as mortes de outros nos afectam, que há mortes que nos matam um bocadinho.

Não cheguei ao ponto de chorar ou de ficar depressivo, nem sequer melancólico, até porque, por profundo egoísmo, fico satisfeito por saber que a morte de Uderzo não levou – nem eu deixava – os meus velhos álbuns das aventuras de Astérix, que continuam alinhados, sempre à espera de mais uma releitura ou, até, de uma consulta para recordar um diálogo genial criado pelo Goscinny ou um desenho brilhante do Uderzo. Pegar num desses álbuns (e cheirá-lo, claro) é, também, a garantia de que volto a ter dez anos e estou deitado ou sentado, a rir-me e a comer as raivas feitas pela minha avó ou pela minha mãe (ainda há migalhas arqueológicas espalhadas pelos livros). [Read more…]

Telegrama aberto à comunidade educativa

Em primeiro lugar, e respeitando algum corporativismo, escrevo aos meus estimados colegas que estejam obcecados em inundar os alunos com trabalhos para casa. Nestes tempos extraordinários, os alunos e as famílias precisam, também, de paz, de alívio para a tensão. Manter os alunos activos faz sentido, mas é preciso não exagerar. As vossas intenções serão as melhores, mas é dessas intenções que o inferno se alimenta. É preciso lembrarmo-nos, ainda, de que há muitos alunos com poucas ou nenhumas condições de trabalho em casa, porque um computador é um luxo.

Há uma razoável quantidade de idiotas que afirma que os professores não trabalham. Um idiota nunca aprenderá por muito que se lhe explique. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha por causa de uma razoável quantidade de idiotas. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha, porque isso é idiota. Vale a pena trabalhar, o que implica, no contexto actual, uma série de decisões que podem ir no sentido de aliviar o trabalho dos alunos. [Read more…]

A ciência ou a vida

Por outras razões, insurgi-me, recentemente, contra tudo o que faça de nós egoístas ou bairristas. A ideia de que os meus são sempre melhores do que os outros e que, portanto, merecem mais e melhor é simplesmente repugnante. Somos todos tendencialmente egoístas, bairristas e nacionalistas, mas só gente abjecta é que permite que essa tendência se transforme numa perversão que desumaniza. Ser humano é outra coisa; espezinhar o Outro é só ser selvagem.

A ciência, tal como o ar ou a água, é património da humanidade e todos os estados têm de zelar para que assim seja, sob pena de serem só uma confederação de criminosos. Uma vacina, por exemplo, não pode estar apenas ao alcance de quem tiver dinheiro para a comprar. O mundo ainda é demasiado desigual e sabemos que uma vacina comum no mundo ocidental é, muitas vezes, uma miragem nos países subdesenvolvidos.

Segundo parece, Donald Trump tentou comprar o exclusivo de uma vacina para os Estados Unidos a um laboratório alemão. Se o negócio fosse avante, Trump reclamaria mais uma vitória, festejando o facto de que os americanos sobreviveriam, enquanto os outros poderiam morrer. [Read more…]

Deram um ministério ao Tiago

Tenho aversão ao egotismo, ao bairrismo, ao nacionalismo, ao clubismo, ao corporativismo e a outros –ismos que levam as pessoas a declarar que são superiores ou que pertencem a grupos e instituições superiores. Penso sempre que estes –istas estão a milímetros de defender que pertencem a uma raça superior, o que me faz lembrar campos de concentração e outras coisas prejudiciais à saúde.

Quando, finalmente, se tomou a decisão de permitir que não houvesse aulas, o alegado ministro da Educação apareceu, com voz grossa, a afirmar que ninguém estava de férias e que os funcionários docentes e não docentes iriam ter de continuar a apresentar-se nas escolas, sempre que fosse necessário.

