A Igreja Universal do Reino de Deus e o Poder de JES

IURD_angolaAlfredo Muvuma | MAKA ANGOLA

A tragédia ocorrida na noite da passagem de ano no estádio da Cidadela, que resultou em 16 vítimas mortais e 120 feridos, ofereceu às autoridades todas as condições morais e jurídicas para pôr cobro ao charlatanismo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Essa mesma tragédia poderia ser o ponto de viragem para o Estado libertar centenas de milhar de angolanos das tenebrosas teias desta organização pseudo-religiosa.
Mas, lamentavelmente, tudo se encaminha para que a seita fundada pelo brasileiro Edir Macedo saia mais fortalecida do sangrento episódio por si promovida.
A criação da Comissão de Inquérito pelo Presidente da República é um claro indício de que as autoridades angolanas não têm o menor interesse em indispor a IURD.
Hipoteticamente, quer pela sua representação em termos eleitorais quer pelo seu poderio económico-financeiro, as autoridades angolanas acabam demonstrar publicamente o seu temor e reverência face à seita brasileira.
No pior dos cenários, a IURD e os seus líderes serão confrontados com uma simbólica reprimenda no sentido de “reforçarem as medidas de segurança” e de “criarem condições para que tão dramáticos e dolorosos acontecimentos nunca mais voltem a repetir-se”, como se lê na nota de condolências da Presidência da República.
A Comissão de Inquérito criada pelo Presidente da República é um artifício que persegue dois objetivos simultâneos. Por um lado, dar algum “conforto” às vitimas da tragédia e aplacar a ira e a indignação da sociedade. Por outro, procura ganhar tempo para, depois, assegurar à IURD que não irá sofrer nenhumas consequências pela tragédia por esta provocada.
Nos termos do despacho presidencial, a Comissão de Inquérito deverá apresentar a José Eduardo dos Santos, no prazo de 15 dias, um relatório dos seus trabalhos. Além do ministro do Interior, que a coordena, e da ministra da Cultura, vice-coordenadora, a comissão integra ainda os ministros da Administração do Território, da Justiça, Saúde e da Juventude e Desportos.
Ao total de seis ministros, junta-se ainda o governador de Luanda. Esses dignitários deverão apoiar-se num grupo técnico, que além do secretário de Estado que o coordena, ainda tem de escolher os restantes integrantes.
Quando, finalmente, os seis ministros conseguirem compatibilizar as respectivas agendas com a do governador de Luanda para a primeira das muitas reuniões da Comissão de Inquérito, provavelmente já terá sido consumida mais de metade do prazo dado pelo PR. E quando todos os integrantes da comissão estiverem juntos para a reunião com os membros do grupo técnico, é quase seguro que isso acontecerá já depois de expirado o prazo presidencial. E nessa altura já estará a desaparecer a onda de indignação face à tragédia ocorrida no estádio da Cidadela.

José Eduardo dos Santos
criou uma estrutura para, em 15 dias, conseguir aquilo que Polícia Nacional levou menos de 24 horas a fazer para apurar as
causas da tragédia.
Em comunicado, a Polícia Nacional incluí entre as razões do desastre, a distribuição, pela IURD, de material propagandístico com promessas de cura e resolução de males como inveja, feitiçaria, dívidas e miséria. Atraídos pela enganosa publicidade, milhares de angolanos, provenientes de várias províncias do país, acorreram à Cidadela Desportiva, o que “causou excessiva lotação na parte interior” do estádio.
O Ministério do Interior revela também que a IURD dispensou os “planos operacionais” que a Polícia e o Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiros conceberam para o que se supunha ser uma cerimónia religiosa.
No mesmo comunicado, o Ministério do Interior anunciou ter ordenado à Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) a abertura de um inquérito para apurar as responsabilidades pelo ocorrido. Os resultados desse inquérito seriam submetidos ao Ministério Público.
Em suma, o Ministério do Interior sintetizou o que a todos parece óbvio – a responsabilidade da IURD. E era no sentido da responsabilização incondicional da IURD que se encaminhavam as expectativas da sociedade.
A criação de uma Comissão de Inquérito veio, porém, mostrar que o Presidente da República tem outros planos.

Ninguém duvide. José Eduardo dos Santos dará ao relatório exigido à nova Comissão de Inquérito o mesmo destino dos relatórios das centenas de comissões de inquérito que vem criando ao longo dos seus 33 anos de poder: a gaveta da sua secretária ou o balde de lixo.
No fundo das gavetas ou nos trituradores de papel jazem os relatórios e restos dos inquéritos mandados instaurar pelo PR, na sequência de desastres aéreos e outros episódios que enlutaram o país.
Em situações embaraçosas, o modus operandi de José Eduardo dos Santos tem sido invariável.
A inclusão do governador de Luanda na actual Comissão de Inquérito é uma prova adicional de que José Eduardo dos Santos não está interessado em apurar responsabilidades e confrontar a IURD.
A seita de Edir Macedo tem andado de mãos dadas com o Comité Provincial do MPLA de Luanda, dirigido pelo mesmo Bento Bento. A IURD e o CPL do MPLA gabam-se publicamente da parceria que os une. Bento Bento é um dos fiéis mais influentes da referida seita.
Não há muitas voltas a dar. Se estivesse interessado no completo apuramento dos factos e na posterior responsabilização criminal dos promotores da tragédia, o Presidente da República só teria de fazer o óbvio. Teria encorajado o Ministério do Interior, através dos seus órgãos especializados, a prosseguir com o seu trabalho. Competiria, depois, ao Ministério Público o passo seguinte, ou seja, determinar se haveria ou não lugar a responsabilização criminal da IURD.
Lamentavelmente, parece não ser esse o caminho escolhido por José Eduardo dos Santos. Tudo indica que as vítimas e seus familiares poderão nunca ver atribuídas responsabilidades pela tragédia do fim de ano, por iniciativa política do Presidente da República.

Publicado originalmente aqui.

Comments

  1. a.sameiro says:

    por aqui ninguem dá por nada

  2. Amadeu says:

    E ainda falam dos extremistas islâmicos.
    Estes da IURD vêm logo atrás.
    E estão bem mais perto de nós.
    As trevas pós-modernas, no seu pior.

  3. clara says:

    Li isto num comentário no facebook e aqui deixo:
    Executivo responsabiliza e suspende actividade da Igreja Universal – IURD
    O Executivo anunciou hoje, sábado, 02-02-2013 que responsabiliza a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) pelo incidente ocorrido a 31 de Dezembro passado, no estádio da Cidadela Desportiva, que provocou a perda de vidas humanas e decidiu suspender a actividade da organização religiosa por 60 dias.
    Segundo uma nota dos Órgãos Auxiliares do Presidente da República, “perante a gravidade dos factos de que resultaram lamentavelmente a perda de vidas humanas o Executivo decidiu que a matéria dos autos seja remetida à Procuradoria-Geral da República para o aprofundamento das investigações e a consequente responsabilização civil e criminal.