Acontece que a maioria dos funcionários docentes e não docentes já anda nas escolas há muito mais tempo do que Tiago Brandão Rodrigues, o alegado ministro. Tiago, aliás, parece um daqueles meninos ricos a quem os pais compravam uma bola das mais caras e ficava convencido de que sabia jogar futebol. Deram-lhe um ministério e acredita que passou a perceber do assunto. [Read more…]

Os chineses estão a fazer tudo bem, de certeza

Sou tão infantil como sempre fui e morrerei assim. Um dos sintomas da minha infantilidade é o espanto que me provocam as certezas absolutas de que o espaço público está cheio. O espaço público, esclareça-se, pode ser um café com dois clientes bêbedos, uma conferência de imprensa do primeiro-ministro ou o fascinante mundo das teorias da conspiração que está espalhado pelas redes sociais virtuais.

Há pouco fiquei a saber que, segundo a directora-geral de saúde, os chineses estão a fazer tudo o que deve ser feito para combater o vírus da moda. Não consigo perceber como é que, mesmo sendo uma pessoa tão informada, alguém consegue afirmar, a milhares de quilómetros de distância, que há uma nação inteira a fazer o que deve ser feito. Eu, confesso, não faço a mínima ideia se os vizinhos do lado lavam as mãos depois de fazerem as necessidades ou outra coisa qualquer desnecessária.

Isto faz-me lembrar outros tópicos da certeza absoluta, com ocorrências como “os portugueses sabem que…”, regurgitado por políticos espectacularmente omniscientes, ou “Deus quer que…”, afirmado por pessoas que têm ligação directa à Providência.

O meu espanto infantil, portanto, mantém-se, mas a minha ingenuidade desapareceu: antigamente, ficava com a impressão de que as pessoas das certezas absolutas possuíam um saber igualmente absoluto; hoje, sei que são tão ignorantes como eu. Esta certeza não me deveria trazer tanta tranquilidade, mas a minha leveza quase leviandade leva-me a viver neste tédio de saber que não controlo nada, pelo que tenho de me conformar por estar no lugar do morto.

Do país de origem aos testículos ou contributos para uma retórica reaccionária

Nem todos podemos ser pessoas civilizadas: uns não receberam educação em pequeninos, outros fundaram o Chega. Sendo pouca a esperança de que estes pobres desgraçados cheguem à civilização (nada que, ao longo da história, os tenha impedido de chegar ao governo), é nosso dever, cristãmente, deixar alguns contributos para que possam exercer ainda mais cabalmente a sua incivilidade, para que possam continuar a sonhar com o direito a acabarem com os direitos dos outros.

Joacine Katar Moreira defendeu que Portugal deveria devolver património às ex-colónias. André Ventura, por discordar, propôs que, em vez disso, Joacine fosse “devolvida ao país de origem”. É natural que André Ventura, sendo orgulhosamente reaccionário, não se aperceba verdadeiramente da desproporção entre o teor da proposta de Joacine e o conteúdo da sua crítica. Uma qualquer desconfiança ainda o levou a dizer que referência à deportação era ironia.

É claro que, para um reaccionário, país e origem são conceitos muito simples e, no caso em apreço, nem sequer é importante saber que Joacine é cidadã portuguesa ou que as nossas origens são tão incertas que nos arriscamos a ter antepassados africanos, nórdicos, asiáticos ou outros, numa provável mistura que faria vomitar um reaccionário, se perdesse algum tempo a pensar no assunto, deus nos livre e guarde e salazar nos proteja, sempre vigilante. [Read more…]

Há quem confunda interdisciplinaridade com a Feira de Beja

Não é o caso de António Carlos Cortez: Quem deve leccionar Português? Um contributo

Sim, mas gera riqueza e cria empregos!

Os novíssimos indignados com Isabel dos Santos andaram, andam e andarão a desculpar circunstancialmente todos os países ou empresários que quiserem vir para Portugal pagar baixos salários e/ou lavar dinheiro.

Manuel Pinho, por exemplo, antes do episódio dos corninhos, aconselhou o investimento em Portugal porque os salários são baixos.

Rui Machete, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, pediu desculpa a Angola porque a Justiça portuguesa cumpriu o dever de investigar a possível corrupção de figuras do regime angolano em Portugal.

De uma maneira geral, desde que exista, no mínimo, a ilusão de que poderão “gerar riqueza” ou “criar empregos”, qualquer milionário estrangeiro tem as portas e as pernas abertas para fazer o que lhe apeteça, o que, aliás, faz parte do espírito de uma aberração como os Vistos Gold.

Paulo Portas, ainda ministro, chegou a afirmar, diante das críticas ao regime angolano, que não tínhamos lições de democracia a dar a outros países, o que é próprio de quem prefere os negócios às pessoas.

Isabel dos Santos é uma flor nauseabunda que muitos garantiram cheirar a rosas. Não sei se o poder que manda hoje em Angola é melhor do que o anterior, mas não deixa de ser curioso assistir a eternos cínicos disfarçados de moralistas, depois de terem recolhido o pólen.

Ao cuidado de Freud: a inveja da bomba islâmica

O recente ataque à Porta dos Fundos trouxe às redes sociais mais uma enxurrada de excrescências constituídas por várias afirmações tão ridículas como perigosas, o que não é novidade, já que muitos criminosos são também cómicos. Confesso que ainda não vi o filme que deu origem ao atentado e não sei se é bom ou mau, o que, de qualquer modo, é irrelevante.

Os emissários das excrescências são, muitas vezes, membros de uma direita católica que admite brincadeiras – e bem – com os tiques da esquerda, mas que se enxofra com piadas que possam atingir a Igreja, Deus, Jesus ou os crentes.

Uns brandem o célebre “liberdade, sim, mas não à libertinagem”, muito preocupados com a ideia de que um Ser Omnipotente se possa ofender com palavras de mortais desbocados, o que é um enfraquecimento de algo ou de alguém tão poderoso. Em verdade vos digo que se Deus for o de alguns episódios do Velho Testamento, o sentido de humor não é, de certeza, o seu forte. Também vos digo que, se for Esse o existente, não estou interessado em conhecê-Lo e ficarei muito irritado por ter sido criado por alguém ainda mais maldisposto do que o do poema de Caeiro. [Read more…]

O Acordo Ortográfico da Relógio D’Água

Numa passagem por uma livraria, peguei em Pensar Sem Corrimão, de Hannah Arendt, e, como de costume, passei os olhos pela ficha técnica, em busca, também, da opção ortográfica. Pude ler o que se segue:

Espreitei a última página e encontrei isto:

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As mentiras da propaganda contra a retenção

Voltámos Às Contas De Merceeiro Do Antigamente

A dupla face das críticas ao politicamente correcto

O politicamente correcto nasce de boas intenções, o que, como se sabe, é meio caminho andado para o Inferno. Por vezes, faz lembrar um rapazinho tão virtuoso que ajuda a atravessar a rua uma velhinha que não queria fazê-lo.

Ainda há pouco, escrevi sobre os exageros deste mesmo politicamente correcto, que, quando obsessivo se torna inimigo do humor, esse mecanismo tão importante para que haja momentos de carnavalização na vida, intervalos em que podemos ser monstros ficcionais, o que pode ajudar-nos a não o ser na realidade. Estes exageros devem ser, naturalmente, criticados. Esta é a crítica virtuosa.

Na outra face da moeda, está uma crítica que é, na realidade, uma desculpa. É aquela a que se recorre quando se quer chamar frontalidade ao desbragamento ou à má educação. O marialvismo político é uma das suas derivações.

Uma das frases que corresponde a esta aparente crítica ao politicamente correcto está no adágio “Quem não se sente não é filho de boa gente.” Foi assim que muitos desculparam o descontrolo de António Costa diante das críticas que lhe fizeram no Terreiro do Paço, no final da última campanha eleitoral.