    Os Órgãos Auxiliares do Presidente da República informam que a Comissão de Inquérito criada para apurar as causas que deram origem ao incidente ocorrido no Estádio da Cidadela Desportiva constatou que o incidente deveu-se à superlotação no interior e exterior do Estádio da Cidadela, causada pela publicidade enganosa, consubstanciada no slogan: “O Dia do Fim –venha dar um fim a todos os problemas que estão na sua vida; doença, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas na família, separação, dívidas, etc. Traga toda a sua família”.
    Adianta que esta publicidade enganosa criou no seio dos fiéis e não só uma enorme expectativa de verem resolvidos os seus problemas, tendo por isso atraído para o local do evento um elevado número de pessoas, entre velhos, crianças e doentes.
    Diz ainda que a publicidade utilizada para a mobilização dos fiéis foi criminosa e enganosa pois, tal como estabelecem os artigos 14 e 16 da Lei nº 9/02 –Lei Geral da Publicidade, a mesma continha informações falsas, susceptíveis de alarmar o espírito do público e induzi-lo em erro.
    Apurou ainda que em consequência da adesão maciça verificaram-se vários constrangimentos tais como a superlotação do recinto antes da hora marcada para o início da vigília, estacionamento desordenado no interior, exterior e áreas circundantes ao Complexo Desportivo da Cidadela, tendo suplantado a previsão dos organizadores do evento e dificultado a adequação devida das forças de asseguramento, designadamente a Polícia Nacional, Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiros, Instituto Nacional de Emergências Médicas, Cruz Vermelha e outras.
    Constatou também que apesar de ter recebido indicações da Direcção do Complexo da Cidadela que o estádio comportava apenas 30.000 pessoas, ainda assim, a Igreja Universal do Reino de Deus perspectivou acolher no referido evento um total de 152.600 (Cento e Cinquenta e Dois Mil e Seiscentos fiéis), sendo 35.000 (Trinta e cinco mil) pessoas nas bancadas do 1º anel, 30.000 (trinta mil) por traz da baliza norte, 30.000 (trinta mil) por traz da baliza sul e 57.600 (Cinquenta e Sete Mil e Seiscentas) pessoas na parte exterior, frontal à tribuna, sem contudo comunicar às autoridades a sua previsão de 152 mil e 600 pessoas.
    O inquérito apurou que a projecção feita pela Igreja quanto ao número de pessoas para aquele recinto não foi realista e pecou por excesso.
    Constatou-se também que de acordo com o cartaz publicitário sobre a vigília da IURD, o evento teria início às 20H00. Porém por volta das 18H00, os espaços reservados para os fiéis no interior do Estádio estavam completamente lotados, tendo a organização ordenado o encerramento de todos os portões, à excepção do portão VIP e do portão nº 6, onde uma parte considerável da população afluiu provocando deste modo uma enorme pressão sobre a entrada.
    Verificou que as 100 pessoas voluntárias mobilizadas pela IURD não tinham preparação para realizar de forma efectiva a assistência médica, pois tinham apenas a incumbência de apoiar, em caso de necessidade, o pessoal do INEMA.
    Segundo a sindicância mandada instaurar pelo Presidente da República notou-se que para permitir a entrada dos populares de forma ordeira, isto é, em fila, a organização abriu parcialmente o portão nº 6 e que, por volta das 18H30, começaram a ouvir-se cânticos e aclamações no interior, que geraram na população a presunção de se ter iniciado o evento, pelo que entendeu forçar a entrada.
    “Devido a pressão exercida sobre o referido portão os membros da segurança da Igreja que se encontravam do lado interior não resistiram ao fluxo imediato, verificando-se a queda dos fiéis em cadeia, agravada pelo declive do túnel de acesso, pela falta de iluminação e pelo pavimento escorregadio em virtude do derramamento da designada “água consagrada” que estava a ser distribuída aos crentes”, lê na nota.
    Apurou ainda que mesmo na sequência das mortes e desmaios de pessoas, a Igreja não interrompeu a actividade.
    Provou-se que os desmaios em cadeia durante o culto ficaram a dever-se em grande medida ao agravamento do quadro clínico de pessoas já doentes que foram em busca de uma suposta cura “milagrosa”, incluindo asfixia, fome agravada pelo jejum, dado que muitas das vítimas recuperaram tão logo lhes foi dada uma leve refeição quer no local pelo INEMA quer no hospital Américo Boavida.
    A Nota dos Órgãos de Auxiliares do Presidente da República orienta que em virtude de se constatar que as Igrejas Mundial do Poder de Deus, Mundial do Reino de Deus, Mundial Internacional, Mundial da Promessa de Deus, Mundial Renovada e Igreja Evangélica Pentecostal Nova Jerusalém apesar de não estarem reconhecidas pelo Estado angolano realizam cultos religiosos e publicidade, recorrendo as mesmas práticas que as da IURD, sejam igualmente interditadas de realizar quaisquer actividade religiosas no país.
    Adianta que a suspensão e a interdição referidas nos pontos 2 e 3 sejam fiscalizadas pelos Ministérios do Interior, da Justiça e dos Direitos Humanos, da Cultura, da Administração do Território e da Comunicação Social e pelos Governos provinciais, devendo vigorar enquanto durarem as investigações pela Procuradoria Geral da República.
    Estabelece que doravante a realização de cultos religiosos em recintos fechados, tais como estádios e pavilhões gimno-desportivos, seja condicionada a prévia criação de condições de segurança, assistência e primeiros socorros.
    Determina que de futuro, para actividades similares, se exija no plano legal a realização de reuniões de concertação entre todas as forças e serviços intervenientes no asseguramento e a autoridade administrativa que as autoriza.
    Os departamentos ministeriais competentes são orientados no sentido de procederem à revisão da legislação existente, nomeadamente da Lei nº 2/04 de 21 de Maio sobre a Liberdade de Consciência, de Culto e de Religião, da Lei nº 16/91 de 11 de Maio sobre o Direito de Reunião e de Manifestação, da Lei nº 9/02 sobre a Publicidade, do Decreto Presidencial nº111/11 de 31 de Maio sobre Actividades de Espectáculos e Divertimentos Públicos, bem como a criar outras normas que regulem a realização de actos religiosos fora dos templos e de outros actos de massas.
    O Executivo angolano, face ao exposto, apela aos fiéis das igrejas visadas e a toda a população em geral no sentido de se manterem serenos e cumprirem cabalmente as decisões tomadas.


  4. Gostaria de dizer aos angolanos que o pouco que estudei de vosso país muito me instiga a saber mais e mais sobre ele. É lamentável que depois de quase 500 anos de exploração por parte de europeus, especialmente os portugueses, agora Angola seja explorada por esta turma de brasileiros muitos “espertos”. De tudo que li e vi em fotos, vejo que o tal “lusotropicalismo” realmente existe, mas é no seu pior sentido, ou seja, por onde passaram os portugueses ficaram muitas marcas que não se apagam nem com bombas atômicas. O que quero dizer é que a corrupção que reina em Portugal, Angola e Brasil, p. ex., é muito parecida só mudam as caras, são incríveis as semelhanças. Quando leio notícias de Portugal ou Angola parece que estou lendo notícias do Brasil. Se existe espírito, Agostinho Neto deve estar enlouquecido no mundo do além, e depois de 40 anos de guerras, Angola se rende ao papo furado dos tais “missionários de araque”, em sua maioria brasileiros ignorantes tanto de instrução como de religião (seja lá qual for). Neste “mundo luso” tudo muda, para nada mudar.

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