A Trump e Bolsonaro falta-lhes gravitas, são incapazes de uma certa hipocrisia institucional. Os seus partidários de todo o mundo, incluindo Portugal, vêem nisso a virtude da sinceridade, a qualidade dos homens simples que incomodam porque dizem a verdade. Não, são apenas broncos. [Read more…]

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A hipocrisia e os “chumbos”

O problema mais importante em Educação é o de se saber se os alunos aprendem. É fundamental que o próprio aluno, antes de todos, saiba se aprendeu. Essa percepção alcança-se através da avaliação, que não é exactamente o mesmo que classificação. Um dos meios que está ao alcance da compreensão é a possibilidade de obrigar o aluno a repetir o ano, aquilo a que a tradição chamou “chumbo”.

Não é obrigatório que seja assim e é verdade que o dito “chumbo” não é garantia de que, no futuro, haja melhoria, embora, verdade seja dita, a diabolização absoluta e pública da reprovação por parte de gente com responsabilidades tem levado, em boa parte, a que muitos estudantes e encarregados de educação só consigam ver a retenção como um castigo inútil, quando poderia ser uma oportunidade de redenção, por assim dizer.

É possível, no entanto, abolir o “chumbo”, desde que sejam criadas condições para um verdadeiro acompanhamento dos alunos com mais dificuldades. [Read more…]

A treta da uniformização ortográfica

O valor econômico e político da língua foi um dado importante para a unificação ortográfica. Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma.

Evanildo Bechara, entrevista ao Estadão, em 2012

Recentemente, um aluno brasileiro, olhando para um texto, perguntou-me o que queria dizer “dececionante”, no que foi secundado por outros dois colegas da mesma nacionalidade. Quando lhes disse que, no Brasil, se escrevia “decepcionante” conseguiram identificar a palavra.

Uma outra professora de Português contou-me que um aluno brasileiro ficou espantado com a palavra “aspeto”, uma vez que, no Brasil, a grafia, mesmo depois do alegado acordo alegadamente ortográfico, continua a ser “aspecto”, graças ao chamado “critério fonético”, aquele critério que procura uniformizar a ortografia com base na diferença da pronunciação.

A “ortografia é a mesma”? Nem a mesma, nem ortografia. É uma treta.

O Programa do Governo para a Educação

A análise do Paulo Guinote.

Uma questão de saia

O Ricardo M. Santos, antigo membro desta casa, deixou na efemeridade do facebook um dito tão genial que consegue abarcar duas áreas ao mesmo tempo: a política e a ortografia (que é, neste país de parolos, uma questão política, quando devia ser apenas científica). Tudo veio a propósito da saia com que o assessor do Livre entrou na nova legislatura.

Escreveu, então, o Ricardo, o seguinte:

“”O assessor do Livre foi de saia para criar um fato político.”

Santana Lopes seria capaz de dizer esta frase, mas a sério. Não é que o Ricardo não seja sério, mas, ao contrário de Santana, sabe que nem o chamado acordo ortográfico (AO90) conseguiu tirar o C de “facto”. Por outro lado, isso também não é exactamente verdade, porque, desde que o AO90 foi imposto, até o Diário da República transforma “factos” em “fatos”. [Read more…]

As refeições escolares e a autonomia

Há alguns anos, escrevi sobre o processo de desumanização das escolas que prossegue o seu curso. Entre outros aspectos, fazia referência à importância de que as refeições escolares fossem cozinhadas nos estabelecimentos de ensino.

Através de um texto do Paulo Guinote, cheguei a esta notícia: Escola transforma cantina no “melhor restaurante da região”. Todos os que tiveram a sorte de comer em cantinas escolares antes de serem entregues a empresas têm memórias da qualidade da comida, sendo que essa qualidade era indissociável da proximidade que criava uma impressão de algo caseiro.

Entretanto, a maioria PS/PSD/CDS vai fazendo o seu trabalho de entregar paulatinamente as escolas às autarquias, o que constitui uma negociata política para deixar o Ensino nas mãos dos muitos caciques que estão à frente das câmaras. O processo só ainda não está mais avançado, porque as câmaras querem mais dinheirinho.

O argumento usado para vender as escolas aos presidentes das câmaras assenta na ideia de que isso trará mais autonomia às escolas, o que é mentira. A palavra “autonomia” está, aliás, sempre na boca dos responsáveis políticos, mas a verdade é que nunca existiu. A municipalização será mais uma maneira de não dar autonomia às escolas, trazendo para o seu interior o compadrio e a politiquice.

Mesmo que o retrato das autarquias portuguesas pudesse ser mais simpático e mesmo que o Ministério da Educação funcionasse, a autonomia das escolas não deveria ser uma expressão vã. A qualidade da comida é mais um sinal.

A vida das escolas poderá melhorar a partir do momento em que isso seja uma causa importante para os cidadãos e não apenas uma preocupação dos funcionários docentes e não docentes.

Como nota final e desencantada, os textos da minha autoria para que remeto mais acima têm sete anos e a minha opinião é a mesma.

Hospital Garcia de Orta, um retrato da maioria PS-PSD-CDS

São muitos anos de esvaziamento de serviços públicos, entre falta de planeamento e submissão à troika, favores a amigos privados e ataques ao Estado por parte de quem tem governado, críticas à gestão pública e ofertas de dinheiro a bancos privados, sempre com os mesmos a pagar.

A situação no Hospital Garcia de Orta não é única, é só mais um retrato de um Portugal engravatado, muito contentinho com a situação de bom aluno de Bruxelas mas que, em chegando a casa, se dedica à violência doméstica. Relembre-se que o problema do referido hospital se refere à urgência pediátrica e está a dois passos de Lisboa. Imagine-se o resto do país, ou seja, a paisagem.

Escolas de Primeira e de Segunda

Um texto do Paulo Prudêncio.

Falta de professores ou a vida dos milionários

Esta chamada está na primeira página do Expresso de hoje e é suficiente para se perceber que deixar os mercados à solta serve para encarecer bens de primeira necessidade como a habitação, que a única política educativa do país consiste em poupar dinheiro à custa dos alunos e que os professores contratados vivem, na verdade, com salários tão miseráveis que não podem pagar alojamentos a preços ditados pelos mercados à solta (aproveitamos para lembrar que os professores não recebem subsídios de deslocação ou de alojamento, ao contrário dos deputados, por exemplo).

Com uma Assembleia da República submetida ao Partido alegadamente Socialista, estas situações irão continuar, porque o PSD, o CDS, o FMI e o que resta da União Europeia não querem saber. Os partidos de esquerda pouco fizeram durante quatro anos e estão dispensados por António Costa. De resto, a maioria dos cidadãos portugueses também não quer saber. Por outro lado, os sindicatos não se sentem lá muito bem.

O silêncio ou a normalização não são opções

No debate político, formal ou informal, há, por vezes, uma certa mentalidade infantil que consiste em não nomear os monstros pensando que isso fará com que não existam.

Na Assembleia da República, já existiam partidos que, de modo mal disfarçado, trabalhavam para a extinção progressiva de um Estado Social e solidário, governando de modo a que as instituições públicas falhassem, beneficiando amigos privados.

Com a entrada do Chega e da Iniciativa Liberal no Parlamento, essa vergonha terminou: para ambos os partidos, é necessário acelerar a destruição da esfera estatal e transformar a sociedade numa selva em que só pode sobreviver o mais forte ou o mais rico. Hoje, Bárbara Reis explica, de modo simples, que André Ventura é de extrema-direita, mesmo que tente disfarçar.

Como é evidente, estes partidos têm o mesmo direito que os outros, legitimados pelo voto. É igualmente evidente que não faz sentido fingir que não existem, não se pode ignorá-los, porque não é isso que os combate.

A solução não está no silêncio. O facto de terem sido eleitos não pode livrar ninguém de ser criticado. Acrescente-se que a existência destes radicais anti-Estado não desculpa o que PS, PSD e CDS têm estado a fazer, especialmente nos últimos quinze anos. No fundo, a diferença está no ritmo.